O Rei Condenado à Morte

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                Há contistas que são fiéis a um estilo, que modelam suas narrativas com a mão firme de um alfaiate que sabe como fazer o melhor terno, e não perde tempo arriscando-se a fazer outras peças. Outros são múltiplos, experimentadores e, muitas vezes, surpreendentes. Após terminarem uma história, dão uma guinada e apontam o sextante para outra direção. Ambos podem errar ou acertar, e isso faz parte do encanto da literatura. Um trem que anda sempre nos trilhos também descarrilha. Um pássaro de voo livre pode trombar com uma vidraça.

                Edmar Monteiro Filho é do segundo tipo. Contista várias vezes premiado, também se arrisca na poesia, no romance e na crítica literária. E acaba de lançar sua ultima coletânea de contos, O Rei Condenado à Morte & outras histórias, pela Editora Penalux. Passei o feriado lendo e relendo, deliciado, as oito narrativas do volume de 200 páginas.

                Deixarei de lado o pernosticismo de chama-lo de Monteiro Filho, como fazem alguns resenhistas. Edmar tornou-se um amigo, nos caminhos literários da vida, e é pelo prenome que me sinto à vontade de nomeá-lo. Mas quando acabei de ler a última página, soltei um PQP e berrei para as estrelas, da varanda da casa onde estava, no último feriado, no interior de São Paulo: “Edmar Monteiro Filho, você escreve bem pra c*!”

                O conto-título, que abre o volume, é um denso, reflexivo e emocionante relato sobre futebol. O Rei, bem, todos sabem quem é. O foco são os personagens secundários, os coadjuvantes, as vítimas tombadas no campo de batalha. Viajamos da Copa de 58 até certa noite de domingo no Maracanã, onde a expressão “milésimo gol” passou a ser propriedade del Rei. E somos convidados a meditar sobre alguns centímetros ou uma fração de segundo, que podem ser decisivos para a glória ou o opróbio.

                O conto seguinte, 1º De Janeiro É o Dia dos Mortos, já nasceu antológico. Vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, da RFI francesa, é simplesmente um dos melhores contos policiais que já tive o prazer de ler. Cenário noturno paulistano, com uma pitada de Cortazar temperando o final.

              Aliás, Cortazar é uma influência importante na obra de Edmar. Mas não única, é bom salientar. O conto seguinte, Água Suja, lembra o cotidiano sufocante e burocrático de Kafka, e remete a procedimentos típicos do noveau roman, de Robbe-Grillet. Os mais sabidos hão de me lembrar que o próprio Cortazar também amava Kafka e foi influenciado pelo noveau roman, e não discordarei. A cultura literária de Edmar, que parece ter lido tudo, pode se dar ao luxo de brincar com todas estas referências, acrescentando novas clivagens.

               Então saltamos para Gêmeos, conto maravilhoso, fábula oriental com uma narrativa recortada em dois tempos/vozes, de beleza incomum. Talvez seja o conto onde a maestria da escrita, o domínio do léxico e a complexidade da arquitetura ficcional sejam mais evidentes. Mas para aceitar essa verdade temos de esquecer que a aparente simplicidade de outros contos pode ocultar uma profunda elaboração. É preciso dominar com perfeição todos os recursos narrativos para provocar essa deliciosa confusão em nossa mente.

                O Cavaleiro Negro contra o Matador de Cangaceiros tem um cenário mais familiar, e pela primeira vez senti ecos de um conto de outro livro do escritor, Que Fim Levou Ricky Jones? A narrativa pelos olhos de um menino, onde heróis e vilões se confundem com a vida real, é um tema caro ao autor, e essa visão aparentemente inocente de um ser que descobre as anfractuosidades do mundo comparece em outros momentos de sua obra.

            Em Voador, admirável quebra-cabeças narrativo, os personagens são Kublai Khan, Marco Polo, Italo Calvino, o rei V. e – por que não revelar – o próprio Edmar. Novamente somos introduzidos num clima de fábula, viajando no tempo e no espaço, indo da China à Florença, passando por Amparo, no interior de SP.

            Alfinete é o conto mais curto do livro. Mexe com nossos medos, com os limites da loucura e do improvável. Aí me senti num terreno mais borgiano que cortazariano, e aplaudi o final magistral. Sou meio antiquado, não resisto a uma chave de outro encerrando uma narrativa!

         O conto que encerra o volume, Raul, Raul, promove um reencontro com cenários brasileiros, com histórias de meninos, sinhás e empregados no ambiente rural. Bem distante do realismo dos modernistas, carrega uma atmosfera de vaga insanidade, de alguma coisa fora do lugar. É conto pra ler e reler, saboreando as sutilezas da escrita e as mudanças de perspectiva dramática que delineiam o personagem.

Este é um livro que vai morar em minha cabeceira por muito tempo, e certamente vai provocar novas leituras. Edmar se consolida como um dos melhores contistas brasileiros em atividade, e não cansa de me surpreender. Felizmente.

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