Arquivo para julho \23\UTC 2015

Vanguarda paulista: de volta ao futuro

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                Certas palavras, de tão usadas, perdem o sentido original. Algumas entram na moda e são repetidas, limadas, desgastadas, até virarem bagaço, sem gosto e sem graça. Algumas passam por um período de repouso no labirinto dos dicionários e, de repente, renascem revigoradas. Ainda espero o dia em que a palavra supimpa, que eu acho bem bacaninha, volte a ser usual. Aliás, bacaninha também anda meio fora de moda…

Conheço uma moça que sempre declara que aquele… (show, disco, filme, sorvete, etc.) é o máximo. A vida dela é feita apenas de máximos, o que acaba dando a impressão de que ela tem uma sensibilidade mínima.  Mas todo esse preâmbulo é para dizer que o encontro entre Ná Ozzetti e o Passo Torto é sensacional, arrepiante, tortuosamente belo, supimpa. Ou, como diria minha amiga, simplesmente o máximo!

A trajetória de Ná Ozzetti, uma de nossas maiores cantoras, é bem conhecida. Principal voz do grupo Rumo, na chamada vanguarda da música paulistana do final da década de 70 e meados dos anos 80, sempre foi antenada com o que de mais instigante rolou na música popular brasileira. Gravou Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e, claro, Luiz Tatit, fez releituras de Rita Lee, foi do pop ao rock sem perder a elegância. Inteligente, percebeu que uma vã-guarda não se sustenta se não tiver enraizada no passado. Fez dupla caipira com Suzana Sales, cantou com violeiros, mergulhou nos antigos com o Rumo, estudou e regravou o legado de Carmen Miranda. Também toca e compõe, o que faz com prestemos muita atenção nas canções que escolhe para interpretar.

Já o Passo Torto, com dois CDs no currículo e centenas de shows na memória do público, é venerado pelos modernos de Sampa. O quarteto formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral reúne instrumentistas-compositores-criadores de radical musicalidade. Existe uma intersecção com outras formações, como o merecidamente festejado Metá Metá (Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal). Pra aumentar a confusão, o CD de Ná Ozzetti e Passo Torto chama-se… Thiago França!

O sax de Thiago não comparece no disco, que está disponível para audição e download gratuito na rede. Mas o espírito criativo e inquieto que liga estes grupos está ali, plasmado em composições intrigantes, angulosas, estranhamente belas. Caos urbano, flashes da realidade, crônicas líricas e cruéis extrapoladas em uma música nervosa, tensa, e… (caramba, será que todos os adjetivos estarão gastos?)

Enfim, música brasileira urbana do século XXI. E, para encerrar de forma contemporânea, “boa pra caralho!”

PS: Pela primeira vez na vida uso essa expressão em público. Espero que as mocinhas do século XX me perdoem…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

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A influência do reverenciado autor X

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Desde adolescente me interesso pelo processo de criação artística. Claro que no início meu foco eram os músicos que admirava, os compositores de rock e MPB. Lembro de Chico Buarque, numa entrevista histórica, dizer que se identificava mais com Geraldo Pereira que com Noel Rosa. Paulinho da Viola venerando Wilson Batista. E John Lennon confessando a admiração pelos velhos mestres do blues.

Na faculdade, ampliei meu interesse pelas artes plásticas. Pintores que copiavam mestres até a exaustão, procurando absorver os segredos escondidos sob a tinta. Escultores e gravadores que buscavam segredos nos sketchbooks dos inspiradores. No cinema, então, é notória a adoração de alguns diretores pelos seus ídolos. Brian de Palma copiando Hitchcock, Tarantino citando os japoneses ou os western spaguetti, Herzog recriando Murnau. Isso pra não falar das centenas de copiadores e plagiadores de baixa extração, claro.

Mas em literatura ocorre um fenômeno curioso. Leio e ouço entrevistas de escritores, jovens ou veteranos, onde afirmam que sua maior influência foi X (coloque aí um figurão da literatura mundial). Flaubert, Proust, Borges, Cortazar, Kafka, e por aí vai. Parece que  surge aí uma vontade de ser maior, de dizer “veja como sou bom”, às vezes até de forma inconsciente.

Considerando que o verbo é o primeiro meio de expressão de qualquer ser humano – vamos considerar que o choro não é propriamente uma linguagem codificada – as primeiras leituras deveriam marcar para sempre o indivíduo, certo? O fascínio das primeiras histórias, dos primeiros gibis, das primeiras aventuras de capa-e-espada. Mas quem admite que foi influenciado por Walt Disney, La Fontaine ou os irmãos Grimm?

Será que só eu admiro até hoje a criatividade prodigiosa de Julio Verne? Ou a utopia africana de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan, que devorei na adolescência? Como não ser influenciado por Monteiro Lobato, leitura que me marcou para sempre? E que dizer então de Daniel Defoe, cujo Robinson Crusoé inspirou a vontade de partir para uma ilha deserta? E Alexandre Dumas pai, Jack London, a incrível Condessa de Ségur, o genial Rudyard Kipling, o assustador Melville, o lendário Robert Louis Stevenson, o fantástico Jonathan Swift? Isso pra não falar de Homero, que alguns acusam de não ter existido.

Boa parte do que li nessa fase era comprado em banca de jornal. Gibis, principalmente do Homem Aranha e do Batman. Asterix, claro, li quase todos. Depois passei pela fase dos policiais (Poe, Agatha Christie, Chesterton e Simenon, principalmente), me interessei por ficção científica (Asimov, Clark e, claro, Bradbury, que adoro até hoje). Isso pra não falar da centena de autores hoje esquecidos, mas que contribuíam para coletâneas de contos destes e de outros gêneros.

Muito do que conheci do Brasil também foi através da literatura. Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José de Alencar, e, confesso, José Mauro de Vasconcelos. Era o que havia na prateleira, e eu pegava sem preconceitos. E contos, muitos contistas. Estou falando dos anos 70, e apesar da ditadura militar, havia revistas e jornais literários ao alcance. Era uma cultura de resistência, que enfrentou a censura da época com destemor, mas acabou perdendo para o rolo compressor da cultura de massa, com sua vulgaridade colorida.

A mente era uma esponja, absorvendo tudo. Ao chegar na fase, digamos, adulta, toda essa informação literária estava sedimentada. Arquétipos narrativos, percursos estéticos, opções morais, convicções políticas, nada disso foi profundamente alterado pelo que veio a seguir. Acompanhei com atenção o realismo fantástico latino-americano, matei a curiosidade sobre a literatura beat, li diversos clássicos, encarei o Proust, o Joyce, o Guimarães Rosa e outros mitos. Confesso que, destes últimos, o brasileiro foi o que mais me tocou.

Durante metade de minha vida estabeleci a meta de ler pelo menos um clássico por ano. Balzac, Dickens (pelo qual passei batido na adolescência), Kafka, Goethe, Vitor Hugo, Faulkner, Cervantes, Machado, Graciliano e vários luminares contemplados com o Nobel (havia uma coleção de premiados, em casa). Poderia desfiar mais uma penca de nomes aqui, mas não é isso o que interessa. Mesmo porque vários figurões de outrora hoje estão desfocados na memória, e alguns caminham mesmo para o esquecimento.

Voltando ao tema “influências”, acho assombroso que um escritor declare em entrevista que sua maior influência seja o reverenciado autor X. O cara é tão limpinho que não admite a influência de todas as porcarias que leu na vida? Ou despreza a literatura dos anos de formação? Será que acredita, sinceramente, que todos os gibis, filmes, seriados de TV e catecismos (no bom e no mau sentido) não o influenciaram? Não deixaram nenhuma marca em sua maneira de pensar, na sua forma de escrever?

Gostaria muito de afirmar um dia, todo pimpão, que Machado de Assis me influencia mais que o Pato Donald. Infelizmente, por mais que soe desairoso, desconfio de que isso não condiga com a realidade…

A história da República e a música popular

Franklin

Música e crítica social. Canções satíricas. Música de protesto. Samba- exaltação.  Jingle de campanha. Rap das quebradas. Sob diversas formas, a música popular sempre comentou a política, os políticos e os poderes constituídos.

            A partir dessa constatação, o jornalista Franklin Martins começou a sua pesquisa. Primeiro como curiosidade, a coisa foi tomando vulto. Amigos de cada canto do Brasil contribuíam com gravações raras e achados inesperados. A digitalização de alguns acervos preciosos permitiu um aprofundamento do trabalho. Foram 18 anos, interrompidos apenas pela passagem por Brasília, como ministro-chefe da Comunicação Social de Lula. Ao se despedir do governo, em 2010, Franklin arregaçou as mangas e resolveu completar a tarefa ciclópica.

            O resultado é impressionante. São três volumes, que abrangem mais de 1100 canções, todas com as letras devidamente creditadas, e disponibilizadas para o leitor-ouvinte no site Quem Foi Que Inventou o Brasil. Como diz o autor, “é obra para ser lida e escutada”. Na apresentação, José Ramos Tinhorão acrescenta que é “uma obra tão original que, nela, a História não apenas se revela, mas se faz ouvir”.

            Apenas 13 anos separam o surgimento da República e as primeiras gravações comerciais no Brasil, em 1902. Várias canções populares do final do século XIX foram registradas nas primeiras bolachas, e muitas já tinham evidente viés político, temperado com muita galhofa e gozação. O bom humor, aliás, já começa no título Quem Foi Que Inventou o Brasil?, verso de uma genial marchinha de Lamartine Babo.

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Quem foi que inventou o Brasil?

O primeiro volume abrange de 1902 a 1964, cobrindo toda a República Velha, o Estado Novo e o período desenvolvimentista. São mais de 600 páginas, incluindo índice de canções, bibliografia e índice onomástico, essencial para uma obra desse tipo.

            O volume 2 vai de 1964 a 1985, cobrindo o período da ditadura militar. A era dos festivais, as canções explícitas de protesto e as marchinhas ufanistas são rememoradas, num cenário onde a censura, as prisões e o exílio estiveram presentes na vida de muitos compositores. Os hinos da redemocratização marcam o fim deste período, quando a música brasileira deixa de se agrupar em “movimentos” e multiplica-se em diversos formatos. Democrático, Franklin coloca o rock, a música caipira, o samba das quadras e a música da elite sob o mesmo holofote, evitando discriminações de ordem estética. O importante aqui é a relação com o momento político, a arte como reflexão sobre o cotidiano das pessoas.

Alvarenga e Ranchinho

            Os dois primeiros volumes foram lançados em São Paulo em junho de 2015, acompanhados da bela exposição “A Música Canta a República”, no Instituto Tomie Ohtake. Cartazes, fotos, documentos e capas de discos podem ser apreciados até o dia 02 de agosto, acompanhados pela trilha sonora do período correspondente.

            O rico material iconográfico do livro muito deve a Vladimir Sacchetta, que coordenou a pesquisa visual. Modestamente, ele diz que apenas “colou as figurinhas”. É bem mais que isso. Cartazes políticos, panfletos, fotografias, recortes de jornal, capas de revistas e de discos completam de forma magistral a extraordinária jornada musical conduzida por Franklin Martins.

Chico Buarque

O terceiro volume, que cobre de 1985 a 2002, será lançado em agosto. Trata-se de obra fundamental, que nasce ocupando um lugar de destaque na bibliografia sobre a cultura brasileira. E o que é melhor: a riqueza de informações convive de forma harmônica com uma linguagem clara e saborosa. Didático sem ser pedante, e minucioso sem ser cansativo, Franklin Martins já pode ser considerado um dos grandes historiadores de nossa música popular. Todo aplauso é merecido!

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira).