A história da República e a música popular

Franklin

Música e crítica social. Canções satíricas. Música de protesto. Samba- exaltação.  Jingle de campanha. Rap das quebradas. Sob diversas formas, a música popular sempre comentou a política, os políticos e os poderes constituídos.

            A partir dessa constatação, o jornalista Franklin Martins começou a sua pesquisa. Primeiro como curiosidade, a coisa foi tomando vulto. Amigos de cada canto do Brasil contribuíam com gravações raras e achados inesperados. A digitalização de alguns acervos preciosos permitiu um aprofundamento do trabalho. Foram 18 anos, interrompidos apenas pela passagem por Brasília, como ministro-chefe da Comunicação Social de Lula. Ao se despedir do governo, em 2010, Franklin arregaçou as mangas e resolveu completar a tarefa ciclópica.

            O resultado é impressionante. São três volumes, que abrangem mais de 1100 canções, todas com as letras devidamente creditadas, e disponibilizadas para o leitor-ouvinte no site Quem Foi Que Inventou o Brasil. Como diz o autor, “é obra para ser lida e escutada”. Na apresentação, José Ramos Tinhorão acrescenta que é “uma obra tão original que, nela, a História não apenas se revela, mas se faz ouvir”.

            Apenas 13 anos separam o surgimento da República e as primeiras gravações comerciais no Brasil, em 1902. Várias canções populares do final do século XIX foram registradas nas primeiras bolachas, e muitas já tinham evidente viés político, temperado com muita galhofa e gozação. O bom humor, aliás, já começa no título Quem Foi Que Inventou o Brasil?, verso de uma genial marchinha de Lamartine Babo.

lamartinebabo16

Quem foi que inventou o Brasil?

O primeiro volume abrange de 1902 a 1964, cobrindo toda a República Velha, o Estado Novo e o período desenvolvimentista. São mais de 600 páginas, incluindo índice de canções, bibliografia e índice onomástico, essencial para uma obra desse tipo.

            O volume 2 vai de 1964 a 1985, cobrindo o período da ditadura militar. A era dos festivais, as canções explícitas de protesto e as marchinhas ufanistas são rememoradas, num cenário onde a censura, as prisões e o exílio estiveram presentes na vida de muitos compositores. Os hinos da redemocratização marcam o fim deste período, quando a música brasileira deixa de se agrupar em “movimentos” e multiplica-se em diversos formatos. Democrático, Franklin coloca o rock, a música caipira, o samba das quadras e a música da elite sob o mesmo holofote, evitando discriminações de ordem estética. O importante aqui é a relação com o momento político, a arte como reflexão sobre o cotidiano das pessoas.

Alvarenga e Ranchinho

            Os dois primeiros volumes foram lançados em São Paulo em junho de 2015, acompanhados da bela exposição “A Música Canta a República”, no Instituto Tomie Ohtake. Cartazes, fotos, documentos e capas de discos podem ser apreciados até o dia 02 de agosto, acompanhados pela trilha sonora do período correspondente.

            O rico material iconográfico do livro muito deve a Vladimir Sacchetta, que coordenou a pesquisa visual. Modestamente, ele diz que apenas “colou as figurinhas”. É bem mais que isso. Cartazes políticos, panfletos, fotografias, recortes de jornal, capas de revistas e de discos completam de forma magistral a extraordinária jornada musical conduzida por Franklin Martins.

Chico Buarque

O terceiro volume, que cobre de 1985 a 2002, será lançado em agosto. Trata-se de obra fundamental, que nasce ocupando um lugar de destaque na bibliografia sobre a cultura brasileira. E o que é melhor: a riqueza de informações convive de forma harmônica com uma linguagem clara e saborosa. Didático sem ser pedante, e minucioso sem ser cansativo, Franklin Martins já pode ser considerado um dos grandes historiadores de nossa música popular. Todo aplauso é merecido!

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

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