Literatura como espelho

2a

A leitura de dois romances, neste início de 2015, me surpreendeu por várias coincidências, embora tenham sido escritos em décadas diferentes, por autores de estilos diversos (um brasileiro, outro espanhol) com abordagens distintas.

Quando Walter Benjamin, lá na década de 30, apontou a decadência da velha narrativa que desde a Antiguidade norteava os rumos da literatura ocidental, os ficcionistas modernos se viram diante de um dilema. De forma ligeira, podemos dizer que as grandes narrativas eram fruto da experiência vivida, de relatos heroicos, de testemunhos trágicos. Não que os autores tivessem realmente passado pelas guerras, traições, amores e descobertas que relatavam, mas criavam personagens verossímeis – supondo que Don Quixote seja verossímil – , que narravam suas peripécias. De Homero a Dante, de Shakespeare a Melville, há um narrador subentendido em cada trama, ora explícito, ora invisível. Se invisível e onisciente, era quase divino, mas fazia notar sua presença.

O inquieto Benjamin falava da morte do romance, que atingiu sua plenitude no século XIX e esgotava as possibilidades narrativas no início do século XX. A história pouco a pouco deixava de ser uma forma de transmissão de conhecimento, por falta de experiência do escritor. Autores modernos já não lutam em batalhas, singram oceanos, vivenciam amores românticos (é duvidoso este ponto), ou brigam contra a natureza.

Narradores modernos já não podem dar conselhos, contar fábulas moralistas, ensinar lições. Eles colocam no papel (ou nos palcos, ou nas telas) seus anseios, suas dúvidas, seu cotidiano torturado, suas obsessões. Podem ser explícitos ou criar personagens que os representem, e nisso não se diferem da postura romântica. Mas reconhecem a saturação das histórias com começo-meio-e-fim, e colocam, cada vez mais, um escritor-personagem (sempre em crise) no meio da história.

            E aí abro um parêntesis para lembranças estudantis. Nos tempos da universidade, nos papos de botequim, era comum brincarmos com a ideia de escrever um livro, fazer um filme, compor uma canção. E uma das revelações mais contumazes depois de algumas cervejas era a de um aspirante a escritor que estava escrevendo um conto sobre um aspirante-a-escritor, um aspirante a cineasta que sonhava com um roteiro sobre um sujeito que queria fazer seu primeiro filme, ou um aspirante a compositor que tinha rascunhado uma canção sobre o desafio de fazer uma canção, o que era quase a mesma coisa.

            Ríamos muito, como todo jovem inconsequente. Certa noite batizamos o movimento de umbiguismo, que seria o sucedâneo perfeito do romantismo, do realismo, do naturalismo e até do surrealismo. Hoje, quando me aproximo de ser um velho inconsequente, permito-me intrometer essas lembranças pessoais neste pequeno texto, sem receio de parecer pueril.

            Falava, se ainda lembram, de dois romances. Um é Documentário, de Tiago Novaes. Outro é O Motivo, de Javier Cercas. Mais uma coincidência: foram-me presenteados por duas pessoas queridas, que amam a literatura, e a ela se dedicam, cada uma a seu modo.

            Tiago é uma jovem revelação da literatura brasileira. Seu romance pós-moderno foi contemplado com a Bolsa de Criação Literária da Funarte, sendo escolhido depois para publicação, em 2012. Psicanalista de formação, já havia escrito contos e roteiros. Aliás, o livro é acompanhado de um DVD com o documentário Herança, dirigido por ele. As imagens completam (e embaralham) alguns capítulos da anti-narrativa empreendida pelo autor. São retratos de família, e o próprio Tiago aparece ali retratado.

            De início, somos apresentados a dois personagens: um psicanalista e um escritor. Um conversa com o outro, e os dois falam para o leitor. Não há um enredo propriamente dito, como apontaria Benjamin, mas impressões e conflitos narrados de forma elaborada e sutil. Tiago Novaes escreve bem, cria belas imagens, faz observações interessantíssimas como o personagem Psicanalista. Como o personagem Escritor, mostra-se perdido no labirinto benjaminiano, à procura de uma boa história. Para complicar (literatura contemporânea não pode ser simples, desde Joyce), surgem citações de outros não-escritores, como Van Gogh, Woody Allen ou Tarkovski, personalidades inquietas perante os mistérios do mundo.

            A terceira e última parte do livro, Perlaboració, é um fluxo narrativo vertiginoso, de alta densidade poética, que lembra os melhores momentos de autores como Lispector ou Cortazar, mas que também “significam nada” (últimas palavras do livro). Ou tudo. O modo como está dito é mais importante do que o que está sendo dito.

            Javier Cercas é mais conciso, claro, definido. Não quer criar uma nuvem, mas uma esfera sólida, sem furos. Escreveu uma novela (menos de 100 páginas) astuciosa, sobre, claro, um escritor que quer escrever um romance. Seu personagem tem nome, ao contrário dos de Tiago. Não é Javier, mas Álvaro. Subterfúgio bobinho, ficaria mais legal se fosse mesmo Javier. Enfim, um escritor decide escrever uma história onde um casal de vizinhos em crise assassina um velho que mora no último andar. Por dinheiro, claro. O escritor instala-se no seu apê, procura um velho solitário (sempre há um), um casal vizinho (e sempre há uma crise). Provoca situações que o inspirem, pois não consegue inventar uma história, precisa produzir fatos reais. Com precisão de relojoeiro, vai montando a trama de modo que terminemos a leitura com a impressão de que é o relato verídico de um crime. O problema é que personagens reais “sempre introduzem novas variáveis que alteram o curso do relato”. Um último parágrafo nos devolve ao início de tudo, e ao começo da história, onde um escritor tenta escrever uma história. Redondo e cristalino como uma bola de gude.

            Não, nenhum dos livros termina assim. Seria uma concessão aos antigos narradores. Há a necessidade pós-moderna de um adendo, de uma justificativa, de uma proposição teórica. No caso de Novaes, o quarto capítulo é uma fortuna crítica, com ensaios de Reynaldo Damazio e Julián Fuks. Inteligentes, pertinentes, dão a impressão de que o romance ficaria incompleto sem eles.

            O livro de Javier Cercas (que é autor do best seller Soldados de Salamina, onde também há a figura central de um narrador) traz o comentário de Francisco Rico, figura respeitável da crítica espanhola, e de quem Javier foi aluno. Rico cita Cervantes, Zola, Flaubert e Cortázar, mas se rende á evidência de que o “fazer literatura” é o tema central do quase-romance.

            Ler os dois livros em sequência talvez não seja recomendável. Cai como uma feijoada no almoço e uma paella no jantar. Mantida certa distância entre eles, vão provocar boas sensações. Mesmo assim, confesso que a leitura consecutiva me ajudou a queimar para sempre um conto escrito nos anos 80, depois de uma daquelas noitadas estudantis, onde um jovem tenta escrever um conto sobre um jovem que tenta escrever um conto. O mundo será poupado de uma obra menor do umbiguismo.

0 Responses to “Literatura como espelho”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: