Arquivo de novembro \12\UTC 2014

Da vida dos pinguins

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Não consigo parar de reler o novo livro de Airton Paschoa, A Vida dos Pinguins Nankin Editorial, 2014). Não, Joãozinho, não é um manual de biologia, mas um desconcertante conjunto de textos enxutos que voam. Sabemos que pinguim é ave terrestre (quem anda sobre o gelo é terrestre?). Mas estes metafóricos pinguins voam alto, e para dentro da mente.

O domínio de  Paschoa sobre as palavras é vertiginoso. Desdobra-as, mostra o avesso, arranca fonemas ocultos e revela significados para os desatentos. É bem dele descrever crianças boquiabertas vendo balõezinhos no céu, e confundir-nos com céu da boca / boca do céu.  Escreve prosa, e provoca uma sensação de poesia. Aliás, o texto é tão conciso que dá pra colocar no play sem medo de ser interrompido:

“Quando você não diz nada, toda olhos, fogos e artifício, e nada digo eu, utopia, tiros e queda, não é que não dizemos nada. Poderíamos falar cobras e lagartos, serpentes. Poderíamos falar sem parar, caravana, miragens. Ou poderíamos simplesmente dizer deserto. Mas não, não dizemos nada. E é o que dizemos de certo.”

Releia duas, três vezes, religando as faíscas. O brilhante estratagema de retirar a letra D de “fogos de artifício” acrescenta um novo sentido. Pense em caravana/serpente no deserto/ de certo. O cara não está brincando. Ou melhor, está, no sentido mais divino da palavra. Está criando.

Paschoa lapida seus textos com clivagens que só faltam ser diagramadas de outra forma para se tornarem poemas. “Me diz por favor por amor dos seus dos meus de Zeus onde começa você que é tão longe-e-linha você de tão modigliana sina e onde Deus termina convento? consolo? areia fina? planície tão planalta (…)”. Como não se apaixonar por uma expressão como “modigliana sina”, depois de deixar subentendido uma “longilínea”? E terminar com vento, com solo, areia fina?

O mais bacana de ler Airton Paschoa é que ele dialoga com o agora, com o sentimento em volta, com a eletricidade que nos cerca. Jamais soa acadêmico, num mundo em que os concretistas são neoacadêmicos. “Prosadores pra que em tempos de www? Quem lá quer saber de vidinhavividinha.sem.br? (…) (Prefiro me enterrar na rede).”

Humor profundo e pro alto, além de tudo. Ler Airton Paschoa é necessário, em tempos tão rancorosos. Cabra bom, como se diz nas bandas de cima. Quando crescer, quero escrever como ele.