Arquivo para maio \31\UTC 2017

Literatura como vingança

             O excelente filme Animais Noturnos, de Tom Ford, de 2016, parte de uma situação aparentemente banal para trazer uma questão que paira sobre os escritores, como um espectro: alguém é capaz de escrever um livro por vingança?  O filme é baseado num romance de Austin Wright, “Tony and Susan”.

           Como muita gente não viu o filme nem leu o livro, cabe aqui uma pequena sinopse. Susan, uma galerista chique de Nova York, recebe um envelope com um texto original de seu ex-namorado, Edward. Trata-se de um romance, chamado Animais Noturnos, que ela começa a ler na mesma noite.

        A partir daí, entremeiam-se as narrativas. Notamos que Susan (vivida pela excelente Amy Adams, de A Chegada) tem uma relação terminal com o atual marido. A história-dentro-da-história mostra um casal (Amy e Jake Gillenhaal) que, acompanhados da filha adolescente, viajam pelo meio-oeste americano de carro, e são abordados por uma gangue liderada por um psicopata chamado Ray (Aaron-Taylor Johnson). A partir daí, tudo é terror.

         Voltando à primeira linha narrativa, alguns flashbacks mostram que o rompimento entre Susan e Tony se deu porque ela o considerava “fraco”, além da evidente distância social que os separava. Amy é rica, filha de uma mãe esnobe (Laura Linney), e fica dividida entre sacrificar seu amor ou seu modo de vida.

                Não vou entrar em detalhes, para não estragar o prazer de ver o filme. Mas a questão moral que se coloca é a de uma obra de arte – um romance -, servir de expiação, vingança, declaração de amor, ódio, desespero, desprezo, rancor. Esses sentimentos tão humanos e vitais levam a alguém a escrever um livro?

                Ouvimos algumas vezes que o que move os artistas é a vaidade. Pode ser verdade, se pensarmos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Mas duvido que Camões, Shakespeare, Cervantes ou Dante tenham escrito por vaidade. Até o vil metal é um motivo mais justificável para estes artistas, no contexto em que viviam. Dante atirou vários desafetos ao Inferno, na Divina Comédia, lembrou-me um amigo internáutico. Mas não foi somente vingança que motivou toda a arquitetura da Divina Comédia, ou não haveria um Purgatório e um Paraíso.

                Claro que a vingança pode se dar pela forma da sátira, do humor, do sarcasmo, da caricatura. Gregório de Matos, ao desbancar o governador Tucano em versos, no século XVII na Bahia, estava se vingando. Mas isso geraria um romance? Podemos supor que uma obra moderna da literatura brasileira, como Um Copo de Cólera (Raduan Nassar), tenha sido escrita por vingança? Não, o último capítulo desmonta a tese. Escrita com raiva pode até ser, o título explicita isso, mas é uma (desesperada) declaração de amor.

            Outros exemplos ocorrerão, certamente, a quem se debruçar sobre a questão. Mas fica aqui a recomendação ao filme, muito bem dirigido, roteirizado e interpretado. A abertura é inesquecível, com aquelas mulheres velhas e obesas, completamente nuas, dançando como cheerleaders para o público. Esse filme jamais passará na TV aberta sem cortes… As passagens da ficção que assistimos para a ficção-dentro-da-ficção são muito bem feitas, e o desenlace é realizado com grande ousadia. Uma sequência de alguns minutos, estática e melancólica, que provoca reflexão e, para os mais atentos, iluminação.

      As mortes são simbólicas, e há vários outros símbolos espalhados pelo filme/narrativa. Separar o real-ficcional do real-real é o grande desafio deste filme memorável, que afinal nos faz pensar sobre quantas dessas questões se colocam em nossa própria existência.

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O caráter e o destino

 

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            O escritor e ensaísta espanhol Rafael Sánchez Ferlosio definiu dois tipos de personagens, reais ou ficcionais. Os de caráter “são os arquétipos, geralmente cômicos, de pura manifestação, que não nascem, nem crescem, nem morrem, mas sempre se repetem em situações frente às quais confirmam seu caráter.” Por exemplo, Carlitos ou Pedro Malazartes.

            Já personagens de destino “são os heróis épicos ou trágicos, de atuação plena, que nascem ou começam ou partem ou morrem ou acabam ou voltam no decorrer de algum incidente onde o seu destino se cumpre”. Gilgamesh, Ulisses, Tiradentes, Zumbi ou qualquer herói posterior se encaixam nessa definição.

            O romance de Javier Cercas, O Ventre da Baleia, se desenvolve em torno dessa dualidade, mas está longe de ser um romance de tese, como seu primeiro título publicado (El móvil), traduzido no Brasil como O Motivo. O escritor apresenta o personagem Tomás, jovem professor assistente da Universidade Autônoma de Barcelona, no instante em que reencontra uma velha paixão de juventude e trai sua esposa grávida.

          Imerso num jogo de enganos e auto-enganos, Tomás encontra apoio num velho professor de literatura, Marcelo, que tenta convencê-lo a se candidatar a um concurso de cátedra na universidade. Conversas literárias e citações cinematográficas permeiam o enredo, que trabalha um largo arco de emoções, indo do cômico ao trágico. É Marcelo quem apresenta para Tomás a tese de Ferlosio.

             Como muitos, o assistente ambiciona um destino glorioso. Sempre queremos ser heróis, de preferência driblando os aspectos trágicos da história. As circunstâncias da vida vão nos conformando ao lado menos iluminado, onde em vez de sermos príncipes, algumas vezes acabamos como bobos da corte. Não por acaso, a capa desta edição (Francis, 2006) reproduz um célebre quadro de  Velázquez, El Bobo de Coria. Não creditado, aliás.

           Javier Cercas é um dos mais premiados escritores espanhóis da atualidade. Tal como Javier Marías, outro bom escritor contemporâneo, gosta de citações eruditas, mas sabe evitar o pedantismo obscuro, ficando nos limites da cultura pop. Fritz Lang, Alexandre Dumas, Borges e Led Zeppelin surgem naturalmente na trama, compondo o cenário multicultural fragmentado típico da modernidade (o romance é de 1997).

            Há pequenas brincadeiras no texto, como um personagem secundário chamado Javier Cercas que surge numa tertúlia literária e interrompe uma conversa de Tomás.  A narrativa em primeira pessoa humaniza o relato, provocando uma empatia com o protagonista que, mais que uma mera identificação, propõe um descortinamento das máscaras sociais que nos são atribuídas. Os instintos básicos (paixão, vingança, medo, vergonha), a pulsão erótica, o arrependimento, a amizade, estão todos lá, colocados com mão de mestre. A tradução de Bernardo Ajzenberg é fluida, e valoriza o prazer da leitura.

             No final do livro percebemos, não sem certa melancolia, que há personagens de destino, como se imagina Tomás, que podem se transformar em personagem de caráter, devido às circunstâncias. E que todo escritor vive somente o presente, o momento da escrita, mesmo quando se alimenta de memórias ou de invenção, pois seu destino é apenas escrever, sem heroísmo ou tragédia. Como um bobo da corte.

SOBRE TRIBUNAIS E QUINTAS-FEIRAS

michellaub

Descrever a sua época é um desafio para qualquer escritor. A pena elegante de um Machado de Assis ou as tintas satíricas de um Lima Barreto definiram modelos que tiveram muitos seguidores no Brasil. Mas o que pode fazer um autor em pleno século XXI, onde a literatura cada vez mais perde espaço para o bombardeio midiático de informações e desinformações que transforma todos, leitores e autores, em ruído branco?

            Michel Laub responde a essa questão arrastando o monstro para dentro de sua literatura. A internet tem papel fundamental em seu romance O Tribunal de Quinta-feira (Companhia das Letras ,2016), onde uma traição é descoberta pela indiscrição registrada em e-mails. Mas a história de um publicitário casado que se envolve com a estagiária não seria original se contada de forma acadêmica.

            Laub recorta e monta um quebra-cabeças que inclui, obviamente, mensagens trocadas pelo correio eletrônico, mas se apoia principalmente na narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário. A relação com um velho amigo soropositivo, a rotina do casamento, o ambiente da agência, a tentação e o desejo, tudo vai sendo desvelado de forma aparentemente anárquica. Que o leitor não se engane. Há uma ordem, uma intenção, em cada capítulo, mesmo quando tem a forma de uma displicente digressão de quinze linhas ou uma simples mensagem telefônica de dez palavras: “Como você acha que eu me sinto ao saber disso?”

            A descoberta da traição pela esposa vai detonar a crise, que se desenvolve em poucas horas. Michel Laub trabalha o tempo com habilidade, trazendo informações sobre a vida do protagonista, a família da mulher, o papel do amigo em sua vida. De quebra, levanta uma pertinente discussão sobre privacidade, falso moralismo, ética empresarial, preconceito, machismo e feminismo.

            Buscando uma linguagem moderna, longe dos cânones e próxima do coloquial, autores como Laub correm dois riscos. O primeiro é o da rarefação, do provisório, de não mergulharem realmente na grande literatura, seja lá o que isso signifique. O segundo é o de se tornarem nossos clássicos contemporâneos.

 

Prosódia e música popular

 

     Prosódia

         Meu irmão, que é ótimo violonista, arranjador e professor de música, é desses sujeitos que não se preocupam apenas com as notas no pentagrama. Atento aos tropeços de prosódia, me chamou a atenção para a quantidade de canções contemporâneas cujas letras entortam o vernáculo sem o menor pudor. São as chamadas silabadas. Virou moda?

            Não acompanho com tanta assiduidade a música de consumo rápido, midiática, feita pra tocar no rádio. Deixo de lado, portanto, os sertanejos, pagodes e funks, e ensaio algumas observações sobre a produção mais independente e alternativa da música popular, que busca mais apuro, profundidade e originalidade em suas letras.

            De que vamos falar, afinal? Prosódia é a parte da gramática que se ocupa da sonoridade das palavras, mais especificamente em relação à sílaba tônica. Caminha junto com o ritmo, envolve a entonação e o sotaque, e dominá-la é fundamental para qualquer letrista.

            Ocorre que em muitos casos a prosódia regida pela norma culta é intencionalmente subvertida, e isso não vem de hoje. Algumas vezes comparece como licença poética, outras vem revestida de intenção satírica, mas na grande maioria dos casos é adaptação fonética à melodia. Em alguns casos soa como uma invenção, outras como desleixo.

            Pegando um exemplo antigo, é evidente que Alvarenga e Ranchinho querem fazer graça quando cantam Romance de Duas Caveiras, de 1940:

            “Ao longe, uma coruja piava alegre/ ao ver os dois caveiros assim feliz/ e quando se beijavam, em tom funebre/ a coruja batia as asas pedindo bis”.

Existem variações da letra; enquanto alguns intérpretes tentaram melhorar a concordância, outros a pioraram. Mas a transformação de fúnebre em paroxítona faz com que rime com a palavra alegre, e a distorção é tão evidente que todos acabam caindo na risada.

            Este é um exemplo clássico de intencionalidade. Volta e meia nosso ouvido tropeça em alguma letra de Vinicius, Chico ou Caetano onde há uma rearranjada da prosódia, com finalidade estética. São licenças poéticas, desvios consentidos ou meros barbarismos?

Uma canção como O Velho Francisco, de Chico Buarque, está cheia de contravenções fonéticas. Não deixa de ser linda, talvez exatamente por isso. Experimente cantá-la colocando a silaba tônica corretamente nas palavras, e verá que é impossível. Os deslocamentos tônicos (a chamada divisão) são constantes, obrigando os intérpretes a serem muito atentos.

          “Já gozei de boa vida/ tinha até meu bangalô/ cobertor, comida, roupa lavada/ vida veio e me levou”.

            A palavra comida soa como proparoxítona (cômida), e roupa lavada vira algo como “rou palá vada”. A imbricação de letra e melodia é perfeita, e a obra de Chico não nos deixa dúvida de que ele está brincando com a sonoridade das palavras. Brincadeira muito séria, por sinal.

            Em parceria com Djavan, um dos nossos mais contumazes dribladores da prosódia, Chico pega o espírito do parceiro e tasca lá uma silabada: “Era tanta saudade/ É, pra matar/ Eu fiquei até doente/ Eu fiquei até doente, menina”. Se o verbo ficar fosse entoado de acordo com a norma (fiquei, com tônica no e), sairia do compasso. Transformado em algo como fíquei (soando como Mickey) adere perfeitamente à angulosa melodia. Pra completar, o a de até também ganha um reforço tônico.

            Desde as antigas parcerias com Vinicius (observe com atenção a letra de Valsinha, por exemplo), Chico aprimora sua ginga com as palavras, revelando acentos inesperados e dando um nó na cabeça dos acadêmicos. Esta lição dos mestres é aplicadamente seguida por várias gerações de compositores, uns mais originais, outros menos. Cuidado: algumas vezes pode soar como escorregão ou forçada de barra.

            Talvez o modo mais preciso de identificar a real intenção do autor seja prestar atenção ao conjunto da obra. Se é difícil identificar esta veia criativa nas letras de compositores breganejos, p. ex., por outro lado existe um embate constante entre letra e ritmo nas letras de rap. A métrica às vezes é atropelada, mas de certa forma está se construindo uma nova linguagem.

            Não é à toa que Chico já declarou que “gosto de ouvir o rap da rapaziada”.  Rap da rap(aziada), aliás, é uma discreta brincadeira sonora, coisa que Caetano faz muito bem. Na linda canção Trilhos Urbanos, com pequenos achados trocadilhescos (“no trole ou no bonde/ tudo é bom de ver”) brilha a preciosa “Krishna, maravilha/ Vixe Maria Mãe de Deus”, onde ecoam as sonoridades ishna e ishma. E o compositor baiano faz uma silabada com o xixi do Imperador, veja só que desrespeito…

            O assunto rende. Só nos resta aplaudir a invenção, quando o resultado é belo!

(Publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)