Arquivo para junho \29\UTC 2015

Por que escrevi um romance?

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                Escrevo, como a maioria das pessoas alfabetizadas, desde os seis anos de idade. Depois de incontáveis redações, composições, provas, formulários, bilhetes, cartas, cartões postais, recados, trabalhos escolares e algumas subversões, me profissionalizei na área de audiovisual. Continuei escrevendo. Centenas de sinopses, ensaios, projetos, roteiros, avaliações, declarações de amor, cartões diversos, legendas de fotografias, listas de música, receitas e compras de supermercado.

                A internet abriu um novo campo. Passei a escrever também mensagens eletrônicas, comentários virtuais, artigos periódicos, ensaios isolados, bilhetes digitais. Depois de ouvir muitas histórias, resolvi contar algumas. Garatujei alguns contos, fui publicado em algumas coletâneas, recebi alguns prêmios. Continuei escrevendo muitos roteiros, o que se tornou o meu ganha-pão desde que saí da universidade.

                Pois um dia tive uma boa ideia (repare que é um incidente raro nessa trajetória), e escrevi um romance. Demorei muito tempo para publicá-lo, mais que o desejável. Até comecei a escrever outros, por falta do que fazer. Mas em 2015, finalmente, é editado meu primeiro romance, Terno de Reis. Festa, abraços, congratulações. “Agora você é um escritor!”

                Como assim? Não valem nada as trezentos-e-cinquenta-milhões de palavras que escrevo desde o curso primário? Ganho a vida escrevendo, me comunico com as pessoas através da escrita, tenho centenas de amigos que só conheço por estradas literárias, e só agora sou um “escritor”?

O Houaiss traz duas definições dessa palavrinha pernóstica. “1. Aquele que escreve” (era eu, até ontem). “2. Autor de obras literárias, culturais, científicas etc., especialmente o ficcionista” (sou eu, agora). Classificação aceita universalmente, mas que me incomoda.

Sempre admirei os contadores de histórias. Os piadistas talentosos, os mentirosos de bar, os advogados, os políticos (nem todos!), os indígenas pré-históricos (por que alguém definiu que a história começa com a escrita?), os narradores da aldeia, os lunáticos loquazes. Os compositores e suas canções. Os atores no momento em que improvisam. As mães que inventam histórias para embalar os filhos. Sempre desejei ter este dom!

Desde o último sábado, passei a ser chamado de “escritor”. Vai demorar até que eu me acostume com este estranho título. Preferiria ser um contador de histórias, mas nunca tive a fluência e o talento necessário para entreter plateias, mesmo as de berço. E o motivo de escrever esse post é que irão me fazer perguntas inevitáveis, a partir de agora. Para poupar tempo e trabalho, adianto algumas respostas.

– Por que o título Terno de Reis?

– É um título polissêmico. (Isso não está no Houaiss, neguinho vai ter de pesquisar!) É um livro escrito em primeira pessoa por um personagem que se chama Reis. Tem esse sobrenome por ter nascido no dia de Reis, 6 de janeiro. A tradicional festa popular chamada reisado, que ocorre nesta data, também é chamada de folia de reis e terno de reis. A narrativa do romance é dividida em três partes. A expressão “terno de reis” também é usada no jogo de baralho, é o mesmo que trinca de reis. O acaso tem um papel importante na narrativa.

– Por que o personagem nasce em Amparo, interior de São Paulo?

– É uma homenagem póstuma à terra natal de minha mãe, Muriel. Só estive em Amparo uma vez, conheço pouco. Por coincidência meus sogros, Patrício e Maria Alice, nasceram em Amparo. Para quem acredita em coincidências…

– Em que gênero você encaixaria o teu romance?

– Essa é difícil. Tem um pouco de policial (há um crime), algo de Bildungsroman, por acompanhar a trajetória de um personagem por mais de cinquenta anos, um quê de romance histórico, por atravessar a história real do Brasil desde os anos 50 até o século XXI, com nuances políticas. Pra completar, tem um pezinho no fantástico. É, portanto, um romance transgênero, em vários sentidos.

– Você é formado em Cinema. Pretende transformar o romance num filme?

– Não. É infilmável. Por isso virou romance, não roteiro.

– Pretende prosseguir na carreira de escritor?

– Não de escritor, mas de contador de histórias, em qualquer mídia. Com um violão na mão, no meio de uma roda de conversa, na mesa do bar, embalando meu neto. Mas se você se refere a obras publicadas em papel, sim, tenho outras em andamento. Estou escrevendo um romance de contos, um negócio também difícil de definir. Não é nenhuma invenção revolucionária, as 1001 Noites é um exemplo clássico desse gênero. Trata-se de uma forma de colocar várias histórias curtas dentro de uma história maior. Serve pra quebrar a monotonia, não acha?

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Leitura no busão

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Com o carro parado na oficina, andei muito de ônibus e metrô esta semana. Uma viagem do Butantã a São Bernardo envolve um ônibus, metrô, baldeação, outro metrô e mais um ônibus interurbano passando por três municípios. Fiz isso quatro vezes, acumulando razoável número de horas em trânsito.
Há dez ou quinze anos, num trajeto longo como esse, era comum ver pessoas lendo. Jornais, revistas, livros. Bastava erguer os olhos para ver alguém entretido na leitura. Valia tudo, de Machado de Assis até auto-ajuda, de Paulo Coelho até pulp fiction.
A má notícia é que os leitores sumiram por completo. Os únicos que vi – pouquíssimos! – eram estudantes universitários próximos à estação Butantã, com livros didáticos na mão. Leitura por obrigação. Boa parte das pessoas ficam grudadas em celulares, em pé ou sentadas, na escada rolante, andando, no ponto de ônibus. É a vitória da informação rasa sobre a cultura. Me pergunto se a mediocridade dos relacionamentos descartáveis não acaba tornando a vida também cada vez mais descartável. O que essas pessoas carregam de bagagem cultural? Que tipo de experiência estética mais profunda contarão para os netos? Nem ouso falar de música erudita, artes plásticas ou teatro, me refiro à literatura, a mais democrática das artes, a mais próxima dos olhos e do bolso. E dá uma pena, muita pena, das próximas gerações…

Ao ouvir a minha queixa, a amiga Mayra Alvornoz me enviou o link de uma maravilhosa entrevista com Antonio Cândido. O mestre reflete sobre a questão da leitura, da alta e e da baixa literatura. Sempre bom ouvi-lo!

Biografias liberadas!

Noel Rosa

A melhor notícia para a música brasileira de 2015 não vem de gravadoras, de artistas, de rodas de samba, choro, viola ou pagode. Quem mandou bem um acorde perfeito maior e definitivo foi o STF, o Supremo Tribunal Federal, no dia 10 de junho de 2015.

Os juízes derrubaram, em julgamento pra lá de histórico, a obrigação de autorização prévia de um biografado (ou seus familiares) para a publicação de um texto sobre suas vidas. O resultado final foi de goleada: 9 x 0. A ministra Carmen Lucia, que deu o primeiro voto, foi lapidar: “Há risco de abusos, não somente no dizer e no escrever. Mas a vida é uma experiência de riscos. A vida pede de cada um de nós coragem. E para os riscos há solução, o direito dá formas de fazer, com indenização a ser fixada segundo se tenha apurado dano. Censura é forma de cala-boca”

O que já era norma democrática em todos os países do mundo civilizado, aqui ainda era atraso. Há dezenas de biografias não autorizadas de Mick Jagger, John Lennon, Michael Jackson, Madonna e outros astros da música pop, falando de drogas, sexo e rock’n roll, muitas vezes com detalhes escabrosos, e estão todos nas prateleiras. Se um biografado se sente prejudicado por uma mentira (ou uma verdade) que mova uma ação na Justiça comum. Assim funcionam as coisas no dito Primeiro Mundo. Detalhe: pouquíssimos tentaram isso, pois a liberdade de expressão é cláusula pétrea da maioria das constituições.

E aqui no Brasil? O chamado “entulho autoritário” custou a ser removido. A decisão dos juízes do STF deve ser festejada por todos os amantes da liberdade. E até pelos músicos e compositores, que no ano passado lançaram um manifesto reacionário chamado Procure Saber. Inspirados por Roberto Carlos, que embargou sua biografia por mais de uma década, artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Djavan desfilaram argumentos risíveis em defesa da censura. O mais hilariante era o de que os biógrafos ganhariam rios de dinheiro sem repassar nada a eles, coitadinhos. Imagine alguém que dedica anos de sua vida pesquisando e escrevendo ganhar “rios de dinheiro” no Brasil. Piada pronta, e de mau gosto. Quem vive de escrever livros nesse país?

A biografia mais aplaudida do Brasil, pela riqueza de informações, material iconográfico e apuro nos detalhes, talvez seja a de Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier, publicada em 1990 pela UNB e Linha Gráfica Editora. Foram sete anos de pesquisa. Em 25 anos de publicação, os dois pesquisadores não ganharam em direitos autorais o que um daqueles artistas ganha de cachê em um único show. Vinte e cinco anos!

O que eles não perceberam é que a decadência da MPB (ou a MPB da geração deles) muito deve a esse tipo de atitude. Biografias alimentam a curiosidade, aumentam o interesse, impulsionam a máquina publicitária, conquistam novos públicos, levantam a poeira. É por isso que os grandes artistas internacionais convivem tão bem com isso: colocam na balança e percebem que acabam lucrando. Falem bem ou mal, mas falem de mim. Quem lê quer ouvir mais, quem é fã quer conhecer o artista, quem ouve quer saber.

Não dá pra calcular o quanto ganhamos quando lemos as biografias de Noel Rosa, Carmen Miranda, Mário Lago, Elizeth, Almirante, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Paulo César Pinheiro, Cartola, Paulinho da Viola e tantos outros bambas.  Finalmente poderemos ler a biografia do Roberto Carlos, do Paulo César de Araújo, embargada por tantos anos. E a do Raul Seixas, encrencada por causa de uma ex-mulher. E tantas outras, de personalidades brasileiras não ligadas à música, como Lampião, por exemplo, cujo autor também deve estar festejando.

E o que pode ser ainda melhor: as novas biografias não surgirão consentidas, manipuladas, domesticadas para proteger interesses e vaidades. Há várias assim no mercado, infelizmente, e sem concorrentes. Agora é hora do pessoal da pesada entrar em campo. Os bons ficarão, os ruins serão esquecidos (ou responderão na Justiça, se inventarem mentiras ou distorcerem fatos). É hora de comemorar!

(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)

A Comédia Mundana de Luiz Biajoni

Há algumas décadas surgiu (nos EUA, claro) a moda de classificar os produtos culturais como lowbrow, highbrow e middlebrow.  A pulp fiction, a pornografia, as novelas de bancas de jornal seriam lowbrow, literatura de baixa extração. Highbrow seria para acadêmicos e eruditos, e middlebrow, bem, seria um larguíssimo meio termo.

Lembro-me de uma amiga novidadeira me apresentar essa classificação, lá nos anos 90. Fiquei meio desconfiado, como reajo perante todas as classificações, e argumentei que sempre houve e sempre haverá obras inclassificáveis, seja na literatura, no cinema, no teatro, na música, etc. O grande desafio de um artista, argumentei, seria criar algo que tivesse 1/3 de cada. Lembro da risada espantada que ela soltou dentro do trem, ouvindo esta bobagem.

A ler A Comédia Mundana, de Luiz Biajoni (Língua Geral, 2013), me ocorreu essa velha classificação, que andava adormecida na memória. Biajoni é jornalista e escritor, nasceu e mora em Americana, no estado de SP. O volume não é um romance, mas três “novelas policiais sacanas”, onde os personagens se cruzam, reaparecem, interagem e desaparecem. Ou não.

Comédia Mundana

A capa é do Benício. Pra quem não conhece a cultura brasileira dos anos 70 e 80, é o ilustrador oficial do cinema brasileiro, tido como lowbrow na época. Fez cartazes pra muitas pornochanchadas, de forma tão marcante e original que acabou sendo convidado para ilustrar filmes high e middlebrow. É uma lenda viva das artes gráficas e do cinema brasileiro.

As histórias de Biajoni tem um clima policial, claro. Há tramas engenhosas, armações mirabolantes, personagens verossímeis, e sexo. Muito sexo. Não que o cara seja um tarado, nada disso. Não perde tempo descrevendo 50 tonalidades de cinza. Os personagens transam rapidamente, com furor e paixão, e isso contamina todas as relações. As sociais, as religiosas, as profissionais e as de poder, principalmente. E, ao contrário da canção do Tim Maia, aqui vale tudo mesmo, até homem com homem e mulher com mulher. Mais explícito e radical que um John Updike (o de Couples, Casais Trocados), porém com a mesma vontade de desnudar a hipocrisia de uma sociedade pequeno-burguesa que acaba se tornando a elite de uma cidade média do interior.

O mais impressionante na escrita de Biajoni é o ritmo nervoso, a tensão bem construída, a agilidade com que desenvolve a ação. O estilo é de repórter policial, mas só um desatento não percebe que há algo mais profundo por trás de toda a narrativa. Crítica ferina às instituições, sejam igrejas evangélicas, prefeituras ou até mesmo a velha imprensa. E uma facilidade incrível para definir um personagem em poucas linhas, tornando-o quase real.

Pulp fiction tupiniquim? Gostaria de reencontrar aquela amiga do trem, a Silvana Corona, e presenteá-la com o livro do Biajoni, dizendo: “Tá aqui, 1/3 de cada!” Mas creio que o próprio autor iria odiar esse tipo de classificação…

Terno de Reis

De certo modo, este é um percurso que eu vinha traçando há muito tempo. Vontade de narrar histórias, mas sem o talento e a verve necessária para conta-las de viva voz, numa mesa de bar, num palco ou numa reunião de amigos.

Escrevi muitos roteiros audiovisuais profissionalmente na vida. Quase todos foram documentais, jornalísticos ou didáticos. As ficções ficaram engavetadas, ou viraram projetos de filmes nunca filmados. Um pouco de preguiça e um pouco de incompetência, reconheço.

Nos últimos anos, escrevi alguns contos. Eram exercícios que me davam certo prazer, e o retorno generoso de amigos e desconhecidos me convenceram de  que eu não era um péssimo contador de causos. Um dia, no meio da estrada, vendo um por de sol no horizonte, tive um estalo. Me ocorreram muitos na vida, mas todos esquecidos no dia seguinte.  Nesse dia, comentei com a Carmen: “Anote aí, tive uma ideia!”.

No dia seguinte, ela me lembrou. E também na semana seguinte. Eu sabia que estava com a cobradora certa do meu lado. Comecei a rascunhar a ideia, ruminando aqui e ali o capinzal da imaginação. E então pintou o concurso de uma bolsa da Funarte para desenvolvimento de romances inéditos, em 2010. O lance era apenas enviar uma sinopse, um plano de trabalho e algo já escrito.

Por estranhos desígnios do destino (e muita sorte, pois estas coisas são lotéricas), fui um dos escolhidos.  Alarmado, consultei um amigo escritor, e ele falou: “É fácil. Você recebe a bolsa, estipula um cronograma, e envia um dos teus inéditos”. Como assim? Eu tinha apenas uma sinopse inédita!

É a diferença entre profissionais e amadores. Planejei umas férias prolongadas, me despedi da família e fiquei três meses em Ilhabela, isolado, escrevendo o tal romance. Satisfeito com o resultado, enviei para algumas editoras grandes, e nenhuma se interessou. Qual o problema com as pequenas? A distribuição. O mesmo mal que afeta o cinema ou a música brasileira. Produzir não é tão difícil, mas como levar até o público, sem entrar nos esquemões?

Deixei esfriar, iniciei outro romance. E mais outro. Até que num lançamento do livro de um amigo, fui apresentado ao Tonho e ao Gorj, os editores da Penalux. Papo vai, papo vem, fiquei bem impressionado com a competência dos gajos e com a qualidade editorial dos livros. E deu nisso:

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O lançamento será no Canto Madalena, em Sampa, no dia 27 de junho, um sábado, às 17 h. Vamos lá tomar uma cerveja, dar risada e reencontrar os amigos? Deixo como aperitivo um pequeno trecho, que está na contracapa do livro:

“Quantos seres no mundo viram a própria morte? Os que morreram lentamente, em fogueiras, em cruzes, em cárceres. Os afogados, os devorados pelos bichos, os incendiados pela febre anteciparam o fim, tiveram vislumbres da escuridão eterna que se aproximava.  Para uns, a serpente venenosa, o escorpião, a bomba, a mão armada. Para outros, a névoa que lentamente dissipa o mundo, a falsa embriaguez dos anestésicos, a noite branca dos hospitais. A mão levemente perfumada do anjo que fecha teus olhos, com um sorriso gélido. A garra peluda do fauno que gargalha, enquanto prepara a corrente com a qual arrastará tua alma até o canil celestial. A imaginação de cada um escolhe a forma de morrer.”

PS: A criação e edição do “book trailer” (eu nem sabia que existia esta expressão!) é de Maria Flor Brazil. Não por acaso, minha filha.