Arquivo para setembro \29\UTC 2015

O Canto magistral de Cida Moreira

Cida Moreira é um caso raro na música brasileira. Pianista, atriz e cantora refinada, demonstrou seu talento em dezenas de palcos, seja em peças, musicais, filmes  ou shows de variados formatos. Entertainer completa, é capaz de magnetizar plateias apenas com voz e piano. E quando escolhe os músicos que tocarão com ela, é de bom gosto à toda prova.

Cuidadosa nas escolhas, já gravou de tudo um pouco, passeando por diversos gêneros com segurança e inteligência. Um de seus discos mais memoráveis trazia canções de filmes brasileiros, outro homenageava Chico Buarque. Soledade, seu CD de 2015, é o corolário de uma carreira feita de pequenas obsessões. Estão de volta Milton e Ronaldo Bastos (Um Gosto de Sol), numa interpretação arrepiante, e temas clássicos do folclore brasileiro (Moreninha e Viola Quebrada, de Mario de Andrade), onde opta pelo acompanhamento de violões, violas e acordeom para sublinhar a sonoridade telúrica destas canções.

Chico Buarque também retorna, e de forma surpreendente. Quem mais teria coragem de regravar Construção, depois daquele arranjo original e espetacular de Rogério Duprat?  A resposta é: Cida Moreira. E a canção virou um tango trágico, com sotaque piazzollesco, em arranjo brilhante de Arthur de Faria para quinteto de cordas. Sublime!

Cida recupera preciosidades como a festivalesca Bom Dia, de Gil e Nana Caymmi, e Outra Cena, de Taiguara, faixa que encerrava o antológico LP Ymira, Tayra, Ipy, de 1976. Mergulha no rock do Joelho de Porco, com A Última Voz do Brasil, de Tico Terpins, Zé Rodrix, Ferrante Jr. e Próspero Albanese, e relembra a inusitada parceria de Macalé com Brecht (Poema da Rosa).

Mas Cida não seria Cida Moreira se ficasse apenas presa ao passado. Há várias canções novas, de músicos-parceiros que tocam no disco. A bela Forasteiro, parceria de Thiago Pethit e Helio Flandres, a provocante Oitava Cor, de Luiz Felipe Gama e do português Tiago Torres da Silva, a feroz O Pulso (Titãs), em arranjo eletroacústico que vira de cabeça pra baixo a gravação original, inserindo uma citação de Queda, de André Frateschi. O amigo Nico Nicolaiewski, morto em 2014, é lembrado com a existencial Feito Um Picolé no Sol.

Completam o CD um poema de Alice Ruiz, e duas vinhetas musicais, uma de Arthur Nogueira e Dand M (Preciso Cantar) e outra de Noel Rosa e João de Barro (Pastorinhas), que encerra o disco. Uma viagem magistral por um país onde, segundo a própria cantora, coisas belas estão desaparecendo, enquanto outras vão surgindo. Uma escolha muito pessoal, mas que Cida Moreira interpreta com tal força que acaba dividindo com todos os ouvintes a sua emoção. Um disco definitivo de uma magnífica cantora, com arranjos primorosos e músicos excepcionais. Ouça aqui:

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As aves e seus estranhos nomes

      Sempre tive uma queda por Biologia. Desde menino me encantava com o voo das aves, a beleza das flores, o silêncio dos peixes. Biologia foi minha segunda opção no vestibular, mas acabei entrando em Cinema na USP.  A turma ficava espantada quando eu dizia que queria fazer filmes como… Jacques Cousteau! Todos citavam mestres do cinema, nomes de vanguarda, glauberes e godardes como ídolos.  Sempre gostei de ficção, não nego, e este lado criativo do cinema também me pegava. Meu favorito era Chaplin. “Oh…”, respondiam, com surpresa e desdém. Não parecia moderno, mas era eterno.

     Muita ave migrou por cima da ponte depois disso, e acabei virando um ornitólogo amador, depois de comprar uma máquina fotográfica mais robusta. Antes só tive daquelas compactas, nunca liguei muito para a tecnologia. Clicá-las em seu ambiente virou um passatempo, às vezes uma obsessão. Até hoje tenho amigos que não entendem o fato de eu passar a noite tomando cerveja, batendo papo e tocando violão na praia, e às sete horas da manhã já estou no meio do mato, procurando uma espécie nova. Cada um tem sua forma de combater o estresse.

     Mas a curiosidade não é só visual. Como gosto de etimologia, sou fascinado pelo nome das aves. Os populares são regionais, e variam muito. O nome científico é rigoroso, único, mas ambos trazem surpresas deliciosas. Vou deixar o latim para outra ocasião, fiquemos com a linguagem do dia a dia.

     Há nomes curiosos, engraçados e enigmáticos. Alguns até corriqueiros, nem prestamos muita atenção neles. Viuvinha, freirinha, noivinha… Por que a insistência no gênero feminino? Não existe um viuvinho ou noivinho. Fradinho sim, só que é uma ave ártica, não existe no Brasil.

fradinho

      Vamos ficar com os nativos. Você conhece um pássaro chamado garrinchão-pai-avô? Parente da simpática corruíra de nossos quintais. Ninguém sabe se é pai ou avô. E casaca-de-couro-da-lama? Primo do joão-de-barro, claro. Tem o gibão-de-couro também, mas é primo das andorinhas. Já o ferro-velho, um simpático passarinho da Mata Atlântica, tem um nome bem misterioso. Alguns relacionam com sua vocalização, mas é preciso muita imaginação para achar que aqueles trinados pareçam… ferro velho!

      A curiosa família das marrecas, com várias espécies brasileiras, também capricha nos nomes. A marreca-toicinho já cliquei, na represa de Guarapiranga, em São Paulo, assim como a marreca cri-cri. Ela não é chata, como o nome faz supor, mas tem uma voz, digamos, meio esganiçada. A campeã do grupo é a marreca-pé-na-bunda (juro!), que só ocorre no sul do país. Não encontrei razão satisfatória para este nome, até hoje…

     A vocalização das aves muitas vezes influencia seu nome. Temos risadinha, gritador, assobiador, piador, cantador, chorão, chorona-cinza e chororó, além de inúmeros onomatopaicos. Até aí parece lógico, até uma criança chama cachorro de au-au e gato de miau. Mas o universo não é tão simples.

     A categoria dos joões está bem representada. Temos joão-bobo, joão-de-pau, joão-baiano, joão-chaquenho, joão-botina-do-brejo, joão-xique-xique, joão-da-palha e joão-corta-pau, além do já citado joão-de-barro. Um dos primos do joão-bobo se chama rapazinho-dos-velhos, mas também é conhecido como apara-bala e bico-latão. Esse caprichou!

rapazinho-dos-velhos

      As marias, pra variar, ganham dos joões: maria-cabeçuda, maria-faceira, maria-cavaleira, maria-leque, maria-ferrugem, maria-fiteira, maria-picaça, maria-preta-bate-rabo e maria-te-viu, além da gaivota maria-velha. A maria-te-viu não é parente do bem-te-vi, nem do pitiguari, que em algumas regiões é chamado de gente-de-fora-vem.

      Meu sonho é registrar o cambada-de-chaves, um pequeno tangará azulado que ocorre em grande parte da Mata Atlântica. Fala sério: cambada-de-chaves? Dizem que tem a ver com a vocalização, mas vamos combinar que o coletivo de chave nunca foi cambada, certo?

Cambada-de-chaves

       E tem o gavião-bombachinha, o ferreirinho-relógio, o beija-flor-brilho-de-fogo, a corujinha-sapo, o periquito-testinha, o tuim-santo, o mocho-diabo, a mãe-da-lua, a mãe-de-taoca (taoca é formiga em língua indígena), o saci, a saracura-três-potes, o chora-chuva, a curica-urubu, o rabo-branco-de-bigodes, o capitão-de-bigode-limão…  São mais de 1800 espécies no Brasil, e tem muito nome regional que ainda não foi registrado.

      Ou seja, não se trata apenas de fotografar aves, mas de fazer um verdadeiro mergulho na cultura popular brasileira.

A Viagem de James Amaro

A-viagem-de-James-Amaro (1)              Precisei respirar por uns dias após a leitura do último romance de Luiz Biajoni (A Viagem de James Amaro, Língua Geral, 2015).  Dar um tempo, como se diz. São pouco mais de 120 páginas, mas daquelas que dão vontade de reler, várias vezes.

                É fácil resumir o enredo. Dois amigos de colégio se reencontram, depois de muitos anos, e resolvem fazer uma viagem de carro, de Americana a Paraty. Embalados por uma trilha jazzística, procuram se (re)conhecer. Revelações de alta octanagem irão elevar o grau de combustão emotiva, até o final.

                Parece simples, como um tema musical. Os mestres do jazz adoravam ideias simples e marcantes, que desenvolviam, desdobravam, multiplicavam e exploravam até os mínimos detalhes. Dominar o mistério da invenção é o que diferencia um músico genial de um medíocre. O romance de Biajoni, não por acaso, encara o desafio de transformar um mote aparentemente banal num episódio de provocantes explorações psicológicas e existenciais..

                Amores, desamores, dinheiro, sexo, poder, desigualdade social, acertos de contas com o passado. Tudo é motivo para nos aprofundarmos na hipnótica narrativa de Luiz Biajoni, que tem a sabedoria de colocar algumas surpresas no entrecho. O escritor age como um músico experiente, que conduz a melodia aparentemente conhecida até o momento em que introduz um chorus inesperado. Por alguns segundos há certo desconforto, com a impressão de estarmos entrando em território desconhecido, mas o talento do narrador aguça nossa percepção e nos leva à fruição num patamar mais elevado.

                Li e comentei aqui no Fósforo a Comédia Mundana, reunião de três “novelas sacanas” de Luiz Biajoni. A Viagem de James Amaro é mais profunda, mais tocante e real. Em comentário no posfácio, Daniel Martins dá pistas sobre os personagens, que teriam convivido de fato com o autor. Não importa o quanto há de verdade na história, mas sim o quanto ela é verossímil. E Biajoni, jornalista de profissão, acostumado a relatar fatos reais, consegue aqui a mescla perfeita entre ficção e realidade, utilizando os grandes temas do jazz para marcar o andamento da narrativa.

A viagem que James Amaro e Alex Viana realizam  altera radicalmente a vida dos personagens. E nós, leitores, também não passamos incólumes por essa experiência.

O retorno do Terno

Um erudito e cuidadoso comentário do escritor Edmar Monteiro Filho sobre o romance Terno de Reis. Saber que um livro meu propicia uma reflexão desse nível me dá a confirmação de que valeu a pena escrevê-lo.

Capa Daniel Brasil 07-05-2015.indd“Na abertura de O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Karl Marx acrescenta à ideia de Hegel, segundo a qual os acontecimentos marcantes da história acontecem duas vezes, que a primeira se daria em forma de tragédia e a segunda como farsa. Assim, as grandes convulsões históricas acabariam se repetindo no futuro, ainda que desvestidas de seu potencial trágico e tornadas simulacros de si mesmas. Tal afirmativa parece alimentar-se do próprio conteúdo, pois foi defendida em diferentes momentos por diferentes pensadores, políticos, artistas, gente de toda ordem, nos mais diversos contextos, em geral com o intuito de evidenciar essa espécie de falta de originalidade que acomete periodicamente o desenrolar dos acontecimentos.
Uma ideia complexa, lançada na corrente sanguínea do pensamento humano, tende a se adaptar, diluir, transformar. Não é simples inferir se Hegel e Marx referem-se a toda a vastidão das ocorrências humanas, mas é possível estabelecer um vínculo entre tal concepção e o antigo mito do “eterno retorno”, presente em tradições antiquíssimas e usado por Nietzsche em diversos momentos de sua obra. Joseph Campbell, em As máscaras de Deus, aponta a origem das imagens do eterno retorno e do tempo cíclico na mitologia oriental. Os ciclos básicos da natureza – como dia/noite, nascimento/morte – representariam um milagre de ressurgimento contínuo, essencial para a continuidade do universo. As ações humanas, inseridas nessa dinâmica, mergulhariam num incessante fluxo de repetições. Mas, afirma Campbell, “para aqueles que encontraram o ponto imóvel da eternidade, em volta do qual tudo gira, inclusive eles próprios, tudo é aceitável da maneira como é, e pode ser vivenciado como magnífico e maravilhoso”.
No Antigo Testamento existem menções ao fascinante mito do tempo cíclico em Eclesiastes, 1:9: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol.” Tal concepção é contestada pelo cristianismo, que estabelece um sentido – o Juízo Final – para a história humana. Entretanto, conforme aponta o jornalista francês Gilles Lapouge, mesmo nessa tradição o mito se mantém vivo através celebração da Páscoa, do Natal e de outras datas religiosas. Assim, da mesma forma que nas festas de aniversário e em outras comemorações laicas que se repetem periodicamente, é possível tornar indissociáveis o passado, o presente e o futuro. Talvez a estratégia por trás desses encontros marcados com o tempo seja cultivarmos um sentimento de eternidade.
Um dos principais méritos do romance “Terno de Reis”, de Daniel Brazil, é revisitar a ideia de uma eternidade possível, por meio de uma proposta absolutamente original. Não utiliza propriamente a tese do tempo cíclico; não trata de reencarnação. Mas, à sua maneira, o livro aborda o tema do eterno retorno.
Não me recordo de outra ocasião em que tenha sido tão difícil discorrer acerca de um texto, no sentido de não revelar detalhes de seu surpreendente enredo. É preciso cuidado, pois mesmo ligeiras menções podem antecipar algumas descobertas que o leitor haverá de fazer páginas adentro. Sem correr muitos riscos, é permitido dizer que a narrativa tem início em Amparo, cidade com a qual o autor mantém fortes vínculos afetivos. O protagonista da primeira parte do livro, José Abade dos Reis, deixa a fazenda onde crescera para trabalhar como caminhoneiro. Entretanto, tempos depois, o acaso se encarrega de promover seu reencontro com duas personagens de sua infância. O pano de fundo é a ditadura militar e José Abade descobrirá, em pouco tempo, que não é possível se manter neutro quando uma guerra está sendo travada ao seu redor. Mais adiante, afirma: “Uma vida nova não significa esquecer o passado”. Nessa altura, personagem e leitor já estão cientes do quanto a expressão “vida nova” pode assumir um sentido radical.
Não há que se explicar como e por que o personagem irá se deparar com o “Grande Segredo”, capaz de mudar sua existência de modo inusitado. Mas o grande segredo do livro talvez seja inventar uma fascinante hipótese para reencantar a vida a partir de novos olhares. Curioso que, por fim, a sedução pela literatura seja mais forte que o próprio apelo à imortalidade. Contar é, de certa forma, outra possibilidade de viver para sempre.”

(Terno de Reis pode ser adquirido diretamente da editora Penalux).

Manzano, o poeta-escravo

Poeta-escravoNão se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve,  foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Pelas mãos do escritor Alex Castro, finalmente Manzano é traduzido entre nós. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta transcriação é a indicada para quem quer ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa  linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

Alex Castro não se limitou ao livro, publicado no Brasil e em Cuba. Criou também uma página na internet onde podemos conhecer um pouco mais sobre essa figura incrível. Ali está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, tão rico em significados. Confira!


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