Ferreira Gullar, o ocaso de um poeta

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Ferreira Gullar é uma figura emblemática. Poeta reconhecido, pertence à geração que enfrentou a ditadura militar, sofreu com a censura, foi perseguido, exilado, lutou pela democracia. Sua obra prima é o Poema Sujo, escrito no exílio, que consegue o feito de ser desigual, prolixo, extenso em demasia e, no entanto, fascinante, envolvente e visceral.

Ferreira Gullar, nascido José Ribamar numa província chamada Maranhão que existia antes da monarquia Sarney, embarcou em vários movimentos estéticos, como o concretismo, saltando logo depois. Sua mais longa travessia, porém, não faz parte da literatura, das artes plásticas (foi um crítico razoável) ou do jornalismo. É a participação política.

Militou no velho PC, participou dos CPCs (Centros Populares de Cultura), morou na União Soviética, passou por Argentina e Chile, e se desiludiu com o socialismo. Como velho militante do PC, foi contra o surgimento do PT, do PSB, do Psol, do PSTU, de qualquer partido que rompesse com o passado e tentasse criar uma maneira mais moderna de fazer política à esquerda.

Após 2002, com a vitória de Lula ( um opositor do PC nas lutas sindicais), José Ribamar passou para a oposição. No começo de forma discreta. Dizem que aguardava nomeações, cargos, não sei. Nunca privei da intimidade do poeta-crítico, não sei de suas intenções. Mas ficou claro, principalmente na eleição de Dilma (2010) a sua posição cada vez mais à direita. Apoiador de José Serra (outro egresso da esquerda), passou a difamar e vociferar contra o governo de forma cada vez mais cega. Colunista reproduzidos em alguns jornalões , chegou a chamar Serra de “figura impoluta”. Cegueira, velhice ou matreirice? Tive vontade de enviar a ele um exemplar da “Privataria Tucana”, mas não tinha seu endereço.

Coluna após coluna, o velho poeta esmera-se em demolir seu passado de luta pela democracia. Não se trata de um crítico razoável, como foi nas artes plásticas, mas de um propagandista do lado perverso dos fatos. Ignora qualquer avanço, se cala frente a conquistas, comemora derrotas oficiais, torce contra o Brasil. Deixa de lado a crítica honesta para distorcer a realidade, num avançado grau de miopia. Virou um “contra” a realidade, sinal de decrepitude.

O autor do Poema Sujo é agora limpinho e cheiroso. Uma pena…

5 Responses to “Ferreira Gullar, o ocaso de um poeta”


  1. 1 Valmir 06/06/2014 às 12:40 pm

    é verdade, acho um grande poeta, devia se manter nessa linha apenas, faz tempo é verdade que não escreve lá grande coisa, acho poema sujo muito bom, também gosto daquele dentro da noite veloz, teve um que coloquei numa escola na campanha de 89 que se chama não há vagas, às vezes ler o que ele na Folha chega a dar vontade de rir, uma miopia sem cura, é foda envelhecer com essa ferocidade tosca no meio dos gatos.

  2. 3 Gladistone Gripp 06/07/2014 às 9:02 pm

    Pois então. Comentei seu “post” sobre as cusparadas em campo, e aqui partilho da mesma opinião sobre o Ferreira Gullar.
    Seria um fenômeno recorrente o grande número de personagens, tanto nas Artes como em outros campos se tornarem tão reacionários/conservadores?

    • 4 Daniel Brazil 10/07/2014 às 10:52 am

      Falam alguns biólogos comportamentais (existe isso?) que as células vão envelhecendo, o corpo reage com mais lentidão, e passamos a rejeitar novidades, nos apegando ao passado. Muitas vezes um passado idealizado, onde os sonhos pareciam possíveis. Depois que se desmancharam, passamos a rejeitar o sonho dos outros, das novas gerações. Será?

  3. 5 dalila teles veras 10/07/2014 às 10:30 pm

    Concordo inteiramente com sua opinião, caro Daniel. Admiradora que fui desse grande (admitamos) poeta, não consigo mais ler sua poesia sem me remeter aos patéticos textos que vem publicando na grande imprensa, completamente desconectados do seu passado. Chego a pensar que, à sombra do Sarney, que lhe deu, em vida, nome de Viaduto e tudo em São Luiz, acabou voltando atavicamente às origens e que tudo o mais não passou de um “surto” de “esquerda” (será?!).


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