Javier Marías, mais uma vez

 

 

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Comentei no final de 2016 um romance de Javier Marías, Enamoramentos. Gostei, mas me impacientou em alguns momentos. As elucubrações e digressões dos personagens pareciam excessivas, em várias páginas. No entanto, a trama era tão bem construída que arrisquei mais um romance do espanhol. E não me arrependi.

            Coração tão Branco, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é mais rico em situações, mais ousado, mais surpreendente. Uma história que começa em Havana, passa pela Inglaterra e Suíça, e se resolve em Madri, com um retorno engenhoso a Havana (ao passado) para resolver um mistério.

            O escritor Javier Marías é também ensaísta, filólogo e tradutor, e coloca seu personagem nessa última função. Mais que isso: tradutor simultâneo em congressos, simpósios e encontros diplomáticos bancados pela ONU. Num capítulo onde o humor adquire tintas satíricas, interpreta uma conversa entre a primeira-ministra da Inglaterra e o primeiro-ministro espanhol. É ali que conhece sua futura mulher, a também tradutora Luisa.

            Não vou tentar resumir os meandros da trama, que envolvem os antepassados do personagem e um segredo familiar tenebroso. Javier Marías demonstra sua habilidade em desenvolver uma trama original, fugindo de arquétipos e esquemas conhecidos, até mesmo porque é um grande conhecedor do cânon ocidental. As citações de Shakespeare (“Coração tão branco” é uma fala de Lady Macbeth), obsessão que se repete em sua obra, se encaixam com naturalidade, e a referência a uma canção de ninar cubana se torna mais profunda quando é revelado que o personagem tem uma avó havanesa.

            Histórias dentro de histórias, a cada capítulo somos apresentados a novos personagens, que vão compondo um fascinante mosaico da humanidade: de uma prostituta até um perito em artes plásticas, de um homem que se casa com duas irmãs até o filho deste, que se sente inseguro no próprio casamento.

            O romance se abre de modo tão marcante que várias resenhas reproduzem seu início. Os mais curiosos podem fuçar na internet. Aos amantes da boa literatura, recomendo a leitura completa do romance desse provável candidato a um Nobel (que já recusou alguns prêmios, por sinal). Prefiro ressaltar o lado filólogo de Javier Marías, que nos ensina que o verbo respaldar remete a espáduas, costas, proteger as costas de alguém, nessa bela reflexão:

“É o peito de outra pessoa que nos respalda, só nos sentimos respaldados de verdade quando há alguém atrás, a própria palavra o indica, à nossa espalda, assim como em inglês, to back, alguém que talvez não vejamos e que nos cobre as costas com seu peito que está a ponto de nos roçar e acaba sempre nos roçando, e ás vezes, inclusive, esse alguém nos põe a mão no ombro com a qual nos tranquiliza e também nos sujeita. Assim dorme ou crê dormir a maioria dos esposos e dos casais (…)”  

De delícias como essa Javier Marías constrói seu romance.

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