Archive for the 'Fotografia' Category

Cantar é preciso

Fiz essa foto no Parque da Água Branca, em São Paulo, num sábado de primavera. Fui abastecer a despensa na Feira da Reforma Agrária, e aproveitar para ouvir umas violas, aplaudir umas danças, apreciar o artesanato e conversar com gente de todo o país.

Não gente comum, mas a brava gente do MST: agricultores e agricultoras, assentados e organizados em cooperativas, cozinheiros, artesãos, dançantes e brincantes de colorida diversidade. Saudade destas feiras, hoje suspensas por causa da pandemia que desgraça nosso povo e expõe a omissão criminosa de tantos governantes.

Depois de perambular por quase duas horas, mãos carregadas de sacolas, já batia em retirada quando topei com um grupo informal de jovens que cantava. Não no palco oficial, não com microfones e amplificadores, mas no chão, no meio do povo. Coisa forte, bonita de se ver e ouvir.

Mais que nunca é preciso cantar, escreveu Vinicius nos anos 60. Cantar é preciso? Como, se viver não é preciso? Talvez porque cantar seja como navegar por outras esferas, e chegar a porto seguro requeira ensaio, treino, direção. Mas cantar de forma espontânea também pode ser lindo, e ver aquele grupo de jovens cantando como quem tem um novo mundo a construir foi um alento. Saí do parque cantando baixinho, remontando os escombros do velho mundo a que pertenço.

(São Paulo, SP, outubro de 2015.) 

O varal

Essa foto foi feita na pequena vila de Suruacá, na margem esquerda do rio Tapajós, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Estive lá registrando o trabalho fantástico da Saúde e Alegria, organização não-governamental premiada internacionalmente que atua desde 1987 na região.

Todos reunidos na inauguração do primeiro telecentro movido a energia solar, festa, confraternização, lanche comunitário. Na volta, esperando o barco, andei por alguns minutos pela beira do rio, preocupado com tempestade que se anunciava, e topei com esse varal.

A foto em preto e branco acentuaria a dramaticidade do céu carregado, mas o colar colorido sobre a paisagem se perderia. Por sorte, uma figura humana solitária pontua o cenário, e dá uma ideia de proporção perante o majestoso Tapajós.

A vegetação em primeiro plano atesta a proximidade da água doce, e a areia branca que se esparrama a perder de vista é orgulho de toda a população ribeirinha. Ali perto, uma hora de barco a jusante, está Alter do Chão. São as praias mais famosas da Amazônia, cantadas em prosa e verso.

Mas o verso que me ocorreu naquele momento foi escrito pelo carioca Orestes Barbosa, na inesquecível canção Chão de Estrelas: “festa de nossos trapos coloridos”.  No cenário, onde esperava encontrar apenas o branco, o cinza e o azul, com alguma coisa de verde, os pedacinhos multicores alinhados impuseram uma nova hierarquia do olhar. A pequena comunidade, integrada à natureza há várias gerações, vivendo de pesca e borracha, talvez não saiba, mas escreveu poesia na paisagem.

O retratista

O fotógrafo retrata um retratista, que retrata dois jovens irmãos. A princípio, uma cena banal, apenas curiosa, das ruas de Montmartre. Ou de qualquer lugar turístico do mundo. Mas, revendo a imagem alguns anos depois, uma curiosa rede de relações e significados se estabelece em minha mente. A menina olha, altiva, para o desenhista. O retrato da menina, esboçado pelo retratista, olha para o fotógrafo, ou seja, eu. Ou seja, nós.Uma ilusão especular, que propõe uma triangulação interessante de olhares. Tridimensional seria um adjetivo adequado, se não fosse tão sequestrado pela indústria digital foto-cinematográfica para um uso unidimensional. A menina hoje é uma mulher, e talvez gostasse de ver essa foto. O menino está entediado, quer acabar logo com aquela chatice. Eles não sabem que passaram a fazer parte do meu repertório de lembranças. É verão, nota-se pelo vestuário. No alto, à esquerda, dois pés calçados de tênis poluem a foto. Mas podem ser vistos, por uma perspectiva de composição renascentista, como a ocupação de um espaço vazio. A foto amadora, feita com uma câmera compacta, ficaria melhor se aparecessem apenas os paralelepípedos? Não há referência de horizonte, mas um poste no alto à direita está obviamente fora da vertical. Isso é compensado pela forte linha do braço, da perna e da prancheta do desenhista, que puxa tudo para o lado oposto, compensando até a postura dos retratados.A menina tem os cabelos soltos. O homem prende, por contingência profissional. Não dá pra desenhar com o cabelo caindo na cara. A camisa escura, talvez preta, dos retratados, contrasta fortemente com a brancura do papel e da camiseta regata do retratista, e dão certa graça à imagem. A calça escura que ele veste, novamente, reequilibra as tonalidades.Objetos estranhos provocam ruído nas bordas da imagem, e acentuam sua amadora imperfeição. E um elemento misterioso, à direita da prancheta, quase no centro da foto, atiça a curiosidade. Demorei anos pra notar aquilo. Você percebeu?

(Foto:Daniel Brazil. Paris, 2009)


Arquivos