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Literatura como vingança

             O excelente filme Animais Noturnos, de Tom Ford, de 2016, parte de uma situação aparentemente banal para trazer uma questão que paira sobre os escritores, como um espectro: alguém é capaz de escrever um livro por vingança?  O filme é baseado num romance de Austin Wright, “Tony and Susan”.

           Como muita gente não viu o filme nem leu o livro, cabe aqui uma pequena sinopse. Susan, uma galerista chique de Nova York, recebe um envelope com um texto original de seu ex-namorado, Edward. Trata-se de um romance, chamado Animais Noturnos, que ela começa a ler na mesma noite.

        A partir daí, entremeiam-se as narrativas. Notamos que Susan (vivida pela excelente Amy Adams, de A Chegada) tem uma relação terminal com o atual marido. A história-dentro-da-história mostra um casal (Amy e Jake Gillenhaal) que, acompanhados da filha adolescente, viajam pelo meio-oeste americano de carro, e são abordados por uma gangue liderada por um psicopata chamado Ray (Aaron-Taylor Johnson). A partir daí, tudo é terror.

         Voltando à primeira linha narrativa, alguns flashbacks mostram que o rompimento entre Susan e Tony se deu porque ela o considerava “fraco”, além da evidente distância social que os separava. Amy é rica, filha de uma mãe esnobe (Laura Linney), e fica dividida entre sacrificar seu amor ou seu modo de vida.

                Não vou entrar em detalhes, para não estragar o prazer de ver o filme. Mas a questão moral que se coloca é a de uma obra de arte – um romance -, servir de expiação, vingança, declaração de amor, ódio, desespero, desprezo, rancor. Esses sentimentos tão humanos e vitais levam a alguém a escrever um livro?

                Ouvimos algumas vezes que o que move os artistas é a vaidade. Pode ser verdade, se pensarmos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Mas duvido que Camões, Shakespeare, Cervantes ou Dante tenham escrito por vaidade. Até o vil metal é um motivo mais justificável para estes artistas, no contexto em que viviam. Dante atirou vários desafetos ao Inferno, na Divina Comédia, lembrou-me um amigo internáutico. Mas não foi somente vingança que motivou toda a arquitetura da Divina Comédia, ou não haveria um Purgatório e um Paraíso.

                Claro que a vingança pode se dar pela forma da sátira, do humor, do sarcasmo, da caricatura. Gregório de Matos, ao desbancar o governador Tucano em versos, no século XVII na Bahia, estava se vingando. Mas isso geraria um romance? Podemos supor que uma obra moderna da literatura brasileira, como Um Copo de Cólera (Raduan Nassar), tenha sido escrita por vingança? Não, o último capítulo desmonta a tese. Escrita com raiva pode até ser, o título explicita isso, mas é uma (desesperada) declaração de amor.

            Outros exemplos ocorrerão, certamente, a quem se debruçar sobre a questão. Mas fica aqui a recomendação ao filme, muito bem dirigido, roteirizado e interpretado. A abertura é inesquecível, com aquelas mulheres velhas e obesas, completamente nuas, dançando como cheerleaders para o público. Esse filme jamais passará na TV aberta sem cortes… As passagens da ficção que assistimos para a ficção-dentro-da-ficção são muito bem feitas, e o desenlace é realizado com grande ousadia. Uma sequência de alguns minutos, estática e melancólica, que provoca reflexão e, para os mais atentos, iluminação.

      As mortes são simbólicas, e há vários outros símbolos espalhados pelo filme/narrativa. Separar o real-ficcional do real-real é o grande desafio deste filme memorável, que afinal nos faz pensar sobre quantas dessas questões se colocam em nossa própria existência.

A Chegada e seu desafio

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Você conhece a hipótese de Sapir-Whorf? Criada na década de 30 por Edward Sapir e Benjamin Whorf, também ficou conhecida como relativismo linguístico, e influenciou antropólogos, linguistas, semiólogos e psicólogos por algumas décadas.

            Parte de uma proposição do naturalista Humboldt (1767/1835), de que o homem aprendeu primeiro a linguagem, e depois a pensar. Ou seja, é impossível haver pensamento “puro”, uma vez que ele só pode ser expresso através da linguagem.

            Sapir e Whorf desenvolveram esta linha de raciocínio sugerindo que o universo cultural em que as pessoas estão imersas determina sua compreensão do mundo. Dando um exemplo simplista, se uma tribo primitiva só tem seis palavras para definir as cores (branco, preto, azul, amarelo, vermelho e verde), literalmente eles só enxergam estas cores. Não existem nuances, já que não há palavras para exprimi-las. Quando estes indivíduos aprendem uma nova língua, seu universo sensorial se amplia, e eles passam a enxergar coisas que não viam antes.

E nem precisa ser primitivo! Digamos que você aprendeu, em inglês, a palavra serendipity, que não existe em português. Significa algo como a felicidade de encontrar algo que você não estava procurando. Uma mistura de surpresa e satisfação. Você incorpora este novo sentimento ao seu repertório, passa de fato a sentir isso. Ou, no sentido inverso, um inglês que aprende a palavra saudade, em português.

            Agora, esqueça tudo isso. Esta hipótese hoje está superada pelo chamado cognitivismo, uma teoria mais ampla, que utiliza ferramentas mais modernas, como sistemas de processamento da informação. Mas suas marcas ainda persistem em certas áreas, principalmente a antropologia funcionalista e a literatura de ficção. Ponto de partida rico para explorações indagativas, o encontro entre culturas e civilizações diferentes costuma render boas histórias.

            É sobre a hipótese de Sapir-Whorf que é construído o filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve. Só que aqui a tribo primitiva somos nós, “civilizados” do século XXI, perante a visita de misteriosos seres alienígenas. Doze naves de aspecto estranhamente rústico (parecem conchas de pedra, escuras e rugosas) surgem simultaneamente em vários pontos do planeta. As grandes potências mobilizam suas armas, na iminência de um ataque. As tentativas de comunicação são infrutíferas, pois os sons emitidos pelos visitantes parecem apenas grunhidos em baixa frequência.

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            Entra em ação a protagonista, Louise Banks (Amy Adams, em interpretação densa e angustiada), uma linguista, que é convocada pela Nasa para tentar se comunicar com os alienígenas. Formará uma dupla com o físico Ian Donelly, vivido pelo ator Jeremy Renner. Juntos, fazem contato com os enigmáticos Heptapods, que utilizam uma sofisticada linguagem iconográfica, baseada em círculos de bordas irregulares.

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            Circularidade. Este é outro conceito-chave do filme. A doutora Banks é afligida por um drama pessoal, mostrado em aparentes flashbacks, de forma intensa e dolorida. À medida que vai decodificando a linguagem circular dos alienígenas, vai ressignificando o mundo/a vida de uma nova forma. Presente, passado e futuro se interpenetram de forma engenhosa, e o drama individual reflete-se no coletivo. A humanidade pode se autodestruir, se ela não entender o que está se passando.

            Baseado num conto de Ted Chiang, a história carrega uma mensagem pacifista: se não compreendermos o que queremos, quem somos, vamos nos aniquilar. “Na guerra não existem vencedores, só viúvas”, ensina uma frase (em mandarim) pronunciada em momento crucial do filme. O diretor optou por uma estética visual sombria, enevoada, bem distante dos brilharecos habituais da ficção científica, direcionando nossa atenção para o texto, o enredo, o desafio mental proposto.

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            Indicado para várias categorias no Oscar 2017, levou apenas um prêmio secundário, como era de se esperar. É um filme muito mais “europeu” que americano, aspira a ser Tarkovski e não Spielberg, embora fale de contatos imediatos de terceiro grau. Suas preocupações não são tecnológicas, mas existenciais, como sempre ocorre na melhor ficção científica. A Chegada certamente não é um filme perfeito, mas belo, pungente e necessário. Já é um clássico, entre filmes tão lineares como seus concorrentes.

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Henry James revisitado

capaloja-hjamesComentei em janeiro, aqui no Fósforo, a minha decisão de Ano Novo, tomada há quase duas décadas, de ler pelo menos um grande clássico por ano. E 2016 começou bem, com um dos grandes da literatura de língua inglesa: Henry James. Foi com muito prazer que li Os Papéis de Aspern, em nova edição – aliás impecável – da Penalux.

            Muito já foi dito sobre James, um dos mestres fundadores da moderna literatura do século XX, juntamente com seus contemporâneos Proust e Tolstói. As longas e tortuosas frases, o estilo cheio de nuances e os diálogos ricos em ambiguidades definiram seu estilo. A exploração psicológica dos personagens mexe com a percepção do leitor, iluminando novos sentidos e justificando atitudes e conflitos. Não à toa, era irmão de William James, um dos pais da psicologia funcional, e devem ter trocado algumas ideias e opiniões com certa frequência.

            Apesar de ligado à escola realista, Henry James tornou-se famoso pelas suas histórias de fantasmas. A mais famosa é A Volta do Parafuso, que teve a sorte de ter uma adaptação para o cinema, dirigida por Jack Clayton (Os Inocentes, 1961). As atuações marcantes de Debora Kerr e Meg Jenkins contribuíram para a fama de um dos filmes de suspense e terror mais aplaudidos de todos os tempos.

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The Innocents (1961) Directed by Jack Clayton Shown: Peter Wyngarde, Deborah Kerr

            Não há fantasmas em Os Papéis de Aspern, pelo menos no sentido sobrenatural. Jeffrey Aspern é um poeta romântico fictício, idolatrado pelo narrador do romance, um editor cujo nome nunca é citado. Sabendo que uma centenária amante do poeta tem a posse de cartas e papéis que podem ser valiosos, tenta se aproximar dela sem muitos escrúpulos, tornando-se seu inquilino.

            A ação se passa toda em Veneza, cidade romântica por excelência. O que mais impressiona na narrativa é a habilidade com que vai se revelando a personalidade do protagonista, à medida em que ele se envolve com a sobrinha da velha senhora, uma mulher de meia idade sem atrativos e completamente submissa à tia.

            Além da trama engenhosa e do final surpreendente, James nos envolve com sua narrativa densa e cheia de sutilezas. Paira sobre todo o livro uma espécie de humor perverso, que zomba das fraquezas e desejos de todo ser humano.

            O tradutor Chico Lopes nos informa, em saboroso prefácio, que Henry James gostava mais dos Papéis de Aspern que da Volta do Parafuso, apesar do maior sucesso deste. Infelizmente, Aspern não teve a mesma sorte no cinema, tendo uma única e pouco apreciada adaptação em 1947.

            Ler ou reler James no século XXI nos dá a dimensão exata de quanto sua influência foi marcante em todo o século passado. James, que esteve várias vezes em Veneza, encontrou o cenário ideal para os caminhos fluidos de sua linguagem. Sua narrativa líquida, mansa, aparentemente tranquila, deixa entrever em breves momentos o que se passa no fundo. Para completar, as ilustrações de Silvana de Quadros ajudam a compor a imagem de uma Veneza idílica, misteriosa e ciosa de seus segredos. Um livraço!

Trumbo e o macarthismo

Dalton Trumbo é um nome desconhecido para a maioria dos brasileiros. Muitos ficam surpresos ao saber que o cara enganou todo o establishment de Hollywood e ainda assim levou dois Oscars usando pseudônimos, além de um com o nome real. Não porque quisesse, mas porque a infame perseguição ideológica durante o período da Guerra Fria o obrigou a trabalhar de forma clandestina.

                Durante a 2ª Guerra, a aliança dos EUA com a URSS, contra o nazismo,  fez com que americanos de esquerda, socialistas e comunistas se organizassem livremente na “maior democracia do mundo”. Terminada a guerra, a disputa entre as duas potências mudou o clima interno. Qualquer um que fosse acusado de ser vagamente de esquerda era estigmatizado, ofendido, visto como traidor. Milhares perderam seus empregos, muitos foram presos e condenados sem a menor prova. O caso mais emblemático foi o de Ethel e Julius Rosenberg, condenados e executados por supostamente venderem segredos militares para os soviéticos nos anos 50, o que nunca se comprovou. O caso rendeu protestos e manifestações em todo o mundo, e Daniel, romance de E.L. Doctorow sobre o filho do casal, virou filme em 1983, dirigido por Sidney Lumet.

Daniel Lumet

                A paranoia fascista do macarthismo foi dirigida principalmente a sindicatos, associações de trabalhadores, universidades, artistas e intelectuais. Nada muito diferente do que vivemos hoje no Brasil, com agressões públicas a pessoas de esquerda, sejam políticos, sindicalistas ou artistas. A maior diferença é que lá o Congresso perseguia e punia sem provas, aqui a própria Justiça se encarrega disso.

Hollywood, claro, não escapou à sanha persecutória. Atores, diretores e roteiristas foram convocados para explicar suas atividades “subversivas” em Washington, perante uma comissão parlamentar liderada pelo senador McCarthy. O grupo chamado de “Os Dez de Hollywood” tornou-se um símbolo, por declarar o depoimento ilegal e se recusar a responder, alegando em sua defesa a Primeira Emenda da Constituição americana. Para os democratas, um símbolo de resistência. Para a grande maioria do povo, manipulado pela mídia e suas manchetes escandalosas, símbolo de “traição à pátria”.

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Esposa e filhos de Trumbo seguram a placa com seu nome

Trumbo era um deles. Ao sair da prisão, com o nome na lista negra dos grandes estúdios, começou a escrever na clandestinidade. Vendeu roteiros vagabundos de filmes classe C, que escrevia em três dias, para sustentar a família. Um desses filmes, The Brave One (Arenas Sangrentas, no Brasil) foi surpreendentemente indicado para o Oscar de melhor roteiro em 1956. Premiado, o misterioso autor Robert Rich não compareceu, sendo o primeiro Oscar não recebido da história. Outro filme, Roman Holiday (A Princesa e o Plebeu), vencedor dois anos antes, tivera o Oscar de melhor história original recebido por Ian McLellan Hunter, amigo de Trumbo que serviu de testa-de-ferro.

Roman Holiday

Audrey Hepburn e Gregory Peck

            Testa-de-Ferro por Acaso, aliás, é um filme de 1976, dirigido por Martin Ritt e estrelado por Woody Allen, que narra de forma ficcional este subterfúgio utilizado por Trumbo e seus colegas durante o macarthismo. Não por acaso, o filme tem a participação de Zero Mostel, comediante que esteve na lista negra. O antissemitismo se confundia com o macarthismo, e muitos judeus, como Mostel, foram acusados de simpatia pelo comunismo. Nem Charles Chaplin escapou dessa…

Mostel Allen

Mostel e Allen

Chega agora às telas Trumbo – Lista Negra, dirigido com habilidade por Jay Roach e interpretado de maneira admirável por Bryan Cranston, indicado ao Oscar de melhor ator. Centrado na figura de Dalton Trumbo, o filme mostra seus conflitos, a crise familiar, a sua firmeza de caráter (que às vezes se confundia com teimosia), e principalmente a sua genialidade. O cara escrevia na banheira, se entupindo de álcool, tabaco e anfetamina, e produzia a tal ponto que chefes de estúdio notoriamente direitistas acabaram tendo que engolir seus roteiros.

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            Amigos pessoais, como Edward G. Robinson, fraquejaram perante a inquisição, e delataram os companheiros. Outros perderam família, emprego, propriedades e até a vida. Direitistas como John Wayne, Ronald Reagan e Hedda Hopper são retratados fielmente, e liberais como Kirk Douglas e o diretor Otto Preminger acabam se tornando os responsáveis pelo resgate de Trumbo, contribuindo com isso para o fim da odiosa lista negra. Convidado por Douglas, Trumbo assina o roteiro de Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick, com seu verdadeiro nome.

            O filme termina com esse retorno triunfal. Mas Trumbo não parou nos anos 60. O único filme que dirigiu na vida é o clássico antibelicista Johnny Vai à Guerra (1971), baseado numa novela de sua própria autoria. Um forte e comovente libelo contra a insanidade da guerra, seja ela qual for (no caso, era a Primeira Mundial). O último roteiro que escreveu foi para o filme Papillon (1973), dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Steve McQueen e Dustin Hoffman.

            Quando cursei Cinema, em meados do século passado, Trumbo já era um mito. Quando me tornei roteirista, já ocupava lugar de destaque no meu panteão. Finalmente um filme faz justiça a esse grande nome do cinema, responsável por grandes histórias e diálogos memoráveis. A única indicação ao Oscar de 2016 é para o (excelente) Bryan Cranston, porque roteirista e diretor que mexa com esses esqueletos escondidos no armário hollywoodiano ainda não é muito bem visto pelos poderosos. É também notável a atuação de Helen Mirren interpretando a jararaca Hedda Hopper, célebre colunista de fofocas que delatou muita gente do meio artístico.

            Enfim, um filme digno, muito bem realizado, que joga luz sobre um período que muitos americanos gostariam de esquecer. E reverencia a figura exponencial de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas e escritores que Hollywood teve a honra de acolher/perseguir/punir/reabilitar.

Um novo olhar sobre o velho faroeste

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              Uma conversa virtual com o escritor Chico Lopes, que além de grande ficcionista é cinéfilo, autor do excelente livro de ensaios Na Sala Escura – A Arte de Sonhar de Olhos Abertos, que comentei aqui, fez com que recordássemos alguns faroestes.

            Depois de relembrarmos nomes históricos e momentos sublimes, concordamos que Rastros de Ódio, de John Ford, é o melhor de todos os tempos, e não adianta chorar ou gritar “come back, Shane”. Falamos também dos western spaghettis, das trilhas de Enio Morricone, e terminamos lamentando a morte de um gênero tão rico.

            Dizem, aliás, que é o único gênero absolutamente cinematográfico. Aquele Oeste americano que conhecemos foi criado pelo cinema, estereotipado por Hollywood e mitologizado pelos italianos. A realidade era, digamos, um pouco mais suja e inglória.

            Mas era bela, quem há de negar? O Monument Valley, em Utah, tornou-se o cenário ideal de Ford e inúmeros outros cineastas de igual ou menor calibre. Alguns, ainda mais áridos, escolheram filmar nos Great Plains, o Meio-Oeste americano. A temática esgotou-se, como filme de cangaço no Brasil. Um ou outro cineasta contemporâneo ainda arrisca sua cartada, contra a vontade dos estúdios, que preferem apostar no que está na moda. Um deles foi Clint Eastwood, um herói do western spaghetti, que filmou o belo Os Imperdoáveis em 1992. Foi o último faroeste memorável que vi, declarei.

            E o Chico: “Ah, você precisa assistir Dívida de Honra.” Embatuquei. “Do Tommy Lee Jones, de 2014. Genial!”. Confessei minha ignorância, ao mesmo tempo em que comentava a admiração por outro filme dirigido por  Lee Jones, Três Enterros, de 2005. Um filme de fronteira, ensolarado e sombrio, cínico e lírico como poucos. Só que contemporâneo, não é um faroeste clássico.

            Neste sábado resolvi encarar o último grande faroeste do cinema. E, confesso, estou arrepiado até agora. Que filme! Fotografia belíssima, desde o primeiro plano. Lembra as grandes panorâmicas de Ford, claro, mas se passa totalmente nos Great Plains. Nebraska, para ser exato. A protagonista é Hillary Swank, soberba. Solteirona de posses numa cidadezinha perdida no meio do nada, assume a tarefa de levar três loucas para suas famílias em outro estado, cruzando o deserto. Salva um homem do enforcamento (Tommy Lee Jones) e obriga-o a acompanhá-la em sua jornada.

            Num cenário grandioso e arquetípico, com direito a encontros com índios e bandidos, tudo é novo. Uma mulher no comando das ações, mas oprimida pelas convenções da época. A insanidade, tratada com delicadeza e piedade, numa época em que as pessoas ditas normais muitas vezes agiam como loucas. Não deixa de ser uma espécie de loucura viver no meio daquele inferno, escaldante sob o sol e gelado sob a lua. E as ações se embaralham, há momentos em que não sabemos direito quem é o louco desta história.

            Lee Jones se supera, como ator, diretor e autor. Swank arrasa. As três coadjuvantes são perfeitas, e até sobra um pequeno papel para Meryl Streep, no final. Roteiro magnífico, sem duelos ou pancadarias. Talvez os saudosistas sintam falta disso, mas estamos falando de um novo olhar sobre uma época que se tornou lendária através do cinema. Um olhar pleno de perplexidade, mas humano. Ou cheio de humanidade, mas perplexo.

            Em uma palavra: imperdível!

            

Um Pio de Coruja

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 Qual a tua atitude quando resolve encarar um livro de crítica literária? Em geral, respiramos fundo e nos preparamos para uma aventura intelectual, muitas vezes difícil, penosa, algo assim como a escalada de uma montanha. Ao final, mesmo com joelhos e cotovelos esfolados, contemplamos a paisagem a nossos pés e percebemos que nosso campo de visão se ampliou. Ou não.

            Costumo dizer isso sobre literatura, em geral. Odeio quem diz que estudar é fácil, que ler é somente prazer. Não é. Muitas vezes envolve dor, sacrifício, concentração, superação. Mas o lado bom de gostar de ler é que de vez em quando topamos com uma paisagem de sonho, com aclives e declives inesperados e belos, com surpresas em cada curva do percurso.

            Um Pio de Coruja, de Chico Lopes, pertence a essa linhagem. Uma coletânea de críticas e ensaios que ultrapassam as fronteiras da literatura e dialogam com o cinema, com a psicologia, com a sociologia, com a crítica de costumes. E abro aqui um pequeno parêntesis: o próprio Chico é um personagem fascinante, que passou a vida em pequenas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, mas tem uma cultura cosmopolita extraordinária. De formação autodidata, o homem é fluente em inglês e também tradutor reconhecido. Ficcionista talentoso, poeta inspirado e artista plástico surpreendente, Chico se coloca de tal forma em suas pensatas que sentimos sua presença viva.

            O título do livro remete ao romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, onde um pio de coruja tem papel fundamental na decisão do personagem de contar a sua história. O volume se inicia com um fascinante conjunto de ensaios sobre Proust e seu célebre arqui-romance. Daí passamos para Henry James, Virginia Woolf, Truman Capote, F. Scott Fitzgerald, Flaubert e outros clássicos. Sempre com um gancho no cinema,  Chico Lopes desvenda relações cognitivas entre autores policiais (um gênero de sua predileção) e filmes, elege Nosferatu de Werner Herzog como a melhor refilmagem de todos os tempos (concordo com ele!), revela defeitos e qualidades em gente como H.P.Lovecraft, Paul Bowles, Borges, Ruth Rendell e Kerouac, demonstra admiração por Dalton Trevisan, relembra Kafka com propriedade, e homenageia Ignacio de Loyola Brandão, seu padrinho literário.

            O mais bacana de ler Chico Lopes é que ele se coloca com profunda honestidade intelectual. Nada lembra o pernosticismo acadêmico de certos críticos, que parecem pairar sobre o mundo dos mortais como pitonisas inatingíveis. Em alguns momentos Chico fala de sua formação literária, reflete sobre a difícil condição de viver longe das metrópoles, mas fustiga igualmente o pensamento provinciano e o sentimento rousseauniano de um retorno a um bucolismo utópico. É inesquecível a leitura do ensaio “O Inferno Jeca Enfrentado com Literatura”. Creio que todo aspirante a escritor situado fora do eixo Rio-São Paulo tira dali uma lição.

            E ainda sobram comentários deliciosos sobre o Drácula de Bram Stocker, o cadáver de Eva Peron, a literatura de autoajuda, a ambiguidade moral de Rimbaud, a crueldade de Patricia Highsmith, a poesia de Iacir Anderson Freitas e a mediocridade dos círculos literários brasileiros.

            Quer saber mais? Então é só encomendar o livro à Editora Penalux e se preparar para ser desafiado. Chico Lopes demonstra que é impossível resistir a uma boa provocação quando vem temperada com inteligência, conhecimento e evidente amor à literatura.

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Ida

Meus amigos sabem que não sou um cinéfilo. Apesar de ter me formado em Cinema e ser apaixonado por fotografia e boas histórias, não tenho paciência para trânsito, fila e televisão. Se para assistir um bom filme tenho de enfrentar uma dessas três coisas, geralmente desisto. Não me orgulho disso, apenas reconheço uma limitação…

Sei que isso parece uma heresia para a geração que cresceu diante da TV ou de um computador. Nunca baixei um filme pela internet. Nunca comprei um filme pirata na calçada da rua Augusta para ver em casa. Cinema para mim é tela grande, sala escura, um ritual. Se tocar uma campainha ou um telefone, corta o barato. Marilyn Monroe com 5 metros de altura é uma deusa sexy, inatingível e incontrolável. Com 5 cm é um inseto, ao alcance de um clique do controle remoto. Sem chance.

Por isso não comento muitos filmes aqui no Fósforo. Mesmo assim, alguns conhecidos me perguntam sobre o Oscar. Quem? Ah, o prêmio da indústria americana! Sinto certa vergonha, e tento assistir um ou outro. Descobri que o filme que mais curti em 2014 foi candidato: o argentino Relatos Selvagens.  Não ganhou. Em vez dele, um polêmico polonês.

Hoje assisti Ida, o tal. Logo de cara, o tema me trouxe lembranças de um clássico dos anos 60 que também girava em torno de um convento de freiras polonês, uma história de possessão demoníaca. Nada a ver. Ida é anos 60, mas visto sob a ótica do século XXI. Em comum, a fotografia em p&b.

E que fotografia! Muitos fotogramas do filme poderiam ser recortados, enviados a concursos e premiados. Um branco tão leitoso, um preto tão aveludado, que em poucos minutos esquecemos que o mundo é colorido, e mergulhamos naquela neve cheia de sombras que era a Polônia há 50 anos.

Uma jovem noviça, às vésperas de virar freira, é aconselhada pela Madre Superiora a conhecer sua única parenta, uma tia comunista, funcionária pública (juíza), alcoólatra, de hábitos liberais. Descobre que é judia, e que seus pais foram mortos durante a guerra. Calma, isso é narrado nos primeiros dez minutos de filme, não estou revelando o final (e odeio quem faz isso).

As duas tentam desvendar o passado obscuro. Uma bela e triste viagem, de revelações vitais e mortais. Como não gostar de um filme marcado pela Sinfonia Jupiter, de Mozart, e cujo clímax se dá com Naima, de Coltrane? O diretor polonês de nome impronunciável não está brincando. O lance da noviça com o saxofonista é filmado com discrição e elegância. O final, bem…

Assista. O Melhor Filme Estrangeiro do Oscar costuma ser muito melhor que o Melhor Filme, desde 1948. Ida é belo e triste, com um toque passadista. É assustador como o fantasma da guerra ainda assombra os países europeus, tantos anos depois. Mas, cá entre nós, Relatos Selvagens é melhor, mais provocador, mais inventivo.