Ná e Zé, definitivos

[CAD3 - 4]  DIARIO/CAD3/1_MATERIAL ... 08/04/15

                 De vez em quando pinta um álbum assim em nossa frente. Um momento de serena beleza, onde tudo se encaixa com perfeição. Ná Ozzetti, uma das cantoras mais completas desse país, retoma a velha parceria com um dos compositores mais sensíveis e originais de nosso tempo. Retoma, sim, pois desde o início da carreira Ná Ozzetti grava Zé Miguel Wisnik. O primeiro disco solo, de 1988, já trazia quatro composições com sua assinatura. Ela gravou outros autores, foi da vanguarda ao baú da história, mostrou sua versatilidade em todos os gêneros, mas sempre se manteve fiel ao início de tudo. E no início de tudo estava o poeta e músico Wisnik.

Mas não se trata de um songbook, longe disso. O CD Ná e Zé é construção conjunta, arquitetura sonora elaborada a duas vozes (em algumas faixas) e dois corações. Há músicas novas e antigas, e a colaboração de ótimos músicos. Sérgio Reze, Swami Jr, Guilherme Kastrup e Marcio Arantes, também produtor do disco. Há  uma participação vocal muito bem sacada de Arnaldo Antunes, outra de Marcelo Jeneci, a guitarra de Gui Held, um arranjo luminoso de Lethieres Leite. E para rebater quem reclama que a melancolia investigativa de Wisnik contamina suas melodias, temos aqui o contraponto da diversidade: rock (ou quase-rock), melodias juvenis, batidas ritmadas, acordes densos, e, claro, também melancolia existencial. Wisnick faz mais do que refletir sobre o fazer musical. Suas letras costuram observações sobre fazer a vida, ou sobre o que a vida faz de nós. E aí encontramos alegria e tristeza, poesia e beleza.

É notável também sua identificação com o espírito poético de outros autores. Ao musicar poemas de Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Cacaso e Leminski, o resultado é tão sintético que parece ser fruto de um trabalho a quatro mãos. O que acontece, de fato, nas boas parcerias com a inquieta Alice Ruiz, a delicada Marina Wisnik e o surpreendente Paulo Neves. Zé também toca piano em todas as faixas, com a sutileza habitual.

E Ná continua sendo Ná. Cantora excepcional, com pleno domínio de seu ofício, capaz de modular emoções de modo leve e profundo ao mesmo tempo. Ouvi-la cantar é penetrar num universo de prazer sonoro que se desdobra a cada nota. Para outras cantoras (e cantores), é uma aula de entonação, respiração exata, emissão perfeitamente calibrada. Jamais imaginei que uma canção tão perfeita quanto A Olhos Nus, de seu primeiro elepê, pudesse ser melhorada. Pois aqui ela renasce, tão bela como o sol que admiramos num amanhecer. É o mesmo velho sol, mas ao mesmo tempo é novo e apaixonante. Ná faz isso com as canções que lapida.

O CD pode ser ouvido inteiro aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ltVMa2oWqYU. Em breve , será lançado em CD físico (Circus, 2015). Aquisição mais que recomendável, pelo valor intrínseco do trabalho artístico envolvido. Disparado um dos grandes lançamentos de 2015.

naezecapa

(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)

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