Archive for the 'Literatura' Category

O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

A literatura fantástica de Sergio Papi

Sergio Papi construiu sua trajetória como designer gráfico desde os tempos heroicos da imprensa alternativa, nos anos 70/80. Ouviu e anotou muitas histórias, acompanhou episódios tenebrosos, ilustrou e diagramou libelos e diatribes.

Com a reconquista da democracia aflorou o narrador, o contador de causos, o escritor. E em 2020, com o país novamente flertando com a escuridão, publica 99 Histórias (Terra Redonda Editora), onde sua imaginação se esparrama em pequenos contos e crônicas que formam uma intrincada tapeçaria de miçangas de cores variadas.

De origem judaica, como muitos de nós, volta e meia Papi se refere ao Oriente Médio, às questões árabes, à geografia imemorial dos persas. Também mergulha na história do Brasil, na tragédia latino-americana, nas descobertas da Ciência. Isso confere certo sabor borgeano às suas narrativas, que oscilam entre o verossímil e o fantástico. Existe mesmo aquela cidade no Iêmen? Terá ocorrido aquela batalha entre incas e espanhóis? Haverá existido mesmo aquela loja de chocolates no Butantã?

A prosa fluente de Papi às vezes toma a forma de crônica, descrevendo cenários urbanos (geralmente São Paulo), viagens ou sonhos estranhos. O insólito surge com frequência, como se uma porta de outra dimensão se abrisse no concreto cotidiano. O uso constante de termos científicos – seja de química, medicina ou astronomia – confere uma estranheza à qual não falta certa dose de humor. Não por acaso, um de seus orixás inspiradores é o velho Barão de Itararé, de quem reeditou em fac-símile os Três Almanaques, entre 1989 e 1995.

Em outros momentos a narrativa já se configura como conto curto desde o início, criando cenários e personagens, diálogos e situações. Essa mistura de gêneros, cada vez mais característica de nossa época, não pode ser confundida com desleixo formal em 99 Histórias. É resultado evidente de uma vida de muita leitura, de um esforço profissional para traduzir um texto em imagens. Aqui, de forma curiosa, o designer-escritor Sergio Papi muitas vezes parte de uma imagem, real ou imaginária, para transformá-la em texto.

Essa operação inversa nos remete a um dilema cada vez mais presente no oceano de informações virtuais em que estamos submersos. Quando o jornalismo eletrônico encolhe textualmente, optando pela imagem como suporte preferencial, coloca-se em risco todo um edifício cultural construído por séculos de experiência. Voltaremos aos hieróglifos?

É sobre essa estrutura em convulsão que se equilibra a literatura de Sergio Papi. Os 99 textos curtos, publicados anteriormente na internet, traçam um distópico panorama desta época, retratando o Aleph estonteante de informações cuja veracidade é cada vez mais difícil de comprovar. Mas no terreno devidamente sinalizado da ficção, é possível falar de água como se fosse vinho, e transmitir ao leitor a sensação de ter provado algo novo.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

Arte engajada no século XXI

Recentemente o cantor e compositor Chico César provocou polêmica nas redes sociais ao responder de forma surpreendente a um fã que pediu que ele evitasse as canções de “cunho político-ideológico”: “Tu és muito maior que eles todos. Tu não deves nada a eles. Eles que te devem. Tuas mãos são limpas. Não as coloque no fogo por nenhum deles”.

O ouvinte reavivava, talvez sem perceber, uma velha polêmica no meio artístico que rebrotou após a Revolução Soviética e se ramificou por todo o século XX. As obras militantes de poetas como Maiakovski, de cineastas como Eisentein, e inúmeros escritores, dramaturgos e artistas plásticos em todo o mundo, que de alguma forma se identificavam com o sonho comunista, provocaram uma reação conservadora, que buscou de várias formas classificar a arte engajada como algo menor, uma coisa impura, contaminada por ideologia.

Claro que a arte engajada não é uma invenção do século XX. Criticar sistemas políticos, ridicularizar os poderosos e colocar em cena conflitos sociais está na origem do teatro grego, seja em forma de comédia ou tragédia. Para um autor como Benoit Denis (Literatura e Engajamento – De Pascal a Sartre), nem toda literatura que aborde questões sociais é necessariamente engajada, senão quase tudo que foi escrito, de alguma forma, conteria elementos de engajamento político.

Os franceses, aliás, debruçaram-se profundamente sobre o tema no pós-guerra. Com antecessores tão seminais como Émile Zola (J’accuse), é natural que a influência das questões sociais nas artes fosse um dos temas prediletos de autores como Sartre ou Camus (que, aliás, discordavam).

Aqui no Brasil obras engajadas de autores como Jorge Amado ou Graciliano Ramos costumam ser colocadas no mesmo saco pelo pensamento conservador. Críticos mais conscientes, como Antonio Candido, estabelecem outro tipo de juízo, com fundamentos estéticos bem definidos, que apontam porque a obra dita “engajada” de Amado é mais fraca, mas – atenção – não por ser política. No entanto, quase toda a obra do escritor baiano, é atravessada pelo registro das questões sociais, das diferenças de classe, do registro agudo das desigualdades. Como, em outro patamar, faz Graciliano.

O espírito sarcástico de um Lima Barreto pode ser encaixado no rótulo “literatura engajada”, assim como o Quinze, de Rachel de Queiroz, mesmo não sendo obras de propaganda política. Assim como toda a dramaturgia de Plínio Marcos, certa poesia de Drummond e Vinicius, o cinema de Glauber Rocha, a pintura de João Câmara. Estão entre os pontos altos da arte brasileira, sem abrirem mão do inconformismo.

Mas voltemos a Chico César. Sua resposta ao fã inconformado merece ser lida na íntegra:

“Por favor, todas as minhas canções são de cunho político-ideológico!! Não me peça um absurdo desse, não me peça para silenciar, não me peça pra morrer calado. Não é por ‘eles’. É por mim, meu espírito pede isso. E está no comando. Respeite, ou saia. Não veja, não escute. Não tente controlar o vento. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento, sou o fio da espada da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você pra dormir, aqui estou para acordar os dormentes”.

A resposta do paraibano é um verdadeiro libelo em favor da arte engajada, com alta voltagem poética. Recoloca um debate que andava amortecido na música brasileira desde os anos 60, e que ressurge num contexto político que cada vez mais lembra o período da ditadura. Novamente o país é dirigido por militares, que tentam sufocar a cultura, as artes, e qualquer forma de discurso libertário.  

Num cenário opressor e obscurantista, artistas tendem a reaquecer o discurso crítico, denunciar os desmandos e apontar para caminhos radicais. Se a humanidade vivesse num paraíso idílico, certamente não haveria arte engajada. Protestar para que? (O que não impediria que houvesse arte de alto nível, certamente, mas com temática bem limitada). Costumo lembrar de que no mesmo disco de Chico Buarque, de 1971, há duas obras-primas que serviriam de argumento para progressistas e conservadores: Construção (com o final raivoso de Deus lhe Pague) e Valsinha. Quem é craque sabe jogar em várias posições!

Este sentimento de indignação, de inconformismo, não se limita à música popular. Voltando à literatura e ao nosso século, em livro lançado no final do ano passado, (Alguém Vai Ter que Pagar Por Isso, Ed. Faria e Silva, 2020), o escritor Luís Pimentel monta um romance fragmentado, com elementos de crônica e ficção, onde remonta a tragédia da violência policial-miliciana carioca. Enfocando a camada mais espezinhada da população, Pimentel traça pequenos retratos de gente destinada à miséria e ao anonimato, resgatadas aqui pela arte. Ora remete a João Antônio, ora a Rubem Fonseca (não será o título uma lembrança d’O Cobrador?), mas com dicção própria, onde a contundência documental de certos episódios não diminui o alcance poético-ficcional de outros. E muitas vezes estas visões estão mescladas, como ocorre nas obras dos grandes mestres.

Escritor prolífico, com obras publicadas em diversos gêneros (contos, poesia, crônica, infanto-juvenil), Pimentel incorpora nessa obra o espírito de indignação criativa de Chico César. Promove uma bem urdida mistura de engajamento crítico, literatura de denúncia e ficção consciente, pero sin perder la ternura jamás. Um grande pequeno livro (118 páginas), destinado a ser referência de uma época prenhe de injustiças, onde, apesar de tudo, a beleza ainda não foi erradicada.

(Publicado originalmente em www.aterraeredonda.com.br)

Zuza, o homem e seu tempo

Este ano tão cruel levou embora no dia 4 de outubro uma das pessoas mais queridas do meio musical brasileiro: o produtor musical, engenheiro de som, crítico, organizador de festivais, historiador e jornalista Zuza Homem de Melo.

Sua biografia resumida está disponível na internet:  jovem interessado em música, que começou a tocar contrabaixo nos anos 50, viajou para os Estados Unidos, estudou e passou a escrever artigos sobre jazz e música popular. A partir de 1959 trabalha na TV Record, e torna-se figura central da organização do que ele chamou mais tarde, em um de seus livros mais conhecidos, de A Era dos Festivais (Editora 34, 2003). Nas décadas seguintes, foi curador de festivais de jazz e MPB, produziu discos e shows, apresentou programas de TV (Jazz Brasil, na TV Cultura), teve programas de rádio, escreveu livros essenciais para conhecer a música popular de nosso tempo.

Fugindo da frieza acadêmica, do mero alinhamento de fatos e nomes, Zuza não tinha vergonha de se colocar como testemunha ocular (e auditiva) dos fatos que narrava. Aliás, fazia isso com a elegância discreta que sempre caracterizou sua atuação nos bastidores. Estimulando novos valores, orientando artistas consagrados, procurando abrir espaços de renovação da música, sem perder em nenhum momento a noção da importância histórica, cultural e artística dos fatos que relatava.

Deixou tantas obras essenciais que fica difícil escolher a mais representativa. A Canção no Tempo (co-autoria com Jairo Severiano), Eis Aqui os Bossa Nova, Música com Z (coletânea de artigos), Música Popular Brasileira Cantada e Contada.

Antes de morrer, aos 87 anos, acabara de colocar o ponto final em sua biografia de João Gilberto. Seu último livro publicado foi Copacabana – a trajetória do samba-canção (1929-1958), coedição da Editora 34 com o Sesc, de 2017. É sobre ele que vamos nos deter um pouco mais, atentos à lição do mestre.

A obra começa com uma saborosa contextualização do Rio de Janeiro dos anos 50, sob a ótica de um “paulistano no Rio” (título do primeiro capítulo). Zuza fala da chegada à Capital Federal, da dissonância entre zona Norte e zona Sul, do túnel do Leme, do ambiente social da época, da moda, dos cinemas, das boates, dos hormônios em ebulição. Descrito o cenário e dado o clima, descreve a passagem do samba dos teatros de revista do Centro para as boates chiques de Copacabana, tornando-se mais intimista e amaciando o batuque, absorvendo influências norte-americanas (foxtrote) e latinas (bolero).

À medida em que descreve o processo, Zuza interpola os protagonistas da história: compositores e intérpretes que construíram a textura sonora do gênero. Com farta iconografia, que abrange retratos, capas de discos, registro de shows e festas, programas, jornais, partituras e até cardápios, somos envolvidos e até convidados a cantarolar as canções que são citadas.

Em mais de 500 páginas, Zuza Homem de Mello consegue o admirável feito de dosar com sabedoria as suas preferências pessoais, sem escondê-las, e municiar o leitor de todas as informações necessárias para compreender o sentido da expressão samba-canção.  De Ary Barroso a Chico Buarque, de Lupicínio a Cartola, de Aracy Cortes a Maysa,  passando por Noel, Adelino Moreira, Nelson Gonçalves, Braguinha, Dick Farney, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Tom Jobim, Dalva de Oliveira, Herivelto e tantos outros, a vontade é de parar a leitura a cada página para ouvir as canções citadas. E Zuza generosamente compila as gravações citadas, em apêndice precioso no final do livro.

O autor confessa, no prefácio, ter demorado quase 13 anos para escrever o livro. Outros trabalhos surgiram, livros foram encomendados e publicados, shows foram produzidos. Mas para ele, “o que se criou nos anos 1950 foi determinante para dar ao Brasil o reconhecimento de sua canção como destacada forma de arte na gênese da música popular. Ao primeiro sinal de seu toque rítmico e melódico, o pensamento voa evocando a saudade da terra, reconhecendo o talento musical e distinguindo o afeto do brasileiro comum.”

Do samba-canção surge a bossa-nova, e nos anos 60 tudo se precipita, se mistura e se reconfigura, sem perder a herança genética. E Zuza Homem de Mello, sempre atento aos novos sinais que surgiam em plena era dos festivais, nunca deixou de apontar a importância dos gêneros matriciais da moderna música popular brasileira. Com entusiasmo de garoto e sabedoria de quem viveu intensamente, tornou-se um dos autores fundamentais para entender e amar o que de melhor a cultura brasileira produziu: a nossa música.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Manzano, o poeta-escravo

Não se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve, foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Manzano foi traduzido entre nós pelo escritor Alex Castro. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta segunda versão é a indicada para quem que ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

É doloroso perceber, em pleno século XXI, que os governantes da última nação a abolir a escravidão nas Américas (o Brasil) ainda aclamam os senhores e condenam os escravos. As políticas de reparação de danos (cotas), de igualdade étnica, de princípios basilares da democracia moderna, consagrados na Constituinte de 1988 e aprofundadas pelo primeiro governo de esquerda do país, em 2002, vão sendo desmontadas com velocidade crescente pelo governo genocida de Bolsonaro.

Ao colocar no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos uma figura sinistra e retrógrada como a evangélica Damares Alves, defensora de um dos projetos mais absurdos gestados nesse país que é o Escola Sem Partido, o atual desgoverno reafirmou seu compromisso com a discriminação racial, a perpetuação do racismo, o extermínio das nações indígenas e dos quilombolas, favorecendo descaradamente a  exploração econômica de seus territórios ancestrais.

O horror que Manzano vivenciou em Cuba no século XIX se manifesta hoje com o massacre da população negra, dos jovens de periferia, dos abusos policiais em função da cor da pele. Os responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco provavelmente já teriam sido presos se ela fosse uma branca de classe média. Mas era uma negra, como os jovens trucidados no massacre de Paraisópolis, como são os milhares de preteridos a vagas de trabalho por serem negros, como são os milhões de ofendidos diariamente pela arrogância supremacista de uma elite forjada numa sociedade escravocrata. Arrogância esta que é transmitida para a pequena burguesia branca que vê no racismo uma possibilidade de humilhar a filha da empregada, que ousou tomar a vaga de seu filho numa universidade pública.

Mas voltemos ao poeta-escravo, antes que a desesperança turve nossa percepção da beleza. Aqui está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, pleno de significados. Diz a lenda que quando o declamou para uma plateia culta, provocou tanta emoção que motivou um movimento para comprar a sua liberdade.

Quando olho para o espaço percorrido
Desde meu berço, e todo meu progresso,
Estremeço e saúdo meu sucesso
Mais por terror que por amor movido.

Espanta-me o combate que eu, renhido
Sustentei contra a sorte vil e fria,
Se é que posso assim chamar a porfia
De um ser tão infeliz e malnascido.

Trinta anos há que estou vivo na terra.
Trinta anos há que, em gemedor estado,
Triste sina em todo lugar me assalta.

Mas nada é para mim a dura guerra,
Que em vão suspirar tenho suportado,
Se a comparo, oh Deus!, com o que me falta.

(tradução: Pablo Zumarán)

(Artigo publicado no Fósforo, em 2015, atualizado e ampliado).

O Brasil, visto da Albânia

Kadaré

       Ismail Kadaré é uma figura notável no mundo da literatura. O fato de ser albanês o torna um tipo de ornitorrinco, um espécime muito raro, endêmico. Se tivesse nascido em Java ou nas ilhas Fiji, remotos lugares que só conhecemos por imagens do National Geographic, seria compreensível. Mas a Albânia está na Europa, faz fronteira com a Grécia, e só algumas milhas de mar Adriático a separa do salto da bota italiana. Entre gregos e romanos, portanto.

       Como um país como esse ficou isolado por tanto tempo da chamada cultura ocidental? É certo que após a II Guerra Mundial passou por uma ditadura comunista obscura, mas e os vinte séculos anteriores?

        Kadaré se tornou conhecido dos brasileiros depois que seu belo romance Abril Despedaçado foi roteirizado para o cinema por Karim Ainouz e dirigido por Walter Salles. Uma história trágica de traições e vinganças, num clima quase medieval, foi transplantada para o Nordeste brasileiro com talento e respeito ao enredo original.

        Mas Kadaré não é só tragédia. Dossiê H, escrito em 1991, dez anos antes de Abril Despedaçado, é muito engraçado. Pelo menos até a primeira metade da história…

        Dois jovens irlandeses, estudantes de literatura em Nova York, nos anos 30, resolvem ir para a Albânia (então um reino, governado pelo rei Zog). Acreditam que ali há pistas da tradição homerista, ou seja, da Ilíada e da Odisseia. Querem demonstrar que os rapsodos da cultura popular albanesa carregam consigo as marcas ancestrais da grande epopeia. Os pesquisadores levam um aparelho recém inventado, um gravador, onde pretendem registrar os cantos homéricos.

        A Embaixada da Albânia concede os vistos, mas suspeita de que são espiões. O prefeito da região remota onde vão se instalar recebe instruções para vigiá-los. A mulher do prefeito vê nos irlandeses a oportunidade de um romance proibido, capaz de tirá-la da monotonia em que vive.

         Está criada a trama. Pouco a pouco, somos levados a um mergulho na cultura rural albanesa, na tradição dos rapsodos, no isolamento da Península Balcânica. Os conflitos entre tradição e modernidade, cultura erudita e popular, ciência e superstição, são colocados na mesa com muita habilidade. 

        Para os membros de uma seita de fanáticos obscurantistas, o aparelho que registra vozes deve ser destruído, e isso vai dar o toque sinistro na trama. Kadaré retoma um tema ancestral do embate entre a ciência e o conservadorismo: a verdade não pode ser revelada.

        Relendo a obra em 2020, no Brasil, não podemos deixar de ter a impressão de que a história se repete, mais uma vez. O avanço de “seitas de fanáticos obscurantistas” é visível, em todas as áreas. A ameaça de apagar vídeos, filmes, gravações e cinematecas está presente, e é alimentada pela facção atualmente no poder. O desprezo pelo conhecimento acadêmico e a pesquisa é evidente, com corte de verbas, ataques às universidades e abandono de museus e o encerramento de programas de fomento à cultura. Assistimos o grotesco prefeito do Rio de Janeiro formar uma quadrilha, paga com o dinheiro público, para impedir gravações e reportagens sobre a situação da saúde. O diferente, seja ele negro, mulher, gay, sindicalista ou índio, é tratado como inimigo.

        Uma leitura enviesada do livro 22 da Odisseia, Mnesterofonia, onde Odisseu (Ulisses, na versão latina) mata todos os pretendentes à mão de Penélope – ou ao trono -, poderia ensejar desejos mitológicos aos atuais detentores do poder. Como a leitura dos clássicos não faz parte de seu estreito repertório, contentam-se em repetir procedimentos históricos temperados de ignorância, atraso e comportamento de bando, com a conivência de uma justiça venal e um legislativo corrompido. A dissipação da república, da res publica dos romanos, é estimulada por igrejas que anseiam por uma nova Era Medieval, de cruzadas contra o “inimigo”.  

        Dossiê H foi publicado pela Companhia das Letras em 1990, e já teve várias reedições. Kadaré nos envolve com seu senso de humor, e pouco a pouco vai desvelando a barbárie, desembocando num final dramático, onde com maestria funde a lenda do poeta épico cego com a realidade que custamos a enxergar. Romance delicioso, escrito por um dos grandes autores da literatura contemporânea.

Comida, sensualidade e exibicionismo digital

Charlie Chaplin in the Shoe-Eating Scene from .

            O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) costuma encantar os leitores com seu texto fluente, saboroso, literário, onde subverte a ideia de que ensaios sociológicos devem ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala, sua obra mais famosa, é cheia de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, dos tabuleiros das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

            Toda vez que arrumo as prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Há alguns anos ganhei de um amigo um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do escritor. Uma pequena pesquisa mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas.

Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo

Como pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Daphne nos cabelos.

Encontra-se no chão, que está caindo,

A cidreira c’os pesos amarelos;

Os formosos limões, ali cheirando

           Estão virgíneas tetas imitando.”        

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

            Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

            O ensaio foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não, a menos que focasse sua análise nas populações mais periféricas. Mas se passeasse pelo sertão nordestino, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não existisse. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos. Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Mas o ensaísta se depararia com um fenômeno impressionante, no Brasil contemporâneo: a postagem de fotos de comida nas redes sociais. Significaria uma nova postura do brasileiro em relação à comida? A relação sensual com a alimentação estaria dominada pelo aspecto visual, antes dos outros sentidos?

Depende de que brasileiro estamos falando. Além dos casos clínicos de compulsão ou transtorno alimentar – e existem muitos na internet! -, há um ainda pouco estudado exibicionismo, que não oculta um sentimento de afirmação do nível social através da comida.

Quem era pobre e passou à condição de remediado, ostenta isso através do novo cardápio: “Veja o que eu estou comendo agora!”. A classe média, sempre aspirante ao luxo dos abastados, não perde a chance de, quando pode “comer fora”, ostentar a comilança nas redes. É quase impossível ir a um restaurante em São Paulo e não ver alguém na mesa ao lado fotografando o prato pedido. Desnecessário dizer que os verdadeiramente ricos e os verdadeiramente pobres, por motivos bem diversos, não praticam esse tipo de perversão.

Com a pandemia, este comportamento passou para o ambiente doméstico. Os pratos continuam sendo exibidos ad nauseam, agora com o acréscimo do “eu que fiz”. No entanto, quase sempre se nota o retro gosto de “eu posso”, ou “eu tenho”. Com poucas e honrosas exceções, o que se percebe não é um amor pelo alimento, mas pelo status que este confere ao indivíduo.

Pode-se dizer que a proliferação de programas culinários na TV, aberta ou fechada, na última década, contribuiu para o surgimento dessa nova seita de adoradores de comida. Mas não podemos esquecer o que Dante Costa percebeu, lá na década de 50: ainda somos um país de famintos, onde esse tipo de exibicionismo não deixa de carregar um incômodo tempero de classe.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em agosto de 2020).

Toada da memória

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Quando Jean-Paul Sartre lançou, em 1964, um relato autobiográfico sobre a primeira infância (Les Mots, As Palavras), causou certo estranhamento no meio acadêmico e intelectual. Obviamente já existiam autobiografias na praça, mas o filósofo parisiense se detinha no período dos 4 aos 11 anos, e apontava o holofote para a importância capital do aprender a ler e escrever.

A literatura como instrumento de conhecimento e transformação do mundo ali se define, entremeada com lembranças familiares e afetivas, sem esconder as horríveis. Afinal, tinha 9 anos quando explodiu a Primeira Grande Guerra, e com menos de dois anos era órfão de pai.

Em 1960 Sartre e sua (mas não exclusiva) mulher, Simone de Beauvoir, visitaram o Brasil. Por dois meses circularam em várias cidades, deram palestras, participaram de festas, visitaram cafezais, fazendas de fumo e cacau, favelas, praias e colônias de pescadores, muitas vezes guiados por Jorge Amado e Zélia Gattai.

O tema das conversas era a guerra fria, a libertação da Argélia, a revolução cubana, o imperialismo norte-americano no continente. Ficou famosa uma conferência em Araraquara, publicada em livro ( Paz e Terra/ Unesp, 1986), que teve na plateia gente como Ruth Cardoso e seu marido Fernando Henrique, Antonio Candido, Gilda Mello e Souza, Dante Moreira Leite, Bento Prado Jr., e até um jovem araraquarense chamado José Celso Martinez Correa, apaixonado por teatro.

As Palavras, traduzido no Brasil por Jacó Guinsburg, foi muito lido, mas nem sempre compreendido. A obsessão de Sartre pelo ato de escrever, seja como filósofo, ficcionista ou dramaturgo, coloca a escrita como instrumento de autoconhecimento, de perpetuação da memória e de transformação do mundo.

No mesmo ano, 1964, Antonio Candido lançava o ensaio sociológico Os Parceiros do Rio Bonito, cujo subtítulo “estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida” é autoexplicativo.  Uma de suas referências era a obra de Valdomiro Silveira (1873/1941), um dos primeiros autores a estudar a cultura caipira, anotando expressões, hábitos, superstições e costumes, e dando especial atenção à linguagem.

Essa mescla fecunda de investigação sociológica de campo com o posicionamento pessoal sartreano gerou vários frutos. O já clássico O Paraíso Via Embratel, de Luís Milanesi, de 1985, enfocava as transformações culturais numa pequena cidade do interior paulista (Ibitinga) com a chegada da televisão. Embora escrito com certo distanciamento acadêmico, Milanesi está falando de sua cidade natal, de sua infância, de sua formação.

Em 2011, o eminente sociólogo José de Souza Martins retoma a lição sartreana lançando “Uma Arqueologia da Memória Social – Autobiografia de um Moleque de Fábrica”, por exemplo, primoroso estudo de época passado em São Caetano do Sul, no ABC paulista.  Nessa mesma trilha surge agora, em 2020, um saboroso livro publicado pelo professor sênior da Faculdade de Educação da USP, Claudemir Belintane.

“Toada de um Educador Quase Caipira” (Polo Books, 2020) mergulha no universo interiorano tão bem descrito por Antonio Candido, Valdomiro Silveira e Milanesi, e vai mais fundo, de maneira existencial (apud Sartre). O menino pobre de Novo Horizonte (SP), órfão aos sete anos, vivendo entre “o lixo, o matadouro e o cemitério”, alinhava as memórias com foco na linguagem, nas expressões populares, nas quadrinhas e canções, nos trocadilhos de sacanagem, nos apelidos cruéis, nas complexas relações de parentesco e compadrio, de amizade e desconfianças.

Propondo uma escritura distante do jargão acadêmico, Claudemir entoa sua prosa como quem está contando causos à beira da fogueira ou no intervalo do eito. Sem maiores preocupações formais, deixa o fluxo livre da memória revelar, aos poucos, a nascente inquietude intelectual e o surgimento de uma consciência social (foi boia-fria quando nem essa expressão existia – ainda era “pilão” – vendedor de doces, engraxate, ajudante de padeiro e de pedreiro). A criação literária surge de entremeio, nas frestas da narrativa: “Lá pelas três, quatro horas, a gente olhava para o céu e indagava o aonde das nuvens”.

O moleque da roça cresceu, foi pra capital, estudou, voltou, fundou o PT na cidade, foi candidato simbólico a prefeito, retornou para a capital e se fez doutor em Educação. Estas etapas são expandidas em poucas páginas no final do volume, à guisa de explicação (aonde foi parar aquele garoto?), pois o interesse está na infância, no letramento, na transformação pela leitura. O menino é pai do homem, como dizia Machado de Assis.

Belintane explicita sua admiração por ficcionistas como Graciliano Ramos (Infância) e Viriato Correa (Cazuza), que traçaram retratos memoráveis da meninice rural. Seguidor aplicado da lição de Jean-Paul Sartre, e inspirado pela bússola de Mario de Andrade, que aponta “para dentro do Brasil, não para fora”, expõe-se de corpo e alma em relato memorialístico despretensioso, e acaba esboçando um romance de formação que poderia ser o de milhões de brasileiros. Infelizmente, é a história de uma exceção.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A intersecção entre arte e ciência

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A literatura de divulgação científica foi inventada no século XX, e pouco a pouco conquistou um espaço nas livrarias – quando havia livrarias – e catálogos. Em meio a muita mistificação, autores como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Jay Gould tornaram-se clássicos do gênero, seja explicando a Física moderna ou o legado de Darwin.

A academia mais carrancuda ainda vê com desconfiança esse tipo de literatura, mas o número crescente de cursos de divulgação científica, de teses e seminários sobre o tema mostram uma abertura para o desejável diálogo da ciência com a sociedade.

Uma das ferramentas mais fascinantes para promover esta aproximação é a arte. Não é por acaso que muitos artistas, de diversas áreas, se interessaram pela ciência, e vice versa. Um deles é o escritor, diretor e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière.

Famoso pela parceria com Buñuel, que rendeu obras primas como O Fantasma da Liberdade, A Bela da Tarde e O Obscuro Objeto de Desejo, Carrière também escreveu roteiros inesquecíveis para Andrzej Wajda (Danton – O Processo da Revolução), Philip Kaufman (A Insustentável Leveza do Ser) e vários diretores franceses, como Rappeneau (Cyrano de Bergerac). Sua maior façanha talvez tenha sido adaptar o poema épico indiano Mahabharata para o cinema, o que rendeu um filme de quase 5 horas de duração, dirigido pelo inglês Peter Brook.

Carrière foi também diretor da principal escola francesa de cinema, e se declara apaixonado pela Fisica moderna. Chegou a escrever uma obra de ficção sobre Einstein, mas seu grande livro de divulgação científica chama-se Conversas sobre o Invisível (Brasiliense, 1988), e que há muito merece uma nova edição.

 Trata-se de uma longa, detalhada e saborosa conversa com dois físicos, Jean Aldouze e Michel Cassé, sobre relatividade, a origem do universo, microfísica, astrofísica e física quântica. Fruto de conversas mantidas semanalmente onde os assuntos se encadeiam naturalmente com referências literárias, pictóricas e, claro, cinematográficas, o livro discute os conceitos mais impenetráveis da Física moderna, que Carrière considerava a Grande Ciência do século XX, de forma clara e elegante.

Também no campo da Física, vale a pena conhecer outro autor, o argentino Alberto Rojo. Professor da Oakland University, em Michigan, publicou vários livros de física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde depurou a escrita límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários. Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e sinfônicas.

Rojo escreveu um fascinante livro chamado Borges e a Mecânica Quântica, editado no Brasil pela Unicamp, ainda em catálogo. Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos e poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, lógico, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam é uma tradução literária perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, respondeu, pensativo: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Leonardo da Vinci – modelo maior – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o rigor. Seu principal mérito, como escritor, é não parecer pedante ou professoral, seguindo a mesma trilha iluminada de Jean-Claude Carrière.

Dois escritores admiráveis que, partindo de polos opostos, encontram-se na realização plena de conjugar arte e ciência de forma acessível e prazerosa.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em junho de 2020).

Dilemas estéticos e políticos

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O livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, lançado em 2011, foi imediatamente catapultado à condição de best-seller político. Seu autor, Fernando Morais, realizou uma pesquisa minuciosa, coletando datas, nomes, informações de Estado e de pessoas, sobre um dos episódios menos conhecidos da longa história de embates entre Cuba e Estados Unidos da América.

O relato descreve eventos ocorridos na década de 90.  Com o colapso da União Soviética, em 1991, boa parte dos recursos que sustentavam o país caribenho minguaram. Os exilados cubanos concentrados em Miami, em grande maioria alinhados com a direita, ficaram eufóricos. Para eles, o regime de Castro iria ruir em breve. Organizações paramilitares passaram a invadir o espaço aéreo cubano jogando panfletos sobre Havana, e mercenários aportavam nas praias para esconder armas e munição, preparando o terreno para um futuro golpe.

Para quem não sabe, a distância entre Florida e a capital cubana é de apenas 150 km. São 40 minutos de teco-teco, ou algumas horas numa boa lancha. De balsa, com vento a favor, menos de dois dias, como fizeram vários refugiados cubanos, conhecidos como balseros.

Sob risco iminente, o governo cubano partiu para a contraofensiva. Selecionou alguns de seus melhores quadros no Exército e na Aeronáutica, e enviou para Miami, para se infiltrarem nas organizações terroristas e coletarem informações. A chamada Rede Vespa descobriu, entre outras coisas, que boa parte do financiamento das ações anticastristas era proveniente do tráfico de drogas. Um dos espiões passou a ser informante também da CIA, denunciando operações que envolviam o tráfico e agenciamento de mercenários em vários países centro-americanos.

Após muitas ações bem sucedidas, que neutralizaram ataques e desmantelaram os esquemas dos “contras”, os agentes foram descobertos e presos, julgados e condenados pela justiça norte-americana. Quando Fernando Morais terminou seu livro, vários ainda estavam cumprindo pena, o que justificou o título da narrativa.

Todos estes ingredientes sugeriam um belo roteiro de filme. E é o que foi feito, numa coprodução internacional dirigida pelo francês Olivier Assayas. Lançado em 2019 em festivais, chega agora ao público brasileiro através da Netflix, com o confuso nome de Wasp Network – Rede de Espiões. Certamente, para cubanos e brasileiros, o nome original Rede Vespa seria mais palatável.

Como é previsível, o filme provocará debates. Não apenas pelo pano de fundo político, expondo o confronto direita-esquerda, alimentado por décadas de propaganda anti-Cuba nas plagas tupiniquins, mas também pela velha questão que assombra todas as adaptações da literatura para o cinema. Foi fiel? Traiu? Não correspondeu?

O elenco é competente, e talvez seja o único ponto de consenso. Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Leonardo Sbaraglia, Wagner Moura, Ana de Armas e o bom time de coadjuvantes garantem uma presença qualificada nas telas, mesmo tendo de falar em espanhol, inglês e até russo. O roteiro, obviamente, teve de optar por qual caminho escolheria em meio à enorme quantidade de informações organizadas por Fernando Moraes em seu livro.

O fato de ter elegido um casal, o piloto René González (Ramírez) e sua mulher Flora (Cruz), como pilar de sustentação da trama é plausível. René se recusou a colaborar com o governo americano, e foi o último a ser libertado, e Flora é uma personagem complexa, pois no início acha que o marido é um gusano, um traidor da pátria. Com filha pra criar, emigra para os EUA e tenta reatar os laços com o marido.

Os admiradores do livro, um dos melhores de Fernando Moraes, vão reclamar de algumas omissões, de certa simplificação, de falta de referências. Os críticos do filme vão dizer que tem muitos personagens, que a narrativa é confusa. Mas, vamos convir: resumir um livro de mais de quatrocentas páginas em 130 minutos sempre implica numa escolha, numa redução. Em certos casos, isto é compensado por um acréscimo estético, imagético, até poético, que possa justificar a experiência.

No final do filme, o foco no casal González-Flora embota o contexto político, e tem sido acusado de parecer um final de novela. Sim, em termos. Cinema é indústria cultural, requer emoção para atingir um público maior. O filme não é um documentário, e coloca isso de forma clara desde o início: “baseado em fatos reais”. A opção dramatúrgica não é, e nunca pode ser, submissão total aos fatos. Desde que não traia o sentido original de palavras e ações, é uma recriação com liberdade formal.  A inclusão de um discurso do próprio Fidel Castro no filme, por exemplo, acrescenta dados que não existem no livro. Os retratos dos personagens reais, nos créditos finais, livres e de volta a Cuba, atualizam a obra de Fernando Morais.

Assayas demonstra, em toda sua filmografia, um interesse focado nas relações pessoais, mesmo quando ousou levar para as telas a biografia do famoso terrorista Carlos, o Chacal (minissérie de coprodução França/Alemanha), em 2010.  Agora escolheu uma grande história de espionagem, com a polarização Cuba-EUA como cenário, para dentro dela ressaltar os dramas individuais, sem perder de vista a dimensão política de sua narrativa. Até tenta ser imparcial, colocando uma sequência documental de críticas ao regime cubano, de forma um tanto desajeitada.

Longe de ter atingido a perfeição, o diretor francês chegou a um resultado bastante envolvente, que merece atenção. Quanto melhor um livro, mais difícil é adaptá-lo, já diziam os mestres fundadores da sétima arte. E uma das batalhas culturais que atravessam nosso tempo é a criação de obras nacionais (ou multinacionais, como é o caso) que se contraponham à hegemonia cinematográfica norte-americana, de entretenimento acrítico. Nesse front a Rede Vespa de Assayas vem somar, com méritos.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).


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