Arquivo para fevereiro \26\-02:00 2020

Noel por Mehmari

Noel Mehmari

André Mehmari é um dos mais respeitados músicos brasileiros. Compositor de mão cheia, tem obras sinfônicas gravadas por várias orquestras, e exercita sua imensa musicalidade gravando com várias formações. Também apaixonado pela música popular brasileira, tem inúmeros trabalhos com parceiros como Célio Barros, Hamilton de Holanda, Ná Ozzetti, Sérgio Santos, Chico Pinheiro, Proveta, Teco Cardoso, Rodolfo Stroeter, Neymar Dias e Sérgio Reze, entre outros.

Mehmari conta que numa noite de outubro de 2019, no seu estúdio na Serra da Cantareira, abriu um songbook do Noel Rosa e gravou 26 canções, em ordem alfabética, com direito a improvisos e variações. Boa parte são composições quase desconhecidas, que ganham uma interpretação meditativa, de acento chopiniano. Aqui e ali topamos com melodias conhecidas,como As Pastorinhas, Conversa de Botequim, Pra Que Mentir e Três Apitos. Mas soam como novidade (pelo menos para mim) peças como Ando Cismado, Cabrocha do Rocha, Dona Araci, Não Digas, Retiro da Saudade ou Estrela da Manhã, que dá nome ao conjunto.

O caráter noturno do álbum, denunciado pela bela capa, se acentua nas faixas mais introspectivas, onde a delicadeza do piano esmiuça a profundeza emocional de certas composições de Noel. É claro que em algumas ele foi responsável só pela letra, não pela música, mas sua personalidade musical parece influenciar a criação dos parceiros, mesmo quando tem o porte de um Vadico, Ismael Silva ou Braguinha.

Jazz? Música de câmara? Samba? Não. Música instrumental brasileira de altíssimo nível para públicos especiais, capazes de absorver todas as nuances cromáticas da obra de um mestre, revisitadas por um artista em estado de graça. Certamente a lua anda tonta, com tamanho esplendor…

(Publicado originalmente em www.revistamusicabrasileira.com.br)

A narrativa rebelde

Mil Homens

Valter Hugo Mãe é um dos mais aclamados autores portugueses contemporâneos. Com vários romances publicados, além de poesias e crônicas, é traduzido em vários países e tem uma relação profícua com o Brasil.

O Filho de Mil Homens, lançado em 2015, retoma alguns temas caros ao autor, e comprova sua capacidade de fabulação. Os personagens são quase arquétipos, mas construídos de forma original, em contextos que subvertem as narrativas convencionais.

Neste aspecto VHM mostra-se um discípulo de Saramago, não apenas pela escrita rebelde, que obedece mais ao fluxo do sentimento que às regras gramaticais, mas pela capacidade de criar personagens quase irreais, sempre banhados de profunda humanidade.

Como não lembrar do Saramago de O Conto da Ilha Desconhecida, ao iniciar a leitura do Filho de Mil Homens? O homem que vai ao rei pedir um barco, no conto de Saramago, transfigura-se num pescador de 40 anos, em VHM, que anseia por um filho.

Não é possível pedir filhos a um rei. Com habilidade, Valter Hugo Mãe insere outros personagens, com dores e ansiedades próprias, que vão entrelaçar suas vidas com a do pescador. Crisóstomo, que quer ter um filho mas não pensa em uma mulher, encontra um órfão, Camilo, que vai apontar para ele a incompletude familiar em que vivem.

Personagens desajustados, como bem aponta Alberto Manguel na contracapa da edição brasileira. Mas que vão compor a delicada tapeçaria de sentimentos que o escritor trama com habilidade . A camponesa ingênua que perde a virgindade e é abandonada pelo noivo prometido, a mãe que se recusa a reconhecer o filho “maricas”, a anã que desconhece o pai de seu filho. Toda a sordidez da humanidade é também ponto de partida para uma possível redenção.

O Filho de Mil Homens pode ser até acusado de pieguice, em alguns momentos. Mas o poder encantatório da escrita de Valter Hugo Mãe é convincente o bastante para arrebatar o leitor ávido por invenção, num mundo em que o realismo banal nos invade cada vez que ligamos a televisão, e é reproduzido de forma monótona em tantos escritos que não almejam mais que serem “retratos verossímeis”. Criticar a realidade pode ser revolucionário.

Marrom, amarelo e magistral

Paulo-Scott_Marrom-e-Amarelo

Outro dia, numa conversa de amigos sobre literatura, confessei minha implicância com finais abertos. Na maioria das vezes, parece que o autor não soube como terminar a história. Fui devidamente esculhambado pelos interlocutores, final fechado é coisa do século XIX, narrativa com começo-meio-e-fim é algo careta, assim como a palavra careta. Felizmente estávamos num bar, e não num simpósio.

Relembrei meus tempos de estudante de cinema, do impacto que me causou assistir filmes de mestres como Antonioni e Fellini com geniais e inovadores finais abertos (nos anos 60!), e de como isso se tornou fórmula simplista nas décadas seguintes, banalizando um recurso que rompia com a narrativa tradicional, mas que logo foi absorvido pelo “sistema”.

Parece ser um estigma das estéticas do século XX do pós-guerra, em todas as artes. Brilharem por algum tempo e depois serem canibalizadas pela incansável e voraz tribo dos diluidores. Efeito perverso da era das comunicações, onde toda novidade é copiada ad nauseam. Não há achado interessante no cinema, por exemplo, que não seja vulgarizado pela publicidade um ano depois. Nas artes plásticas, então, melhor nem comentar. Aspirante a artista de Xiririca da Serra copia o que causou impacto no MoMA no mês anterior, graças à internet.

Todo esse preâmbulo é pra tentar disfarçar o impacto que me causou a leitura do romance Marrom e Amarelo (Alfaguara, 2019), do gaúcho Paulo Scott. Autor premiado e estimado pela crítica, Scott encara o desafio de desenvolver um romance sobre a questão racial brasileira sem parecer panfletário ou sabichão. E manda muito bem!

Lourenço e Federico são irmãos, um mais “marrom”, outro mais “amarelo”, nascidos em Porto Alegre. Federico é o narrador, militante, dirigente de ong, que é convidado a participar em Brasília de um grupo ministerial voltado para a questão das cotas raciais nas universidades. Perto dos 50 anos, fracassado na vida amorosa, relembra momentos cruciais da infância e juventude vividos com o irmão “mais preto”, hoje técnico de basquete da seleção gaúcha.

A narrativa nervosa flui com facilidade, à medida em que novos ingredientes são acrescentados à trama. A sobrinha Roberta é presa numa manifestação estudantil, e Federico retorna a Porto Alegre para ajudar o irmão. O pai, policial aposentado, nunca discutiu racismo dentro de casa. A mãe, idem. O diálogo entre as três gerações não será fácil.

Quase nunca é, independente do tema. Mas Paulo Scott consegue com sabedoria mesclar dilemas familiares, lembranças estudantis, amores erráticos, amizades (e inimizades) que atravessam décadas, orquestrando tudo de forma brilhante. Traçou um retrato atualíssimo dos efeitos do racismo numa família negra de classe média, sem apelar para ancestrais africanos ou rituais de candomblé. O patriarca reza um Pai Nosso antes das refeições, e isso é de uma ironia fina, sem julgamento de valor.

A bela capa reproduz um guache de Sidney Amaral, de 2015. Coragem editorial de abdicar dos elogios habituais propagandísticos de quarta capa, fazendo com que apreciemos o conjunto gráfico. Mais que tudo, um grande romance, admiravelmente bem escrito, contundente e necessário. Apesar do final aberto…


Arquivos