Arquivo para maio \18\UTC 2015

Afogado em Paraitinga

Afogado 4

Afogado 5

Fim de semana em São Luiz do Paraitinga. Não um qualquer, mas o de 16 de maio de 2015, quando rolou a festa do Divino. A tradição da cidade é servir o afogado, onde a comida é servida de graça pra quem leva o prato. Na sexta, mataram 40 bois. 36 horas de trabalho contínuo, com serra de fita, machado e muitas facas, e na noite de sábado começa a ser servido o afogado (uma espécie de ensopado de carne com batatas, primo da vaca atolada e do goulash).

Não entrei na fila, que dobrava quarteirão. Tinha gente com balde, cumbuca, tupperware, o escambau. Tinha mãe que mandava os 5 filhos entrarem na fila, cada um com um pote. Garantiam comida pra semana inteira. Fomos prum boteco na praça, onde rolava a festa, pra tomar uma breja. Tinha afogado no cardápio, pedimos um, sem a benção do padre, pra não dizer que voltamos sem provar a iguaria. E nos divertimos muito.

Os anfitriões, Albano & Fernanda, sempre gentis. O casal Luiz Biajoni & Karen, muito engraçados. Tentei parecer inteligente, mas a concorrência era braba. Um pouco antes de chegar no agito, fiz esta foto:

Afogado 1

À esquerda, Fernanda, médica oncologista (esqueça o cigarro), sobrinha de Jorge Amado e neta de Graciliano. À direita, Luiz Biajoni, vários livros publicados, autor que está construindo uma trajetória totalmente original na literatura brasileira. No centro, Carmen Prado, física, professora da USP. Agora faço um desafio: quem desse trio já ganhou um prêmio Jabuti? Quem acertar ganha um convite pra tomar um vinho aqui em casa e ouvir o resto da história.

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Tarso de Melo, poeta

Em minha mais recente visita à Alpharrabio (que comentei aqui), saí de lá com este livro:

 Tarso de Melo0001

Li alguns poemas, coloquei o volume na cabeceira (poucos são os escolhidos, o criado-mudo é pequeno) e fui aos poucos convivendo com a poética de Tarso de Melo. Mal o conheço, trocamos meia dúzia de palavras na vida. Melhor assim, distanciamento faz bem quando temos de falar mal. Ou falar bem.

                Não sou grande leitor de poesia, confesso, e boa parte dos poetas contemporâneos me parecem monótonos, repetitivos, engraçadinhos ou, na melhor das hipóteses, epígonos. A poesia sempre me pareceu um jeito meio preguiçoso de expor um ponto de vista (perdão, Euterpe!), o que me fez optar pela prosa como porta principal de percepção deste e de outros mundos. Ainda assim, de vez em quando a leitura de um poema pega na veia, me deixa extasiado. Pode ser Lorca, Kaváfis ou Ademir Assunção. Pode ser Fábio Brazil, pode ser Airton Paschoal. Ou Cabral, ou Mistral. Ou Sérgio Vaz, tanto faz.

                Tarso começou a publicar em 1999. Sua antologia é uma viagem na contramão do tempo, começando com poemas recentes e indo até A Lapso, o volume inicial. E o primeiro poema publicado poderia ser o mais recente. Dá pra sentir maturidade, coesão, perceber o olhar reflexivo e inquiridor frente aos mistérios do mundo. Fala de Marcel Marceau, o mímico francês.

Lúdico

Antimúsico

Guardando

Um pássaro

Em cada pulso.

 

                Por vício de formação, gosto de imagens. Coisas introspectivas, que falam da alma, dos sentimentos, costumam me entediar. Como não visualizar o que está sendo dito? E Tarso de Melo é uma festa para meus olhos cansados. Pinta cada verso com cores que reconheço de cara:

Poderia falar do azul,

Seus resíduos, lugares

Que frequenta, outros

– não este sufoco cinza

E sólido, diário suicídio.

                O amor por versos encadeados (o tal do enjambement) é recorrente. O estilo vai se encorpando com o tempo, e vemos o verso abrir espaço para reflexões maduras, como o poema de abertura da coletânea, inspirado no aniversário de Oscar Niemeyer.

 104, quase 105 anos cedendo a vez à morte alheia

 

Mas o que é uma coletânea? O que são quinze anos na vida de um poeta? Passeio pelo volume de capa dura, abrindo ao acaso algumas páginas. Imagens. Às vezes lancinantes.

 

Imigrantes ilegais ateiam fogo ao próprio corpo.

 

                Fala sério. Depois de ler uma linha como essa, fecho qualquer volume e fico remoendo os males do mundo no escuro. Mas o final do poema tripudia:

­desempregados ganham chutes, manifestantes, chumbo.

Fronteiras – cada vez mais – precisam de muralhas.

O vocabulário é persistente: fome, seca, sede, guerra,

Por seu turno, líderes mundiais lideram o mundo

(atores sempre atuam) o poema, estranhamente mudo.

 

                Mundo mudo. Folheio o livro, busco saídas. Há coerência em cada degrau da trajetória. Originalmente nem eram livros, daqueles que param em pé, mas plaquetas de um jovem poeta andreense. Alguns motivos amarram os feixes. Cenas Mudas descreve fotogramas de um filme imaginário. Em Nenhum Canto o longo poema é pontuado por um quase-refrão (a lua cansada/ e um sol inquieto eram tudo/ o que vinha do céu) onde os adjetivos são trocados a cada página. Por Nada faz uma contagem regressiva (e aflitiva) da paisagem urbana. Tememos pela explosão no final… Planos de Fuga exercita a prosa poética de alta densidade. Era de Aquário reúne poemas que tem apenas CEPs como título. 01005-010. 09041-300. Fica o desafio de descobrir a que logradouro se refere, após a leitura. Este último é o CEP da livraria Alpharrabio, vejam só. Uma fotografia da paisagem urbana.

Os que passam no ônibus

(que parecem querer entrar

na livraria) olham para cá

e encontram seus sustos

 

dentro do aquário

confortados

alguns tomam café, outros

mexem nos livros (há um jardim

que ofende o asfalto)

 

quem são aqueles – ? –

que não vão a lugar algum,

parecem ter chegado

aonde queriam

 

                Confesso não saber se cheguei onde queria. Mas poemas assim dialogam comigo, não buscam uma verdade absoluta, são quase uma interrogação. “Os loucos do bairro tragam a tarde e não se abalam”. Coloco o livro de volta na cabeceira e apago a luz, esperando sonhar com os versos da contracapa:

É pouco o que as poças dizem

Sobre a chuva, é mínima a memória

Que os mapas guardam do mundo

O suor na camisa, na calça, nas meias,

Tudo trai a violenta passagem do sol.

Um Pio de Coruja

pio-de-coruja

 Qual a tua atitude quando resolve encarar um livro de crítica literária? Em geral, respiramos fundo e nos preparamos para uma aventura intelectual, muitas vezes difícil, penosa, algo assim como a escalada de uma montanha. Ao final, mesmo com joelhos e cotovelos esfolados, contemplamos a paisagem a nossos pés e percebemos que nosso campo de visão se ampliou. Ou não.

            Costumo dizer isso sobre literatura, em geral. Odeio quem diz que estudar é fácil, que ler é somente prazer. Não é. Muitas vezes envolve dor, sacrifício, concentração, superação. Mas o lado bom de gostar de ler é que de vez em quando topamos com uma paisagem de sonho, com aclives e declives inesperados e belos, com surpresas em cada curva do percurso.

            Um Pio de Coruja, de Chico Lopes, pertence a essa linhagem. Uma coletânea de críticas e ensaios que ultrapassam as fronteiras da literatura e dialogam com o cinema, com a psicologia, com a sociologia, com a crítica de costumes. E abro aqui um pequeno parêntesis: o próprio Chico é um personagem fascinante, que passou a vida em pequenas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, mas tem uma cultura cosmopolita extraordinária. De formação autodidata, o homem é fluente em inglês e também tradutor reconhecido. Ficcionista talentoso, poeta inspirado e artista plástico surpreendente, Chico se coloca de tal forma em suas pensatas que sentimos sua presença viva.

            O título do livro remete ao romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, onde um pio de coruja tem papel fundamental na decisão do personagem de contar a sua história. O volume se inicia com um fascinante conjunto de ensaios sobre Proust e seu célebre arqui-romance. Daí passamos para Henry James, Virginia Woolf, Truman Capote, F. Scott Fitzgerald, Flaubert e outros clássicos. Sempre com um gancho no cinema,  Chico Lopes desvenda relações cognitivas entre autores policiais (um gênero de sua predileção) e filmes, elege Nosferatu de Werner Herzog como a melhor refilmagem de todos os tempos (concordo com ele!), revela defeitos e qualidades em gente como H.P.Lovecraft, Paul Bowles, Borges, Ruth Rendell e Kerouac, demonstra admiração por Dalton Trevisan, relembra Kafka com propriedade, e homenageia Ignacio de Loyola Brandão, seu padrinho literário.

            O mais bacana de ler Chico Lopes é que ele se coloca com profunda honestidade intelectual. Nada lembra o pernosticismo acadêmico de certos críticos, que parecem pairar sobre o mundo dos mortais como pitonisas inatingíveis. Em alguns momentos Chico fala de sua formação literária, reflete sobre a difícil condição de viver longe das metrópoles, mas fustiga igualmente o pensamento provinciano e o sentimento rousseauniano de um retorno a um bucolismo utópico. É inesquecível a leitura do ensaio “O Inferno Jeca Enfrentado com Literatura”. Creio que todo aspirante a escritor situado fora do eixo Rio-São Paulo tira dali uma lição.

            E ainda sobram comentários deliciosos sobre o Drácula de Bram Stocker, o cadáver de Eva Peron, a literatura de autoajuda, a ambiguidade moral de Rimbaud, a crueldade de Patricia Highsmith, a poesia de Iacir Anderson Freitas e a mediocridade dos círculos literários brasileiros.

            Quer saber mais? Então é só encomendar o livro à Editora Penalux e se preparar para ser desafiado. Chico Lopes demonstra que é impossível resistir a uma boa provocação quando vem temperada com inteligência, conhecimento e evidente amor à literatura.

Chico_Lopes


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