Archive for the 'Literatura' Category

Crimes de ontem, negócios de hoje

Vestígios

Releio com prazer este policial, recém lançado pela debutante editora Bandeirola. Escrevi “releio” porque fiz uma leitura há alguns meses, quando ainda era inédito. Sandra Abrano conseguiu o feito de fazer com que eu voltasse a mergulhar na trama como se fosse a primeira vez, e ainda plantou umas surpresinhas pelo caminho.

Vestígios tem uma trama complexa e bem concatenada, desenvolvida na cidade de São Paulo. Um policial de conotações políticas, que atravessa algumas décadas de nossa história. Um enredo embebido de paulistanidade, mas de compreensão universal.

Personagens reais entremeiam-se com personagens ficcionais sem provocar dissonâncias. A narrativa flui com destreza, mesmo com várias interferências de linguagem (notícias de jornal, relatórios policiais, roteiros de cinema). Não há exatamente um protagonista, mas um conjunto de personagens principais cuja intersecção com os secundários movimenta o suspense. A ação se inicia na Vila Maria e se desdobra até a Bolívia, uma vez que os tentáculos do crime são hoje globalizados.

Há policiais, há assassinatos, há ex-agentes da repressão, há jovens esperançosos, há mães dedicadas, há um padre cujo irmão desapareceu durante a ditadura. E, principalmente, há uma trama polifônica de surpreendente desenlace, ingrediente básico para a receita de qualquer bom policial.

Sandra Abrano faz parte do seleto time de escritores paulistas contemporâneos cujas palavras exalam o cheiro das ruas, picham os muros da ascensão social, reverberam o ruído de fundo da megalópole. Seu cenário não é a favela nem a cobertura de luxo, mas o caótico cosmo que se esparrama entre estes extremos.

A edição é bem cuidada, atenta aos pequenos detalhes. Há páginas brancas, cinzas e negras, e o leitor atento vai perceber o motivo. A editora Bandeirola mostra que é possível inovar, mesmo em tempos árduos.

Anúncios

Literatura crônica

Abraço dos Cegos

Dizem que a crônica, como gênero literário, nasceu no Brasil. Há certo exagero ufanista nisso, mas de fato se desenvolveu em terras tupiniquins uma forma curta de literatura que não encontra similar dentro do cânone ocidental (como diria Harold Bloom).

O curioso é que a crônica brasileira surgiu por uma espécie de darwinismo intelectual. Em nome da sobrevivência, poetas, romancistas e contistas ofereceram seus serviços à imprensa, em forma de colunas periódicas mensais, semanais e, em casos extremos, até diárias.

Mestres da ficção, como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, fizeram das crônicas um porto seguro para garantir os caraminguás no fim do mês. Poetas do calibre de Drummond, Vinicius, Cecília Meireles e Mario Quintana foram cronistas dedicados. Dramaturgos como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos ou Mário Prata produziram centenas de textos curtos, publicados em jornais e revistas. E há os, digamos, autênticos, que tiveram seus nomes imortalizados pelas crônicas: João do Rio, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e muitos outros fora do eixo Rio-São Paulo. Gaúchos, cearenses, baianos, mineiros, todos têm seus cronistas de estimação, e a literatura de seus estados não seria a mesma sem eles.

Mas, pressionada por desígnios mercadológicos, a crônica literária mudou de território. Rareia nos jornalões, desaparece nas revistas, sofre uma mutação tecnológica e se dispersa no labirinto informático. Passa a ser confundida com resumos de impressões cotidianas, opiniões aleatórias, críticas sociológicas e políticas, palpites estéticos sem lastro. Textos que seriam lidos de forma condescendente nas páginas do diário de uma adolescente são chamados de crônica, nas redes sociais. Gente incapaz de escrever um conto com um enredo aceitável se apresenta como escritor por escrever comentários irrelevantes em páginas virtuais.

Por tudo isso, é admirável ver um escritor de renome lançar uma coletânea de crônicas nesse mar revolto do século XXI, como quem solta um barquinho de papel, manuscrito dos dois lados, na enxurrada. Mas basta ler as primeiras páginas de O Abraço dos Cegos, de Chico Lopes (Editora Penalux, 2018), para perceber que estamos pisando no terreno consagrado da Literatura, e não no pantanal das futilidades descartáveis.

A maior parte das crônicas de Chico Lopes são narrativas em primeira pessoa, que oscilam entre a reflexão filosófica e a mirada, ora crítica ora nostálgica, de uma realidade muito peculiar: a de um escritor nascido e vivido em pequenas cidades do interior. Mas o autor, como queria Tolstói, transcende a geografia e se revela universal, ultrapassando os limites de sua aldeia. A literatura, a música e o cinema abriram as portas, e por elas o mundo entrou e se acomodou em sua mesa de trabalho.

Escritas em épocas variadas, como toda coletânea, devem ser lidas com a compreensão de que estamos contemplando uma paisagem acidentada, não uma planície. Há picos e vales, e isso é que torna interessante o conjunto. Às vezes desafiador como uma escarpa, outras vezes convidativo como um gramado à beira de um lago cujas águas ocultam um monstro.

Muitas crônicas do volume não escondem a ambição poética, outras brincam de ser quase-conto. Mesmo as poucas que nos remetem a um lugar concreto, um filme ou uma música, exalam um aroma existencial, levantam a ponta do lençol proibido, indagam sobre o significado oculto das coisas. Ao terminarmos a leitura, fica a certeza de que a crônica, enquanto gênero, pode ser muito mais profunda do que vem sendo praticada por aí, nos blogs da vida. Escritores como Chico Lopes são essenciais, não para apontar caminhos já trilhados, mas por desvelar a amplidão estrelada dos descaminhos.

Um romance felliniano

Criado-Mudo

Espiando um sebo de calçada em São Paulo deparo-me com um livro quase mítico, do qual ouvi falar no remoto final do século XX. Folheio o volume em estado de novo, leio a orelha repleta de elogios internacionais, e decido levá-lo para casa.

Trata-se do primeiro romance de Egard Telles Ribeiro, O Criado-Mudo, publicado em 1991, pela finada Brasiliense, e posteriormente pela 34 e pela Record, além de edições em inglês, alemão, espanhol e holandês, o que explica os tais elogios.

Já havia comentado aqui no Fósforo outro livro dele, O Punho e a Renda, leitura fundamental para entender como eram os bastidores do Itamaraty durante a ditadura militar. Mas confesso que este livro de estreia, elogiado por gente como Antonio Candido e Antonio Houaiss, me causou um impacto ainda maior.

A trama mirabolante é desenvolvida com tal elegância que custamos a acreditar que se tratava de um autor estreante. Telles Ribeiro foi diplomata, jornalista e professor de cinema, e seu conhecimento profundo dos níveis de linguagem permite com que desenvolva uma narrativa com citações eruditas sem nunca parecer pedante.

A história de Guilhermina, uma jovem interiorana que é entregue pelos pais a um rico fazendeiro num casamento de conveniência, é rememorada pela sua sobrinha-neta e um cineasta frustrado, que enxerga ali um bom plot. Após o fim do tal casamento, as peripécias se desenrolam na Europa, entre castelos, cabarés e restaurantes finos. Num clima felliniano, entram em cena um assassinato, um médico sherlockiano, um balonista, uma cafetina e quatro anãs strippers vestidas de verde, além de dezenas de coadjuvantes da nobreza europeia.

Telles Ribeiro conseguiu o feito de escrever um romance absolutamente original, diferente de tudo que havia antes na literatura brasileira, sem apelar para vanguardices descontrutivas, fluxos de consciência delirantes ou desabafos em primeira pessoa. A lição machadiana está presente, renovada e construída com capricho de artesão dedicado. A ironia refinada, a observação arguta, a citação coerente, a sabedoria de não cair no lugar comum.

Passados quase trinta anos do lançamento, O Criado-Mudo continua brilhando. Que mais se pode esperar de um grande livro?

O entomólogo

Entomólogo

Alexandre Nemésio Brownson (1870/ 1942) dedicou toda sua vida à entomologia. Famoso por descobrir, classificar e catalogar mais de 200 espécies, várias vezes homenageou professores e colegas ao nomear um novo artrópode.

Todos estranharam quando, na volta de sua última excursão à Amazônia, batizou uma espécie desconhecida de aranha com o nome da ex-esposa, com quem não falava há mais de quinze anos. Picado, não resistiu ao potente veneno, vindo a morrer de complicações respiratórias.

O eletricista de cinema

Crucificação

Inácio de Lima Neto era apaixonado por cinema. Nascido na favela do Buraco Quente, em São Paulo, cresceu ajudando o pai eletricista. Depois de muitos choques, conseguiu uma vaga numa equipe de filmagem.

Liminha, como era chamado, tornou-se um nome requisitado nas produções da Boca do Lixo, em São Paulo, nos anos 70. Trabalhou em pornochanchadas, em documentários, em filmes de época. Chegou a aparecer como figurante em duas ou três produções.

Certo dia Liminha teve a mão esmagada pela queda de uma grua, em pleno set de filmagem. O técnico de som gravou tudo. O editor utilizou seu grito de dor e os gemidos subsequentes para uma famosa cena de crucificação.

Os críticos detestaram a cena, alegando que os sons eram muito exagerados, pareciam falsos. Liminha, desgostoso, abandonou o cinema.

 

As penas do preconceito

pássaro pintado

Este livro já morava há alguns anos na prateleira de casa. Escrito em 1965 por um autor polonês, foi um sucesso mundial. Nos últimos anos pouco se ouve falar dele, mas marcou época. Algo me fez passar os dedos por sua lombada, no início desse ano, e decidir pela leitura.

            Que narrativa impressionante! A história de um menino, durante a Segunda Guerra Mundial, que é entregue pelos pais a camponeses para ser protegido dos nazistas. Num país de louros de olhos azuis, o menino moreno será sempre visto como diferente: ou é judeu ou é cigano. O título provém de um personagem que captura um pássaro, pinta suas penas com cores variadas, e se diverte vendo as tentativas da ave de retornar ao seu grupo e não ser reconhecida, sendo atacada pelo bando até morrer.

            E tome sofrimento, maus tratos, fugas, tortura e sadismo, passando por várias aldeias e patrões diferentes, inclusive um padre católico. A impressão é de que estamos na Idade Média, tal a quantidade de superstições e crendices que povoam a história. O instinto de sobrevivência faz com o menino vá se transformando de forma assustadora, até o ponto em que tememos que se torne uma besta assassina, como seus perseguidores.

            A guerra, como sabemos, só acaba quando chega o Exército Vermelho, e pela primeira vez o menino, subnutrido e ferido, se vê tratado com respeito, num hospital de campanha. Agradecido, passa a admirar de tal forma a farda soviética que sonha em partir para a Rússia, e reluta em ser devolvido aos seus.

            O autor, Jerzy Kosinski, é polonês, naturalizado americano. Nascido em 1933, de família judia, viu de perto os horrores da guerra.  Sua obra mais conhecida talvez seja Being There, que no Brasil se chamou O Videota, e foi adaptado para o cinema como Muito Além do Jardim, com Peter Sellers e Shirley MacLaine. Mas enquanto esta se situa no campo da sátira, O Pássaro Pintado tira sua força da descrição da violência, do preconceito, da vilania a que humanidade pode chegar.

              Apesar da intensidade do texto, escrito em primeira pessoa, é bom frisar que não é um relato autobiográfico. Kosinski aproveita lembranças da infância vivida numa Polônia em guerra, mas enfeita, acrescenta, recria, aumenta, inventa. Foi considerado persona non grata em seu país, e teve seu livro proibido, por retratar um povo estúpido, ignorante e cruel. Acusado de plágio, nunca comprovado, acabou suicidando-se em 1991.

            Rico em imagens e símbolos, o Pássaro Pintado provoca reflexões sobre sua atualidade em pleno século XXI. Pessoas perseguidas por serem “diferentes”, lugares onde o tecido social está tão esgarçado que anseiam por uma intervenção militar – a ilusão da ordem -, exploração do trabalho infantil, apologia ao estupro, banalidade do mal: “fizemos isso porque outros fazem”.

            Um livro forte, profundo e dolorido, que deixa entrever em suas brechas uma rude poesia, permeada de sonho.

 

Leituras de 2017

DSC_0021

2017 foi um ano atípico. Afinal, todos são. Existe ano típico? Dei um tempo na literatura, confesso. Perdi dezenas de horas escrevendo bobagens nas redes sociais, respondendo a provocações, abraçando virtualmente velhos amigos e editando fotos de passarinho. Plantei algumas árvores, mas isso é outro assunto.

Li, porque ler é um vício que não quero perder. Alguns ensaios, reportagens, biografias. do Barão de Itararé a Lima Barreto, passando por Neruda, Marighella e Honestino Guimarães.

Noto agora que deveria ter lidos mais coisas relacionadas à música popular, já que escrevo sobre o tema. Vou tirar o atraso em 2018, começando pelo livro de Luciana Sales Worms e Wella Borges Costa, Ao Pé da Letra da Canção Popular, que está na minha cabeceira.

E ficção? Bom, li alguns romances marcantes, outros nem tanto. O Nobel de literatura Pamuk me impressionou, com sua saga turca passada no século XV.  Dois espanhóis, Javier Cercas e Javier María, me ensinaram algumas coisas sobre escrever uma boa história. O português Miguel Souza Tavares foi outra revelação.

Dos brasileiros, o mais marcante foi Edmar Monteiro Filho, com seus contos inspirados em Escher. Proposta ambiciosa, plenamente realizada.  Encontrei um irmão literário em Sérgio Mudado, me deliciei com Marcos Kirst, apreciei a contemporaneidade de Michel Laub, curti a viagem temporal de José Luiz Passos.

Quem não saiu de minha cabeceira foram alguns livros de poesia, embora todos saibam que sou leitor bissexto do gênero. Os setenta poemas de Dalila Teles Veras, coletânea produzida para comemorar seus setenta anos, são preciosos, para dizer o mínimo. Tive a satisfação de indicar um dos poemas do livro, e fico feliz de ser um dos 70 vezes 7 leitores dessa grande figura.

O camarada Airton Paschoa me antecipou algumas provocações do seu Levante, e o Caderno de Intermitências de Rosana Chrispim abriu meus olhos para coisas que eu não via.

Meu amigo Chico Lopes traduziu o livro mais apavorante que li em 2017: O Grande Deus Pã, de Arthur Machen, referência obrigatória para quem gosta de literatura de terror.  Com muitos anos de atraso, finalmente me encantei com um grande livro do americano Cormac McCarthy, e entendi porque é apreciado por tanta gente, como meu amigo-escritor Jadson Barros Neves, que me enviou o volume lá de Tocantins.

Obviamente nem tudo que eu li está representado aí em cima. Alguns foram volumes emprestados que devolvi, outros eram meus mas emprestei,  e há até os que sumiram. E quem reconhecer um livro seu na imagem, fique tranquilo: vou devolver! É só me lembrar de quem é…

Comecei a publicar no Facebook uma série de pequenas biografias mais ou menos imaginárias, que traçam uma espécie de arqueologia da estupidez humana. Crio um texto a partir de uma imagem anônima, geralmente tosca, ou escrevo e depois tento encaixar uma imagem correspondente.  Alguns exemplos podem ser lidos nos posts anteriores.

Se isso vai virar livro, não sei. Não foi concebido pra isso. Mas faço aqui uma promessa de ano novo, já no final de janeiro: terminar o romance policial que comecei a escrever e abandonei há um semestre.


Anúncios