Biografias liberadas!

Noel Rosa

A melhor notícia para a música brasileira de 2015 não vem de gravadoras, de artistas, de rodas de samba, choro, viola ou pagode. Quem mandou bem um acorde perfeito maior e definitivo foi o STF, o Supremo Tribunal Federal, no dia 10 de junho de 2015.

Os juízes derrubaram, em julgamento pra lá de histórico, a obrigação de autorização prévia de um biografado (ou seus familiares) para a publicação de um texto sobre suas vidas. O resultado final foi de goleada: 9 x 0. A ministra Carmen Lucia, que deu o primeiro voto, foi lapidar: “Há risco de abusos, não somente no dizer e no escrever. Mas a vida é uma experiência de riscos. A vida pede de cada um de nós coragem. E para os riscos há solução, o direito dá formas de fazer, com indenização a ser fixada segundo se tenha apurado dano. Censura é forma de cala-boca”

O que já era norma democrática em todos os países do mundo civilizado, aqui ainda era atraso. Há dezenas de biografias não autorizadas de Mick Jagger, John Lennon, Michael Jackson, Madonna e outros astros da música pop, falando de drogas, sexo e rock’n roll, muitas vezes com detalhes escabrosos, e estão todos nas prateleiras. Se um biografado se sente prejudicado por uma mentira (ou uma verdade) que mova uma ação na Justiça comum. Assim funcionam as coisas no dito Primeiro Mundo. Detalhe: pouquíssimos tentaram isso, pois a liberdade de expressão é cláusula pétrea da maioria das constituições.

E aqui no Brasil? O chamado “entulho autoritário” custou a ser removido. A decisão dos juízes do STF deve ser festejada por todos os amantes da liberdade. E até pelos músicos e compositores, que no ano passado lançaram um manifesto reacionário chamado Procure Saber. Inspirados por Roberto Carlos, que embargou sua biografia por mais de uma década, artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Djavan desfilaram argumentos risíveis em defesa da censura. O mais hilariante era o de que os biógrafos ganhariam rios de dinheiro sem repassar nada a eles, coitadinhos. Imagine alguém que dedica anos de sua vida pesquisando e escrevendo ganhar “rios de dinheiro” no Brasil. Piada pronta, e de mau gosto. Quem vive de escrever livros nesse país?

A biografia mais aplaudida do Brasil, pela riqueza de informações, material iconográfico e apuro nos detalhes, talvez seja a de Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier, publicada em 1990 pela UNB e Linha Gráfica Editora. Foram sete anos de pesquisa. Em 25 anos de publicação, os dois pesquisadores não ganharam em direitos autorais o que um daqueles artistas ganha de cachê em um único show. Vinte e cinco anos!

O que eles não perceberam é que a decadência da MPB (ou a MPB da geração deles) muito deve a esse tipo de atitude. Biografias alimentam a curiosidade, aumentam o interesse, impulsionam a máquina publicitária, conquistam novos públicos, levantam a poeira. É por isso que os grandes artistas internacionais convivem tão bem com isso: colocam na balança e percebem que acabam lucrando. Falem bem ou mal, mas falem de mim. Quem lê quer ouvir mais, quem é fã quer conhecer o artista, quem ouve quer saber.

Não dá pra calcular o quanto ganhamos quando lemos as biografias de Noel Rosa, Carmen Miranda, Mário Lago, Elizeth, Almirante, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Paulo César Pinheiro, Cartola, Paulinho da Viola e tantos outros bambas.  Finalmente poderemos ler a biografia do Roberto Carlos, do Paulo César de Araújo, embargada por tantos anos. E a do Raul Seixas, encrencada por causa de uma ex-mulher. E tantas outras, de personalidades brasileiras não ligadas à música, como Lampião, por exemplo, cujo autor também deve estar festejando.

E o que pode ser ainda melhor: as novas biografias não surgirão consentidas, manipuladas, domesticadas para proteger interesses e vaidades. Há várias assim no mercado, infelizmente, e sem concorrentes. Agora é hora do pessoal da pesada entrar em campo. Os bons ficarão, os ruins serão esquecidos (ou responderão na Justiça, se inventarem mentiras ou distorcerem fatos). É hora de comemorar!

(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)

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