O adeus de Célia

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Final dos anos 60. A jovem Célia, dona de voz potente e bem calibrada, é incentivada pelos amigos a arriscar a sorte em programas de calouros, herança da era radiofônica que acabou conquistando espaço na televisão. O trampolim acaba sendo o programa Flavio Cavalcanti, no ano de 1970, e Célia logo consegue suas primeiras gravações.

            O primeiro disco recebe vários prêmios, e lança holofotes em direção à jovem cantora de rosto bonito e corpo renascentista. Com um repertório oscilando entre o romântico (Roberto Carlos), o pop e a MPB, emplacou alguns sucessos. Cantava Joyce, Lô, Marcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, entre outros. Mas Adeus, Batucada, de Sinval Silva, velho sucesso de Carmen Miranda, mostrou que havia ali uma intérprete diferenciada de samba, capaz de unir força e delicadeza, controlando as rédeas da emoção com uma entonação perfeita e um timbre envolvente.

            Estava dada a receita. A gravação de Onde Estão os Tamborins (Pedro Caetano), um sucesso nacional, apontou o caminho, mas o mercado foi cruel. Nenhuma gravadora queria uma cantora de samba branca e paulista, depois da efervescência dos festivais da década anterior. Alguma coisa parecia estar fora do lugar.

Paulista sim, e da gema. Célia pouco se afastou da cidade que amava, e tornou-se um nome conhecido da noite, cantando em casas noturnas, teatros e cruzeiros marítimos. Profissional da voz, diversificou o repertório, e se virava bem em vários estilos. Quem a viu no palco conheceu uma diva errante, cuja luminescência deixava marcas indeléveis na memória.

Célia cantou valsas, toadas, boleros, mambos, tangos, merengues (gravou um disco delicioso com a banda Son Caribe!), revisitou várias vezes Roberto Carlos, recriou muitos clássicos da MPB. Em 1998 divide o palco do Tom Brasil com outro grande cantor da noite, Zé Luiz Mazziotti, no show Ame, e a mistura foi tão boa que rendeu um dos mais perfeitos songbooks já gravados em nosso país: o CD Pra Fugir da Saudade (2000) , onde a dupla repassa algumas obras primas de Paulinho da Viola.

            Sucesso de crítica e de estima entre os cultuadores da MPB, mas nada de tocar no rádio. O destino parecia selado para Célia. Outro encontro bem sucedido, com o violonista Dino Barioni, resulta no CD Faço no Tempo Soar minha Sílaba, de 2007, onde vai de Caetano até Lamartine Babo, passando por Elton Medeiros, Dominguinhos, Chico Buarque e Martinho da Vila, incluindo duetos com Zélia Duncan e Beth Carvalho. Quem não se emocionar ouvindo sua interpretação de Mãe, Eu Juro! (Adoniran), só pode ter a alma sebosa e o coração peludo!

            Só estes dois CDs bastariam para colocar Célia no panteão das grandes cantoras brasileiras. Mas em 2010 ela ainda ataca com O Lado Oculto das Canções, ampliando o repertório com autores como Adriana Calcanhoto, Ângela Roro, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Tim Maia e Zélia Duncan, sem deixar de lado os amados Vinicius e Baden Powell.

            A voz esplêndida e a risada generosa de Célia calaram-se no dia 29 de setembro, após uma luta inútil contra um câncer de pulmão. Tinha 70 anos plenos de jovialidade e uma voz intacta. Ouço, reouço e proclamo: tivemos a felicidade de viver na mesma época de uma das maiores cantoras que esse país já teve. Pena que poucos prestaram a devida atenção…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

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