Releituras 2016, primeiro semestre

Gregorio-de-Matos

Como já comentei algumas vezes por aqui, há bom tempo coloco na minha meta anual de leitura pelo menos um clássico. Como pratico isso há mais de trinta anos, já deu pra ampliar um pouco a visão. Creio que se viver até uns 180 anos terei o conhecimento de um Harold Bloom. Como infelizmente acho que não chegarei lá, fico satisfeito em me tornar um pouquinho menos inculto.

            2016 começou diferente. Passei o réveillon (caramba, ninguém ainda inventou uma tradução para essa palavra?) na praia e, sei lá por que, resolvi reler Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, do qual só havia lido alguns capítulos na faculdade. Leitura indispensável para quem se interessa pela formação do povo brasileiro, da nossa cultura. É primorosa a diferenciação que ele faz entre a colonização espanhola e portuguesa, a partir do traçado básico das ruas, das cidades. Leitura tão rica que me fez ler trechos em voz alta, empolgado, para a seleta plateia que me acompanhava. Felizmente ninguém reclamou.

            Na mesma semana, em Barequeçaba, li O Relato de Um Náufrago, de Gabriel Garcia Marquez. O livro surgiu de uma entrevista que o então  jovem jornalista GGM fez com um sobrevivente do naufrágio de uma corveta da Marinha colombiana, ao voltar uma reforma nos EUA. O cara sobreviveu dez dias agarrado a destroços, em pleno Caribe, até pisar em terra firme. Virou herói nacional, e o ditador de plantão (Pinilla) fez questão de condecora-lo.  O ponto alto da narrativa é a revelação de que o navio vinha carregado de muamba, eletrodomésticos e bebidas, e a denúncia custou a Márquez seu primeiro exílio, aos 28 anos, além da retirada da medalha do marinheiro. “O que não sabíamos, nem o náufrago nem eu, quando tentávamos reconstituir minuto a minuto a sua aventura, era que aquele rastrear esgotante haveria de nos conduzir a uma nova aventura, que causou uma certa agitação no país, que custou a ele sua gloria e sua carreira e que a mim poderia ter custado a pele”. Nada mau!

            Imagino quantas reportagens poderiam ser feitas no Brasil, envolvendo militares das três armas, sobre desvios, contrabandos, subornos, etc. São muitos anos de ditadura, e poucos jornalistas dispostos a desvendar pequenas histórias. Ninguém até hoje sabe direito quanto custou a ponte Rio-Niterói…

            Um mês depois estava em Cunha, no alto da Serra do Mar, e me bateu uma vontade de reler Guimarães Rosa. Sagarana, o volume de contos que o consagrou, é uma delicia absoluta. Se algum autor brasileiro merece ser chamado de genial, é ele. Penso na velha diferenciação criada por Pound: gênio inventa novas formas, mestre domina com perfeição as formas de seu tempo. Temos alguns mestres, certamente, e Machado talvez seja o maior deles. Mas o velho Rosa… Até arrisquei escrever um conto depois da releitura de Sagarana, mas tranquei num cofre com instruções expressas para que seja publicado quando eu tiver 180 anos. Meu tataraneto compreenderá.

            De lá pra cá o semestre tem sido mais conturbado. Leituras incidentais, alguns contemporâneos, um pouco de mainstream (outra palavrinha demandando tradução), poesia rarefeita, muito debate político virtual. Quando achei que a temporada de clássicos estava encerrada, minha amiga Fernanda me presenteou com dois volumes, em maio. A compilação definitiva da obra de Gregório de Matos feita por seu pai, James Amado. Como resistir?

            Estou há vários dias convivendo com o Boca do Inferno. Leitura de cabeceira, ora lírica, ora satírica. Quando ele dirige invectivas alexandrinas para o governador Tucano, sinto uma estranha sensação de atualidade. O semestre já valeu, e levarei essas releituras para sempre. Serão úteis, mesmo que minha memória comece a falhar depois dos 120…

 

2 Responses to “Releituras 2016, primeiro semestre”


  1. 1 Jussara 20/06/2016 às 7:16 pm

    Bela meta! Reler Sagarana, anotado. Esse semestre reli O Alienista de Machado, nada mais atual estamos todos na Casa Verde, rs
    Beijos

  2. 2 Daniel Brazil 20/06/2016 às 7:19 pm

    Grande releitura, Jussara. De fato, a Casa Grande está pintada de verde, no Brasil…


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