Um Pio de Coruja

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 Qual a tua atitude quando resolve encarar um livro de crítica literária? Em geral, respiramos fundo e nos preparamos para uma aventura intelectual, muitas vezes difícil, penosa, algo assim como a escalada de uma montanha. Ao final, mesmo com joelhos e cotovelos esfolados, contemplamos a paisagem a nossos pés e percebemos que nosso campo de visão se ampliou. Ou não.

            Costumo dizer isso sobre literatura, em geral. Odeio quem diz que estudar é fácil, que ler é somente prazer. Não é. Muitas vezes envolve dor, sacrifício, concentração, superação. Mas o lado bom de gostar de ler é que de vez em quando topamos com uma paisagem de sonho, com aclives e declives inesperados e belos, com surpresas em cada curva do percurso.

            Um Pio de Coruja, de Chico Lopes, pertence a essa linhagem. Uma coletânea de críticas e ensaios que ultrapassam as fronteiras da literatura e dialogam com o cinema, com a psicologia, com a sociologia, com a crítica de costumes. E abro aqui um pequeno parêntesis: o próprio Chico é um personagem fascinante, que passou a vida em pequenas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, mas tem uma cultura cosmopolita extraordinária. De formação autodidata, o homem é fluente em inglês e também tradutor reconhecido. Ficcionista talentoso, poeta inspirado e artista plástico surpreendente, Chico se coloca de tal forma em suas pensatas que sentimos sua presença viva.

            O título do livro remete ao romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, onde um pio de coruja tem papel fundamental na decisão do personagem de contar a sua história. O volume se inicia com um fascinante conjunto de ensaios sobre Proust e seu célebre arqui-romance. Daí passamos para Henry James, Virginia Woolf, Truman Capote, F. Scott Fitzgerald, Flaubert e outros clássicos. Sempre com um gancho no cinema,  Chico Lopes desvenda relações cognitivas entre autores policiais (um gênero de sua predileção) e filmes, elege Nosferatu de Werner Herzog como a melhor refilmagem de todos os tempos (concordo com ele!), revela defeitos e qualidades em gente como H.P.Lovecraft, Paul Bowles, Borges, Ruth Rendell e Kerouac, demonstra admiração por Dalton Trevisan, relembra Kafka com propriedade, e homenageia Ignacio de Loyola Brandão, seu padrinho literário.

            O mais bacana de ler Chico Lopes é que ele se coloca com profunda honestidade intelectual. Nada lembra o pernosticismo acadêmico de certos críticos, que parecem pairar sobre o mundo dos mortais como pitonisas inatingíveis. Em alguns momentos Chico fala de sua formação literária, reflete sobre a difícil condição de viver longe das metrópoles, mas fustiga igualmente o pensamento provinciano e o sentimento rousseauniano de um retorno a um bucolismo utópico. É inesquecível a leitura do ensaio “O Inferno Jeca Enfrentado com Literatura”. Creio que todo aspirante a escritor situado fora do eixo Rio-São Paulo tira dali uma lição.

            E ainda sobram comentários deliciosos sobre o Drácula de Bram Stocker, o cadáver de Eva Peron, a literatura de autoajuda, a ambiguidade moral de Rimbaud, a crueldade de Patricia Highsmith, a poesia de Iacir Anderson Freitas e a mediocridade dos círculos literários brasileiros.

            Quer saber mais? Então é só encomendar o livro à Editora Penalux e se preparar para ser desafiado. Chico Lopes demonstra que é impossível resistir a uma boa provocação quando vem temperada com inteligência, conhecimento e evidente amor à literatura.

Chico_Lopes

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