Arquivo para junho \29\UTC 2014

Os Homens que Amavam os Cachorros

Trotski

Neste domingo encerro uma das semanas de temperatura emocional mais intensa e desgastante dos últimos tempos. Não perdi familiares, não destruí o casamento, não perdi o emprego (ah, se tivesse um!), não descobri nenhuma doença insidiosa e fatal corroendo meus alicerces. Nada tão dramático, mas confesso que estou esgotado.

            A saúde esteve um pouco abalada, sim, mas por causa de uma virose de espantosa truculência que me deixou estragado por cinco dias, com febre intermitente e mal estar generalizado. Não era o vírus da dengue, mas parecia. Assim como veio se foi, deixando o rastro de dor e desconforto que esses inimigos invisíveis costumam causar em nosso território interior.

            Aproveitei o repouso forçado para assistir aos jogos da Copa e adiantar a leitura. E como foi dolorido ver o jogo do Brasil neste sábado, contra o bravo Chile! Não lembro de ter visto, desde 1990, uma seleção tão ruim em campo, desarticulada, sem comando, sem tática, sem capitão, sem talento. Não conseguiram acertar três passes seguidos durante os penosos 120 minutos de jogo. As divindades que governam os estádios resolveram prolongar a agonia por mais um jogo,  através de uma cobrança de pênaltis que só castigou, de forma indevida, o aplicado time chileno.

            Várias pessoas com quem falei naquela noite e no dia seguinte confessaram o stress emocional por que passaram. Sofreram como poucas vezes se viu com a seleção em campo. Não um sofrimento eventual, esportivo, da possibilidade de derrota diante de um time melhor, mas da implacável verdade que se desvelou durante o jogo: temos um time de merda, um amontoado de jogadores que, mesmo em má fase, são mantidos em campo por inexplicável teimosia do técnico. Acreditamos na propaganda insidiosa que oculta a realidade, nos ídolos que se revelam covardes, nas promessas que não se concretizam. Queremos ardentemente crer que somos uma potência mundial do esporte, quando não passamos de coadjuvantes na última década.

E como já não bastasse essa trombada psicológica num corpo enfraquecido pela doença, terminei hoje a leitura de um dos romances mais contundentes e fortes que já me caíram nas mãos: O Homem Que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. E percebi que a leitura, diária nos últimos dias, também havia contribuído para que eu ficasse à beira de um curto-circuito mental.

Que livro! Apoiado em exaustiva pesquisa histórica, o autor (que é jornalista de profissão e autor de romances policiais) fala do sonho e do pesadelo em que se transformou a grande utopia do século XX: a Revolução Comunista. Esmiúça com talento o debate ideológico que se esparramou pelo mundo e que provoca reflexos até hoje, mesmo após a Queda do Muro e o fim do comunismo stalinista.

Um dos personagens que conduz a trama é nada menos que Liev Davidovitch, mais conhecido como Trotski. Acompanhamos o périplo do ex-dirigente no exílio, passando pela Turquia, França, Noruega e, finalmente, México, onde se hospeda na casa de Diego Rivera e Frida Kahlo. Mais do que uma cronologia factual, sentimos o isolamento progressivo de um revolucionário que não para de refletir e escrever sobre o regime totalitário em que se transformou a União Soviética com a chegada de Stalin ao poder.

O outro grande personagem é Frank Jacson, aliás Jacques Mornard, aliás Ramon Mercader, agente soviético encarregado de assassinar Trotski. Acompanhamos a juventude do catalão que se alista nas tropas republicanas para lutar contra o fascismo franquista, conhecemos sua mãe inflexível e obcecada por vingança, assistimos de perto ao espetáculo tétrico da transformação de um homem numa máquina de matar.

            Há muitos outros personagens, em vários planos temporais, inclusive um escritor frustrado que se encontra com um velho doente e seus cães numa praia cubana, no final dos anos 70. Aliás, tanto Trotski quanto seu assassino amavam os cachorros. A história do desastre político do stalinismo e da personalidade doentia de seu líder, de sua crueldade e sede de vingança é angustiante. Como podem tantos serem enganados, e por tanto tempo? Quem dá uma pista é George Orwell, ele mesmo personagem do romance como um jornalista inglês que cobre a Guerra civil espanhola. É o medo, a exploração permanente e inescrupulosa do medo, típica de todos os ditadores. O medo introjetado, cotidiano, banalizado. O medo dos que mandam, medo dos que recebem ordens, medo dos que não ousam se rebelar. Ou, como costumamos chama-lo quando atinge formas extremas, o terror.

            Claro que fica explícita também a covardia das democracias ocidentais frente a ascensão de Hitler, Franco, Mussolini et caterva. E os verdadeiros socialistas, libertários e livre-pensadores europeus, espremidos entre as forças hediondas do fascismo, do nazismo e do comunismo soviético, calaram-se, curvaram-se ou fugiram para salvar a vida. Certamente Stalin prejudicou mais o sonho do socialismo que toda a propaganda anti-comunista do Ocidente.

            E passamos do México à Cuba contemporânea, e até mesmo a uma Moscou pós-soviética. Os fantasmas da História desfilam seus farrapos morais, a fé perdida, a mediocridade do presente. E chegamos ao final da leitura esgotados, perplexos com o tamanho da estupidez humana.

            E não é isso que passamos todos com a seleção brasileira? Vimos ruir em frente aos nossos olhos as mentiras, os falsos craques, uma utopia de time. Fomos iludidos dia e noite pela imprensa, pela TV que nos vendia a imagem de super-homens invencíveis, de heróis sem mácula, de seres superiores. Felizmente, apesar de representar pátrias, o esporte fica no plano simbólico, não mata milhões de pessoas por discordarem da escalação do “chefe”. Mas como dói…

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Futebol e cusparadas

cuspir

Futebol é um assunto incontornável, nesses dias de Copa. O assunto está em todos os escritórios, filas, botecos, salas de espera e reuniões (feitas com a TV ligada pra não se perder nenhum lance).

            A festa é grande, os estádios lindos, a torcida festiva, os jogos emocionantes. O caos aéreo previsto pelos fracassomaníacos não existiu, a mobilidade urbana está dentr, os poucos incidentes estão na margem de erro. O pior foi, em dúvida, a vaia ofensiva dirigida à presidenta Dilma, no Itaquerão. Certamente, não partiu dos moradores de Itaquera, mais educados que a plateia coxinha que ocupou a ala vip do estádio.

            Este e outros assuntos já foram bastante debatidos por aí. Mas por falar em educação, aproveito a deixa para tocar num assunto que me intriga, há alguns anos, e que já levantei aqui no Fósforo em 2012. Por que jogador de futebol cospe tanto?

            Não lembro, em minha infância e juventude, de assistir estas porcas demonstrações. Pelé, Rivelino, Tostão e companhia só cuspiam se, por acaso, caíssem de boca na grama, pastando sem intenção. Mesmo assim, cuspiam discretamente, até mesmo tapando a mão com a boca. O que há de errado com a geração atual de craques (e pernas de pau)? Até o jogador que é considerado o melhor do mundo costuma regar o gramado com suas secreções.

            Arrisco três hipóteses. Primeiro, falta de educação, pura e simples. Segunda, burrice ou falta de orientação médica. Durante o esforço físico de correr por 45 minutos, é bom reter todo o líquido possível, já que o corpo naturalmente se desidrata através da transpiração. Jogar em qualquer capital brasileira não é fácil, seja Manaus, Salvador ou Porto Alegre, e desperdiçar líquido é estupidez.

            A terceira hipótese é a de um irrefreável espírito de porco. O sujeito cospe no local onde vai cair de cara na jogada seguinte. Ou pior: vai esfregar o focinho na saliva alheia. A torcida aplaude os ídolos mal-educados, vibra a cada cusparada, deseja secretamente receber alguns respingos do seu herói. E, às vezes, também cospe no prato em que comeu, como no caso da vaia supracitada.

            Seria o caso de perguntar para algum jogador da Alemanha, fortes candidatos à conquista da taça, se isto é o tal do zeitgeist. Nem todos devem ter lido Hegel, mas certamente sabem do que se trata. E cospem também, como a quase totalidade dos participantes desta Copa.

            Deixo uma sugestão para os organizadores de campeonatos, em todas as divisões: o tradicional prêmio de fair play, dado a quem pratica um futebol limpo, deveria ser para a equipe que não cuspisse em campo durante todo o jogo. Seria bem educativo para nossas crianças, não acha?

O cinema segundo Chico Lopes

Na Sala Escura

Não, Chico Lopes não é um cineasta. Homem das palavras, romancista e contista de admiráveis recursos, poeta de versos marcantes e cronista de olhar certeiro, sempre foi um apaixonado pelo cinema. E é contando a história desta paixão, surgida na pequena Novo Horizonte, na década de 60, que ele abre a coletânea de ensaios Na Sala Escura (editora Penalux, 2014).

            Durante muitos anos Chico escreveu sobre cinema para o Instituto Moreira Sales, em Poços de Caldas. Textos de apresentação, resenhas e comentários que eram compartilhados com o público, e que jamais têm a pretensão de querer ensinar como ver os filmes, mas de ampliar a experiência do olhar com inteligência e lucidez.

            O texto flui com naturalidade, como se estivéssemos conversando numa mesa de bar com um interlocutor espirituoso, culto e generoso. Nada de pedantismos acadêmicos ou desconstrucionismos linguísticos, mas narrativa vivenciada e saborosa, capaz de incorporar novos ângulos e perspectivas à lembrança que temos dos filmes.

            Como se trata de uma coletânea, Chico selecionou o que lhe pareceu mais relevante e capaz de “provocar reflexões”. Fã confesso de Hitchcock, parte do mestre para analisar alguns dos filmes mais marcantes de suspense e terror de todos os tempos, de diretores como Kubrick, De Palma, Lynch ou Jack Clayton (de Os Inocentes).

            É claro que há ensaios interessantíssimos sobre outros gêneros. Desde o brasileiro A Hora da Estrela (Suzana Amaral) até O Leopardo (Visconti), passando pelo Céu Que Nos Protege (Bertolucci), Chico discute as complexas (e muitas vezes mal resolvidas) relações da matriz literária com os filmes resultantes. Para isso analisa os respectivos romances de Clarice Lispector, Lampedusa e Paul Bowles, entre outros, com olhar atento e, podemos dizer, cinematográfico. Para completar, escreve um belo texto sobre um de meus filmes favoritos, Blade Runner.

               Mas isso não significa uma leitura submissa, crente numa verdade absoluta. O livro não é uma bíblia, felizmente. Discordei de algumas opiniões, briguei com Chico em vários momentos, discuti em silêncio durante certas passagens, como quando se refere ao cinema brasileiro contemporâneo. Mas foi uma discussão boa, que me fez repensar pontos de vista, e me deu vontade de chamar a próxima rodada e continuar a conversa. Essa é a melhor provocação que existe!

            Chico Lopes destaca no subtítulo do livro, que o cinema é “a arte de sonhar com os olhos abertos”. Terminamos a leitura de Na Sala Escura  com a certeza de que algo se ampliou em nosso conhecimento sobre cinema, não no sentido técnico, mas no humano. E provoca a vontade de rever e re-sonhar as obras citadas, agora com olhos mais abertos e sabidos.

Ferreira Gullar, o ocaso de um poeta

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Ferreira Gullar é uma figura emblemática. Poeta reconhecido, pertence à geração que enfrentou a ditadura militar, sofreu com a censura, foi perseguido, exilado, lutou pela democracia. Sua obra prima é o Poema Sujo, escrito no exílio, que consegue o feito de ser desigual, prolixo, extenso em demasia e, no entanto, fascinante, envolvente e visceral.

Ferreira Gullar, nascido José Ribamar numa província chamada Maranhão que existia antes da monarquia Sarney, embarcou em vários movimentos estéticos, como o concretismo, saltando logo depois. Sua mais longa travessia, porém, não faz parte da literatura, das artes plásticas (foi um crítico razoável) ou do jornalismo. É a participação política.

Militou no velho PC, participou dos CPCs (Centros Populares de Cultura), morou na União Soviética, passou por Argentina e Chile, e se desiludiu com o socialismo. Como velho militante do PC, foi contra o surgimento do PT, do PSB, do Psol, do PSTU, de qualquer partido que rompesse com o passado e tentasse criar uma maneira mais moderna de fazer política à esquerda.

Após 2002, com a vitória de Lula ( um opositor do PC nas lutas sindicais), José Ribamar passou para a oposição. No começo de forma discreta. Dizem que aguardava nomeações, cargos, não sei. Nunca privei da intimidade do poeta-crítico, não sei de suas intenções. Mas ficou claro, principalmente na eleição de Dilma (2010) a sua posição cada vez mais à direita. Apoiador de José Serra (outro egresso da esquerda), passou a difamar e vociferar contra o governo de forma cada vez mais cega. Colunista reproduzidos em alguns jornalões , chegou a chamar Serra de “figura impoluta”. Cegueira, velhice ou matreirice? Tive vontade de enviar a ele um exemplar da “Privataria Tucana”, mas não tinha seu endereço.

Coluna após coluna, o velho poeta esmera-se em demolir seu passado de luta pela democracia. Não se trata de um crítico razoável, como foi nas artes plásticas, mas de um propagandista do lado perverso dos fatos. Ignora qualquer avanço, se cala frente a conquistas, comemora derrotas oficiais, torce contra o Brasil. Deixa de lado a crítica honesta para distorcer a realidade, num avançado grau de miopia. Virou um “contra” a realidade, sinal de decrepitude.

O autor do Poema Sujo é agora limpinho e cheiroso. Uma pena…


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