Arquivo para março \25\-02:00 2020

Morrer na praia

Nevil Shute

Nestes tempos de coronavírus, é natural relembrarmos clássicos literários que abordaram o clima pré-apocalíptico de destruição e morte. A Peste, de Camus, logo vem à baila. Aqui mesmo abordei o último romance de Philip Roth, Nemesis, que se situa num EUA, em 1944, açoitado pela poliomielite.

Ontem lembrei de uma leitura da adolescência: On the Beach, de Nevil Shute (curioso, não consigo lembrar do nome em português!). Num cenário de pós-guerra atômica mundial, o hemisfério norte está totalmente destruído. A nuvem radioativa pouco a pouco se estende para os últimos rincões meridionais da terra. A ação se passa em Melbourne, na Austrália, e as noticias de um fim inevitável afetam de forma diversificada a vida das pessoas. Num clima parecido com o do filme Melancolia, de Lars von Trier, uns tentam levar uma vida normal, outros enlouquecem, as crianças tentam entender, os adultos tentam desentender.

Há uma certa tradição de escritos sobre desgraças, epidemias e misérias decorridas da guerra. Lembro de Fome, do prêmio Nobel Knut Hamsun, que me marcou muito em tradução de Carlos Drummond de Andrade, assim como Sadako Quer Viver, da coleção Jovens de Todo o Mundo. Há toda uma biblioteca sobre o holocausto, os pogroms, as guerras coloniais, a peste medieval e até a Aids. São exercícios dolorosos, tentativas de compreender a dimensão da tragédia que ameaça a espécie humana e todo o planeta.

Nevil Shute (1899/1960) era inglês, engenheiro aeronáutico e piloto, e passou os últimos anos da vida na Austrália, escrevendo. On the Beach é seu romance mais famoso, e foi filmado duas vezes. Nunca assisti ou soube de alguma versão em português. Sem grande profundidade psicológica, mas com conhecimento técnico suficiente para descrever um cenário de contaminação progressiva, fez o que tinha que fazer.

A literatura cumpre seu papel. Lembrar, para que não se repita; alertar, para que não erremos; assustar, para que não ousemos trilhar o caminho da destruição. Mas como agir quando, cada vez mais, somos governados por ignorantes eleitos por ignorantes, que jamais tiveram a literatura como referência?

Dárlin fulgidia

Dárlin

A narrativa-correnteza de Airton Paschoa é acidentada. Tropeça em dilemas morais, volteia por desejo e frustração, encaracola-se em presenças e ausências e revela uma beleza tortuosa, como um riacho de montanha engordado por chuva repentina. A tempestade é provocada pelo surgimento de Dárlin na vida do narrador, um homem maduro e casado que vislumbra na jovem Darlene (garota de programa? jovem sem-teto? anjo decaído?) a redenção de sua mediocridade.

Em pouco mais de 60 páginas, a silhueta fulgidia de Dárlin cintila na avenida Paulista, se desvanece na penumbra de um casarão onde casais de respeito praticam swing, se revela num banheiro público, se multiplica numa passeata rumo à Praça da Sé. São 121 passos-capítulos, que formam o mosaico de epigramas, interrogações, poemitos, angústias e sarcasmos desta via-sacra laica.

Inconformista, a escrita de Paschoa não se submete a tendências literárias da moda, mas revela referências universais. A insubmissa Dárlin é uma Nadja tropical, e impõe um clima de surrealismo poético e decadente à confissão embriagada do protagonista. Ao mesmo tempo, a narrativa assume os tons de um realismo alucinado, de uma Traumnovelle brasileira, irisada e sintética. Fugindo do lugar comum, o riacho revolto não morre num pântano de platitudes: permanece em território escarpado, fustigando a imaginação do leitor.

(e-book disponível na Amazon)

INDÚSTRIA AMERICANA, O FILME

American-Factory

Uma fábrica da GM na cidade de Dayton, Ohio, foi desativada, deixando centenas de desempregados. Não é um problema local, mas mundial, certo? Alô, pessoal da Ford de S. Bernardo!

Em 2015, uma indústria chinesa de vidros automotivos assume a planta, e instaura novos métodos de trabalho. A equipe de documentaristas registra todo o processo (Já havia feito um doc antes sobre o último carro fabricado, e veio junto com o pacote comprado pelos chineses).

Em Roma, faça como os romanos”. A citação do novo patrão, num dos discursos iniciais, é um dos elementos do embate entre culturas diferentes, métodos de produção inconciliáveis e posições políticas em transe perante a crescente robotização industrial.

A maior potência do mundo cada vez mais se infiltra na economia da segunda maior potência do mundo. Não apenas compra ações na Bolsa de Nova Iorque, mas fábricas inteiras, bancos e produtoras cinematográficas, entre outros ramos.

O casal de diretores é muito hábil em entrelaçar depoimentos que abarcam vários pontos de vista. A edição é ágil, a fotografia primorosa, trilha sonora perfeita, e tudo isso contribui muito para o resultado. O filme ilustra muitas das teses do historiador Yuval Harari (Homo Deus, 21 Lições para o Século XXI) , sem cair em maniqueísmos.

Não é que não tome partido, atenção! A mensagem é basicamente humanista, alertando para a necessidade de construir um diálogo permanente entre as partes (capital x trabalho, no caso), apontando para a desumanidade de certas escolhas, revelando as contradições de um sistema “perfeito”. Pode não ser a tua ou a minha escolha, mas é merecedora de aplausos pela pertinência da inserção no debate contemporâneo.

Mereceu o Oscar? Sei lá, não vi todos os concorrentes, só o brasileiro Democracia em Vertigem. Que aliás, é muito bom. Há momentos na História em que é necessário ter lado, tomar partido, assumir uma posição. J’accuse, como diria Zola.

Petra Costa fez um filme urgente, necessário, pessoal e também universal, desnudando um golpe contra a democracia. Julia Reichert e Steven Bognar não esconderam que tiveram apoio do casal Obama na produção do filme. Democratas americanos, capitalistas chineses, operários explorados. É o zeitgeist da vez, com o qual temos de lidar.


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