Ida

Meus amigos sabem que não sou um cinéfilo. Apesar de ter me formado em Cinema e ser apaixonado por fotografia e boas histórias, não tenho paciência para trânsito, fila e televisão. Se para assistir um bom filme tenho de enfrentar uma dessas três coisas, geralmente desisto. Não me orgulho disso, apenas reconheço uma limitação…

Sei que isso parece uma heresia para a geração que cresceu diante da TV ou de um computador. Nunca baixei um filme pela internet. Nunca comprei um filme pirata na calçada da rua Augusta para ver em casa. Cinema para mim é tela grande, sala escura, um ritual. Se tocar uma campainha ou um telefone, corta o barato. Marilyn Monroe com 5 metros de altura é uma deusa sexy, inatingível e incontrolável. Com 5 cm é um inseto, ao alcance de um clique do controle remoto. Sem chance.

Por isso não comento muitos filmes aqui no Fósforo. Mesmo assim, alguns conhecidos me perguntam sobre o Oscar. Quem? Ah, o prêmio da indústria americana! Sinto certa vergonha, e tento assistir um ou outro. Descobri que o filme que mais curti em 2014 foi candidato: o argentino Relatos Selvagens.  Não ganhou. Em vez dele, um polêmico polonês.

Hoje assisti Ida, o tal. Logo de cara, o tema me trouxe lembranças de um clássico dos anos 60 que também girava em torno de um convento de freiras polonês, uma história de possessão demoníaca. Nada a ver. Ida é anos 60, mas visto sob a ótica do século XXI. Em comum, a fotografia em p&b.

E que fotografia! Muitos fotogramas do filme poderiam ser recortados, enviados a concursos e premiados. Um branco tão leitoso, um preto tão aveludado, que em poucos minutos esquecemos que o mundo é colorido, e mergulhamos naquela neve cheia de sombras que era a Polônia há 50 anos.

Uma jovem noviça, às vésperas de virar freira, é aconselhada pela Madre Superiora a conhecer sua única parenta, uma tia comunista, funcionária pública (juíza), alcoólatra, de hábitos liberais. Descobre que é judia, e que seus pais foram mortos durante a guerra. Calma, isso é narrado nos primeiros dez minutos de filme, não estou revelando o final (e odeio quem faz isso).

As duas tentam desvendar o passado obscuro. Uma bela e triste viagem, de revelações vitais e mortais. Como não gostar de um filme marcado pela Sinfonia Jupiter, de Mozart, e cujo clímax se dá com Naima, de Coltrane? O diretor polonês de nome impronunciável não está brincando. O lance da noviça com o saxofonista é filmado com discrição e elegância. O final, bem…

Assista. O Melhor Filme Estrangeiro do Oscar costuma ser muito melhor que o Melhor Filme, desde 1948. Ida é belo e triste, com um toque passadista. É assustador como o fantasma da guerra ainda assombra os países europeus, tantos anos depois. Mas, cá entre nós, Relatos Selvagens é melhor, mais provocador, mais inventivo.

2 Responses to “Ida”


  1. 1 cepxxv 30/03/2015 às 12:12 pm

    Pergunta que ficou no ar… a Ida estava com 15 metros ou 15 centímetros? Vou assistir, independente da estatura! Bjs!

  2. 2 Daniel Brazil 02/04/2015 às 12:27 am

    15 cm, infelizmente… Por isso não me apaixonei por ela!


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