Arquivo para setembro \29\-02:00 2020

O dilema ético das redes

O filme O dilema das redes, lançado recentemente pela Netflix, cristaliza para um público variado uma série de discussões que vem agitando há alguns anos o ambiente virtual. Não que apresente grandes revelações, mas revela detalhes e traz entrevistas de personagens que ajudaram a construir os gigantes da rede virtual.

O roteiro, muito bem construído, mistura depoimentos reais com ficção, de forma a demonstrar como funciona o “sistema de manipulação e lucro” criado pelas empresas do Vale do Silício, hoje entre as mais poderosas do mundo: Google, Facebook, Youtube, Twiter, Instagram, Pinterest, etc.

Como estas empresas, em princípio “gratuitas” para os usuários, se tornaram bilionárias? Como funciona a monetização através de uma simples clicada de “curti”? Como nossos dados pessoais são utilizados para alimentar uma máquina de propaganda explícita (e subliminar) que movimenta milhões de dólares?

Vários pesquisadores e estudiosos das novas mídias já apontavam há um bom tempo para as distorções do sistema. Aqui no Brasil o sociólogo e professor Sergio Amadeu, da UFABC, tem se destacado na análise dos perigosos efeitos colaterais do uso intensivo das redes.  Embora traga consequências comportamentais, estéticas, sociais e afetivas ainda não totalmente mensuráveis, como é bem demonstrado pela família representada no filme, vamos nos ater aqui a apenas um aspecto, o macropolítico.

Os depoentes do filme são, ou foram, figuras importantes do império digital. Diretores, chefes, engenheiros, ideólogos que hoje veem com reservas o futuro maravilhoso que venderam sem pudor. Relativizam as maravilhas de um sistema que aos poucos está se revelando perigoso, pondo em risco a própria existência da democracia. De certa forma, atualizam o debate suscitado por Umberto Eco nos anos 60, com o seu célebre livro Apocalípticos e integrados (Perspectiva), que opunha os defensores das tecnologias como ferramentas de avanço social aos que acusavam estas de virarem instrumento de exclusão e manipulação da informação.

O filme dirigido por Jeff Orlowski ousa ao colocar atores representando algoritmos, e pontua seu enredo ficcional um tanto esquemático com fatos reais assustadores: a manipulação em massa de (des)informações que levaram países à beira do totalitarismo. Explicitamente, Myanmar e Brasil, representado no filme pela funesta figura aqui eleita em 2018.

Há todo um levantamento psicológico do usuário de internet. Aliás, o filme lembra bem que o termo “usuário” (addict) só se usa pra drogas e redes sociais. Para ter, cada vez mais e mais, os prazeres oferecidos pela rede, o usuário não se importa de ter seus dados expostos, de ter sua privacidade invadida ou até de conceder que autoridades registrem todas as suas ações.

Em certo momento, um entrevistado aponta um dado crucial revelado por uma pesquisa: uma mentira se espalha seis vezes mais rapidamente que uma verdade na internet. Verdades tem de ser comprovadas exaustivamente, mentiras não. Contra esse crescimento veloz de desinformação não adianta contrapor que a cartilha do Ministério da Educação da Dilma não tinha mamadeira de piroca. A mentira vai estar sempre na frente, com quilômetros de vantagem.

O filme toca na questão da democracia, cita países que estão em processo de corrupção dos valores, mas infelizmente não fala do papel devastador de uma Cambridge Analytica, em conluio com a sinistra figura de Steve Bannon, influenciando eleições e referendos, como o do Brexit. Para isso, é recomendável assistir Privacidade hackeada (The Great Hack), documentário de 2019 que enfoca a tramoia entre a empresa e o Facebook, envolvendo dados pessoais de milhões de pessoas.

A grande questão que se coloca para a esquerda é se será possível competir na internet com as mesmas armas da direita. Esta, sabemos, está vencendo nesse campo, que criou e sabe muito bem utilizar. No fundo, é um dilema ético que assombra qualquer indivíduo, pois é muito mais fácil mentir que falar a verdade. Mas como propor soluções coletivas, partidárias, institucionais, para enfrentar a avalanche de notícias falsas, num campo adverso?

Para alguns dos entrevistados, como Jaron Lanier, o mundo virtual deve ser abandonado. “Desligue as redes, vá ver o sol lá fora”, diz ele, de forma simbólica, no final do filme, ecoando Thoreau.  Em tempos de pandemia, não é uma solução muito prática. Outros, ex-executivos arrependidos, tentam criar mecanismos de controle para preservação da democracia. Mas como enfrentar uma máquina alimentada por milhões de dólares, em crescimento exponencial, que corrompe e alicia cérebros desde a infância com promessas deslumbrantes de sucesso individual, fortuna e poder?

Organizar um partido ou organização que atue dentro dessa rede de forma ética parece algo cada vez mais distante. Em pouco tempo veremos uma explosão de revolta no mundo real, se ainda restar consciência transmitida pelos meios tradicionais. Resta a pressão social de grupos organizados em torno da democracia para rever legislações, pressionar empresas e exigir transparência na rede. Ou sucumbiremos a uma ditadura global tão absolutista que lembrará aos mais velhos as obras de Orwell ou Huxley. Que, obviamente, serão tratadas como fake news.

Manzano, o poeta-escravo

Não se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve, foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Manzano foi traduzido entre nós pelo escritor Alex Castro. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta segunda versão é a indicada para quem que ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

É doloroso perceber, em pleno século XXI, que os governantes da última nação a abolir a escravidão nas Américas (o Brasil) ainda aclamam os senhores e condenam os escravos. As políticas de reparação de danos (cotas), de igualdade étnica, de princípios basilares da democracia moderna, consagrados na Constituinte de 1988 e aprofundadas pelo primeiro governo de esquerda do país, em 2002, vão sendo desmontadas com velocidade crescente pelo governo genocida de Bolsonaro.

Ao colocar no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos uma figura sinistra e retrógrada como a evangélica Damares Alves, defensora de um dos projetos mais absurdos gestados nesse país que é o Escola Sem Partido, o atual desgoverno reafirmou seu compromisso com a discriminação racial, a perpetuação do racismo, o extermínio das nações indígenas e dos quilombolas, favorecendo descaradamente a  exploração econômica de seus territórios ancestrais.

O horror que Manzano vivenciou em Cuba no século XIX se manifesta hoje com o massacre da população negra, dos jovens de periferia, dos abusos policiais em função da cor da pele. Os responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco provavelmente já teriam sido presos se ela fosse uma branca de classe média. Mas era uma negra, como os jovens trucidados no massacre de Paraisópolis, como são os milhares de preteridos a vagas de trabalho por serem negros, como são os milhões de ofendidos diariamente pela arrogância supremacista de uma elite forjada numa sociedade escravocrata. Arrogância esta que é transmitida para a pequena burguesia branca que vê no racismo uma possibilidade de humilhar a filha da empregada, que ousou tomar a vaga de seu filho numa universidade pública.

Mas voltemos ao poeta-escravo, antes que a desesperança turve nossa percepção da beleza. Aqui está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, pleno de significados. Diz a lenda que quando o declamou para uma plateia culta, provocou tanta emoção que motivou um movimento para comprar a sua liberdade.

Quando olho para o espaço percorrido
Desde meu berço, e todo meu progresso,
Estremeço e saúdo meu sucesso
Mais por terror que por amor movido.

Espanta-me o combate que eu, renhido
Sustentei contra a sorte vil e fria,
Se é que posso assim chamar a porfia
De um ser tão infeliz e malnascido.

Trinta anos há que estou vivo na terra.
Trinta anos há que, em gemedor estado,
Triste sina em todo lugar me assalta.

Mas nada é para mim a dura guerra,
Que em vão suspirar tenho suportado,
Se a comparo, oh Deus!, com o que me falta.

(tradução: Pablo Zumarán)

(Artigo publicado no Fósforo, em 2015, atualizado e ampliado).

O Brasil, visto da Albânia

Kadaré

       Ismail Kadaré é uma figura notável no mundo da literatura. O fato de ser albanês o torna um tipo de ornitorrinco, um espécime muito raro, endêmico. Se tivesse nascido em Java ou nas ilhas Fiji, remotos lugares que só conhecemos por imagens do National Geographic, seria compreensível. Mas a Albânia está na Europa, faz fronteira com a Grécia, e só algumas milhas de mar Adriático a separa do salto da bota italiana. Entre gregos e romanos, portanto.

       Como um país como esse ficou isolado por tanto tempo da chamada cultura ocidental? É certo que após a II Guerra Mundial passou por uma ditadura comunista obscura, mas e os vinte séculos anteriores?

        Kadaré se tornou conhecido dos brasileiros depois que seu belo romance Abril Despedaçado foi roteirizado para o cinema por Karim Ainouz e dirigido por Walter Salles. Uma história trágica de traições e vinganças, num clima quase medieval, foi transplantada para o Nordeste brasileiro com talento e respeito ao enredo original.

        Mas Kadaré não é só tragédia. Dossiê H, escrito em 1991, dez anos antes de Abril Despedaçado, é muito engraçado. Pelo menos até a primeira metade da história…

        Dois jovens irlandeses, estudantes de literatura em Nova York, nos anos 30, resolvem ir para a Albânia (então um reino, governado pelo rei Zog). Acreditam que ali há pistas da tradição homerista, ou seja, da Ilíada e da Odisseia. Querem demonstrar que os rapsodos da cultura popular albanesa carregam consigo as marcas ancestrais da grande epopeia. Os pesquisadores levam um aparelho recém inventado, um gravador, onde pretendem registrar os cantos homéricos.

        A Embaixada da Albânia concede os vistos, mas suspeita de que são espiões. O prefeito da região remota onde vão se instalar recebe instruções para vigiá-los. A mulher do prefeito vê nos irlandeses a oportunidade de um romance proibido, capaz de tirá-la da monotonia em que vive.

         Está criada a trama. Pouco a pouco, somos levados a um mergulho na cultura rural albanesa, na tradição dos rapsodos, no isolamento da Península Balcânica. Os conflitos entre tradição e modernidade, cultura erudita e popular, ciência e superstição, são colocados na mesa com muita habilidade. 

        Para os membros de uma seita de fanáticos obscurantistas, o aparelho que registra vozes deve ser destruído, e isso vai dar o toque sinistro na trama. Kadaré retoma um tema ancestral do embate entre a ciência e o conservadorismo: a verdade não pode ser revelada.

        Relendo a obra em 2020, no Brasil, não podemos deixar de ter a impressão de que a história se repete, mais uma vez. O avanço de “seitas de fanáticos obscurantistas” é visível, em todas as áreas. A ameaça de apagar vídeos, filmes, gravações e cinematecas está presente, e é alimentada pela facção atualmente no poder. O desprezo pelo conhecimento acadêmico e a pesquisa é evidente, com corte de verbas, ataques às universidades e abandono de museus e o encerramento de programas de fomento à cultura. Assistimos o grotesco prefeito do Rio de Janeiro formar uma quadrilha, paga com o dinheiro público, para impedir gravações e reportagens sobre a situação da saúde. O diferente, seja ele negro, mulher, gay, sindicalista ou índio, é tratado como inimigo.

        Uma leitura enviesada do livro 22 da Odisseia, Mnesterofonia, onde Odisseu (Ulisses, na versão latina) mata todos os pretendentes à mão de Penélope – ou ao trono -, poderia ensejar desejos mitológicos aos atuais detentores do poder. Como a leitura dos clássicos não faz parte de seu estreito repertório, contentam-se em repetir procedimentos históricos temperados de ignorância, atraso e comportamento de bando, com a conivência de uma justiça venal e um legislativo corrompido. A dissipação da república, da res publica dos romanos, é estimulada por igrejas que anseiam por uma nova Era Medieval, de cruzadas contra o “inimigo”.  

        Dossiê H foi publicado pela Companhia das Letras em 1990, e já teve várias reedições. Kadaré nos envolve com seu senso de humor, e pouco a pouco vai desvelando a barbárie, desembocando num final dramático, onde com maestria funde a lenda do poeta épico cego com a realidade que custamos a enxergar. Romance delicioso, escrito por um dos grandes autores da literatura contemporânea.


Arquivos