Paixões equatoriais

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          Foi com certo receio que encetei a leitura de Equador, a obra mais conhecida do escritor português Miguel Sousa Tavares. A única coisa que havia lido dele havia sido a curta narrativa No Teu Deserto, um relato de viagem no deserto do Sahara, onde o primeiro parágrafo já avisava, cruamente, “No fim tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances.” Um réquiem de juventude, feito de aventura, luz e areia.

                O romance Equador é ambicioso. Mais de quinhentas páginas de reconstrução da vida na colônia portuguesa de São Tomé e Príncipe, ilhas situadas ao largo da África, bem na linha do Equador, no início do século XX. Portugal ainda é um império colonial em 1905, e o rei D. Carlos convoca Luís Bernardo, um jovem, rico e culto dândi de Lisboa, para uma missão: governar a província por quatro anos e convencer o mundo de que Portugal não usa mais trabalho escravo em seu território. Luís Bernardo é um liberal, herdeiro de uma pequena companhia de navegação, e alguns textos seus publicados sobre a modernização das colônias e o fim da escravatura impressionaram o Império.

                São Tomé é o segundo maior produtor de cacau do mundo, só perdendo para a Bahia. Os ingleses, que tem um tratado com Portugal sobre a extinção do trabalho escravo, querem eliminar o concorrente. Enviam para lá um cônsul, também jovem e brilhante, vindo da Índia, que deve averiguar as irregularidades e denunciar a quebra das regras do acordo.

              Com todos os saborosos detalhes da adaptação de europeus aos Trópicos, a narrativa ganha intensidade ao focar no explosivo triângulo amoroso surgido entre o português Luís Bernardo, o inglês David Jameson e sua bela esposa, Ann. Embora escorregue em alguns chavões eróticos, o romance mantém a tensão do enredo, esticando as cordas da disputa política-racial-ética-étnica-sexual-filosófica até o final.

                Miguel Sousa Tavares, filho da grande poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, empenhou-se a fundo em seu romance de estreia. A bibliografia de referência é digna de uma tese de doutorado. Mesmo assim, o resultado é equilibrado, flui com naturalidade. Romance de fatura clássica, sem grandes invenções formais, mas de inegável competência em sua arquitetura. Uma história que te faz viajar para outra época e latitude, porém muito próxima do Brasil colonial que conhecemos tão de perto.

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