Arquivo de outubro \12\UTC 2016

Paixões equatoriais

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          Foi com certo receio que encetei a leitura de Equador, a obra mais conhecida do escritor português Miguel Sousa Tavares. A única coisa que havia lido dele havia sido a curta narrativa No Teu Deserto, um relato de viagem no deserto do Sahara, onde o primeiro parágrafo já avisava, cruamente, “No fim tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances.” Um réquiem de juventude, feito de aventura, luz e areia.

                O romance Equador é ambicioso. Mais de quinhentas páginas de reconstrução da vida na colônia portuguesa de São Tomé e Príncipe, ilhas situadas ao largo da África, bem na linha do Equador, no início do século XX. Portugal ainda é um império colonial em 1905, e o rei D. Carlos convoca Luís Bernardo, um jovem, rico e culto dândi de Lisboa, para uma missão: governar a província por quatro anos e convencer o mundo de que Portugal não usa mais trabalho escravo em seu território. Luís Bernardo é um liberal, herdeiro de uma pequena companhia de navegação, e alguns textos seus publicados sobre a modernização das colônias e o fim da escravatura impressionaram o Império.

                São Tomé é o segundo maior produtor de cacau do mundo, só perdendo para a Bahia. Os ingleses, que tem um tratado com Portugal sobre a extinção do trabalho escravo, querem eliminar o concorrente. Enviam para lá um cônsul, também jovem e brilhante, vindo da Índia, que deve averiguar as irregularidades e denunciar a quebra das regras do acordo.

              Com todos os saborosos detalhes da adaptação de europeus aos Trópicos, a narrativa ganha intensidade ao focar no explosivo triângulo amoroso surgido entre o português Luís Bernardo, o inglês David Jameson e sua bela esposa, Ann. Embora escorregue em alguns chavões eróticos, o romance mantém a tensão do enredo, esticando as cordas da disputa política-racial-ética-étnica-sexual-filosófica até o final.

                Miguel Sousa Tavares, filho da grande poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, empenhou-se a fundo em seu romance de estreia. A bibliografia de referência é digna de uma tese de doutorado. Mesmo assim, o resultado é equilibrado, flui com naturalidade. Romance de fatura clássica, sem grandes invenções formais, mas de inegável competência em sua arquitetura. Uma história que te faz viajar para outra época e latitude, porém muito próxima do Brasil colonial que conhecemos tão de perto.

A Confissão da Leoa

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     Confesso que minha relação com a obra de Mia Couto era dúbia. Um sujeito simpático, humanista, cultor de pequenos achados poéticos disfarçados em prosa. O primeiro livro que li dele, O Último Voo do Flamingo, era assim, assim. Um começo original, uma mistura entre realidade e magia onde o ponto ideal estava sempre um pouco além (ou aquém). Hábil na linguagem, algumas coisas mal resolvidas no enredo. A influência de Guimarães Rosa na literatura africana é algo ainda a ser devidamente avaliado, mas Mia Couto certamente bebeu dessa fonte.
Fiquei tentado a ficar apenas nos epigramas engenhosos que me chegam à tela do computador. Até que ganhei de uma amiga querida A Confissão da Leoa. Já faz algum tempo, mas como há sempre uma pilha de livros em minha cabeceira, a vez só chegou agora.
Na semana passada terminei a leitura, dentro de um ônibus de viagem entre Guaratinguetá e São Paulo. Comovido até as lágrimas, que enxuguei discretamente, reli vários trechos. É simplesmente maravilhoso, no sentido original da palavra. Os limites entre real e fantástico, entre ficção e estudo antropológico, são dissolvidos com muita habilidade.
Em uma aldeia nos confins de Moçambique, leões começam a matar as pessoas. Um caçador profissional é chamado da capital para resolver o problema. Narrado em duas vozes, pelo próprio caçador e por uma mulher da aldeia, logo percebemos que houve algo entre eles, há alguns anos. Um escritor acompanha a jornada do caçador, embora não seja nunca o protagonista das ações. O próprio Mia Couto indica, no prefácio, que esteve numa situação parecida, e dali extraiu o seu relato. Nada é o que parece ser, e os papéis vão se metamorfoseando durante o entrecho, ao mesmo tempo em que se revelam as mazelas tribais: o machismo onipresente, a voz sufocada das mulheres, a religiosidade obscurantista, a política local. Tribais, eu disse? Não, presentes até hoje numa aldeia do tamanho de São Paulo.
Diziam os gregos, lá no início dos tempos e das lendas, que a paixão depende muito mais do sujeito que do objeto. De repente, num belo dia, aquele/a jovem acorda predisposto a se apaixonar, e o primeiro ser bípede que passa à sua frente vira objeto de desejo e adoração. Não sei se em literatura a coisa funciona assim, mas A Confissão da Leoa me pegou de guarda baixa, e fui totalmente enredado. Vou reler muitas vezes, como quem revisita um poema favorito.