Falando de passarinho

Pássaro e bandolim

Dizem que a música surgiu da imitação dos pássaros. É verdade que, desde os primórdios da humanidade, estes cantos estavam à nossa volta, misturados a outros ruídos da natureza. Provavelmente os primeiros sons que o Homo sapiens produziu foram percussivos, mas, assim que soprou o primeiro bambu, o som deve lhe ter soado como o de um pássaro. A tradição artesanal ainda persiste em várias culturas, com os luthiers de pios e apitos que imitam a passarinhada. Muitas vezes, infelizmente, a finalidade não é musical, mas predatória…

A admiração pelo canto das aves fez com que muitos músicos, em todas as culturas, se esforçassem para imitá-lo. Com a descoberta da harmonia a música humana ficou mais sofisticada, mas pássaros não deixaram de ser inspiração. São incontáveis as canções que falam de pássaros como símbolos de liberdade, de dedicação aos filhotes, de amor ou traição, de abandono, de desterro, de prisão.

A música instrumental, popular ou erudita, continuou homenageando os pássaros do jeito que podia: através dos sons. Ora imitativas, ora evocativas, as referências pululam na História. Vivaldi escreveu um concerto para flauta (Il Gardellino), Mozart escreveu uma ópera cheia de cantos de pássaros (A Flauta Mágica), Stravinsky compôs o poema sinfônico O Canto do Rouxinol (além de brincar com a lenda do Pássaro de Fogo), e o francês Olivier Messiaen, bem, escreveu tanta coisa que só ouvindo pra entender. Pudera, era também ornitólogo!

E a música brasileira? Claro que há inúmeras referências na canção popular, desde sempre. Mas não vamos falar aqui do Passaredo de Chico Buarque, do Sabiá de Tom Jobim, do Carcará de João do Vale ou do Uirapuru dos Cantores de Ébano. A música caipira, sempre atenta ao mundo rural, apresenta dezenas de canções inspiradas em aves diversas. E se é pra citar nomes de pássaros, o próprio Villa-Lobos, na sua famosa Bachiana Brasileira n. 5, no movimento central, Dança (Martelo), explicita várias referências:

Canta, cambaxirra! Canta, juriti!
Canta Irerê! Canta, canta sofrê
Patativa! Bem-te-vi!
Maria acorda que é dia
Cantem todos vocês
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi! Eh! Sabiá!
La! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh! Sabiá da mata cantadô!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh! Sabiá da mata sofredô!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.

A música imita o canto de alguns dos pássaros citados na letra de Manuel Bandeira, como o Sabiá-da-mata no trecho liá-liá-liá. Bandeira é também autor da letra de Azulão, de Jayme Ovalle, um clássico da seresta brasileira.  Mas letra de música deixa tudo muito explícito (desculpe, poeta!). Vamos complicar um pouquinho as coisas. Que tal prestar atenção na música instrumental e suas referências aladas?

Claro que o choro, o mais popular gênero instrumental brasileiro, é para onde vamos dirigir o foco. E os mestres pioneiros não negam fogo: O flautista Patápio Silva, ainda no século XIX, escreveu uma polca chamada Beija Flor, também nome de duas composições de Ernesto Nazareth, uma polca de 1884 e um tango sem data definida. Nos três casos a referência acaba sendo mais evocativa de seu voo irrequieto, já que estas belas avezinhas não se distinguem pelo canto. Aliás, Valdir Azevedo tem uma composição chamada Colibri que se encaixa nesta hipótese, que certamente abarca também a valsa As Andorinhas, do patriarca Anacleto de Medeiros.

Pixinguinha tem títulos como Gavião Calçudo, Marreco Quer Água, Urubu Malandro ou Vi o Pombo Gemê, mas não dá indícios de ter imitado alguma vocalização original. Mais parecem caricaturas de certos bípedes sem plumas, como fez o bandolinista Patrocínio Gomes na polca Pardal Embriagado. João Pernambuco, um dos pais do violão brasileiro, é admirado até hoje pelo seu choro Graúna, gravado por mestres como Raphael Rabello e Dino 7 Cordas.

Talvez o choro mais conhecido em todo o mundo seja o Tico-tico no Fubá, do paulista Zequinha de Abreu. Imortalizado na voz de Carmen Miranda, a melodia parece imitar não a voz, mas os pulinhos da pequena ave se alimentando. O curioso é que foi lançada em 1917 com o nome Tico-tico no Farelo, mas já existia outra composição com este nome, do violonista Canhoto. Rebatizada em 1931, estourou na década de 40, entrando para o repertório mundial via cinema americano. O sucesso foi tanto que Zequinha até arriscou Os Pintinhos no Terreiro, alguns anos depois, mas ganhar na loteria duas vezes é meio difícil…

Outra paulista, a pianista Lina Pesce, também estourou na mesma década com Bem-te-Vi Atrevido, gravado pela organista americana Ethel Smith (também intérprete de Tico-tico no Fubá). Percebendo um filão promissor, Lina compôs Tangará na Dança, Sabiá Feiticeiro, Corruíra Saltitante, Canarinho Gracioso e Pintassilgo Apaixonado, mas nada superou o sucesso do Bem-te-vi, gravado por mestres como Altamiro Carrilho e Sivuca. Altamiro, aliás, compôs um Canarinho Teimoso, com Ary Duarte, que apresenta uma série de trinados bastante evocativos. Gravou também Meu Sabiá, de Raul Silva, e um Bem-te-vi Tristonho.

O pai-de-todos-os-sanfoneiros Luiz Gonzaga também tinha sua predileção pelas aves. Canções como Acauã, Assum Preto, Asa Branca, Sabiá, ou Pássaro Carão receberam letras, algumas inesquecíveis. Na gravação do baião Fogo Pagô (de Sivuca e Humberto Teixeira), ouve-se claramente uma imitação do canto do pequeno columbídeo. Entre as peças instrumentais do grande Gonzagão encontram-se obras-primas como o choro Araponga, gravado em 1943.  Na introdução, duas notas em ostinato remetem ao canto metálico e agudo da espécie.

Outros compositores também homenagearam as aves, como o violonista cearense Chico Soares, autor do choro Caboré. Dilermando Reis compôs Caboclinho, mas não podemos garantir se foi por causa do pássaro homônimo. O bamba do bandolim Luperce Miranda registrou Periquito Voou e Xô, Juriti. E vários

No final do século XX o hábito de dar nome de passarinho às composições passou de moda. O choro ficou cada vez mais urbano, e a passarinhada mais arisca. Chorões contemporâneos preferem batizar suas composições de estados de espírito, chistes, situações, apelidos, private jokes. De vez em quando, surge um bamba como Zé Barbeiro, mestre do violão 7 cordas, relembrando essa curió(sa) ligação. É dele o choro com que encerramos esse artigo (que não tem a menor pretensão de esgotar o assunto): Trinca-ferro. Belíssima composição, onde se destaca a flauta de Rodrigo y Castro reproduzindo o canto da ave, infelizmente cada vez mais rara de ser ouvida em liberdade:

(artigo publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br, em dezembro de 2014)

2 Responses to “Falando de passarinho”


  1. 1 JÁDSON NEVES 22/12/2014 às 11:53 pm

    Obrigado pelo belo texto, Daniel.  Um grande abraço.

    P.S.: Muita água (chuva) por esses dias em nossa região. Época boa para colocar as leituras em dia.  

    Jádson Barros Neves

  2. 2 Daniel Brazil 28/01/2015 às 11:17 pm

    “Muita água” é frase rara hoje em dia aqui no Sudeste, Jadson. Aproveite!


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