Arquivo para novembro \13\-02:00 2019

Os da minha rua (com um mar no meio)

Ondjaki

A literatura angolana contemporânea é bastante influenciada pela cultura brasileira. Escritores, músicos, dramaturgos, atores e atrizes estão presentes no imaginário angolano, muito por causa da televisão. A língua portuguesa é a ponte evidente, além de uma identificação étnica, um anseio anti-colonialista e muitos desafios de Terceiro Mundo. E, lógico, podemos também dizer que a cultura brasileira é bastante influenciada pela angolana, em suas origens.

Ondjaki é um dos mais conhecidos autores angolanos no exterior. Nascido em 1977 em Luanda, graduou-se em Lisboa, morou na Itália, estudou em Nova Iorque, passou temporadas no Brasil. Estreou com poesia, publicou contos e romances, experimentou o teatro e o cinema, tem vários títulos infanto-juvenis editados.

Os da Minha Rua, lançado no Brasil em 2007 pela Língua Geral, é uma coleção de pequenos contos de caráter memorialístico, que evocam a infância do autor em Luanda. Também pode ser lido como um romance fragmentado, já que vários personagens são recorrentes em cada capítulo.

Ondjaki consegue equilibrar com destreza a descrição de ambientes e situações com o uso de uma linguagem lírica, próxima da fala infantil, revelando aos poucos um cenário de descobertas e significados.

Para um leitor brasileiro, é curioso perceber a influência de novelas como O Bem Amado e Roque Santeiro no cotidiano de sua geração. É provável que através delas tenha crescido a curiosidade pela literatura de ficção aqui praticada.

A citação a Manoel de Barros no final do livro não é gratuita. Ondjaki se aproxima, em alguns momentos, da sintaxe do mestre matogrossense das miudezas poéticas. O olhar infantil sobre o mundo revela o homem atento à construção de uma realidade onde a pobreza material é preenchida por brincadeiras, sonhos e afetos. Não faltam as lembranças de escola, de professores cubanos, de cenas de filmes, de quintais, festas, carnavais e comícios de Primeiro de Maio.

Um pequeno glossário, no final, ajuda o entendimento de alguns vocábulos. Infelizmente é muito incompleto, pelo menos para um leitor brasileiro desacostumado com as falas d’além-mar. Isso não desfaz o encanto deste pequeno livro, que ganha densidade no final, quando o autor, já um jovem, vai abandonar o cenário da infância para estudar no estrangeiro. Terminamos a leitura com a certeza de que “nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.”


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