Um romance felliniano

Criado-Mudo

Espiando um sebo de calçada em São Paulo deparo-me com um livro quase mítico, do qual ouvi falar no remoto final do século XX. Folheio o volume em estado de novo, leio a orelha repleta de elogios internacionais, e decido levá-lo para casa.

Trata-se do primeiro romance de Egard Telles Ribeiro, O Criado-Mudo, publicado em 1991, pela finada Brasiliense, e posteriormente pela 34 e pela Record, além de edições em inglês, alemão, espanhol e holandês, o que explica os tais elogios.

Já havia comentado aqui no Fósforo outro livro dele, O Punho e a Renda, leitura fundamental para entender como eram os bastidores do Itamaraty durante a ditadura militar. Mas confesso que este livro de estreia, elogiado por gente como Antonio Candido e Antonio Houaiss, me causou um impacto ainda maior.

A trama mirabolante é desenvolvida com tal elegância que custamos a acreditar que se tratava de um autor estreante. Telles Ribeiro foi diplomata, jornalista e professor de cinema, e seu conhecimento profundo dos níveis de linguagem permite com que desenvolva uma narrativa com citações eruditas sem nunca parecer pedante.

A história de Guilhermina, uma jovem interiorana que é entregue pelos pais a um rico fazendeiro num casamento de conveniência, é rememorada pela sua sobrinha-neta e um cineasta frustrado, que enxerga ali um bom plot. Após o fim do tal casamento, as peripécias se desenrolam na Europa, entre castelos, cabarés e restaurantes finos. Num clima felliniano, entram em cena um assassinato, um médico sherlockiano, um balonista, uma cafetina e quatro anãs strippers vestidas de verde, além de dezenas de coadjuvantes da nobreza europeia.

Telles Ribeiro conseguiu o feito de escrever um romance absolutamente original, diferente de tudo que havia antes na literatura brasileira, sem apelar para vanguardices descontrutivas, fluxos de consciência delirantes ou desabafos em primeira pessoa. A lição machadiana está presente, renovada e construída com capricho de artesão dedicado. A ironia refinada, a observação arguta, a citação coerente, a sabedoria de não cair no lugar comum.

Passados quase trinta anos do lançamento, O Criado-Mudo continua brilhando. Que mais se pode esperar de um grande livro?

Anúncios

4 Responses to “Um romance felliniano”


  1. 1 Geraldo Camargo 15/05/2018 às 12:26 am

    Comprou né?

  2. 3 florbrazil 15/05/2018 às 12:36 am

    Oba, tô na fila pra ler!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




Anúncios

%d blogueiros gostam disto: