Arquivo para outubro \25\UTC 2018

A bela revolta das canções

Evandro Camperom_baixa

Evandro Camperom ataca novamente, com fúria musical e poesia explosiva. Em seu terceiro CD, A Revolta do Parafuso, lançado em setembro de 2018, os climas tensos se alternam com batidas mais sacudidas, sempre sublinhando letras de alta voltagem poética.

Pernambucano radicado em São Paulo, Camperon é mestre em imagens inusitadas, que tem o dom de nos fazer ouvir uma canção várias vezes (com prazer!) para apreender todos os sentidos. Sua música é absolutamente contemporânea, mesclando tradição e modernidade com plena eficiência. Timbres elétricos convivem com violões acústicos, métricas milenares se alternam com versos inovadores, baião e samba convivem com pop/rock de vanguarda, formando um amálgama de forte impacto.

Evandro é professor, além de cantor, compositor e músico. É mestre em Educação pela USP, e o título de sua dissertação é “Ouvidos abertos: a oralidade, a escrita e a canção”. Tendo vivido a infância no sertão nordestino, carrega até hoje o sotaque e a admiração pelos cantadores, sanfoneiros e repentistas, cultivados dentro de sua casa. Seu pai, também músico e compositor, é influência confessa.

Vivendo na metrópole desde jovem, o compositor soube filtrar todas as influências e criar um estilo próprio. Alguns exemplos, pinçados ao acaso, podem dar uma pequena ideia do refinado artesanato desse craque das palavras:

Cada um de nós é um/ que se desdobra em multidões” (Pedra de Raio)

Um filho é feito a voz/ vai sempre além de nós”.

diamante nas trevas/ corpo que carrega outros sóis.” (Feito a Voz)

Minha galega me disse assim/ meu nego, por favor, não chore não/ que nesse tempo tinhoso, mal ajambrado/ o amor é forma de subversão” (Querolina)

O tempo rabisca seus poemas/ em nuvens de pó” (Fora Dágua)

Há de se dar nome aos boys/ há de se saber quem sois/ quem é que se cala e quem fala por nós”. (Nome aos Boys).

Esta última tem um clipe impactante no Youtube, ótimo cartão de visitas para quem não conhece Evandro Camperom.

Seria fácil transcrever algumas letras, porém é mais estimulante recomendar a audição e a descoberta gradual de todas as fímbrias ocultas nas composições desse admirável músico brasileiro e universal. A Revolta do Parafuso merece um lugar em todas as listas de melhores do ano de 2018!

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Anúncios

Nos rastros de Homero

Dossiê H0001

Ismail Kadaré é uma figura notável no mundo da literatura. O fato de ser albanês o torna uma espécie de ornitorrinco, um espécime muito raro, endêmico. Se tivesse nascido em Java ou nas ilhas Fiji, remotos lugares que só conhecemos por imagens do National Geographic, seria compreensível. Mas a Albânia está na Europa, faz fronteira com a Grécia, e só algumas milhas de mar Adriático a separa do salto da bota italiana. Entre gregos e romanos, portanto.

Como um país como esse ficou isolado por tanto tempo da chamada cultura opcidental? É certo que após a II Guerra Mundial passou por uma ditadura comunista obscura, mas e os vinte séculos anteriores?

Kadaré se tornou conhecido dos brasileiros depois que seu belo romance Abril Despedaçado foi roteirizado para o cinema por Karim Ainouz e dirigido por Walter Salles. Uma história trágica de traições e vinganças, num clima quase medieval, foi transplantada para o Nordeste brasileiro com talento e respeito ao enredo original.

Mas Kadaré não é só tragédia. Dossiê H, escrito em 1991, dez anos antes de Abril Despedaçado, é muito engraçado. Pelo menos até a primeira metade da história…

Dois jovens irlandeses, estudantes de literatura em Nova York, nos anos 30, resolvem ir para a Albânia (então um reino, governado pelo rei Zog). Acreditam que ali há pistas da tradição homerista, ou seja, da Ilíada e da Odisséia. Querem demonstrar que os rapsodos da cultura popular albanesa carregam consigo as marcas ancestrais da grande epopéia. Os pesquisadores levam um aparelho recém inventado, um gravador, onde pretendem registrar os cantos homéricos.

A Embaixada da Albânia concede os vistos, mas suspeita de que são espiões. O prefeito da região remota onde vão se instalar recebe instruções para vigiá-los. A mulher do prefeito vê nos irlandeses a oportunidade de um romance proibido, capaz de tirá-la da monotonia em que vive.

Está criada a trama. Pouco a pouco, somos levados a um mergulho na cultura rural albanesa, na tradição dos rapsodos, no isolamento da Península Balcânica. Os conflitos entre tradição e modernidade, cultura erudita e popular, ciência e supestição, são colocados na mesa com muita habilidade.

Dossiê H foi publicado pela Companhia das Letras em 1990, e já teve várias reedições. Kadaré nos envolve com um grande senso de humor, e pouco a pouco vai desvelando a barbárie, desembocando num final dramático, onde com maestria funde o mito do poeta épico cego com a realidade que custamos a enxergar.

Romance delicioso, escrito por um dos grandes mestres da literatura contemporânea.

Erudição com humor

A Louca da Casa

Uma pergunta para escritores: se você tivesse de escolher entre nunca mais escrever e nunca mais ler, qual seria sua opção? Segundo Rosa Montero, experiente jornalista espanhola, autora de vários romances, mais de 90% dos escritores (incluindo ela) optaria por continuar lendo. O que conduz a um exercício curioso de auto-crítica, pois até o mais vaidoso dos escritores preferiria parar de escrever a abandonar a leitura de seus pares.

A paixão pela literatura é a força motriz de A Louca da Casa. Jogando luz sobre várias questões, Rosa Montero cria, de modo admirável, uma mescla de romance, ensaio e autoficção, onde o fazer literário está sempre em questionamento. Alinhava com erudição citações e curiosidades biográficas sobre escritores de várias épocas, e ainda demonstra um fino senso de humor, que nos faz sorrir a cada página.

A louca referida no título é a imaginação, a vontade criativa. É um ensaio pouco ortodoxo sobre literatura? É. Mas também há um divertido enredo autobiográfico, que se metamorfoseia a cada retomada, onde a protagonista se envolve de forma desastrada com um ator norte-americano de passagem pela Espanha. Num pequeno pós-escrito, Montero adverte que “Tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda autobiografia é ficcional, e toda ficção é autobiográfica, como dizia Barthes.”

O livro é recheado de detalhes (às vezes escabrosos) sobre autores como Goethe, Kipling, Naipaul, Theroux, Conrad, Garcia Márquez, Capote, Klemperer, Berlin, George Sand, Walser, Tolstoi, Hemingway, Rimbaud, Calvino e muitos outros. Compilados com argúcia, compõem um rico mosaico sobre os dilemas, delícias e pesadelos de todo escritor.

Um capítulo muito significativo é dedicado ao incansável e improdutivo debate sobre “literatura feminina”. Rosa Montero, lógico, foi inquirida muitas vezes em palestras, debates e entrevistas sobre o assunto: “Existe uma literatura de mulheres?” Ela confessa que cada vez que ouve isso começa a ver tudo vermelho e tem vontade de rugir e de bufar. Mas respira fundo e pondera: “Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano.” Bingo!

Enfim, 170 páginas de leitura inteligente. Assim que termina, dá vontade de recomeçar!


Anúncios