A canção renovada de Manuela Rodrigues

 

Manuela

            O novo CD de Manuela Rodrigues tem a capacidade de nos surpreender. Aliás, essa é uma marca da inquieta compositora e cantora baiana desde que lançou seu primeiro disco, Rotas, em 2003. Depois do festejado Uma Outra Qualquer Por Aí (2011), onde experimentações radicais conviviam com uma poética instigante, Manuela lança agora Se a Canção Mudasse Tudo, pela Natura Musical (Ouça aqui).

            A primeira impressão é de estarmos diante de uma artista plena, madura, mas nunca acomodada. Autora de 11 das 14 faixas, Manuela Rodrigues demonstra sua versatilidade misturando estilos, criando melodias angulosas e utilizando sonoridades incomuns. Aluna aplicada das lições tropicalistas, não teme lançar mão do precioso acervo musical brasileiro, como na Marcha do Renascimento, uma marcha-rancho de letra maternal (seu filho nasceu durante as gravações do CD) ou no simpático samba Nenhum Homem é Uma Ilha, parceria com João Cavalcanti (Casuarina), que a acompanha nos vocais. No bolero pós-moderno Amor de Carne e Osso quem divide o microfone é a carioca Silvia Machete.

            Como já tinha feito no disco anterior, Manuela volta a gravar uma intrigante canção de Rômulo Fróes e Clima (Vai Que Eu Desembeste), de letra quase concretista.  Faz também uma boa releitura de Gil (Extra 2 – O Rock do Segurança) e canta Ronei Jorge (Risos) com um arranjo inspirado. Mas é em grandes canções autorais, como Rede Social, que ela reafirma sua condição de fina observadora do nosso cotidiano midiatizado.

            A riqueza sonora do disco também se deve a uma decisão acertada: as faixas têm diversos produtores (André T, Tadeu Mascarenhas, Gustavo Di Dalva, Luciano Salvador Bahia e João Milet Meirelles). E a artista se declara na letra-manifesto da faixa de abertura, Lista:

                Conservar velhos amigos/ deixar diferenças de lado                                                               Aceitar o novo/ novo é novo/ libertar o passado.

Enfim, Manuela está menos “Tom Zé” que no disco anterior, embora esta influência ainda apareça nítida na ótima Desejo Batuque. No conjunto, soa mais pop, mais lírica, cercada de ótimos músicos, e está cantando como nunca. Se a Canção Mudasse Tudo é um grande e ensolarado disco que vem lá da Bahia para iluminar este conturbado ano de 2016.

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

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