A Redescoberta de Noel Nutels

“Os índios vem tentando pacificar os civilizados há 500 anos. Até hoje não conseguiu.”

Uma das mais emblemáticas figuras da luta em defesa dos indígenas brasileiros é, sem dúvida, Noel Nutels. O “Índio cor-de-rosa”, como bem o definiu o escritor Orígenes Lessa, foi uma personalidade fascinante, um judeu emigrado da Ucrânia que veio menino para Recife, onde cresceu e formou-se em Medicina. 

Nutels faz parte de um seleto grupo de “médicos intérpretes do Brasil” (1), profissionais que mergulharam profundamente nos problemas nacionais buscando soluções que envolvessem toda a sociedade, indo a campo, enfrentando governantes e ditadores, criando novos métodos e abordagens, propondo uma visão humanista das questões de saúde. Ombreia-se com gente do calibre de Nísia da Silveira, Carlos Chagas, Vital Brazil, Oswaldo Cruz e Sérgio Arouca, entre outros.

Em 1943 Nutels integrou a primeira expedição Roncador-Xingu, como médico oficial, e esta missão mudou para sempre a sua vida. Companheiro de jornadas dos irmãos Villas-Boas, passou a defender os povos indígenas em todas as instâncias, enquanto organizava ações para a erradicação de doenças levadas pela “civilização” e, principalmente, da tuberculose. Em 1951 tornou-se médico do SPI, Serviço de Proteção ao Índio (entidade que antecedeu a Funai), que chegou a dirigir entre 63 e 64.  Em 1957 criou no ministério da Saúde o Susa, Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas, que atuava na região amazônica.

Mais que uma vida onde combateu o bom combate, a personalidade fascinante de Nutels ganhou a admiração de intelectuais, artistas e políticos. Além do romance biográfico de Origenes Lessa (2), o sanitarista também motivou a inspiração do escritor gaúcho Moacyr Scliar, médico, humanista e judeu como ele. (3)

Nem conseguimos imaginar o que Noel Nutels estaria pensando se vivesse no Brasil de 2020. A única certeza é que não se conformaria com a política genocida do governo neo-militar, e iria à luta. São de atualidade impressionante as suas palavras em depoimento à CPI do Índio, em 1968 – plena ditadura – na Câmara dos Deputados: “A essa hora alguém está matando um índio. É a cobiça da terra, é a cobiça do subsolo, é a cobiça das riquezas naturais. É um vício de estrutura econômica. Enquanto terra for mercadoria e objeto de especulação vai se matar índio. A quem interessa o crime?”.

Mas a batalha pela causa indigenista e pela memória dos verdadeiros heróis desse país ganha esta semana uma importante contribuição. Estreia no festival Olhar de Cinema o documentário O Índio Cor de Rosa contra a Fera invisível: a Peleja de Noel Nutels (4).Fruto de um edital da Fiocruz de 2018, os jovens realizadores souberam aproveitar com inteligência as dezenas de horas filmadas pelo próprio Nutels durante seu trabalho de campo. A linha condutora é o próprio depoimento à CPI de Brasília, único registro conhecido da própria voz do protagonista.

O filme chega às nossas telas embalado por sucesso internacional. Três prêmios no Festival de Biarritz, incluindo o de escolha do público, e Melhor Documentário Iberoamericano no Festival Internacional de Cinema de Buenos Aires. Produzido pela Banda Filmes e dirigido por Tiago Carvalho, o filme tem as primeiras exibições marcadas para os dias 9 e 13 de outubro, no portal do festival (https://olhardecinema.com.br/), o Festival Internacional de Cinema de Curitiba.

O bom Nutels, cineasta amador e documentarista dono de linguagem e ritmo próprios, demonstra nas imagens que deixou um olhar atento e respeitoso sobre as comunidades indígenas. Bonachão, muitas vezes deixou-se fotografar só de calção no meio dos índios, sempre com seu inseparável cachimbo. Que este documentário motive os jovens a conhecer melhor a questão indígena, os problemas de saúde que afetam os mais vulneráveis, e reverenciar os que lutaram a vida inteira para melhorar o mundo em que viveram. E, principalmente, que provoque a indignação pública contra os descalabros do atual dos atuais detentores do poder, aliados à sanha centenária de fazendeiros e mineradores.

(1) Médicos intérpretes do Brasil (Hucitec, 2015). Coletânea organizada por Gilberto Hochman e Nísia Trindade de Lima.

(2) O Índio Cor de Rosa – Evocação de Noel Nutels (Codecri, 1980)

(3) A Majestade do Xingu (Cia. Das Letras, 2009)

(4) Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=1CuXCzCTYMw&ab

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