A Comédia Mundana de Luiz Biajoni

Há algumas décadas surgiu (nos EUA, claro) a moda de classificar os produtos culturais como lowbrow, highbrow e middlebrow.  A pulp fiction, a pornografia, as novelas de bancas de jornal seriam lowbrow, literatura de baixa extração. Highbrow seria para acadêmicos e eruditos, e middlebrow, bem, seria um larguíssimo meio termo.

Lembro-me de uma amiga novidadeira me apresentar essa classificação, lá nos anos 90. Fiquei meio desconfiado, como reajo perante todas as classificações, e argumentei que sempre houve e sempre haverá obras inclassificáveis, seja na literatura, no cinema, no teatro, na música, etc. O grande desafio de um artista, argumentei, seria criar algo que tivesse 1/3 de cada. Lembro da risada espantada que ela soltou dentro do trem, ouvindo esta bobagem.

A ler A Comédia Mundana, de Luiz Biajoni (Língua Geral, 2013), me ocorreu essa velha classificação, que andava adormecida na memória. Biajoni é jornalista e escritor, nasceu e mora em Americana, no estado de SP. O volume não é um romance, mas três “novelas policiais sacanas”, onde os personagens se cruzam, reaparecem, interagem e desaparecem. Ou não.

Comédia Mundana

A capa é do Benício. Pra quem não conhece a cultura brasileira dos anos 70 e 80, é o ilustrador oficial do cinema brasileiro, tido como lowbrow na época. Fez cartazes pra muitas pornochanchadas, de forma tão marcante e original que acabou sendo convidado para ilustrar filmes high e middlebrow. É uma lenda viva das artes gráficas e do cinema brasileiro.

As histórias de Biajoni tem um clima policial, claro. Há tramas engenhosas, armações mirabolantes, personagens verossímeis, e sexo. Muito sexo. Não que o cara seja um tarado, nada disso. Não perde tempo descrevendo 50 tonalidades de cinza. Os personagens transam rapidamente, com furor e paixão, e isso contamina todas as relações. As sociais, as religiosas, as profissionais e as de poder, principalmente. E, ao contrário da canção do Tim Maia, aqui vale tudo mesmo, até homem com homem e mulher com mulher. Mais explícito e radical que um John Updike (o de Couples, Casais Trocados), porém com a mesma vontade de desnudar a hipocrisia de uma sociedade pequeno-burguesa que acaba se tornando a elite de uma cidade média do interior.

O mais impressionante na escrita de Biajoni é o ritmo nervoso, a tensão bem construída, a agilidade com que desenvolve a ação. O estilo é de repórter policial, mas só um desatento não percebe que há algo mais profundo por trás de toda a narrativa. Crítica ferina às instituições, sejam igrejas evangélicas, prefeituras ou até mesmo a velha imprensa. E uma facilidade incrível para definir um personagem em poucas linhas, tornando-o quase real.

Pulp fiction tupiniquim? Gostaria de reencontrar aquela amiga do trem, a Silvana Corona, e presenteá-la com o livro do Biajoni, dizendo: “Tá aqui, 1/3 de cada!” Mas creio que o próprio autor iria odiar esse tipo de classificação…

2 Responses to “A Comédia Mundana de Luiz Biajoni”


  1. 1 Branco Leone 03/06/2015 às 5:56 am

    Biajoni é mesmo um desclassificado. Por isso é bom.


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