Arquivo para agosto \15\UTC 2017

Luiz, melodia e poesia

Luiz Melodia

foto: Ivan Cardoso

               O Brasil amanheceu mais triste e mais pobre no dia 04 de agosto de 2017. Um dos mais originais e irreverentes criadores da música brasileira, Luiz Melodia, deixou os palcos para fazer parte da história. Uma história ainda a ser escrita, analisada, decupada por mentes abertas à invenção.

            Porque Melodia foi um inventor, sem precursores. Nascido em 1951, o garoto começou a prestar atenção ao mundo sonoro nos anos 60. Uma bela época para ser adolescente: os grandes festivais, a Jovem Guarda, Beatles & Rolling Stones, James Brown e a soul music, Tropicália, música de protesto, tudo isso misturado à trilha sonora recorrente no morro do Estácio: o samba.

            O jovem Luiz Carlos dos Santos poderia ter sido um sambista como seu pai, Oswaldo Melodia, morador do morro do São Carlos. Ou talvez um crooner de uma banda de soul-funk, com sua voz metálica e personalíssima. Mas o fogo da criação ardia no seu peito, e começou a aquecer a forja da composição. Letra e música, poesia e melodia. As primeiras canções já nasceram perfeitas, sem copiar ninguém. Diz a lenda que Wally Salomão e Torquato Neto ouviram o garoto e piraram. Indicaram para Gal Costa, que teve a perspicácia de lançar Pérola Negra no show A Todo Vapor, em 1972. A MPB nunca mais foi a mesma.

            Uma canção que não se parecia com nada feito anteriormente, com versos desconcertantes, que atravessaram gerações: “Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro querendo eu te empresto/ Se inteire da coisa sem haver engano/ Baby te amo, nem sei se te amo”.

            Pérola Negra intitulou o primeiro disco, lançado em 1973. A capa mostrava um negro magrinho, segurando um globo e deitado numa banheira cercada de feijão preto. Que porra era aquilo? Era simplesmente um dos discos mais fundamentais da moderna MPB, um conjunto de canções que até hoje espantam os incautos. Maria Bethânia, que de boba não tem nada, já havia gravado Estácio, Holly Estácio, obra prima absoluta: “Se alguém quer matar-me de amor/ que me mate no Estácio”. Como alguém ousava fazer uma canção para o Estácio, berço do samba, sem ser um samba? Ou batizar uma música de Abundamente Morte? Ou cantar uma declaração de amor tão inesperada quanto Magrelinha? Areia preta, arco-íris cor de sangue? Que porra era aquilo?

           A música de Melodia era uma mistura de metais, couros, balanço, eletricidade e sentimento, mesclados de forma inédita. As letras? Ah, as letras… Como definir? Surrealista, tropicalista, concretista, muitos tentaram adjetivar. Melodia foi tudo isso, de forma transversal, e muito mais que isso. Criador de imagens fulgurantes, delineou a música urbana de um país que pretendia ser moderno, sem perder o contato com a tradição.

            Pra completar, o cara era um intérprete fenomenal. Voz memorável, divisão perfeita, dicção claríssima. Quem cantou Zé Keti (Eu Sou o Samba) como ele? Quem mais interpretou Cazuza tão lindamente como em Codinome Beija-Flor? Respiração, vibratos, scats, tudo é perfeito.

            E vieram outros discos. Maravilhas Contemporâneas, de 1976, apresentou novas obras primas, para despeito dos que achavam que aquele Luiz era fogo de palha. Juventude Transviada é cantada por várias gerações, até hoje. “Eu entendo a juventude transviada/ e o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Talvez aí esteja uma das chaves para compreender Melodia. Apanhador nos campos da tradição, cabeça virada para a modernidade. Até o fim dialogou com o samba, o rock, o rap, o reggae, a MPB branca.

            MPB branca? Sim. Porque um negro vindo da favela tinha de conhecer seu lugar: o morro. Musicalmente, o samba. Ao se indispor com a rede Globo, passou a fazer parte dos malditos. Um diretor da emissora, um imbecil que não merece ter seu nome lembrado, declarou: “Enquanto eu estiver aqui, ele não entra”. Mais uma das tentativas de assassinato que a poderosa corporação tentou fazer, através de seus capachos. Foram mais de dez anos de interdição, o que o colocou na honrosa companhia de outros malditos como Jards Macalé, Tim Maia, Sérgio Sampaio, Jorge Mautner e até Chico Buarque. “Disseram no jornal televisão/ que eu não gosto mais de samba…” A resposta veio em forma de obra prima, O Sangue Não Nega.

            E o garoto de São Carlos sobreviveu. Passou momentos ruins, é fato. Os críticos dizem que sua produção perdeu o brilho, nas décadas seguintes. Arrisco outra hipótese. As trilhas pioneiras que abriu permitiram às gerações posteriores se libertarem das amarras narrativas da MPB tradicional. Surgiram os Djavans, os Zés Ramalhos os Carlinhos Brown, e isso foi bom. Até compositores de sua geração perceberam o potencial explosivo de sua poética, e arriscaram passos naquela direção. É como se a poesia se libertasse de um realismo obrigatório, experimentando algo mais próximo das sensações verbais, das imagens sugestivas, do quase abstracionismo musical. E nisso Melodia continuou mestre: “Um toque de sonhar sozinho/ te leva a qualquer direção”.

            Se Melodia tinha alguma alma gêmea no mundo musical, ela surgiu em São Paulo, sob a figura de Itamar Assunção. Outro criador de maravilhas contemporâneas, capaz de homenagear o irmão com os versos Nasceste no Rio Estácio eu em São Paulo Tietê/ Os nossos passos compassos afirmam ter tudo a ver/ Não só na tonalidade e também no jeitão de ser/ Circula pela cidade que sou cover de você”. O Nego Dito falando do Negro Gato, com a propriedade que só o talento permite. A letra completa é uma obra prima, confira!

            Negro Gato, aliás, é um marco na carreira de Luiz Melodia. Uma canção de Getúlio Cortes gravada por Erasmo e Roberto Carlos nos anos 60, no auge da Jovem Guarda, encontrou seu melhor intérprete. Devidamente recuperada pelo garoto de São Carlos, virou slogan, jingle, marca registrada. E ele demonstrou em outras ocasiões sua fidelidade aos bailinhos da juventude. (Permito-me aqui um relato pessoal. Estava num congresso de educadores da rede pública, no Anhembi, em São Paulo, em 2010, que seria encerrado com um show do artista. Nos camarins, ele repassava o repertório com seu parceiro Renato Piau, quando dei um palpite. “Tem três mil professoras na plateia. Que tal O Caderninho?” Abriu aquele sorrisão, agradeceu, e rapidamente alterou o roteiro do show. Abriu com a sugestão, e ganhou a plateia. O sucesso sessentista morava no coração daquelas professoras e também no do ex-maldito. Foi uma demonstração de simplicidade, sensibilidade e respeito ao público).

        Na maturidade, com a maior parte da obra já construída, diminuiu a produção autoral, e se dedicou a uma série de versões, valorizando suas qualidades de intérprete. De samba, principalmente, e com a categoria de sempre. Ouça Estação Melodia, por exemplo. É como se estivesse querendo ajustar contas com o morro de São Carlos, o Estácio, o pai, a família, os amigos. Mas seus clássicos eram sempre pedidos em shows, cantados em bares, festas e quintais: “Lava roupa todo dia, que agonia”.

        Quando falamos dos compositores mais notáveis de sua geração, sempre lembramos dos tropicalistas, de Chico, Milton… Passou da hora de escalar junto com esse time brilhante o magrelinho de São Carlos. Não à toa, o grande escritor e jornalista Renato Pompeu (1941/2014), na abertura de seu livro Memórias da Loucura, declarou que gostaria de ter o estilo de Luiz Melodia.

           Porque poucos versos escritos na música brasileira tem a profundidade de “Mesmo se tudo juntar por aí/ em nós o só há de sempre existir”. 

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

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