Trumbo e o macarthismo

Dalton Trumbo é um nome desconhecido para a maioria dos brasileiros. Muitos ficam surpresos ao saber que o cara enganou todo o establishment de Hollywood e ainda assim levou dois Oscars usando pseudônimos, além de um com o nome real. Não porque quisesse, mas porque a infame perseguição ideológica durante o período da Guerra Fria o obrigou a trabalhar de forma clandestina.

                Durante a 2ª Guerra, a aliança dos EUA com a URSS, contra o nazismo,  fez com que americanos de esquerda, socialistas e comunistas se organizassem livremente na “maior democracia do mundo”. Terminada a guerra, a disputa entre as duas potências mudou o clima interno. Qualquer um que fosse acusado de ser vagamente de esquerda era estigmatizado, ofendido, visto como traidor. Milhares perderam seus empregos, muitos foram presos e condenados sem a menor prova. O caso mais emblemático foi o de Ethel e Julius Rosenberg, condenados e executados por supostamente venderem segredos militares para os soviéticos nos anos 50, o que nunca se comprovou. O caso rendeu protestos e manifestações em todo o mundo, e Daniel, romance de E.L. Doctorow sobre o filho do casal, virou filme em 1983, dirigido por Sidney Lumet.

Daniel Lumet

                A paranoia fascista do macarthismo foi dirigida principalmente a sindicatos, associações de trabalhadores, universidades, artistas e intelectuais. Nada muito diferente do que vivemos hoje no Brasil, com agressões públicas a pessoas de esquerda, sejam políticos, sindicalistas ou artistas. A maior diferença é que lá o Congresso perseguia e punia sem provas, aqui a própria Justiça se encarrega disso.

Hollywood, claro, não escapou à sanha persecutória. Atores, diretores e roteiristas foram convocados para explicar suas atividades “subversivas” em Washington, perante uma comissão parlamentar liderada pelo senador McCarthy. O grupo chamado de “Os Dez de Hollywood” tornou-se um símbolo, por declarar o depoimento ilegal e se recusar a responder, alegando em sua defesa a Primeira Emenda da Constituição americana. Para os democratas, um símbolo de resistência. Para a grande maioria do povo, manipulado pela mídia e suas manchetes escandalosas, símbolo de “traição à pátria”.

Hollywood-Ten

Esposa e filhos de Trumbo seguram a placa com seu nome

Trumbo era um deles. Ao sair da prisão, com o nome na lista negra dos grandes estúdios, começou a escrever na clandestinidade. Vendeu roteiros vagabundos de filmes classe C, que escrevia em três dias, para sustentar a família. Um desses filmes, The Brave One (Arenas Sangrentas, no Brasil) foi surpreendentemente indicado para o Oscar de melhor roteiro em 1956. Premiado, o misterioso autor Robert Rich não compareceu, sendo o primeiro Oscar não recebido da história. Outro filme, Roman Holiday (A Princesa e o Plebeu), vencedor dois anos antes, tivera o Oscar de melhor história original recebido por Ian McLellan Hunter, amigo de Trumbo que serviu de testa-de-ferro.

Roman Holiday

Audrey Hepburn e Gregory Peck

            Testa-de-Ferro por Acaso, aliás, é um filme de 1976, dirigido por Martin Ritt e estrelado por Woody Allen, que narra de forma ficcional este subterfúgio utilizado por Trumbo e seus colegas durante o macarthismo. Não por acaso, o filme tem a participação de Zero Mostel, comediante que esteve na lista negra. O antissemitismo se confundia com o macarthismo, e muitos judeus, como Mostel, foram acusados de simpatia pelo comunismo. Nem Charles Chaplin escapou dessa…

Mostel Allen

Mostel e Allen

Chega agora às telas Trumbo – Lista Negra, dirigido com habilidade por Jay Roach e interpretado de maneira admirável por Bryan Cranston, indicado ao Oscar de melhor ator. Centrado na figura de Dalton Trumbo, o filme mostra seus conflitos, a crise familiar, a sua firmeza de caráter (que às vezes se confundia com teimosia), e principalmente a sua genialidade. O cara escrevia na banheira, se entupindo de álcool, tabaco e anfetamina, e produzia a tal ponto que chefes de estúdio notoriamente direitistas acabaram tendo que engolir seus roteiros.

trumbo-bath-jpg

            Amigos pessoais, como Edward G. Robinson, fraquejaram perante a inquisição, e delataram os companheiros. Outros perderam família, emprego, propriedades e até a vida. Direitistas como John Wayne, Ronald Reagan e Hedda Hopper são retratados fielmente, e liberais como Kirk Douglas e o diretor Otto Preminger acabam se tornando os responsáveis pelo resgate de Trumbo, contribuindo com isso para o fim da odiosa lista negra. Convidado por Douglas, Trumbo assina o roteiro de Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick, com seu verdadeiro nome.

            O filme termina com esse retorno triunfal. Mas Trumbo não parou nos anos 60. O único filme que dirigiu na vida é o clássico antibelicista Johnny Vai à Guerra (1971), baseado numa novela de sua própria autoria. Um forte e comovente libelo contra a insanidade da guerra, seja ela qual for (no caso, era a Primeira Mundial). O último roteiro que escreveu foi para o filme Papillon (1973), dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Steve McQueen e Dustin Hoffman.

            Quando cursei Cinema, em meados do século passado, Trumbo já era um mito. Quando me tornei roteirista, já ocupava lugar de destaque no meu panteão. Finalmente um filme faz justiça a esse grande nome do cinema, responsável por grandes histórias e diálogos memoráveis. A única indicação ao Oscar de 2016 é para o (excelente) Bryan Cranston, porque roteirista e diretor que mexa com esses esqueletos escondidos no armário hollywoodiano ainda não é muito bem visto pelos poderosos. É também notável a atuação de Helen Mirren interpretando a jararaca Hedda Hopper, célebre colunista de fofocas que delatou muita gente do meio artístico.

            Enfim, um filme digno, muito bem realizado, que joga luz sobre um período que muitos americanos gostariam de esquecer. E reverencia a figura exponencial de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas e escritores que Hollywood teve a honra de acolher/perseguir/punir/reabilitar.

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