Arquivo para novembro \16\UTC 2017

Os anjos mulatinhos

Manuel_da_Costa_Ataíde_-_Anjos_músicos

Manuel da Costa Ataíde é justamente reconhecido como o maior pintor do Barroco brasileiro. Contemporâneo de Aleijadinho, mestre Ataíde fez da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, a sua Capela Sistina. A Assunção da Virgem representada no teto da igreja, projetada por Aleijadinho, é a mais importante obra pictórica do século XVIII em terras tupiniquins.
Pesquisadores, historiadores, sociólogos, polemistas, estudiosos e poetas em geral não cansaram de elogiar a ousadia do mestre ao representar anjos mulatinhos em torno de Nossa Senhora. Era o marco inaugural de uma arte brasileira, mestiça, independente, que subvertia o consagrado padrão europeu.
O mito quase foi destruído no século XX, quando a primeira grande restauração da Igreja, na década de 1970, retirou camadas seculares de fuligem, carvão e poeira do teto, revelando anjinhos louros e pálidos como seus modelos coloniais. O fato causou grande agitação entre os racistas brasileiros, que festejaram, e os ativistas negros, que lamentaram.
A reputação de Mestre Ataíde foi salva quando a limpeza da própria imagem de Nossa Senhora revelou um rosto inconfundivelmente mulato, que cronistas mais ousados dizem ter sido inspirado em sua mulher.
Em pleno século XXI, observando com atenção os anjos de Mestre Ataíde, constatamos que a cor da pele, às vezes, não significa nada. Já o traço…

Ataíde_-_NSPorciúncula

 

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Rodapés da História

Há algum tempo venho anotando pequenos textos, criados em circunstâncias pouco usuais: Num restaurante, numa viagem, no meio de uma conversa, numa noite mal dormida.

Versam, de modo geral, sobre personagens anônimos que por algum motivo fizeram algo extraordinário. Nada impede, porém, que em algum momento eu fale de personagens extraordinários fazendo um ato absolutamente banal. Creio que a maior parte das ações humanas não passam de rodapés da história…

Não sei se terei tempo e disposição para reuni-los num volume impresso, e cada vez mais duvido da necessidade disso. Portanto, aqui vão três rodapés, publicados recentemente na rede,  apenas para registro.

Garimpeiro

O CATADOR DE DIAMANTES

O velho Antônio das Almas, neto de quilombola e garimpeiro, passou a vida a peneirar cascalho na beira do rio Bagagem, lá nos confins das Geraes. Sonhava com o grande diamante, que nunca surgiu. Vez ou outra, muito de vez em quando, relampeava um xibiu no fundo da peneira.

Certo dia, ao matar uma galinha para o almoço, viu faiscar nas entranhas da ave uma pequena gema. Atraída pelo brilho, certamente a galinha engoliu a pedrinha, que ficou retida no papo.

O velho Antônio passou a noite pensando no ocorrido, e ao alvorecer tinha um plano infalível. Mapeou todas as propriedades ribeirinhas da região, e começou a furtar as galinhas mais papudas. Nas primeiras vinte achou outra “joia”, o que o deixou animado. Afinal, era um resultado muito melhor que o de meses rachando o lombo na beira do rio.

Antônio das Almas morreu na prisão, após ser pego em flagrante roubando galinhas de um juiz. É até hoje lembrado como o maior ladrão de galinhas da região.

fotógrafo lambe lambeO FOTÓGRAFO DE ALMAS

José Eulálio era fotógrafo. Herdou a profissão do pai, o lambe-lambe mais famoso, talvez porque único, de Caetés de Goiás, nas décadas de 1930 e 40. Na escola, ouviu uma professora dizer que alguns índios não se deixavam fotografar, pois acreditavam que isso lhes roubava a alma.

Zelálio, como era conhecido, não foi atrás de índios, mas de almas. Fotografou quase todos do município, com tal habilidade que as pessoas sentiam certa estranheza ao se verem assim tão cruamente retratadas. Os de bom coração ficavam felizes, os outros nem tanto. Infelizmente estes eram maioria.

Vieram as eleições e um candidato comprou várias fotos de Zélalio, que ficou feliz. Estranhamente, só comprou fotos dos adversários. Quando o coronel Ildefonso Mineiro, prefeito por quatro mandatos, começou a sofrer de dores estranhas e perdeu o pleito, mandou matar o fotógrafo, julgando-o culpado de sua derrota.

A mãe do coronel era índia.

 

Auscultador de pedras

O AUSCULTADOR DE PEDRAS

Existiu em Ilhabela um homem, chamado José Mariano, cuja especialidade era partir pedras. Não pedras pequenas, paralelepípedos, pois isso ainda é comum. Partia rochas maiores que um homem. Quem conhece as formosas praias da ilha sabe que há muitas pedras, de grande tamanho, amontoadas pelos cantos. Também proliferam nos meios dos terrenos, o que obriga os moradores a fazerem estranhas arquiteturas e brutas engenharias para construir sua casas.

    Pois a função desse homem era justamente partir os monólitos que estivessem no meio do caminho. Para isso utilizava um método que espantava a todos, tanto pelo inusitado quanto pelos resultados. Aproximava-se da rocha com cuidado, rodeava, apalpava, alisava como se estivesse amansando um elefante mineral. Então encostava o ouvido e dava leves pancadinhas com uma pequena marreta. Demorava alguns minutos assim, auscultando a pedra por todos os lados. Ao chegar no ponto certo, pegava uma talhadeira comum, encostava com cuidado e dava uma pancada seca e certeira. A rocha partia-se em dois como uma noz, um marisco de quatro toneladas, revelando suas graníticas entranhas.

                Seu José morreu em 1979. Não deixou discípulos, nem transmitiu a nenhum conhecido os segredos de sua profissão. Sua misteriosa ciência ficou na memória de alguns, como minha tia Adelaide, que construíram casas ou aplainaram terrenos nas décadas anteriores, e testemunharam seu humilde e inigualável ofício.