EM QUEM VOU VOTAR?

Reforma-Politica

Brasil, 2014. Um começo de campanha surpreendente, com a morte de um candidato. Uma artilharia contra o governo pesada e de baixo nível, movida por parte da mídia e alimentada nas redes sociais por gente de deixa aflorar o que há de pior em termos de preconceito e reacionarismo. Um quadro social de inclusão e crescimento econômico, sem o necessário amadurecimento político e cultural. Os milhões de jovens que emergiram da pobreza e hoje são os filhos da nova classe média abominam a política, querem mudar. Só não sabem o que colocar no lugar.

                Este governo não merece ser criticado? Sim, e muito. Mas dá certo desânimo quando vejo pessoas cultas, que estudaram em boas escolas, profissionais bem sucedidos, repetirem candidamente mentiras sobre o PT ou o governo (e geralmente confundem estas coisas). Outro dia minha dentista soltou o desgastado chavão “Se a Dilma for reeleita, o Brasil vai virar Cuba!”, no momento em que eu não podia responder. Ouvir isso, em 2014, da sétima economia do mundo, é de lascar! Depois percebi que o alvo era a assistente, que enfiava diligentemente seu estoque de ferramentas em minha boca. Claro que na sala de espera tinha a pior revista do país, que repete semanalmente esse tipo de asneira.

                Outro profissional, respeitado, este da área de comunicações,  numa troca de ideias sobre a situação política, repisa o discurso velhaco da oposição sem proposta: “O governo do PT não investiu nada em infra-estrutura”. O cara é culto, lê jornal, assiste TV, e nunca ouviu falar de usinas hidroelétricas, ampliação de aeroportos, construção de refinaria, pré-sal, criação de universidades, metrôs, melhoria de estradas, etc. Parece que basta repetir um chavão anti-governo que isso será aceito passivamente, como se fosse verdade. É o rebaixamento da discussão política ao nível rasteiro da mentira, da negação, do desconhecimento da realidade. É o discurso do Aécio em debate…

                Lula surpreendeu o Brasil e o mundo. Fez um grande governo, avançou em vários setores enquanto o mundo vivia uma crise profunda. Dilma foi menos feliz. Além de ser rígida, pouco carismática, até mesmo antipática, viu o Brasil diminuir de crescimento, embora mantenha excelente nível de emprego (fator importantíssimo em qualquer debate sério). PAra melhorar, obviamente tem de mudar, ser mais ousada, defender uma reforma política séria, com o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais.

                Mas o governo errou muito. Teve uma relação dúbia (pra não dizer débil) com a imprensa, não ousou mexer nos monopólios, não cobrou as monstruosas dívidas da sonegação de redes Globos e outros órgãos da velha imprensa, não implementou as  deliberações do Encontro Nacional de Comunicações. Ficou devendo na questão indígena, na fundiária, na reforma agrária, na implementação de uma reforma no ensino fundamental. A aliança é pesada, e o PMDB mais atrapalha que ajuda, quando estas questões chegam ao Congresso.

                Mas quem disse os opositores tocam nesses temas? Ah, agora temos Marina no páreo! Cercada de figuras suspeitas de ligações com o grande capital financeiro e multinacionais, influenciada por uma igreja fundamentalista e preconceituosa, bastou começar a campanha para se contradizer, alterar propostas, vir com o velho discurso de estar “acima dos partidos”. As duas últimas figuras que vieram com essa conversinha foram Jânio Quadros e Fernando Collor. Um renunciou e jogou o país numa crise, outro foi deposto, pois era a própria crise. Será que Marina não aprendeu a lição?

                Personalista, incoerente, fraca de proposta e de conteúdo. Delineia-se um confronto entre duas mulheres – o que é ótimo! -, mas que encarnam concepções quase antagônicas de política. Detalhe: ambas com um respeitável histórico de luta contra a ditadura,  por vias diferentes. Num segundo turno, certamente o pragmatismo antipático de Dilma deve superar o voluntarismo de Marina, mesmo que a direita e o demo-tucanato apóiem de forma oportunista esta última. Dilma tem mais garrafa pra vender, como se diz em linguagem de botequim.

                E os outros candidatos? Aécio é uma piada. Um playboy de hábitos suspeitos, herdeiro de um sobrenome (e de considerável fortuna) que se mancomunou com a imprensa mineira (e nacional) para ocultar seus malfeitos e propagandear um governo bem aquém do desejável. Mente com desfaçatez, anunciando números imponentes em Minas Gerais e fingindo ignorar os avanços do país na última década. Marina é mais honesta ao admitir alguns acertos do governo Lula. Nem poderia negar, já que fez parte daquela gestão, mas em certos momentos parece ter amnésia.

                Sobram os pequenos candidatos. Gosto da Luciana Genro e de alguns deputados do PSOL,  não teria problema em votar nela no primeiro turno. Mas precisa ampliar o discurso, não ficar apenas no (necessário) combate ao capital financeiro especulativo. Infelizmente, representar um pequeno partido isolado é quase o mesmo que dizer que vai governar “acima dos partidos”.  Inviável. Como o simpático Eduardo Jorge, cujo partido perdeu a inocência e fez alianças bem estapafúrdias nos últimos anos. Basta ver que ele foi secretário de Serra e  Kassab, em São Paulo, depois de ter servido Erundina e Marta Suplicy. Coerência política zero, embora levante temas importantes, como a questão do aborto e a descriminalização da maconha. Seria um deputado razoável…

                Os outros concorrentes ficam entre o folclore e o oportunismo religioso. São irrelevantes, mas não inofensivos. Não tenho acompanhado a propaganda eleitoral, apenas alguns debates e entrevistas. O que pensa o eleitorado jovem, aquele que irá votar pela primeira ou segunda vez, e que foi  às ruas nas manifestações de 2013? E não me venham com pesquisas patrocinadas por órgãos da velha(ca) imprensa, nitidamente parciais, por favor!

9 Responses to “EM QUEM VOU VOTAR?”


  1. 1 Marco Almeida 03/09/2014 às 11:14 pm

    Muito bom, Daniel. Resumiu bem a ópera: a atual gestão é bastante criticável, mas seus principais opositores eleitorais são muito mais.

    • 2 marciacarvalho769 04/09/2014 às 1:43 am

      Legal Daniel, concordo com você embora de forma mais louca,Fiz um texto sobre isto. Embora completamente diferente.. Já to achando o Aécio simpático, mas é puro desespero. Você falou muito bem, ou representou muito bem uma parcela da população com a qual eu convivo.. Gosto dos seus textos, que bom que você arranjou tempo para escrever novamente, vai fundo! Bjs

      • 3 Daniel Brazil 04/09/2014 às 9:17 pm

        Começou a temporada eleitoral, estou sem trabalho, Marcia. Vou aproveitar pra colocar o blog em dia e preparar uns projetos. Minhas reservas bancárias estão chegando no volume morto….

    • 4 Daniel Brazil 04/09/2014 às 9:15 pm

      É por aí, Marco. Rapaz, precisamos nos encontrar um dia desses!

  2. 5 Camila 05/09/2014 às 1:33 pm

    Daniel, boa tarde!

    Meu professor Valdir Mengardo me indicou você para a realização de um trabalho de música.

    Espero que você possa me ajudar.

    Segue meu e-mail: camila93_fernandes@hotmail.com

    Obrigada!
    Camila Fernandes

  3. 6 Chico Aracaju 24/09/2014 às 4:56 pm

    PORQUE VOU VOTAR EM MARINA.

    Votarei nela como um dia votei em Lula. Havia o risco de ele ser um radical de esquerda; de, por semialfabetismo, não saber tomar as decisões necessárias; dizia-se que ele levaria o país a um caos econômico porque trazia as ideias do discurso petista…
    Vou votar em Marina porque ela é muito parecida com aquele Lula. Vem de uma belíssima história social entre os mais pobres. Seringueira, ao lado de Chico Mendes. Também porque se mostra muito inteligente. E, melhor que Lula, estudou, ja moça, chegando à Universidade.
    Vou votar em Marina porque ela vem de um PT que eu acreditei. E ao deixar o PT por conta de um escândalo que mereceu julgamento e condenação de muitos, não se alinhou com as esquerdas xiitas, com partidos viciados. Vem procurando estabelecer um que tenha a ver com o que ela acredita.

    Se terá respaldo politico para poder governar; se saberá vencer os obstáculis, não sei. Eu nao sabia quando votei naquele Lula do inicio.
    Não vou votar contra Dilma ou Aécio. Meu voto não é por paixão como de torcedor. Voto com meu juizo sobre os fatos.
    Vou votar em Marina. A mulher negrinha, magrinha, que parece que vai morrer na próxima gripe forte, porque ela se mostra firme, sem ser arrogante. E mesmo que nao saiba ainda como realmente consertar o Brasil, ao menos tem comprovadamente as mãos limpas. Aliás, mãos limpas e decência, meus pais me ensinaram a honrar. Aquele PT perdeu meu voto não foi porque não soube administrar o pais. Para mim Lula fez o Brasil avançar. Mas perdeu merecimento porque fim não justifica quaisquer meio. Quebrado esse princípio moral assiste-se ao que está acontecendo com a Petrobrás, e cada vez mais em escala maior. O Brasil é rico. Com menos ladrões no poder podemos fazer mais. Com ladrões, nem o pré-sal.
    Vou votar sim em Marina.

    • 7 Daniel Brazil 25/09/2014 às 5:15 pm

      Chico, aqui não é lugar de fazer campanha. As incoerências de Marina já são conhecidas, e suas alianças não diferem em nada dos outros partidos, em termos de “decência e mãos limpas”. Doações suspeitas, viagens em avião de dono não declarado, ligação com um pastor preconceituoso e fascista. Sou pelo estado laico, sempre, sem influência de igrejas.
      Aliás, chamar o Lula de semi-analfabeto denota preconceito ou desinformação. Você chama alunos de curso técnico do Senai de analfabetos? Tá na hora de consertar seu “juízo sobre os fatos”.

      • 8 Chico 28/09/2014 às 11:05 pm

        Cara,acho que vc não soube interpretar o que eu quis dizer.Eu não fui preconceituoso, longe disso, afirmei que Lula, POR SER CONSIDERADO SEMI-ANALFABETO,sofria preconceito,no entanto, ele fez um dos melhores governos da história desses país.E outra: É inegável que Marina, ao contrário de Aécio e Dilma,merece uma chance, pois todos dois já governaram, e em nada melhoraram-principalmente Dilma-No mais, o obrigado pela crítica. É sempre bom conhecer outros pontos de vista.

  4. 9 Medina 30/09/2014 às 8:45 am

    Acho que um dos grandes erros foi com relação à saúde, agiu como classe média: ao invés de ir a uma academia, resolveu pagar um plano de saúde.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: