Arquivo para julho \30\-02:00 2020

O instrumento da discórdia

Sergio Ricardo

A morte do grande compositor Sérgio Ricardo (1932/2020), há poucos dias, provocou uma série de comentários sobre sua obra e também sua militância política. Homem de múltiplos talentos, diretor de cinema, compositor, músico, escritor, ator, pintor e produtor, também ficou conhecido pela posição intransigente em defesa de seus ideais, o que o fez ser perseguido pela ditadura, sofrendo censura e boicotes.

Sérgio Ricardo, autor das trilhas sonoras dos filmes mais marcantes de Glauber Rocha, também foi intransigente na música. Defendia com afinco as raízes brasileiras, rurais, populares, mesmo tendo formação clássica (foi pianista no início de carreira, nos anos 50, tendo até gravado como instrumentista) e composto suas primeiras canções sob influência da bossa nova. Repudiava a influência anglo-americana do rock e combatia o uso da guitarra na música brasileira.

No famoso Festival de Música Brasileira da Record, de 67, onde ficou imortalizada a imagem de SR quebrando o violão e jogando na plateia, a disputa ideológica acerca de como deveria soar a música brasileira chegou a ponto de provocar uma inusitada passeata, capitaneada por Elis Regina, “contra a guitarra elétrica”. Elis comandava um programa na emissora chamado Frente Única, que acabara de estrear, e vinha enfrentando os crescentes índices de audiência da Jovem Guarda, liderada por Roberto e Erasmo Carlos.

Em 17 de julho de 1967 subiu a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rumo ao teatro Paramount, uma passeata da qual participaram Elis, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zé Keti, os rapazes do MPB-4 e outros, com uma faixa onde estava escrito “Frente Única – Música Popular Brasileira”. Outros artistas já estavam esperando no teatro, como Juca Chaves e Ataulfo Alves, conforme o registro minucioso de Zuza Homem de Mello, em “A Era dos Festivais, uma Parábola” (Editora 34, 2003). Sergio Ricardo estava no Rio, nas certamente era um dos apoiadores do movimento.

Por que a guitarra elétrica suscitava tanta polêmica? Surgida com os bluesmen americanos, era um instrumento ligado às classes populares, operárias. Ganhou o status de instrumento-símbolo de rebeldia da juventude americana nos anos 50, pelas mãos de Chuck Berry, com o nascente rock’n roll.  Granjeou tal popularidade que rapidamente foi assimilada pela “indústria cultural”, fazendo parte da trilha sonora das gerações seguintes, através de bandas como Beatles e Rolling Stones e mitos como Jimi Hendrix. Ironicamente, quebrar guitarras no palco passou até a fazer parte do show, em bandas como The Who e The Clash.

Que motivos teriam os músicos brasileiros para repudiarem um instrumento surgido “negro”, pobre e rebelde? “Uma disputa de mercado” pode ser uma resposta simplista. O forte debate ideológico da época propiciava um discurso anti-imperialista, e a guitarra passou a ser um símbolo invasor na nossa cultura. Podemos detectar ecos ludistas no discurso de Sérgio Ricardo e seus companheiros de jornada?

Longe dos festivais, nos anos 40, os baianos Dodô e Osmar já haviam eletrificado seus instrumentos de corda, de corpo maciço, e colocado o povo pra pular atrás do trio elétrico. Não à toa, Caetano e Gil, habituados com essa sonoridade, foram os introdutores da guitarra elétrica no histórico festival, acompanhados respectivamente pelos Beat Boys e pelos Mutantes. É notável a ambiguidade de Gil, que participou da passeata e dias depois se apresentou no palco do Paramount acompanhado pela guitarra do mutante Sérgio Dias. Casado à época com Nana Caymmi, Gil estava profundamente dividido esteticamente entre Luiz Gonzaga e os Beatles. Mas, como sabemos, pouco depois se rendeu aos encantos do instrumento maldito.

Sergio Ricardo não. Com alguns outros combatentes, cada vez mais isolados, defendeu o violão acústico, o piano acústico, a música que acreditava ser realmente “brasileira”. A antropofagia oswaldiana não lhe caía bem. Nem Ben, futuro Benjor, violão rítmico visionário que também depois aderiu à guitarra elétrica, fazia seu estilo. Discreto, participou de muitos atos pela democracia, ouviu e aconselhou vários artistas jovens, mantendo a coerência. O músico paulista Kiko Dinucci, em comentário recente sobre a morte do artista, disse que SR elogiou as canções de seu grupo Metá Metá, mas “só as que não tinham guitarras”.

É curioso imaginar qual o motivo de outros instrumentos, como o piano e o contrabaixo, não terem se tornado tão polêmicos quando foram eletrificados. Qualquer artista “puro” da MPB, inclusive Elis, logo percebeu a versatilidade do baixo elétrico. Até um sambista como Paulinho da Viola, durante muitos anos, gravou discos e se apresentou acompanhado pelo baixo elétrico de Dininho, filho do grande violonista Dino. Artistas como Egberto Gismonti gravaram discos inteiros com sintetizadores e teclados eletrônicos, sem serem menosprezados por isso. Baterias programadas são usadas ad nauseam, e só os instrumentos de sopro escaparam da polêmica porque, bem, dependem do fôlego humano.

Mas a guitarra, ah, a guitarra… símbolo de uma cultura imperialista, universalista, opressora dos valores locais, atravessou o embate ilesa, pois a vitória era inexorável. Hoje podemos falar tranquilamente de uma guitarra africana, asiática, latina, e até lembrar de fraseados de canções brasileiras marcados pela sua sonoridade. A partir daquele histórico festival, sem esquecer da Jovem Guarda, os músicos foram assimilando, adaptando, incorporando definitivamente seus timbres à uma música em transformação permanente.

Dá pra imaginar uma canção tão marcante como Ovelha Negra, da Rita Lee, sem o famoso solo de guitarra? Ou Anunciação, de Alceu Valença, sem a luminosa guitarra de Paulo Rafael? Magrelinha, de Luiz Melodia? Gal duelando com a guitarra em Meu Nome é Gal? A própria obra de Caetano, Gil e os demais tropicalistas não existiria sem a guitarra. Os exemplos são muitos, o leitor pode acrescentar de memória um rol quase infinito. Tente imaginar a música paraense, com as famosas guitarradas, sem o instrumento-fetiche…

Militante de uma causa idealista e ilusória, musicalmente falando, Sérgio Ricardo tem a seu favor a própria obra, grande, honesta e plena de belezas. Sim, é possível compor sem guitarra. A rigor, até sem instrumento. Mas eleger a tecnologia como inimigo é um problema secular, que parece ainda não estar resolvido por completo.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br).

Toada da memória

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Quando Jean-Paul Sartre lançou, em 1964, um relato autobiográfico sobre a primeira infância (Les Mots, As Palavras), causou certo estranhamento no meio acadêmico e intelectual. Obviamente já existiam autobiografias na praça, mas o filósofo parisiense se detinha no período dos 4 aos 11 anos, e apontava o holofote para a importância capital do aprender a ler e escrever.

A literatura como instrumento de conhecimento e transformação do mundo ali se define, entremeada com lembranças familiares e afetivas, sem esconder as horríveis. Afinal, tinha 9 anos quando explodiu a Primeira Grande Guerra, e com menos de dois anos era órfão de pai.

Em 1960 Sartre e sua (mas não exclusiva) mulher, Simone de Beauvoir, visitaram o Brasil. Por dois meses circularam em várias cidades, deram palestras, participaram de festas, visitaram cafezais, fazendas de fumo e cacau, favelas, praias e colônias de pescadores, muitas vezes guiados por Jorge Amado e Zélia Gattai.

O tema das conversas era a guerra fria, a libertação da Argélia, a revolução cubana, o imperialismo norte-americano no continente. Ficou famosa uma conferência em Araraquara, publicada em livro ( Paz e Terra/ Unesp, 1986), que teve na plateia gente como Ruth Cardoso e seu marido Fernando Henrique, Antonio Candido, Gilda Mello e Souza, Dante Moreira Leite, Bento Prado Jr., e até um jovem araraquarense chamado José Celso Martinez Correa, apaixonado por teatro.

As Palavras, traduzido no Brasil por Jacó Guinsburg, foi muito lido, mas nem sempre compreendido. A obsessão de Sartre pelo ato de escrever, seja como filósofo, ficcionista ou dramaturgo, coloca a escrita como instrumento de autoconhecimento, de perpetuação da memória e de transformação do mundo.

No mesmo ano, 1964, Antonio Candido lançava o ensaio sociológico Os Parceiros do Rio Bonito, cujo subtítulo “estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida” é autoexplicativo.  Uma de suas referências era a obra de Valdomiro Silveira (1873/1941), um dos primeiros autores a estudar a cultura caipira, anotando expressões, hábitos, superstições e costumes, e dando especial atenção à linguagem.

Essa mescla fecunda de investigação sociológica de campo com o posicionamento pessoal sartreano gerou vários frutos. O já clássico O Paraíso Via Embratel, de Luís Milanesi, de 1985, enfocava as transformações culturais numa pequena cidade do interior paulista (Ibitinga) com a chegada da televisão. Embora escrito com certo distanciamento acadêmico, Milanesi está falando de sua cidade natal, de sua infância, de sua formação.

Em 2011, o eminente sociólogo José de Souza Martins retoma a lição sartreana lançando “Uma Arqueologia da Memória Social – Autobiografia de um Moleque de Fábrica”, por exemplo, primoroso estudo de época passado em São Caetano do Sul, no ABC paulista.  Nessa mesma trilha surge agora, em 2020, um saboroso livro publicado pelo professor sênior da Faculdade de Educação da USP, Claudemir Belintane.

“Toada de um Educador Quase Caipira” (Polo Books, 2020) mergulha no universo interiorano tão bem descrito por Antonio Candido, Valdomiro Silveira e Milanesi, e vai mais fundo, de maneira existencial (apud Sartre). O menino pobre de Novo Horizonte (SP), órfão aos sete anos, vivendo entre “o lixo, o matadouro e o cemitério”, alinhava as memórias com foco na linguagem, nas expressões populares, nas quadrinhas e canções, nos trocadilhos de sacanagem, nos apelidos cruéis, nas complexas relações de parentesco e compadrio, de amizade e desconfianças.

Propondo uma escritura distante do jargão acadêmico, Claudemir entoa sua prosa como quem está contando causos à beira da fogueira ou no intervalo do eito. Sem maiores preocupações formais, deixa o fluxo livre da memória revelar, aos poucos, a nascente inquietude intelectual e o surgimento de uma consciência social (foi boia-fria quando nem essa expressão existia – ainda era “pilão” – vendedor de doces, engraxate, ajudante de padeiro e de pedreiro). A criação literária surge de entremeio, nas frestas da narrativa: “Lá pelas três, quatro horas, a gente olhava para o céu e indagava o aonde das nuvens”.

O moleque da roça cresceu, foi pra capital, estudou, voltou, fundou o PT na cidade, foi candidato simbólico a prefeito, retornou para a capital e se fez doutor em Educação. Estas etapas são expandidas em poucas páginas no final do volume, à guisa de explicação (aonde foi parar aquele garoto?), pois o interesse está na infância, no letramento, na transformação pela leitura. O menino é pai do homem, como dizia Machado de Assis.

Belintane explicita sua admiração por ficcionistas como Graciliano Ramos (Infância) e Viriato Correa (Cazuza), que traçaram retratos memoráveis da meninice rural. Seguidor aplicado da lição de Jean-Paul Sartre, e inspirado pela bússola de Mario de Andrade, que aponta “para dentro do Brasil, não para fora”, expõe-se de corpo e alma em relato memorialístico despretensioso, e acaba esboçando um romance de formação que poderia ser o de milhões de brasileiros. Infelizmente, é a história de uma exceção.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A intersecção entre arte e ciência

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A literatura de divulgação científica foi inventada no século XX, e pouco a pouco conquistou um espaço nas livrarias – quando havia livrarias – e catálogos. Em meio a muita mistificação, autores como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Jay Gould tornaram-se clássicos do gênero, seja explicando a Física moderna ou o legado de Darwin.

A academia mais carrancuda ainda vê com desconfiança esse tipo de literatura, mas o número crescente de cursos de divulgação científica, de teses e seminários sobre o tema mostram uma abertura para o desejável diálogo da ciência com a sociedade.

Uma das ferramentas mais fascinantes para promover esta aproximação é a arte. Não é por acaso que muitos artistas, de diversas áreas, se interessaram pela ciência, e vice versa. Um deles é o escritor, diretor e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière.

Famoso pela parceria com Buñuel, que rendeu obras primas como O Fantasma da Liberdade, A Bela da Tarde e O Obscuro Objeto de Desejo, Carrière também escreveu roteiros inesquecíveis para Andrzej Wajda (Danton – O Processo da Revolução), Philip Kaufman (A Insustentável Leveza do Ser) e vários diretores franceses, como Rappeneau (Cyrano de Bergerac). Sua maior façanha talvez tenha sido adaptar o poema épico indiano Mahabharata para o cinema, o que rendeu um filme de quase 5 horas de duração, dirigido pelo inglês Peter Brook.

Carrière foi também diretor da principal escola francesa de cinema, e se declara apaixonado pela Fisica moderna. Chegou a escrever uma obra de ficção sobre Einstein, mas seu grande livro de divulgação científica chama-se Conversas sobre o Invisível (Brasiliense, 1988), e que há muito merece uma nova edição.

 Trata-se de uma longa, detalhada e saborosa conversa com dois físicos, Jean Aldouze e Michel Cassé, sobre relatividade, a origem do universo, microfísica, astrofísica e física quântica. Fruto de conversas mantidas semanalmente onde os assuntos se encadeiam naturalmente com referências literárias, pictóricas e, claro, cinematográficas, o livro discute os conceitos mais impenetráveis da Física moderna, que Carrière considerava a Grande Ciência do século XX, de forma clara e elegante.

Também no campo da Física, vale a pena conhecer outro autor, o argentino Alberto Rojo. Professor da Oakland University, em Michigan, publicou vários livros de física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde depurou a escrita límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários. Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e sinfônicas.

Rojo escreveu um fascinante livro chamado Borges e a Mecânica Quântica, editado no Brasil pela Unicamp, ainda em catálogo. Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos e poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, lógico, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam é uma tradução literária perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, respondeu, pensativo: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Leonardo da Vinci – modelo maior – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o rigor. Seu principal mérito, como escritor, é não parecer pedante ou professoral, seguindo a mesma trilha iluminada de Jean-Claude Carrière.

Dois escritores admiráveis que, partindo de polos opostos, encontram-se na realização plena de conjugar arte e ciência de forma acessível e prazerosa.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em junho de 2020).


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