Archive for the 'Cinema' Category

Relatos do Mundo, com filtro

Relatos do Mundo, filme protagonizado por Tom Hanks, deve receber uma penca de indicações para o Oscar. Um faroeste humanista, melancólico, com bela fotografia, direção e trilha sonora, que se encaixa bem na linha revisionista da história dos Estados-não-muito-Unidos da América.

O capitão Jefferson Kyle Kidd, veterano da guerra civil, tem como atividade levar notícias aos rincões mais isolados do Sul ainda marcado pela derrota. Lê jornais em troca de algumas moedas, em cada povoado. E logo no início da narrativa encontra uma garota órfã, Johanna, de origem alemã (vivida de forma impressionante por Helena Zengel), cujos pais foram mortos e foi criada por índios da nação Kiowa, também eliminados pelo sanguinário avanço branco nas pradarias. Ela é uma dupla órfã, abandonada e sem falar uma palavra de inglês.

O capitão toma como missão entregá-la a parentes distantes, tios que moram em outro estado, 500 km de distância. A jornada não será fácil, e a relação entre eles vai sendo construída de forma sutil, apoiada em imagens deslumbrantes e uma trilha sonora discreta e eficiente.

Quem quiser saber mais assista o filme, não irá se arrepender. Uma releitura sensível e introspectiva do faroeste clássico americano, onde os cinéfilos irão reconhecer de cara a óbvia referência ao clássico Rastros de Ódio, de 1956. Ali o também veterano da guerra civil John Wayne reencontrava uma garota, sua sobrinha, que teve os pais mortos e foi sequestrada e criada pelos índios.

Quero aqui chamar atenção para um detalhe, uma subtrama que pode passar desapercebida para algumas pessoas, e que não vai interferir na fruição da narrativa. O filme, baseado num romance de Paulette Jiles, News of the Word, acompanha um apresentador de notícias pré-rádio, pré-televisão. E as notícias que ele narra nem sempre são boas.

O diretor Paul Greengrass escancara as cicatrizes da guerra de Secessão, mostrando o rancor incontido dos sulistas quando a notícia se refere ao “governo central”. O público se comporta de maneira desigual: ou reage de forma figadal, xingando os políticos, ou passivamente, acatando bovinamente as informações selecionadas pelo capitão-leitor.

Poucas moedas pingam na sua caneca, o suficiente para que ele vá até outra localidade continuar sua tarefa. Numa delas, é rudemente cercado por uma gangue, chefiado por um sujeito que é a lei do lugar: é prefeito, delegado e juiz, e todos trabalham para ele. Imagine uma espécie de Serra Pelada, nos anos 70, com um repórter se deparando com um Major Curió…

A cena em que o torturado Capitão Kidd (sim, ele tem crises de consciência!) consegue maior empatia com o seu público é quando abandona os relatos políticos ou econômicos, que afetam diretamente a vida das pessoas, e narra um fait divers, uma mera curiosidade, que arranca risos gerais. A audiência aumenta, as moedas tilintam com mais ressonância.

Está ali retratado o embrião do “jornalismo” de nossos tempos. O entretenimento em lugar do que realmente interessa. A espetacularização da notícia, o destaque às bizarrices ao invés das manobras políticas e econômicas que irão afetar diretamente a vida das pessoas. A dramatização dos fatos, jogando poeira nos olhos do espectador. Em vez de dizer que a gasolina subiu 7%, e isso vai afetar toda a cadeia produtiva, até o preço do arroz no mercado, nossa TV envia um/a repórter (bonito/a, de preferência) até um posto, onde ele/a dirá de forma teatral que “a gasolina agora nesta bomba custa 5,10 o litro”. Ah, que raiva da bomba do posto de combustível!

Capitão Kidd nem precisa de tal artimanha. Intuitivamente descobre que falar do suposto morto que ressuscitou, do pai que jogou a filha pela janela, da briga de fulaninho com fulaninha no BBB, pode render mais audiência (e lucro) que falar de assuntos sérios que afetem a comunidade e a levem a uma mobilização. A notícia que não vai mudar nada na vida de ninguém, devidamente teatralizada, é um sucesso garantido. Trata-se de um precursor da mídia de nossos tempos, sem dúvida.

O capitão irá encontrar os tios e devolver a menina? Bem aí é com vocês. Preparem a pipoca e boa diversão!

O elogio da burrice

Assistir à série O Gambito da Rainha pode deixar quem tem mais de quarenta anos um tanto melancólico. Trata-se da a história de uma garota que, no final dos anos 50 e década de 60, se destaca no xadrez, vencendo campeonatos importantes nos EUA e indo disputar torneios na Europa. A hegemonia da época era dos russos, considerados imbatíveis. A juventude dos anos 60 se interessava pelo jogo, sabia o nome dos campeões mundiais, jornais e TVs relatavam as finais eletrizantes. Meio mundo acompanhou o match Fischer x Spassky, em 1972, com o cenário da Guerra Fria por trás. Aliás, havia coluna de xadrez nos jornais, e até revistas especializadas, como bem ilustra a série.

Saltemos para 2020. Os jovens de hoje acompanham e sabem os nomes de lutadores de MMA, aquela imbecilidade que alguém já definiu como dois homens de cueca se agarrando dentro de um galinheiro. Desapareceram as colunas de xadrez, e até mesmo as palavras cruzadas.

Claro, gostávamos (e aqui me incluo) também de esportes, Olimpíadas, futebol tricampeão, São Silvestre, vôlei e até boxe. Alguém sabe quem é o campeão mundial de boxe hoje? Nos anos 60-70-80 todos sabiam. Mesmo sendo um esporte bruto, os homens vestiam luvas de couro estofadas para não ferir o rosto do opositor. E tínhamos Muhammad Ali, campeão inconformado, símbolo de resistência negra ao sistema. Quem é contra o status quo no UFC? Aliás, há algum jogador de futebol rebelde e politizado hoje, no Brasil? Só a jogadora de vôlei Carol Solberg esboça um solitário protesto, e será “cancelada” pela ditadura midiática por um largo tempo.

Não, a juventude de hoje não é culpada por não saber dessas coisas. É a mídia globalizada, aliada a interesses econômicos e políticos, que passou a definir os gostos e escolhas. Fez sumir o xadrez, as palavras cruzadas e desidratou os cadernos literários dos jornais. A imprensa atual é como um supermercado pobre, de um cafundó qualquer perdido no mundo, que só oferece uma marca de macarrão nas prateleiras. O consumidor sobrevive achando que só existe aquilo.

O esquema midiático contemporâneo guindou às manchetes o que, no século XX, era considerado o esgoto do jornalismo: a fofoca sobre a vida íntima de artistas e personalidades, a exaltação do físico em detrimento do intelecto, a manipulação de dados, a despolitização, a propaganda descarada dos interesses financeiros. Abra o portal de qualquer um dos maiores veículos da mídia contemporânea (G1, Uol, et caterva) e meça o espaço destinado à cultura, ao debate de ideias, à discussão dos problemas reais da nação, comparando com o espaço destinado à fofoca, aos vídeos idiotas, aos crimes mais banais. Há até colunas que se dedicam a comentar programas execráveis como BBB e A Fazenda, reality shows que fariam os criadores da televisão morrerem de vergonha, se é que tiveram alguma.

Nas faculdades de comunicação do século XX havia matérias como Deontologia e Ética. Parece que desapareceram nos cursos atuais. Perdeu-se algo no caminho, e isso é mais um dos sintomas da grave doença que acomete o jornalismo atual. Gerações sendo (de)formadas pela mídia mais mercenária, cultivando o individualismo, a arrogância e o desprezo por causas sociais. O (ou a) jornalista sai da faculdade sem saber quem foi John Reed, mas sonha em cobrir um desfile de moda ou festival de música com direito a lanche grátis.

O estrago é mundial, e não há como dissociar isso do avanço do conservadorismo, do totalitarismo, do fanatismo religioso no século XXI. No Brasil, o projeto de renovar os meios de comunicação do país, animado pelo avanço democrático da era Lula, foi enterrado junto com as conclusões da Conferência Nacional de Comunicação, em 2009. Depois de mobilizar dezenas de entidades, sindicatos, associações, universidades, patrões e empregados, engavetaram as indicações que iriam atualizar um marco regulatório vigente desde 1962. É esse que continua em vigor, em pleno ano de 2020, mantendo os privilégios da velha e oligárquica imprensa monopolista, colonizada e vil.

Entre outros pontos, a Confecom propunha cotas regionais de produção audiovisual, respeito à diversidade, direito de resposta, fim da propriedade cruzada de veículos (como nos EUA), criação de canais audiovisuais municipais, estaduais e federais com verba pública geridas por conselhos comunitários. Considerando que haverá eleições presidenciais em 2022, não seria o caso de recolocar, desde já, este tema na pauta de todos os candidatos de esquerda? A palavra de ordem já existe faz tempo: democratização dos meios de comunicação, já!

Ilustração: Sofonisba Anguissola (1532-1625).

A Redescoberta de Noel Nutels

“Os índios vem tentando pacificar os civilizados há 500 anos. Até hoje não conseguiu.”

Uma das mais emblemáticas figuras da luta em defesa dos indígenas brasileiros é, sem dúvida, Noel Nutels. O “Índio cor-de-rosa”, como bem o definiu o escritor Orígenes Lessa, foi uma personalidade fascinante, um judeu emigrado da Ucrânia que veio menino para Recife, onde cresceu e formou-se em Medicina. 

Nutels faz parte de um seleto grupo de “médicos intérpretes do Brasil” (1), profissionais que mergulharam profundamente nos problemas nacionais buscando soluções que envolvessem toda a sociedade, indo a campo, enfrentando governantes e ditadores, criando novos métodos e abordagens, propondo uma visão humanista das questões de saúde. Ombreia-se com gente do calibre de Nísia da Silveira, Carlos Chagas, Vital Brazil, Oswaldo Cruz e Sérgio Arouca, entre outros.

Em 1943 Nutels integrou a primeira expedição Roncador-Xingu, como médico oficial, e esta missão mudou para sempre a sua vida. Companheiro de jornadas dos irmãos Villas-Boas, passou a defender os povos indígenas em todas as instâncias, enquanto organizava ações para a erradicação de doenças levadas pela “civilização” e, principalmente, da tuberculose. Em 1951 tornou-se médico do SPI, Serviço de Proteção ao Índio (entidade que antecedeu a Funai), que chegou a dirigir entre 63 e 64.  Em 1957 criou no ministério da Saúde o Susa, Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas, que atuava na região amazônica.

Mais que uma vida onde combateu o bom combate, a personalidade fascinante de Nutels ganhou a admiração de intelectuais, artistas e políticos. Além do romance biográfico de Origenes Lessa (2), o sanitarista também motivou a inspiração do escritor gaúcho Moacyr Scliar, médico, humanista e judeu como ele. (3)

Nem conseguimos imaginar o que Noel Nutels estaria pensando se vivesse no Brasil de 2020. A única certeza é que não se conformaria com a política genocida do governo neo-militar, e iria à luta. São de atualidade impressionante as suas palavras em depoimento à CPI do Índio, em 1968 – plena ditadura – na Câmara dos Deputados: “A essa hora alguém está matando um índio. É a cobiça da terra, é a cobiça do subsolo, é a cobiça das riquezas naturais. É um vício de estrutura econômica. Enquanto terra for mercadoria e objeto de especulação vai se matar índio. A quem interessa o crime?”.

Mas a batalha pela causa indigenista e pela memória dos verdadeiros heróis desse país ganha esta semana uma importante contribuição. Estreia no festival Olhar de Cinema o documentário O Índio Cor de Rosa contra a Fera invisível: a Peleja de Noel Nutels (4).Fruto de um edital da Fiocruz de 2018, os jovens realizadores souberam aproveitar com inteligência as dezenas de horas filmadas pelo próprio Nutels durante seu trabalho de campo. A linha condutora é o próprio depoimento à CPI de Brasília, único registro conhecido da própria voz do protagonista.

O filme chega às nossas telas embalado por sucesso internacional. Três prêmios no Festival de Biarritz, incluindo o de escolha do público, e Melhor Documentário Iberoamericano no Festival Internacional de Cinema de Buenos Aires. Produzido pela Banda Filmes e dirigido por Tiago Carvalho, o filme tem as primeiras exibições marcadas para os dias 9 e 13 de outubro, no portal do festival (https://olhardecinema.com.br/), o Festival Internacional de Cinema de Curitiba.

O bom Nutels, cineasta amador e documentarista dono de linguagem e ritmo próprios, demonstra nas imagens que deixou um olhar atento e respeitoso sobre as comunidades indígenas. Bonachão, muitas vezes deixou-se fotografar só de calção no meio dos índios, sempre com seu inseparável cachimbo. Que este documentário motive os jovens a conhecer melhor a questão indígena, os problemas de saúde que afetam os mais vulneráveis, e reverenciar os que lutaram a vida inteira para melhorar o mundo em que viveram. E, principalmente, que provoque a indignação pública contra os descalabros dos atuais detentores do poder, aliados à sanha centenária de fazendeiros e mineradores.

(1) Médicos intérpretes do Brasil (Hucitec, 2015). Coletânea organizada por Gilberto Hochman e Nísia Trindade de Lima.

(2) O Índio Cor de Rosa – Evocação de Noel Nutels (Codecri, 1980)

(3) A Majestade do Xingu (Cia. Das Letras, 2009)

(4) Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=1CuXCzCTYMw&ab

O dilema ético das redes

O filme O dilema das redes, lançado recentemente pela Netflix, cristaliza para um público variado uma série de discussões que vem agitando há alguns anos o ambiente virtual. Não que apresente grandes revelações, mas revela detalhes e traz entrevistas de personagens que ajudaram a construir os gigantes da rede virtual.

O roteiro, muito bem construído, mistura depoimentos reais com ficção, de forma a demonstrar como funciona o “sistema de manipulação e lucro” criado pelas empresas do Vale do Silício, hoje entre as mais poderosas do mundo: Google, Facebook, Youtube, Twiter, Instagram, Pinterest, etc.

Como estas empresas, em princípio “gratuitas” para os usuários, se tornaram bilionárias? Como funciona a monetização através de uma simples clicada de “curti”? Como nossos dados pessoais são utilizados para alimentar uma máquina de propaganda explícita (e subliminar) que movimenta milhões de dólares?

Vários pesquisadores e estudiosos das novas mídias já apontavam há um bom tempo para as distorções do sistema. Aqui no Brasil o sociólogo e professor Sergio Amadeu, da UFABC, tem se destacado na análise dos perigosos efeitos colaterais do uso intensivo das redes.  Embora traga consequências comportamentais, estéticas, sociais e afetivas ainda não totalmente mensuráveis, como é bem demonstrado pela família representada no filme, vamos nos ater aqui a apenas um aspecto, o macropolítico.

Os depoentes do filme são, ou foram, figuras importantes do império digital. Diretores, chefes, engenheiros, ideólogos que hoje veem com reservas o futuro maravilhoso que venderam sem pudor. Relativizam as maravilhas de um sistema que aos poucos está se revelando perigoso, pondo em risco a própria existência da democracia. De certa forma, atualizam o debate suscitado por Umberto Eco nos anos 60, com o seu célebre livro Apocalípticos e integrados (Perspectiva), que opunha os defensores das tecnologias como ferramentas de avanço social aos que acusavam estas de virarem instrumento de exclusão e manipulação da informação.

O filme dirigido por Jeff Orlowski ousa ao colocar atores representando algoritmos, e pontua seu enredo ficcional um tanto esquemático com fatos reais assustadores: a manipulação em massa de (des)informações que levaram países à beira do totalitarismo. Explicitamente, Myanmar e Brasil, representado no filme pela funesta figura aqui eleita em 2018.

Há todo um levantamento psicológico do usuário de internet. Aliás, o filme lembra bem que o termo “usuário” (addict) só se usa pra drogas e redes sociais. Para ter, cada vez mais e mais, os prazeres oferecidos pela rede, o usuário não se importa de ter seus dados expostos, de ter sua privacidade invadida ou até de conceder que autoridades registrem todas as suas ações.

Em certo momento, um entrevistado aponta um dado crucial revelado por uma pesquisa: uma mentira se espalha seis vezes mais rapidamente que uma verdade na internet. Verdades tem de ser comprovadas exaustivamente, mentiras não. Contra esse crescimento veloz de desinformação não adianta contrapor que a cartilha do Ministério da Educação da Dilma não tinha mamadeira de piroca. A mentira vai estar sempre na frente, com quilômetros de vantagem.

O filme toca na questão da democracia, cita países que estão em processo de corrupção dos valores, mas infelizmente não fala do papel devastador de uma Cambridge Analytica, em conluio com a sinistra figura de Steve Bannon, influenciando eleições e referendos, como o do Brexit. Para isso, é recomendável assistir Privacidade hackeada (The Great Hack), documentário de 2019 que enfoca a tramoia entre a empresa e o Facebook, envolvendo dados pessoais de milhões de pessoas.

A grande questão que se coloca para a esquerda é se será possível competir na internet com as mesmas armas da direita. Esta, sabemos, está vencendo nesse campo, que criou e sabe muito bem utilizar. No fundo, é um dilema ético que assombra qualquer indivíduo, pois é muito mais fácil mentir que falar a verdade. Mas como propor soluções coletivas, partidárias, institucionais, para enfrentar a avalanche de notícias falsas, num campo adverso?

Para alguns dos entrevistados, como Jaron Lanier, o mundo virtual deve ser abandonado. “Desligue as redes, vá ver o sol lá fora”, diz ele, de forma simbólica, no final do filme, ecoando Thoreau.  Em tempos de pandemia, não é uma solução muito prática. Outros, ex-executivos arrependidos, tentam criar mecanismos de controle para preservação da democracia. Mas como enfrentar uma máquina alimentada por milhões de dólares, em crescimento exponencial, que corrompe e alicia cérebros desde a infância com promessas deslumbrantes de sucesso individual, fortuna e poder?

Organizar um partido ou organização que atue dentro dessa rede de forma ética parece algo cada vez mais distante. Em pouco tempo veremos uma explosão de revolta no mundo real, se ainda restar consciência transmitida pelos meios tradicionais. Resta a pressão social de grupos organizados em torno da democracia para rever legislações, pressionar empresas e exigir transparência na rede. Ou sucumbiremos a uma ditadura global tão absolutista que lembrará aos mais velhos as obras de Orwell ou Huxley. Que, obviamente, serão tratadas como fake news.

A intersecção entre arte e ciência

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A literatura de divulgação científica foi inventada no século XX, e pouco a pouco conquistou um espaço nas livrarias – quando havia livrarias – e catálogos. Em meio a muita mistificação, autores como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Jay Gould tornaram-se clássicos do gênero, seja explicando a Física moderna ou o legado de Darwin.

A academia mais carrancuda ainda vê com desconfiança esse tipo de literatura, mas o número crescente de cursos de divulgação científica, de teses e seminários sobre o tema mostram uma abertura para o desejável diálogo da ciência com a sociedade.

Uma das ferramentas mais fascinantes para promover esta aproximação é a arte. Não é por acaso que muitos artistas, de diversas áreas, se interessaram pela ciência, e vice versa. Um deles é o escritor, diretor e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière.

Famoso pela parceria com Buñuel, que rendeu obras primas como O Fantasma da Liberdade, A Bela da Tarde e O Obscuro Objeto de Desejo, Carrière também escreveu roteiros inesquecíveis para Andrzej Wajda (Danton – O Processo da Revolução), Philip Kaufman (A Insustentável Leveza do Ser) e vários diretores franceses, como Rappeneau (Cyrano de Bergerac). Sua maior façanha talvez tenha sido adaptar o poema épico indiano Mahabharata para o cinema, o que rendeu um filme de quase 5 horas de duração, dirigido pelo inglês Peter Brook.

Carrière foi também diretor da principal escola francesa de cinema, e se declara apaixonado pela Fisica moderna. Chegou a escrever uma obra de ficção sobre Einstein, mas seu grande livro de divulgação científica chama-se Conversas sobre o Invisível (Brasiliense, 1988), e que há muito merece uma nova edição.

 Trata-se de uma longa, detalhada e saborosa conversa com dois físicos, Jean Aldouze e Michel Cassé, sobre relatividade, a origem do universo, microfísica, astrofísica e física quântica. Fruto de conversas mantidas semanalmente onde os assuntos se encadeiam naturalmente com referências literárias, pictóricas e, claro, cinematográficas, o livro discute os conceitos mais impenetráveis da Física moderna, que Carrière considerava a Grande Ciência do século XX, de forma clara e elegante.

Também no campo da Física, vale a pena conhecer outro autor, o argentino Alberto Rojo. Professor da Oakland University, em Michigan, publicou vários livros de física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde depurou a escrita límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários. Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e sinfônicas.

Rojo escreveu um fascinante livro chamado Borges e a Mecânica Quântica, editado no Brasil pela Unicamp, ainda em catálogo. Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos e poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, lógico, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam é uma tradução literária perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, respondeu, pensativo: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Leonardo da Vinci – modelo maior – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o rigor. Seu principal mérito, como escritor, é não parecer pedante ou professoral, seguindo a mesma trilha iluminada de Jean-Claude Carrière.

Dois escritores admiráveis que, partindo de polos opostos, encontram-se na realização plena de conjugar arte e ciência de forma acessível e prazerosa.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em junho de 2020).

Dilemas estéticos e políticos

Wasp

O livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, lançado em 2011, foi imediatamente catapultado à condição de best-seller político. Seu autor, Fernando Morais, realizou uma pesquisa minuciosa, coletando datas, nomes, informações de Estado e de pessoas, sobre um dos episódios menos conhecidos da longa história de embates entre Cuba e Estados Unidos da América.

O relato descreve eventos ocorridos na década de 90.  Com o colapso da União Soviética, em 1991, boa parte dos recursos que sustentavam o país caribenho minguaram. Os exilados cubanos concentrados em Miami, em grande maioria alinhados com a direita, ficaram eufóricos. Para eles, o regime de Castro iria ruir em breve. Organizações paramilitares passaram a invadir o espaço aéreo cubano jogando panfletos sobre Havana, e mercenários aportavam nas praias para esconder armas e munição, preparando o terreno para um futuro golpe.

Para quem não sabe, a distância entre Florida e a capital cubana é de apenas 150 km. São 40 minutos de teco-teco, ou algumas horas numa boa lancha. De balsa, com vento a favor, menos de dois dias, como fizeram vários refugiados cubanos, conhecidos como balseros.

Sob risco iminente, o governo cubano partiu para a contraofensiva. Selecionou alguns de seus melhores quadros no Exército e na Aeronáutica, e enviou para Miami, para se infiltrarem nas organizações terroristas e coletarem informações. A chamada Rede Vespa descobriu, entre outras coisas, que boa parte do financiamento das ações anticastristas era proveniente do tráfico de drogas. Um dos espiões passou a ser informante também da CIA, denunciando operações que envolviam o tráfico e agenciamento de mercenários em vários países centro-americanos.

Após muitas ações bem sucedidas, que neutralizaram ataques e desmantelaram os esquemas dos “contras”, os agentes foram descobertos e presos, julgados e condenados pela justiça norte-americana. Quando Fernando Morais terminou seu livro, vários ainda estavam cumprindo pena, o que justificou o título da narrativa.

Todos estes ingredientes sugeriam um belo roteiro de filme. E é o que foi feito, numa coprodução internacional dirigida pelo francês Olivier Assayas. Lançado em 2019 em festivais, chega agora ao público brasileiro através da Netflix, com o confuso nome de Wasp Network – Rede de Espiões. Certamente, para cubanos e brasileiros, o nome original Rede Vespa seria mais palatável.

Como é previsível, o filme provocará debates. Não apenas pelo pano de fundo político, expondo o confronto direita-esquerda, alimentado por décadas de propaganda anti-Cuba nas plagas tupiniquins, mas também pela velha questão que assombra todas as adaptações da literatura para o cinema. Foi fiel? Traiu? Não correspondeu?

O elenco é competente, e talvez seja o único ponto de consenso. Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Leonardo Sbaraglia, Wagner Moura, Ana de Armas e o bom time de coadjuvantes garantem uma presença qualificada nas telas, mesmo tendo de falar em espanhol, inglês e até russo. O roteiro, obviamente, teve de optar por qual caminho escolheria em meio à enorme quantidade de informações organizadas por Fernando Moraes em seu livro.

O fato de ter elegido um casal, o piloto René González (Ramírez) e sua mulher Flora (Cruz), como pilar de sustentação da trama é plausível. René se recusou a colaborar com o governo americano, e foi o último a ser libertado, e Flora é uma personagem complexa, pois no início acha que o marido é um gusano, um traidor da pátria. Com filha pra criar, emigra para os EUA e tenta reatar os laços com o marido.

Os admiradores do livro, um dos melhores de Fernando Moraes, vão reclamar de algumas omissões, de certa simplificação, de falta de referências. Os críticos do filme vão dizer que tem muitos personagens, que a narrativa é confusa. Mas, vamos convir: resumir um livro de mais de quatrocentas páginas em 130 minutos sempre implica numa escolha, numa redução. Em certos casos, isto é compensado por um acréscimo estético, imagético, até poético, que possa justificar a experiência.

No final do filme, o foco no casal González-Flora embota o contexto político, e tem sido acusado de parecer um final de novela. Sim, em termos. Cinema é indústria cultural, requer emoção para atingir um público maior. O filme não é um documentário, e coloca isso de forma clara desde o início: “baseado em fatos reais”. A opção dramatúrgica não é, e nunca pode ser, submissão total aos fatos. Desde que não traia o sentido original de palavras e ações, é uma recriação com liberdade formal.  A inclusão de um discurso do próprio Fidel Castro no filme, por exemplo, acrescenta dados que não existem no livro. Os retratos dos personagens reais, nos créditos finais, livres e de volta a Cuba, atualizam a obra de Fernando Morais.

Assayas demonstra, em toda sua filmografia, um interesse focado nas relações pessoais, mesmo quando ousou levar para as telas a biografia do famoso terrorista Carlos, o Chacal (minissérie de coprodução França/Alemanha), em 2010.  Agora escolheu uma grande história de espionagem, com a polarização Cuba-EUA como cenário, para dentro dela ressaltar os dramas individuais, sem perder de vista a dimensão política de sua narrativa. Até tenta ser imparcial, colocando uma sequência documental de críticas ao regime cubano, de forma um tanto desajeitada.

Longe de ter atingido a perfeição, o diretor francês chegou a um resultado bastante envolvente, que merece atenção. Quanto melhor um livro, mais difícil é adaptá-lo, já diziam os mestres fundadores da sétima arte. E uma das batalhas culturais que atravessam nosso tempo é a criação de obras nacionais (ou multinacionais, como é o caso) que se contraponham à hegemonia cinematográfica norte-americana, de entretenimento acrítico. Nesse front a Rede Vespa de Assayas vem somar, com méritos.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).

INDÚSTRIA AMERICANA, O FILME

American-Factory

Uma fábrica da GM na cidade de Dayton, Ohio, foi desativada, deixando centenas de desempregados. Não é um problema local, mas mundial, certo? Alô, pessoal da Ford de S. Bernardo!

Em 2015, uma indústria chinesa de vidros automotivos assume a planta, e instaura novos métodos de trabalho. A equipe de documentaristas registra todo o processo (Já havia feito um doc antes sobre o último carro fabricado, e veio junto com o pacote comprado pelos chineses).

Em Roma, faça como os romanos”. A citação do novo patrão, num dos discursos iniciais, é um dos elementos do embate entre culturas diferentes, métodos de produção inconciliáveis e posições políticas em transe perante a crescente robotização industrial.

A maior potência do mundo cada vez mais se infiltra na economia da segunda maior potência do mundo. Não apenas compra ações na Bolsa de Nova Iorque, mas fábricas inteiras, bancos e produtoras cinematográficas, entre outros ramos.

O casal de diretores é muito hábil em entrelaçar depoimentos que abarcam vários pontos de vista. A edição é ágil, a fotografia primorosa, trilha sonora perfeita, e tudo isso contribui muito para o resultado. O filme ilustra muitas das teses do historiador Yuval Harari (Homo Deus, 21 Lições para o Século XXI) , sem cair em maniqueísmos.

Não é que não tome partido, atenção! A mensagem é basicamente humanista, alertando para a necessidade de construir um diálogo permanente entre as partes (capital x trabalho, no caso), apontando para a desumanidade de certas escolhas, revelando as contradições de um sistema “perfeito”. Pode não ser a tua ou a minha escolha, mas é merecedora de aplausos pela pertinência da inserção no debate contemporâneo.

Mereceu o Oscar? Sei lá, não vi todos os concorrentes, só o brasileiro Democracia em Vertigem. Que aliás, é muito bom. Há momentos na História em que é necessário ter lado, tomar partido, assumir uma posição. J’accuse, como diria Zola.

Petra Costa fez um filme urgente, necessário, pessoal e também universal, desnudando um golpe contra a democracia. Julia Reichert e Steven Bognar não esconderam que tiveram apoio do casal Obama na produção do filme. Democratas americanos, capitalistas chineses, operários explorados. É o zeitgeist da vez, com o qual temos de lidar.

Literatura como vingança

             O excelente filme Animais Noturnos, de Tom Ford, de 2016, parte de uma situação aparentemente banal para trazer uma questão que paira sobre os escritores, como um espectro: alguém é capaz de escrever um livro por vingança?  O filme é baseado num romance de Austin Wright, “Tony and Susan”.

           Como muita gente não viu o filme nem leu o livro, cabe aqui uma pequena sinopse. Susan, uma galerista chique de Nova York, recebe um envelope com um texto original de seu ex-namorado, Edward. Trata-se de um romance, chamado Animais Noturnos, que ela começa a ler na mesma noite.

        A partir daí, entremeiam-se as narrativas. Notamos que Susan (vivida pela excelente Amy Adams, de A Chegada) tem uma relação terminal com o atual marido. A história-dentro-da-história mostra um casal (Amy e Jake Gillenhaal) que, acompanhados da filha adolescente, viajam pelo meio-oeste americano de carro, e são abordados por uma gangue liderada por um psicopata chamado Ray (Aaron-Taylor Johnson). A partir daí, tudo é terror.

         Voltando à primeira linha narrativa, alguns flashbacks mostram que o rompimento entre Susan e Edward se deu porque ela o considerava “fraco”, além da evidente distância social que os separava. Amy é rica, filha de uma mãe esnobe (Laura Linney), e fica dividida entre sacrificar seu amor ou seu modo de vida.

                Não vou entrar em detalhes, para não estragar o prazer de ver o filme. Mas a questão moral que se coloca é a de uma obra de arte – um romance -, servir de expiação, vingança, declaração de amor, ódio, desespero, desprezo, rancor. Esses sentimentos tão humanos e vitais levam a alguém a escrever um livro?

                Ouvimos algumas vezes que o que move os artistas é a vaidade. Pode ser verdade, se pensarmos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Mas duvido que Camões, Shakespeare, Cervantes ou Dante tenham escrito por vaidade. Até o vil metal é um motivo mais justificável para estes artistas, no contexto em que viviam. Dante atirou vários desafetos ao Inferno, na Divina Comédia, lembrou-me um amigo internáutico. Mas não foi somente vingança que motivou toda a arquitetura da Divina Comédia, ou não haveria um Purgatório e um Paraíso.

                Claro que a vingança pode se dar pela forma da sátira, do humor, do sarcasmo, da caricatura. Gregório de Matos, ao desbancar o governador Tucano em versos, no século XVII na Bahia, estava se vingando. Mas isso geraria um romance? Podemos supor que uma obra moderna da literatura brasileira, como Um Copo de Cólera (Raduan Nassar), tenha sido escrita por vingança? Não, o último capítulo desmonta a tese. Escrita com raiva pode até ser, o título explicita isso, mas é uma (desesperada) declaração de amor.

            Outros exemplos ocorrerão, certamente, a quem se debruçar sobre a questão. Mas fica aqui a recomendação ao filme, muito bem dirigido, roteirizado e interpretado. A abertura é inesquecível, com aquelas mulheres velhas e obesas, completamente nuas, dançando como cheerleaders para o público. Esse filme jamais passará na TV aberta sem cortes… As passagens da ficção que assistimos para a ficção-dentro-da-ficção são muito bem feitas, e o desenlace é realizado com grande ousadia. Uma sequência de alguns minutos, estática e melancólica, que provoca reflexão e, para os mais atentos, iluminação.

      As mortes são simbólicas, e há vários outros símbolos espalhados pelo filme/narrativa. Separar o real-ficcional do real-real é o grande desafio deste filme memorável, que afinal nos faz pensar sobre quantas dessas questões se colocam em nossa própria existência.

A Chegada e seu desafio

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Você conhece a hipótese de Sapir-Whorf? Criada nos anos 30 por Edward Sapir e Benjamin Whorf, também ficou conhecida como relativismo linguístico, e influenciou antropólogos, linguistas, semiólogos e psicólogos por algumas décadas.

            Parte de uma proposição do naturalista Humboldt (1767/1835), de que o homem aprendeu primeiro a linguagem, e depois a pensar. Ou seja, é impossível haver pensamento “puro”, uma vez que ele só pode ser expresso através da linguagem.

            Sapir e Whorf desenvolveram esta linha de raciocínio sugerindo que o universo cultural em que as pessoas estão imersas determina sua compreensão do mundo. Dando um exemplo simplista, se uma tribo primitiva só tem seis palavras para definir as cores (branco, preto, azul, amarelo, vermelho e verde), literalmente eles só enxergam estas cores. Não existem nuances, já que não há palavras para exprimi-las. Quando estes indivíduos aprendem uma nova língua, seu universo sensorial se amplia, e eles passam a enxergar coisas que não viam antes.

E nem precisa ser primitivo! Digamos que você aprendeu, em inglês, a palavra serendipity, que não existe em português. Significa algo como a felicidade de encontrar algo que você não estava procurando. Uma mistura de surpresa e satisfação. Você incorpora este novo sentimento ao seu repertório, passa de fato a sentir isso. Ou, no sentido inverso, um inglês que aprende a palavra saudade, em português.

            Agora, esqueça tudo isso. Esta hipótese hoje está superada pelo chamado cognitivismo, uma teoria mais ampla, que utiliza ferramentas mais modernas, como sistemas de processamento da informação. Mas suas marcas ainda persistem em certas áreas, principalmente a antropologia funcionalista e a literatura de ficção. Ponto de partida rico para explorações indagativas, o encontro entre culturas e civilizações diferentes costuma render boas histórias.

            É sobre a hipótese de Sapir-Whorf que é construído o filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve. Só que aqui a tribo primitiva somos nós, “civilizados” do século XXI, perante a visita de misteriosos seres alienígenas. Doze naves de aspecto estranhamente rústico (parecem conchas de pedra, escuras e rugosas) surgem simultaneamente em vários pontos do planeta. As grandes potências mobilizam suas armas, na iminência de um ataque. As tentativas de comunicação são infrutíferas, pois os sons emitidos pelos visitantes parecem apenas grunhidos em baixa frequência.

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            Entra em ação a protagonista, Louise Banks (Amy Adams, em interpretação densa e angustiada), uma linguista, que é convocada pela Nasa para tentar se comunicar com os alienígenas. Formará uma dupla com o físico Ian Donelly, vivido pelo ator Jeremy Renner. Juntos, fazem contato com os enigmáticos Heptapods, que utilizam uma sofisticada linguagem iconográfica, baseada em círculos de bordas irregulares.

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            Circularidade. Este é outro conceito-chave do filme. A doutora Banks é afligida por um drama pessoal, mostrado em aparentes flashbacks, de forma intensa e dolorida. À medida que vai decodificando a linguagem circular dos alienígenas, vai ressignificando o mundo/a vida de uma nova forma. Presente, passado e futuro se interpenetram de forma engenhosa, e o drama individual reflete-se no coletivo. A humanidade pode se autodestruir, se ela não entender o que está se passando.

            Baseado num conto de Ted Chiang, a história carrega uma mensagem pacifista: se não compreendermos o que queremos, quem somos, vamos nos aniquilar. “Na guerra não existem vencedores, só viúvas”, ensina uma frase (em mandarim) pronunciada em momento crucial do filme. O diretor optou por uma estética visual sombria, enevoada, bem distante dos brilharecos habituais da ficção científica, direcionando nossa atenção para o texto, o enredo, o desafio mental proposto.

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            Indicado para várias categorias no Oscar 2017, levou apenas um prêmio secundário, como era de se esperar. É um filme muito mais “europeu” que americano, aspira a ser Tarkovski e não Spielberg, embora fale de contatos imediatos de terceiro grau. Suas preocupações não são tecnológicas, mas existenciais, como sempre ocorre na melhor ficção científica. A Chegada certamente não é um filme perfeito, mas belo, pungente e necessário. Já é um clássico, entre filmes tão lineares como seus concorrentes.

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Henry James revisitado

capaloja-hjamesComentei em janeiro, aqui no Fósforo, a minha decisão de Ano Novo, tomada há quase duas décadas, de ler pelo menos um grande clássico por ano. E 2016 começou bem, com um dos grandes da literatura de língua inglesa: Henry James. Foi com muito prazer que li Os Papéis de Aspern, em nova edição – aliás impecável – da Penalux.

            Muito já foi dito sobre James, um dos mestres fundadores da moderna literatura do século XX, juntamente com seus contemporâneos Proust e Tolstói. As longas e tortuosas frases, o estilo cheio de nuances e os diálogos ricos em ambiguidades definiram seu estilo. A exploração psicológica dos personagens mexe com a percepção do leitor, iluminando novos sentidos e justificando atitudes e conflitos. Não à toa, era irmão de William James, um dos pais da psicologia funcional, e devem ter trocado algumas ideias e opiniões com certa frequência.

            Apesar de ligado à escola realista, Henry James tornou-se famoso pelas suas histórias de fantasmas. A mais famosa é A Volta do Parafuso, que teve a sorte de ter uma adaptação para o cinema, dirigida por Jack Clayton (Os Inocentes, 1961). As atuações marcantes de Debora Kerr e Meg Jenkins contribuíram para a fama de um dos filmes de suspense e terror mais aplaudidos de todos os tempos.

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The Innocents (1961) Directed by Jack Clayton Shown: Peter Wyngarde, Deborah Kerr

            Não há fantasmas em Os Papéis de Aspern, pelo menos no sentido sobrenatural. Jeffrey Aspern é um poeta romântico fictício, idolatrado pelo narrador do romance, um editor cujo nome nunca é citado. Sabendo que uma centenária amante do poeta tem a posse de cartas e papéis que podem ser valiosos, tenta se aproximar dela sem muitos escrúpulos, tornando-se seu inquilino.

            A ação se passa toda em Veneza, cidade romântica por excelência. O que mais impressiona na narrativa é a habilidade com que vai se revelando a personalidade do protagonista, à medida em que ele se envolve com a sobrinha da velha senhora, uma mulher de meia idade sem atrativos e completamente submissa à tia.

            Além da trama engenhosa e do final surpreendente, James nos envolve com sua narrativa densa e cheia de sutilezas. Paira sobre todo o livro uma espécie de humor perverso, que zomba das fraquezas e desejos de todo ser humano.

            O tradutor Chico Lopes nos informa, em saboroso prefácio, que Henry James gostava mais dos Papéis de Aspern que da Volta do Parafuso, apesar do maior sucesso deste. Infelizmente, Aspern não teve a mesma sorte no cinema, tendo uma única e pouco apreciada adaptação em 1947.

            Ler ou reler James no século XXI nos dá a dimensão exata de quanto sua influência foi marcante em todo o século passado. James, que esteve várias vezes em Veneza, encontrou o cenário ideal para os caminhos fluidos de sua linguagem. Sua narrativa líquida, mansa, aparentemente tranquila, deixa entrever em breves momentos o que se passa no fundo. Para completar, as ilustrações de Silvana de Quadros ajudam a compor a imagem de uma Veneza idílica, misteriosa e ciosa de seus segredos. Um livraço!


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