Archive for the 'Literatura' Category

Dilemas estéticos e políticos

Wasp

O livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, lançado em 2011, foi imediatamente catapultado à condição de best-seller político. Seu autor, Fernando Morais, realizou uma pesquisa minuciosa, coletando datas, nomes, informações de Estado e de pessoas, sobre um dos episódios menos conhecidos da longa história de embates entre Cuba e Estados Unidos da América.

O relato descreve eventos ocorridos na década de 90.  Com o colapso da União Soviética, em 1991, boa parte dos recursos que sustentavam o país caribenho minguaram. Os exilados cubanos concentrados em Miami, em grande maioria alinhados com a direita, ficaram eufóricos. Para eles, o regime de Castro iria ruir em breve. Organizações paramilitares passaram a invadir o espaço aéreo cubano jogando panfletos sobre Havana, e mercenários aportavam nas praias para esconder armas e munição, preparando o terreno para um futuro golpe.

Para quem não sabe, a distância entre Florida e a capital cubana é de apenas 150 km. São 40 minutos de teco-teco, ou algumas horas numa boa lancha. De balsa, com vento a favor, menos de dois dias, como fizeram vários refugiados cubanos, conhecidos como balseros.

Sob risco iminente, o governo cubano partiu para a contraofensiva. Selecionou alguns de seus melhores quadros no Exército e na Aeronáutica, e enviou para Miami, para se infiltrarem nas organizações terroristas e coletarem informações. A chamada Rede Vespa descobriu, entre outras coisas, que boa parte do financiamento das ações anticastristas era proveniente do tráfico de drogas. Um dos espiões passou a ser informante também da CIA, denunciando operações que envolviam o tráfico e agenciamento de mercenários em vários países centro-americanos.

Após muitas ações bem sucedidas, que neutralizaram ataques e desmantelaram os esquemas dos “contras”, os agentes foram descobertos e presos, julgados e condenados pela justiça norte-americana. Quando Fernando Morais terminou seu livro, vários ainda estavam cumprindo pena, o que justificou o título da narrativa.

Todos estes ingredientes sugeriam um belo roteiro de filme. E é o que foi feito, numa coprodução internacional dirigida pelo francês Olivier Assayas. Lançado em 2019 em festivais, chega agora ao público brasileiro através da Netflix, com o confuso nome de Wasp Network – Rede de Espiões. Certamente, para cubanos e brasileiros, o nome original Rede Vespa seria mais palatável.

Como é previsível, o filme provocará debates. Não apenas pelo pano de fundo político, expondo o confronto direita-esquerda, alimentado por décadas de propaganda anti-Cuba nas plagas tupiniquins, mas também pela velha questão que assombra todas as adaptações da literatura para o cinema. Foi fiel? Traiu? Não correspondeu?

O elenco é competente, e talvez seja o único ponto de consenso. Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Leonardo Sbaraglia, Wagner Moura, Ana de Armas e o bom time de coadjuvantes garantem uma presença qualificada nas telas, mesmo tendo de falar em espanhol, inglês e até russo. O roteiro, obviamente, teve de optar por qual caminho escolheria em meio à enorme quantidade de informações organizadas por Fernando Moraes em seu livro.

O fato de ter elegido um casal, o piloto René González (Ramírez) e sua mulher Flora (Cruz), como pilar de sustentação da trama é plausível. René se recusou a colaborar com o governo americano, e foi o último a ser libertado, e Flora é uma personagem complexa, pois no início acha que o marido é um gusano, um traidor da pátria. Com filha pra criar, emigra para os EUA e tenta reatar os laços com o marido.

Os admiradores do livro, um dos melhores de Fernando Moraes, vão reclamar de algumas omissões, de certa simplificação, de falta de referências. Os críticos do filme vão dizer que tem muitos personagens, que a narrativa é confusa. Mas, vamos convir: resumir um livro de mais de quatrocentas páginas em 130 minutos sempre implica numa escolha, numa redução. Em certos casos, isto é compensado por um acréscimo estético, imagético, até poético, que possa justificar a experiência.

No final do filme, o foco no casal González-Flora embota o contexto político, e tem sido acusado de parecer um final de novela. Sim, em termos. Cinema é indústria cultural, requer emoção para atingir um público maior. O filme não é um documentário, e coloca isso de forma clara desde o início: “baseado em fatos reais”. A opção dramatúrgica não é, e nunca pode ser, submissão total aos fatos. Desde que não traia o sentido original de palavras e ações, é uma recriação com liberdade formal.  A inclusão de um discurso do próprio Fidel Castro no filme, por exemplo, acrescenta dados que não existem no livro. Os retratos dos personagens reais, nos créditos finais, livres e de volta a Cuba, atualizam a obra de Fernando Morais.

Assayas demonstra, em toda sua filmografia, um interesse focado nas relações pessoais, mesmo quando ousou levar para as telas a biografia do famoso terrorista Carlos, o Chacal (minissérie de coprodução França/Alemanha), em 2010.  Agora escolheu uma grande história de espionagem, com a polarização Cuba-EUA como cenário, para dentro dela ressaltar os dramas individuais, sem perder de vista a dimensão política de sua narrativa. Até tenta ser imparcial, colocando uma sequência documental de críticas ao regime cubano, de forma um tanto desajeitada.

Longe de ter atingido a perfeição, o diretor francês chegou a um resultado bastante envolvente, que merece atenção. Quanto melhor um livro, mais difícil é adaptá-lo, já diziam os mestres fundadores da sétima arte. E uma das batalhas culturais que atravessam nosso tempo é a criação de obras nacionais (ou multinacionais, como é o caso) que se contraponham à hegemonia cinematográfica norte-americana, de entretenimento acrítico. Nesse front a Rede Vespa de Assayas vem somar, com méritos.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).

O cronista Aldir Blanc

Aldir-Blanc-cronista

Abalados pela morte do letrista, compositor e poeta Aldir Blanc (1946-2020), os comentaristas e o público amante da música popular inundaram as redes sociais com versões de seus grandes sucessos, como O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, feitos com o parceiro maior, João Bosco. Jornalistas relembraram sua criatividade, sua verve, suas firmes posições políticas, seu humor sarcástico, sua carioquice. Alguns analistas lembraram a sua capacidade de concretizar em letra de música verdadeiras crônicas, cenas populares, relatos mordazes de situações urbanas.

Nada mais justo, se prestarmos atenção a obras primas como De Frente pro Crime, Incompatibilidade de GêniosA Nível De… ou Siri Recheado e o Cacete, retratos cheios de graça de um certo jeito de ser carioca, entre malandro e trouxa, convivendo com a violência, o desacato, o compadrio, a traição e outros desvios. Bebeu de fontes preciosas, como Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Billy Blanco e mais uns poucos. Não é fácil contar uma história, criar um enredo com abertura e desfecho, em poucos versos.

Mas o enorme compositor-letrista acabou ofuscando o escritor. Aldir Blanc é cronista mesmo, refinado (ou grosso, dependendo da hora), com vários livros publicados. Convidado pela turma do Pasquim, publicou seu primeiro volume de crônicas, Rua dos Artistas e arredores, em 1978. Ali se revelava um arguto investigador dos hábitos, costumes e idiossincrasias populares, herdeiro legítimo de uma tradição que vinha do pioneiro João do Rio, incorporando o inconformismo de um Lima Barreto e compartilhando o senso de humor de um Stanislaw Ponte Preta.

As coletâneas seguintes (Porta de Tinturaria, Brasil Passado a SujoUm Cara Bacana na 19ª, Direto do Balcão) confirmaram o talento literário do compositor-letrista. Sua formação acadêmica (fez medicina, com especialização em psiquiatria) se mesclava em química perfeita com o amor pela literatura, destilando o exímio retratista de tipos humanos, de situações hilariantes, de pequenas e grandes malandragens de um Brasil que se transforma a cada dia, deixando de sorrir e mostrando os dentes. Talvez não escrevesse crônicas, mas diagnósticos…

Reler Aldir Blanc hoje é se reencontrar com esta quase perdida tradição de cronistas satíricos metropolitanos. Os textos de humor crítico migraram para a TV, para as comédias stand-up, para as redes sociais. Apenas Luiz Fernando Veríssimo pode ser comparado, no cenário da literatura brasileira contemporânea.

Mesmo quando Blanc se aventurou por outros gêneros, como memórias (Vila Isabel – Inventário de Infância), livros infantis (Uma Caixinha de Surpresas), ou relatos saborosos em homenagem a seu time de coração (Vasco – A Cruz do Bacalhau), o espírito de “cronista carioca” esteve impregnado de forma indelével. Aldir Blanc ainda será lembrado como um dos mais originais escritores de nossa época, último recriador de um Rio de Janeiro que, depois da pandemia, nunca mais será o mesmo.

(publicado originalmente em A Terra é Redonda)

 

Morrer na praia

Nevil Shute

Nestes tempos de coronavírus, é natural relembrarmos clássicos literários que abordaram o clima pré-apocalíptico de destruição e morte. A Peste, de Camus, logo vem à baila. Aqui mesmo abordei o último romance de Philip Roth, Nemesis, que se situa num EUA, em 1944, açoitado pela poliomielite.

Ontem lembrei de uma leitura da adolescência: On the Beach, de Nevil Shute (curioso, não consigo lembrar do nome em português!). Num cenário de pós-guerra atômica mundial, o hemisfério norte está totalmente destruído. A nuvem radioativa pouco a pouco se estende para os últimos rincões meridionais da terra. A ação se passa em Melbourne, na Austrália, e as noticias de um fim inevitável afetam de forma diversificada a vida das pessoas. Num clima parecido com o do filme Melancolia, de Lars von Trier, uns tentam levar uma vida normal, outros enlouquecem, as crianças tentam entender, os adultos tentam desentender.

Há uma certa tradição de escritos sobre desgraças, epidemias e misérias decorridas da guerra. Lembro de Fome, do prêmio Nobel Knut Hamsun, que me marcou muito em tradução de Carlos Drummond de Andrade, assim como Sadako Quer Viver, da coleção Jovens de Todo o Mundo. Há toda uma biblioteca sobre o holocausto, os pogroms, as guerras coloniais, a peste medieval e até a Aids. São exercícios dolorosos, tentativas de compreender a dimensão da tragédia que ameaça a espécie humana e todo o planeta.

Nevil Shute (1899/1960) era inglês, engenheiro aeronáutico e piloto, e passou os últimos anos da vida na Austrália, escrevendo. On the Beach é seu romance mais famoso, e foi filmado duas vezes. Nunca assisti ou soube de alguma versão em português. Sem grande profundidade psicológica, mas com conhecimento técnico suficiente para descrever um cenário de contaminação progressiva, fez o que tinha que fazer.

A literatura cumpre seu papel. Lembrar, para que não se repita; alertar, para que não erremos; assustar, para que não ousemos trilhar o caminho da destruição. Mas como agir quando, cada vez mais, somos governados por ignorantes eleitos por ignorantes, que jamais tiveram a literatura como referência?

Dárlin fulgidia

Dárlin

A narrativa-correnteza de Airton Paschoa é acidentada. Tropeça em dilemas morais, volteia por desejo e frustração, encaracola-se em presenças e ausências e revela uma beleza tortuosa, como um riacho de montanha engordado por chuva repentina. A tempestade é provocada pelo surgimento de Dárlin na vida do narrador, um homem maduro e casado que vislumbra na jovem Darlene (garota de programa? jovem sem-teto? anjo decaído?) a redenção de sua mediocridade.

Em pouco mais de 60 páginas, a silhueta fulgidia de Dárlin cintila na avenida Paulista, se desvanece na penumbra de um casarão onde casais de respeito praticam swing, se revela num banheiro público, se multiplica numa passeata rumo à Praça da Sé. São 121 passos-capítulos, que formam o mosaico de epigramas, interrogações, poemitos, angústias e sarcasmos desta via-sacra laica.

Inconformista, a escrita de Paschoa não se submete a tendências literárias da moda, mas revela referências universais. A insubmissa Dárlin é uma Nadja tropical, e impõe um clima de surrealismo poético e decadente à confissão embriagada do protagonista. Ao mesmo tempo, a narrativa assume os tons de um realismo alucinado, de uma Traumnovelle brasileira, irisada e sintética. Fugindo do lugar comum, o riacho revolto não morre num pântano de platitudes: permanece em território escarpado, fustigando a imaginação do leitor.

(e-book disponível na Amazon)

A narrativa rebelde

Mil Homens

Valter Hugo Mãe é um dos mais aclamados autores portugueses contemporâneos. Com vários romances publicados, além de poesias e crônicas, é traduzido em vários países e tem uma relação profícua com o Brasil.

O Filho de Mil Homens, lançado em 2015, retoma alguns temas caros ao autor, e comprova sua capacidade de fabulação. Os personagens são quase arquétipos, mas construídos de forma original, em contextos que subvertem as narrativas convencionais.

Neste aspecto VHM mostra-se um discípulo de Saramago, não apenas pela escrita rebelde, que obedece mais ao fluxo do sentimento que às regras gramaticais, mas pela capacidade de criar personagens quase irreais, sempre banhados de profunda humanidade.

Como não lembrar do Saramago de O Conto da Ilha Desconhecida, ao iniciar a leitura do Filho de Mil Homens? O homem que vai ao rei pedir um barco, no conto de Saramago, transfigura-se num pescador de 40 anos, em VHM, que anseia por um filho.

Não é possível pedir filhos a um rei. Com habilidade, Valter Hugo Mãe insere outros personagens, com dores e ansiedades próprias, que vão entrelaçar suas vidas com a do pescador. Crisóstomo, que quer ter um filho mas não pensa em uma mulher, encontra um órfão, Camilo, que vai apontar para ele a incompletude familiar em que vivem.

Personagens desajustados, como bem aponta Alberto Manguel na contracapa da edição brasileira. Mas que vão compor a delicada tapeçaria de sentimentos que o escritor trama com habilidade . A camponesa ingênua que perde a virgindade e é abandonada pelo noivo prometido, a mãe que se recusa a reconhecer o filho “maricas”, a anã que desconhece o pai de seu filho. Toda a sordidez da humanidade é também ponto de partida para uma possível redenção.

O Filho de Mil Homens pode ser até acusado de pieguice, em alguns momentos. Mas o poder encantatório da escrita de Valter Hugo Mãe é convincente o bastante para arrebatar o leitor ávido por invenção, num mundo em que o realismo banal nos invade cada vez que ligamos a televisão, e é reproduzido de forma monótona em tantos escritos que não almejam mais que serem “retratos verossímeis”. Criticar a realidade pode ser revolucionário.

Marrom, amarelo e magistral

Paulo-Scott_Marrom-e-Amarelo

Outro dia, numa conversa de amigos sobre literatura, confessei minha implicância com finais abertos. Na maioria das vezes, parece que o autor não soube como terminar a história. Fui devidamente esculhambado pelos interlocutores, final fechado é coisa do século XIX, narrativa com começo-meio-e-fim é algo careta, assim como a palavra careta. Felizmente estávamos num bar, e não num simpósio.

Relembrei meus tempos de estudante de cinema, do impacto que me causou assistir filmes de mestres como Antonioni e Fellini com geniais e inovadores finais abertos (nos anos 60!), e de como isso se tornou fórmula simplista nas décadas seguintes, banalizando um recurso que rompia com a narrativa tradicional, mas que logo foi absorvido pelo “sistema”.

Parece ser um estigma das estéticas do século XX do pós-guerra, em todas as artes. Brilharem por algum tempo e depois serem canibalizadas pela incansável e voraz tribo dos diluidores. Efeito perverso da era das comunicações, onde toda novidade é copiada ad nauseam. Não há achado interessante no cinema, por exemplo, que não seja vulgarizado pela publicidade um ano depois. Nas artes plásticas, então, melhor nem comentar. Aspirante a artista de Xiririca da Serra copia o que causou impacto no MoMA no mês anterior, graças à internet.

Todo esse preâmbulo é pra tentar disfarçar o impacto que me causou a leitura do romance Marrom e Amarelo (Alfaguara, 2019), do gaúcho Paulo Scott. Autor premiado e estimado pela crítica, Scott encara o desafio de desenvolver um romance sobre a questão racial brasileira sem parecer panfletário ou sabichão. E manda muito bem!

Lourenço e Federico são irmãos, um mais “marrom”, outro mais “amarelo”, nascidos em Porto Alegre. Federico é o narrador, militante, dirigente de ong, que é convidado a participar em Brasília de um grupo ministerial voltado para a questão das cotas raciais nas universidades. Perto dos 50 anos, fracassado na vida amorosa, relembra momentos cruciais da infância e juventude vividos com o irmão “mais preto”, hoje técnico de basquete da seleção gaúcha.

A narrativa nervosa flui com facilidade, à medida em que novos ingredientes são acrescentados à trama. A sobrinha Roberta é presa numa manifestação estudantil, e Federico retorna a Porto Alegre para ajudar o irmão. O pai, policial aposentado, nunca discutiu racismo dentro de casa. A mãe, idem. O diálogo entre as três gerações não será fácil.

Quase nunca é, independente do tema. Mas Paulo Scott consegue com sabedoria mesclar dilemas familiares, lembranças estudantis, amores erráticos, amizades (e inimizades) que atravessam décadas, orquestrando tudo de forma brilhante. Traçou um retrato atualíssimo dos efeitos do racismo numa família negra de classe média, sem apelar para ancestrais africanos ou rituais de candomblé. O patriarca reza um Pai Nosso antes das refeições, e isso é de uma ironia fina, sem julgamento de valor.

A bela capa reproduz um guache de Sidney Amaral, de 2015. Coragem editorial de abdicar dos elogios habituais propagandísticos de quarta capa, fazendo com que apreciemos o conjunto gráfico. Mais que tudo, um grande romance, admiravelmente bem escrito, contundente e necessário. Apesar do final aberto…

Memórias de tempos sombrios

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A literatura brasileira ficcional sobre os anos da ditadura militar já rendeu muitos títulos, desde o pioneiro Pessach: a travessia (1967), de Carlos Heitor Cony até clássicos recentes, como K, Relato de uma Busca, de Bernardo Kucinski, lançado em 2011.

São dezenas de contos, novelas e romances, que abordam o período sem ainda terem esgotado todas as nuances do tenebroso período que estende sua mão sanguinária até nós, como um fantasma. Assim como a vasta literatura sobre o nazismo, o stalinismo ou a Segunda Guerra Mundial, é preciso relembrar sempre, para não esquecer nem repetir.

Milton Hatoum já havia ambientado obras anteriores, como Cinzas do Norte, na época da ditadura. Mas nessa trilogia, iniciada com A Noite da Espera e Pontos de Fuga, o governo militar golpista assume papel de protagonista, influenciando diretamente a vida dos personagens.

A partir de um personagem, Martim, jovem paulista cujos pais se separam e ele vai para Brasília, o primeiro volume retrata o movimento estudantil e artístico da Capital nos anos 60, até a invasão da Universidade pelas tropas e a perseguição e prisão de quem fazia qualquer espécie de resistência. Morando com o pai, um inescrupuloso vendedor de lotes da Novacap, Martim cada vez mais se apega à lembrança da mãe, que não consegue rever, e aos novos amigos da UnB, que se reúnem em torno de um grupo de teatro e de uma revista literária.

O primeiro volume é forte, realista, e delineia bem os personagens, mesmo quando entra nas fímbrias do poder. O livreiro de esquerda, o diplomata desiludido, a cafetina de luxo, estão todos lá. Brasília, então uma ilha formada por migrantes de todas as regiões do país, se afunda em perfídias e traições. A jovem atriz e militante Dinah, a primeira namorada, terá papel marcante na vida de Martim. Tudo isso é reconstruído através de memórias, papéis, diários, carta e relatos de vários coadjuvantes.

No segundo volume, o cenário é São Paulo dos anos 70. Martim abandona o pai e tenta fazer arquitetura na Usp. Passa a morar numa república na Vila Madalena, onde convive com novos personagens. A leitura fica mais complexa, uma vez que as datas dos depoimentos, cartas, diários, etc, saltam algumas décadas. Paris torna-se mais presente, com vários protagonistas no exílio, recordando as peripécias da época.

Tudo isso reflete a trajetória do próprio Hatoum, que morou em Brasília, em São Paulo, estudou arquitetura e foi para Paris. Ou seja, ele fala de uma realidade que conheceu de perto, através de personagens ficcionais. Aqui e ali pescamos referências a nomes e eventos reais, como a morte de Alexandre Vanucchi Leme e a missa na catedral da Sé, cercada por policiais.

No entanto, alguma coisa desengrena no segundo volume. As várias personagens femininas da república se confundem, ficam pouco definidas. A obsessão de Martim por reencontrar a mãe (caiu na clandestinidade?) o torna um sujeito ensimesmado e depressivo, pelo relato dos companheiros. O esquema de relatos, diários, cartas, etc, fica um pouco cansativo.

Como numa sinfonia, onde após um primeiro movimento vibrante passamos para um largo um tanto monótono (embora polifônico, conduzido com maestria), tudo pode ser salvo com o terceiro movimento, se Hatoum souber amarrar todas as pontas soltas e conduzir o leitor para um gran finale. Aguardemos!

Poética do relento

Evandro

De tudo que li durante o ano de 2019, nada me marcou tanto quanto este romance de Evandro Affonso Ferreira. Demorei meses remoendo a narrativa, acordando no meio da noite a relembrar imagens saídas de suas páginas, me surpreendendo com a linguagem inovadora.

Evandro é um escritor consagrado, inventor absoluto, embora pouco conhecido do grande público. Transita por uma estrada literária que pouquíssimos ousam trilhar, sem nunca abrir mão da originalidade. Neste romance de 2017, acompanha a vida de cinco meninos de rua, narrada de forma fragmentada pela memória do (talvez) único sobrevivente, anos depois.

Eurídice é a figura central do romance. O nome evoca a ninfa grega que Orfeu tenta resgatar do Hades. O inferno, no caso, é a metrópole sombria e desigual por onde rastejam os desvalidos, os abandonados, os decaídos e amaldiçoados. Debaixo de pontes, em becos imundos, tomando banho nas enxurradas, comendo restos, praticando pequenos furtos e, às vezes, sonhando, o quinteto perambula entre ranhos e remelas, e convive com o fantasmagórico personagem que os abraça toda noite: o Relento.

Eurídice é figura materna para os menores do grupo, amante para os mais velhos, paixão para o narrador, Seleno. “Menina-mulher de corpo inflamável”. Seus comentários mordazes sobre a vida contrastam com o lirismo das observações de Ismênio, o menor, um anjo decaído e alucinado capaz de chegar para uma cega e dizer “Ei, moça bonita, se quiser posso ser seu cachorro-guia pro resto da vida.”

Na literatura brasileira, talvez apenas Jorge Amado tenha enfocado um grupo de meninos de rua, no seu clássico Capitães de Areia. Evandro reinventa o mote e levanta o sarrafo bem acima, criando um Orfeu-narrador de voz poderosa: “Não há punhal flambado capaz de remover a umidade da noite, cujo nome é Relento. Cidade? Esquartejadora da nossa esperança: éramos todos forasteiros no próprio lugar onde havíamos nascido.”

Em pouco mais de 150 páginas, Evandro Affonso Ferreira nos oferece o mais pungente retrato da vertiginosa desigualdade em que estamos mergulhados, sem abdicar da poesia. Obra de mestre.

Essa gente que escreve…

Essa Gente

Chico Buarque, já consagrado como escritor, parece fazer de sua obra um enorme palimpsesto. Reescreve as memórias de um homem maduro, em crise, que perambula pela cidade do Rio de Janeiro tentando resolver suas frustrações. Se isto te lembra Estorvo, de 1991, o agônico Benjamin (1995) ou Leite Derramado (2009), não é por acaso. O homem que vive da escrita em Budapeste (2003) volta a aparecer aqui, com outro disfarce.

Parecem, mas não se parecem, como as canções de amor. Falam das mesmas coisas, do desejo, da ausência, da traição, da inconstância, do desprezo, mas com, digamos, melodias e letras diferentes.

Essa Gente (2019) é o mais contemporâneo romance de Chico Buarque. Escrito em forma de diário, como se fossem anotações de um romancista falido, Manuel Duarte, mistura recordações de dois casamentos acabados, um filho adolescente com quem não consegue se comunicar, um bloqueio criativo que o impede de escrever e o pires na mão nas conversas com o editor.

Duarte (não Buarque!) fez sucesso com seu primeiro livro, O Eunuco do Paço Real, fato que não se repetiu nos livros seguintes. Isso o torna uma espécie de simulacro de si mesmo, tentando viver um personagem bem sucedido que não existe mais. As mulheres o abandonaram, a grana acabou, os amigos sumiram. Como se fossem fantasmas grotescos, eunucos surgem na narrativa, numa sub-trama onde um pastor perverso e um maestro sádico castram meninos nas favelas para manterem a voz angelical.

Lançado em novembro de 2019, insere lampejos da cruel realidade que vive o país: um mendigo é espancado na porta do Country Club por um cidadão de bem, um menino sofre bullying na escola por ter pais “de esquerda”, um cachorro faminto estraçalha um jornal cuja manchete estampa o fuzilamento de uma família negra por 80 tiros.

Tecnicamente, a escrita tensa e contraída dos primeiros romances torna-se mais fluida, urgente. O pretexto de ser um bloco de anotações permite ao autor Buarque (não Duarte!) apresentar sua obra mais límpida. Nem por isso facilita as coisas, com um final enigmático e metafórico. As vozes narrativas se alternam, com as ex-mulheres (ou será Duarte imaginando suas falas?), notícias de jornal e até um narrador onisciente, em terceira pessoa.

Essa Gente mantém Chico Buarque no time de escritores brasileiros que produzem com constância e qualidade nos últimos anos. Não chega a empolgar, mas isso parece ser um efeito procurado pelo autor em toda a sua obra. Quer mais reflexão, não emoção. É a consolidação de um estilo que pouco tem a ver com o compositor Chico Buarque, com quem costuma ser confundido.

Os da minha rua (com um mar no meio)

Ondjaki

A literatura angolana contemporânea é bastante influenciada pela cultura brasileira. Escritores, músicos, dramaturgos, atores e atrizes estão presentes no imaginário angolano, muito por causa da televisão. A língua portuguesa é a ponte evidente, além de uma identificação étnica, um anseio anti-colonialista e muitos desafios de Terceiro Mundo. E, lógico, podemos também dizer que a cultura brasileira é bastante influenciada pela angolana, em suas origens.

Ondjaki é um dos mais conhecidos autores angolanos no exterior. Nascido em 1977 em Luanda, graduou-se em Lisboa, morou na Itália, estudou em Nova Iorque, passou temporadas no Brasil. Estreou com poesia, publicou contos e romances, experimentou o teatro e o cinema, tem vários títulos infanto-juvenis editados.

Os da Minha Rua, lançado no Brasil em 2007 pela Língua Geral, é uma coleção de pequenos contos de caráter memorialístico, que evocam a infância do autor em Luanda. Também pode ser lido como um romance fragmentado, já que vários personagens são recorrentes em cada capítulo.

Ondjaki consegue equilibrar com destreza a descrição de ambientes e situações com o uso de uma linguagem lírica, próxima da fala infantil, revelando aos poucos um cenário de descobertas e significados.

Para um leitor brasileiro, é curioso perceber a influência de novelas como O Bem Amado e Roque Santeiro no cotidiano de sua geração. É provável que através delas tenha crescido a curiosidade pela literatura de ficção aqui praticada.

A citação a Manoel de Barros no final do livro não é gratuita. Ondjaki se aproxima, em alguns momentos, da sintaxe do mestre matogrossense das miudezas poéticas. O olhar infantil sobre o mundo revela o homem atento à construção de uma realidade onde a pobreza material é preenchida por brincadeiras, sonhos e afetos. Não faltam as lembranças de escola, de professores cubanos, de cenas de filmes, de quintais, festas, carnavais e comícios de Primeiro de Maio.

Um pequeno glossário, no final, ajuda o entendimento de alguns vocábulos. Infelizmente é muito incompleto, pelo menos para um leitor brasileiro desacostumado com as falas d’além-mar. Isso não desfaz o encanto deste pequeno livro, que ganha densidade no final, quando o autor, já um jovem, vai abandonar o cenário da infância para estudar no estrangeiro. Terminamos a leitura com a certeza de que “nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.”


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