Arquivo de setembro \19\UTC 2014

Os bilhões eleitorais

Dinheiro

Uma das coisas mais patéticas do discurso do Alckmin (e de outros candidatos que já ocuparam cargos executivos) é a obsessão por números bombásticos. Nos debates, quando alguém faz críticas à (péssima) educação pública no Estado de SP, ele sempre reage dizendo “investi x bilhões na Educação no meu mandato, e vou investir mais y”.

Para mim, isso é declaração de incompetência. Se o cara dissesse “Gente, eu só tinha cem mil reais pra investir, isso é o que deu pra fazer!”, o eleitor até elogiaria o esforço. “Puxa, com tão pouco dinheiro, não dava pra fazer coisa melhor, mesmo. O cara tá sendo honesto!”

Mas… bilhões? Quanto mais ele aumenta a cifra, mais incompetente parece. Ou todo esse dinheiro foi mal aplicado, ou foi desviado. Como “investiu” tantos bilhões e a educação piorou? São Paulo tem índices piores que o Piauí, no ensino básico. Alguém explica? O fascínio por números gigantescos encobre a pobreza de resultados. Aplausos para o bravo estado nordestino, que certamente tinha menos grana, mas investiu muito melhor.

E isso vale para o Metrô, a habitação, o saneamento básico, etc. Os marqueteiros continuam enfiando números pomposos goela abaixo do eleitor. E este não percebe que quanto mais dinheiro mal investido, pior para todos. E nem os outros pleiteantes, nos debates, percebem ou exploram esta contradição. Vamos acordar?

EM QUEM VOU VOTAR?

Reforma-Politica

Brasil, 2014. Um começo de campanha surpreendente, com a morte de um candidato. Uma artilharia contra o governo pesada e de baixo nível, movida por parte da mídia e alimentada nas redes sociais por gente de deixa aflorar o que há de pior em termos de preconceito e reacionarismo. Um quadro social de inclusão e crescimento econômico, sem o necessário amadurecimento político e cultural. Os milhões de jovens que emergiram da pobreza e hoje são os filhos da nova classe média abominam a política, querem mudar. Só não sabem o que colocar no lugar.

                Este governo não merece ser criticado? Sim, e muito. Mas dá certo desânimo quando vejo pessoas cultas, que estudaram em boas escolas, profissionais bem sucedidos, repetirem candidamente mentiras sobre o PT ou o governo (e geralmente confundem estas coisas). Outro dia minha dentista soltou o desgastado chavão “Se a Dilma for reeleita, o Brasil vai virar Cuba!”, no momento em que eu não podia responder. Ouvir isso, em 2014, da sétima economia do mundo, é de lascar! Depois percebi que o alvo era a assistente, que enfiava diligentemente seu estoque de ferramentas em minha boca. Claro que na sala de espera tinha a pior revista do país, que repete semanalmente esse tipo de asneira.

                Outro profissional, respeitado, este da área de comunicações,  numa troca de ideias sobre a situação política, repisa o discurso velhaco da oposição sem proposta: “O governo do PT não investiu nada em infra-estrutura”. O cara é culto, lê jornal, assiste TV, e nunca ouviu falar de usinas hidroelétricas, ampliação de aeroportos, construção de refinaria, pré-sal, criação de universidades, metrôs, melhoria de estradas, etc. Parece que basta repetir um chavão anti-governo que isso será aceito passivamente, como se fosse verdade. É o rebaixamento da discussão política ao nível rasteiro da mentira, da negação, do desconhecimento da realidade. É o discurso do Aécio em debate…

                Lula surpreendeu o Brasil e o mundo. Fez um grande governo, avançou em vários setores enquanto o mundo vivia uma crise profunda. Dilma foi menos feliz. Além de ser rígida, pouco carismática, até mesmo antipática, viu o Brasil diminuir de crescimento, embora mantenha excelente nível de emprego (fator importantíssimo em qualquer debate sério). PAra melhorar, obviamente tem de mudar, ser mais ousada, defender uma reforma política séria, com o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais.

                Mas o governo errou muito. Teve uma relação dúbia (pra não dizer débil) com a imprensa, não ousou mexer nos monopólios, não cobrou as monstruosas dívidas da sonegação de redes Globos e outros órgãos da velha imprensa, não implementou as  deliberações do Encontro Nacional de Comunicações. Ficou devendo na questão indígena, na fundiária, na reforma agrária, na implementação de uma reforma no ensino fundamental. A aliança é pesada, e o PMDB mais atrapalha que ajuda, quando estas questões chegam ao Congresso.

                Mas quem disse os opositores tocam nesses temas? Ah, agora temos Marina no páreo! Cercada de figuras suspeitas de ligações com o grande capital financeiro e multinacionais, influenciada por uma igreja fundamentalista e preconceituosa, bastou começar a campanha para se contradizer, alterar propostas, vir com o velho discurso de estar “acima dos partidos”. As duas últimas figuras que vieram com essa conversinha foram Jânio Quadros e Fernando Collor. Um renunciou e jogou o país numa crise, outro foi deposto, pois era a própria crise. Será que Marina não aprendeu a lição?

                Personalista, incoerente, fraca de proposta e de conteúdo. Delineia-se um confronto entre duas mulheres – o que é ótimo! -, mas que encarnam concepções quase antagônicas de política. Detalhe: ambas com um respeitável histórico de luta contra a ditadura,  por vias diferentes. Num segundo turno, certamente o pragmatismo antipático de Dilma deve superar o voluntarismo de Marina, mesmo que a direita e o demo-tucanato apóiem de forma oportunista esta última. Dilma tem mais garrafa pra vender, como se diz em linguagem de botequim.

                E os outros candidatos? Aécio é uma piada. Um playboy de hábitos suspeitos, herdeiro de um sobrenome (e de considerável fortuna) que se mancomunou com a imprensa mineira (e nacional) para ocultar seus malfeitos e propagandear um governo bem aquém do desejável. Mente com desfaçatez, anunciando números imponentes em Minas Gerais e fingindo ignorar os avanços do país na última década. Marina é mais honesta ao admitir alguns acertos do governo Lula. Nem poderia negar, já que fez parte daquela gestão, mas em certos momentos parece ter amnésia.

                Sobram os pequenos candidatos. Gosto da Luciana Genro e de alguns deputados do PSOL,  não teria problema em votar nela no primeiro turno. Mas precisa ampliar o discurso, não ficar apenas no (necessário) combate ao capital financeiro especulativo. Infelizmente, representar um pequeno partido isolado é quase o mesmo que dizer que vai governar “acima dos partidos”.  Inviável. Como o simpático Eduardo Jorge, cujo partido perdeu a inocência e fez alianças bem estapafúrdias nos últimos anos. Basta ver que ele foi secretário de Serra e  Kassab, em São Paulo, depois de ter servido Erundina e Marta Suplicy. Coerência política zero, embora levante temas importantes, como a questão do aborto e a descriminalização da maconha. Seria um deputado razoável…

                Os outros concorrentes ficam entre o folclore e o oportunismo religioso. São irrelevantes, mas não inofensivos. Não tenho acompanhado a propaganda eleitoral, apenas alguns debates e entrevistas. O que pensa o eleitorado jovem, aquele que irá votar pela primeira ou segunda vez, e que foi  às ruas nas manifestações de 2013? E não me venham com pesquisas patrocinadas por órgãos da velha(ca) imprensa, nitidamente parciais, por favor!