Arquivo para julho \26\UTC 2017

Veneta literária

Levante

          A escritura de Airton Paschoa é uma desconcertante jornada em direção à síntese, ao aforismo. Seus textos são enxutos, mas se metamorfoseiam, se contraem, se distendem, revelam entranhas das palavras e invertem significados, e não conseguem se descontaminar da poesia. Não que ele almeje ser poeta, e sobre isso é taxativo: prefere ser chamado de poemista em prosa. Pode ser falsa modéstia, pode ser ardilosa armadilha.

          De fato, é notável em seu percurso literário uma aversão aos formatos consagrados. Contos que não são contos, uma novela (Dárlin) fora do padrão, vários textos curtos inclassificáveis. Uma pequena coleção de paradoxais sonetos elisabetanos aumenta a perplexidade do leitor, e parece indicar uma espécie de aula de carpintaria. Paschoa prova que domina as ferramentas, mas prefere usá-las de forma subversiva.

            Tomemos seu último livro, Levante (Nankin Editorial, 2017). Na orelha Maria Rita Kehl adverte: Airton não usa trabuco, mas é bom de navalha. Daquelas tão afiadas que o leitor nem sabe de onde veio o golpe: vai ver, já está sangrando.

             Está dada a pista. A ironia feroz, o chiste com pinta de erudito, a reflexão amarga, o epigrama cínico, a observação aguda e cortante. Muitas vezes aponta a navalha para o próprio estômago e expõe sem pudor suas lucubrações, como em Sistema Literário:

           Me doo aos amigos, que me doam sem dó pro sebo, onde dou por mim condoído, e me doo de novo aos amigos, que me doam sem dó pro sebo, etc. etc., onde dou por mim, finalmente, sem me condoer, só meio moído, a lombada surrada, meio agastado, miolo meio mole, em estado de brochura avançado.

           Na maioria dos textos há um embate implícito entre prosa e poesia, que se infiltra nas antinomias elaboradas, nos estripitismos (neologismo do autor) confessionais, nos trocadilhos inusitados. Quem mais, ao procurar pelo em ovo, encontraria elo em povo? Ou perguntaria se as nuvens servem para tapar olvidos (sic)? As palavras são a obsessão do poeta (vá lá, poemista), e se o leitor for apressado perderá detalhes saborosos. Quando tudo faz água, mudamos debalde a contracorrente. Frágeis naufragmentos. Os grandes calados, sabem os médicos e os marujos, sangram, singram o que topam pela frente.

             E mais não entrego, porque isto é apenas uma degustação. Se quiser uma garrafa cheia desse vinho, vá em frente!

 

 

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Criolo e o samba paulista

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Nas décadas de 80 e 90 o samba ainda dominava a trilha sonora nas quebradas da periferia de São Paulo. A onda sertaneja já se fazia sentir, mas a música de feitura coletiva, cantada nas rodas e botecos, ainda era marcada pelo cavaquinho, pandeiro e violão. Nos grandes bailes, Benjor e Tim Maia imperavam, mas era comum se mesclarem com Fundo de Quintal e Benito de Paula.

No extremo sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Grajaú e Jardim Ângela, a rapaziada que cresceu ouvindo samba (e Michael Jackson, claro) manifestava seu inconformismo contra o “sistema” através do rap. Mais incisivo, não requerendo instrumentos e nem sequer saber cantar, o discurso rimado e ritmado mobilizou uma legião de seguidores, e não tardou em formar ídolos locais (depois nacionais) como os Racionais MC’s, surgidos em 1988.

O garoto Kleber, nascido em 1975, logo identificou nas rinhas de rap o seu clã. Seus amigos e colegas ali se reuniam e improvisavam versos. Nesse meio, já conhecido como Criolo, destacou-se pelas letras e por iniciativas como a Rinha dos MC’s, circuito hip hop de grande prestígio até hoje.
Mas Criolo admite que ouvia muito samba em casa. Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Moreira da Silva eram constantes na vitrola de seu pai, ao lado de Nelson Gonçalves, Adoniran e Luiz Gonzaga. A contaminação era inevitável, e vinha misturada com uma relação familiar afetuosa. Como poderia o garoto pobre do Grajaú se revoltar contra a música que seus pais curtiam?

Aos poucos, Criolo foi colocando pitadas de samba em seus trabalhos. Confessa hoje abertamente que compõe sambas faz tempo, sem deixar de lado o rap. Desde o álbum Nó na Orelha (2011) incorporava outros gêneros à sua obra. Esta mescla se aprofundou em Convoque Seu Buda (2014), e ao mesmo tempo em que participava de homenagens a sambistas famosos, como Adoniran Barbosa, fazia duetos em discos de MPB e participações especiais em shows e programas de TV.

Em 2017, estabelecido como cantor e compositor, finalmente lança um CD só de sambas (Espiral de Ilusão). Dez sambas autorais, sendo oito assinados por ele, um em parceria com Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago, e apenas Hora da Decisão feitos por outros (Rabelo e Dito Silva).
A identificação explícita com o samba se dá desde a primeira faixa, Lá Vem Você, aberta por um cavaquinho. O sotaque paulista de Criolo, carregado nos erres, desfila por letras originais, algumas das quais, sem música, poderiam até soar como rap. As variantes rítmicas (samba de roda com direito a coro feminino, toques de jongo, samba de breque, embolada, pagode e samba rural paulista) comprovam a desenvoltura do intérprete e a ginga do compositor. Pra completar, a capa de Elifas Andrato estabelece mais um vínculo com a tradição discográfica brasileira.

Enfim, Criolo cresce e aparece para a turma do samba e da MPB. Mais que isso, demonstra que pode existir mais afinidade que rivalidade entre samba e rap, gêneros nascidos nas periferias, favelas e morros desse tão maltratado país.

(Publicado na Revista Musica Brasileira em junho de 2017)