Um novo olhar sobre o velho faroeste

Homesman

              Uma conversa virtual com o escritor Chico Lopes, que além de grande ficcionista é cinéfilo, autor do excelente livro de ensaios Na Sala Escura – A Arte de Sonhar de Olhos Abertos, que comentei aqui, fez com que recordássemos alguns faroestes.

            Depois de relembrarmos nomes históricos e momentos sublimes, concordamos que Rastros de Ódio, de John Ford, é o melhor de todos os tempos, e não adianta chorar ou gritar “come back, Shane”. Falamos também dos western spaghettis, das trilhas de Enio Morricone, e terminamos lamentando a morte de um gênero tão rico.

            Dizem, aliás, que é o único gênero absolutamente cinematográfico. Aquele Oeste americano que conhecemos foi criado pelo cinema, estereotipado por Hollywood e mitologizado pelos italianos. A realidade era, digamos, um pouco mais suja e inglória.

            Mas era bela, quem há de negar? O Monument Valley, em Utah, tornou-se o cenário ideal de Ford e inúmeros outros cineastas de igual ou menor calibre. Alguns, ainda mais áridos, escolheram filmar nos Great Plains, o Meio-Oeste americano. A temática esgotou-se, como filme de cangaço no Brasil. Um ou outro cineasta contemporâneo ainda arrisca sua cartada, contra a vontade dos estúdios, que preferem apostar no que está na moda. Um deles foi Clint Eastwood, um herói do western spaghetti, que filmou o belo Os Imperdoáveis em 1992. Foi o último faroeste memorável que vi, declarei.

            E o Chico: “Ah, você precisa assistir Dívida de Honra.” Embatuquei. “Do Tommy Lee Jones, de 2014. Genial!”. Confessei minha ignorância, ao mesmo tempo em que comentava a admiração por outro filme dirigido por  Lee Jones, Três Enterros, de 2005. Um filme de fronteira, ensolarado e sombrio, cínico e lírico como poucos. Só que contemporâneo, não é um faroeste clássico.

            Neste sábado resolvi encarar o último grande faroeste do cinema. E, confesso, estou arrepiado até agora. Que filme! Fotografia belíssima, desde o primeiro plano. Lembra as grandes panorâmicas de Ford, claro, mas se passa totalmente nos Great Plains. Nebraska, para ser exato. A protagonista é Hillary Swank, soberba. Solteirona de posses numa cidadezinha perdida no meio do nada, assume a tarefa de levar três loucas para suas famílias em outro estado, cruzando o deserto. Salva um homem do enforcamento (Tommy Lee Jones) e obriga-o a acompanhá-la em sua jornada.

            Num cenário grandioso e arquetípico, com direito a encontros com índios e bandidos, tudo é novo. Uma mulher no comando das ações, mas oprimida pelas convenções da época. A insanidade, tratada com delicadeza e piedade, numa época em que as pessoas ditas normais muitas vezes agiam como loucas. Não deixa de ser uma espécie de loucura viver no meio daquele inferno, escaldante sob o sol e gelado sob a lua. E as ações se embaralham, há momentos em que não sabemos direito quem é o louco desta história.

            Lee Jones se supera, como ator, diretor e autor. Swank arrasa. As três coadjuvantes são perfeitas, e até sobra um pequeno papel para Meryl Streep, no final. Roteiro magnífico, sem duelos ou pancadarias. Talvez os saudosistas sintam falta disso, mas estamos falando de um novo olhar sobre uma época que se tornou lendária através do cinema. Um olhar pleno de perplexidade, mas humano. Ou cheio de humanidade, mas perplexo.

            Em uma palavra: imperdível!

            

2 Responses to “Um novo olhar sobre o velho faroeste”


  1. 1 Rafael Galvão 09/09/2015 às 12:28 pm

    Tem um outro faroeste novo, chamado Slow West, bem curioso.


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