Os Homens que Amavam os Cachorros

Trotski

Neste domingo encerro uma das semanas de temperatura emocional mais intensa e desgastante dos últimos tempos. Não perdi familiares, não destruí o casamento, não perdi o emprego (ah, se tivesse um!), não descobri nenhuma doença insidiosa e fatal corroendo meus alicerces. Nada tão dramático, mas confesso que estou esgotado.

            A saúde esteve um pouco abalada, sim, mas por causa de uma virose de espantosa truculência que me deixou estragado por cinco dias, com febre intermitente e mal estar generalizado. Não era o vírus da dengue, mas parecia. Assim como veio se foi, deixando o rastro de dor e desconforto que esses inimigos invisíveis costumam causar em nosso território interior.

            Aproveitei o repouso forçado para assistir aos jogos da Copa e adiantar a leitura. E como foi dolorido ver o jogo do Brasil neste sábado, contra o bravo Chile! Não lembro de ter visto, desde 1990, uma seleção tão ruim em campo, desarticulada, sem comando, sem tática, sem capitão, sem talento. Não conseguiram acertar três passes seguidos durante os penosos 120 minutos de jogo. As divindades que governam os estádios resolveram prolongar a agonia por mais um jogo,  através de uma cobrança de pênaltis que só castigou, de forma indevida, o aplicado time chileno.

            Várias pessoas com quem falei naquela noite e no dia seguinte confessaram o stress emocional por que passaram. Sofreram como poucas vezes se viu com a seleção em campo. Não um sofrimento eventual, esportivo, da possibilidade de derrota diante de um time melhor, mas da implacável verdade que se desvelou durante o jogo: temos um time de merda, um amontoado de jogadores que, mesmo em má fase, são mantidos em campo por inexplicável teimosia do técnico. Acreditamos na propaganda insidiosa que oculta a realidade, nos ídolos que se revelam covardes, nas promessas que não se concretizam. Queremos ardentemente crer que somos uma potência mundial do esporte, quando não passamos de coadjuvantes na última década.

E como já não bastasse essa trombada psicológica num corpo enfraquecido pela doença, terminei hoje a leitura de um dos romances mais contundentes e fortes que já me caíram nas mãos: O Homem Que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. E percebi que a leitura, diária nos últimos dias, também havia contribuído para que eu ficasse à beira de um curto-circuito mental.

Que livro! Apoiado em exaustiva pesquisa histórica, o autor (que é jornalista de profissão e autor de romances policiais) fala do sonho e do pesadelo em que se transformou a grande utopia do século XX: a Revolução Comunista. Esmiúça com talento o debate ideológico que se esparramou pelo mundo e que provoca reflexos até hoje, mesmo após a Queda do Muro e o fim do comunismo stalinista.

Um dos personagens que conduz a trama é nada menos que Liev Davidovitch, mais conhecido como Trotski. Acompanhamos o périplo do ex-dirigente no exílio, passando pela Turquia, França, Noruega e, finalmente, México, onde se hospeda na casa de Diego Rivera e Frida Kahlo. Mais do que uma cronologia factual, sentimos o isolamento progressivo de um revolucionário que não para de refletir e escrever sobre o regime totalitário em que se transformou a União Soviética com a chegada de Stalin ao poder.

O outro grande personagem é Frank Jacson, aliás Jacques Mornard, aliás Ramon Mercader, agente soviético encarregado de assassinar Trotski. Acompanhamos a juventude do catalão que se alista nas tropas republicanas para lutar contra o fascismo franquista, conhecemos sua mãe inflexível e obcecada por vingança, assistimos de perto ao espetáculo tétrico da transformação de um homem numa máquina de matar.

            Há muitos outros personagens, em vários planos temporais, inclusive um escritor frustrado que se encontra com um velho doente e seus cães numa praia cubana, no final dos anos 70. Aliás, tanto Trotski quanto seu assassino amavam os cachorros. A história do desastre político do stalinismo e da personalidade doentia de seu líder, de sua crueldade e sede de vingança é angustiante. Como podem tantos serem enganados, e por tanto tempo? Quem dá uma pista é George Orwell, ele mesmo personagem do romance como um jornalista inglês que cobre a Guerra civil espanhola. É o medo, a exploração permanente e inescrupulosa do medo, típica de todos os ditadores. O medo introjetado, cotidiano, banalizado. O medo dos que mandam, medo dos que recebem ordens, medo dos que não ousam se rebelar. Ou, como costumamos chama-lo quando atinge formas extremas, o terror.

            Claro que fica explícita também a covardia das democracias ocidentais frente a ascensão de Hitler, Franco, Mussolini et caterva. E os verdadeiros socialistas, libertários e livre-pensadores europeus, espremidos entre as forças hediondas do fascismo, do nazismo e do comunismo soviético, calaram-se, curvaram-se ou fugiram para salvar a vida. Certamente Stalin prejudicou mais o sonho do socialismo que toda a propaganda anti-comunista do Ocidente.

            E passamos do México à Cuba contemporânea, e até mesmo a uma Moscou pós-soviética. Os fantasmas da História desfilam seus farrapos morais, a fé perdida, a mediocridade do presente. E chegamos ao final da leitura esgotados, perplexos com o tamanho da estupidez humana.

            E não é isso que passamos todos com a seleção brasileira? Vimos ruir em frente aos nossos olhos as mentiras, os falsos craques, uma utopia de time. Fomos iludidos dia e noite pela imprensa, pela TV que nos vendia a imagem de super-homens invencíveis, de heróis sem mácula, de seres superiores. Felizmente, apesar de representar pátrias, o esporte fica no plano simbólico, não mata milhões de pessoas por discordarem da escalação do “chefe”. Mas como dói…

7 Responses to “Os Homens que Amavam os Cachorros”


  1. 1 JÁDSON NEVES 30/06/2014 às 1:44 am

    Obrigado, Daniel.

    Essa gripe é geral. A seleção está ruim, não há mais o que fazer. Há muito que o futebol perdeu o status de fair play.  Abraço.

    Jádson Barros Neves

    “..caminante, no hay camino,  Se hace camino al andar.”   (Antonio Machado)

  2. 3 dalila teles veras 10/07/2014 às 10:38 pm

    Diante de fatos não há… como discordar. Primeiro você, caro Daniel, faz uma análise da seleção que, diante do que deu, foi mesmo um fantástico prognóstico (na mosca!). Assim, não há como duvidar de seus comentários sobre o livro (que já estava na minha lista, mas agora, diante do seu entusiamo, irá furar a fila da leitura. Mais uma vez, sempre bom passar por aqui.

  3. 4 dalila teles veras 10/07/2014 às 10:39 pm

    Ops! só mais uma coisinha: espero que esteja completamente restabelecido! Abraços

    • 5 Daniel Brazil 17/07/2014 às 10:44 pm

      Inteiro e restabelecido, Dalila. Pronto para mais um baque (futebolístico ou literário).Tomando porrada que aprendemos muita coisa!

  4. 6 medina 18/07/2014 às 7:26 pm

    Parabens Daniel, achei esta sua postagem mais bem escrita


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