As penas do preconceito

pássaro pintado

Este livro já morava há alguns anos na prateleira de casa. Escrito em 1965 por um autor polonês, foi um sucesso mundial. Nos últimos anos pouco se ouve falar dele, mas marcou época. Algo me fez passar os dedos por sua lombada, no início desse ano, e decidir pela leitura.

            Que narrativa impressionante! A história de um menino, durante a Segunda Guerra Mundial, que é entregue pelos pais a camponeses para ser protegido dos nazistas. Num país de louros de olhos azuis, o menino moreno será sempre visto como diferente: ou é judeu ou é cigano. O título provém de um personagem que captura um pássaro, pinta suas penas com cores variadas, e se diverte vendo as tentativas da ave de retornar ao seu grupo e não ser reconhecida, sendo atacada pelo bando até morrer.

            E tome sofrimento, maus tratos, fugas, tortura e sadismo, passando por várias aldeias e patrões diferentes, inclusive um padre católico. A impressão é de que estamos na Idade Média, tal a quantidade de superstições e crendices que povoam a história. O instinto de sobrevivência faz com o menino vá se transformando de forma assustadora, até o ponto em que tememos que se torne uma besta assassina, como seus perseguidores.

            A guerra, como sabemos, só acaba quando chega o Exército Vermelho, e pela primeira vez o menino, subnutrido e ferido, se vê tratado com respeito, num hospital de campanha. Agradecido, passa a admirar de tal forma a farda soviética que sonha em partir para a Rússia, e reluta em ser devolvido aos seus.

            O autor, Jerzy Kosinski, é polonês, naturalizado americano. Nascido em 1933, de família judia, viu de perto os horrores da guerra.  Sua obra mais conhecida talvez seja Being There, que no Brasil se chamou O Videota, e foi adaptado para o cinema como Muito Além do Jardim, com Peter Sellers e Shirley MacLaine. Mas enquanto esta se situa no campo da sátira, O Pássaro Pintado tira sua força da descrição da violência, do preconceito, da vilania a que humanidade pode chegar.

              Apesar da intensidade do texto, escrito em primeira pessoa, é bom frisar que não é um relato autobiográfico. Kosinski aproveita lembranças da infância vivida numa Polônia em guerra, mas enfeita, acrescenta, recria, aumenta, inventa. Foi considerado persona non grata em seu país, e teve seu livro proibido, por retratar um povo estúpido, ignorante e cruel. Acusado de plágio, nunca comprovado, acabou suicidando-se em 1991.

            Rico em imagens e símbolos, o Pássaro Pintado provoca reflexões sobre sua atualidade em pleno século XXI. Pessoas perseguidas por serem “diferentes”, lugares onde o tecido social está tão esgarçado que anseiam por uma intervenção militar – a ilusão da ordem -, exploração do trabalho infantil, apologia ao estupro, banalidade do mal: “fizemos isso porque outros fazem”.

            Um livro forte, profundo e dolorido, que deixa entrever em suas brechas uma rude poesia, permeada de sonho.

 

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2 Responses to “As penas do preconceito”


  1. 1 Flor 31/01/2018 às 10:42 am

    Guarda pra mim, quero ler!


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