Archive for the 'Literatura' Category

O caráter e o destino

 

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            O escritor e ensaísta espanhol Rafael Sánchez Ferlosio definiu dois tipos de personagens, reais ou ficcionais. Os de caráter “são os arquétipos, geralmente cômicos, de pura manifestação, que não nascem, nem crescem, nem morrem, mas sempre se repetem em situações frente às quais confirmam seu caráter.” Por exemplo, Carlitos ou Pedro Malazartes.

            Já personagens de destino “são os heróis épicos ou trágicos, de atuação plena, que nascem ou começam ou partem ou morrem ou acabam ou voltam no decorrer de algum incidente onde o seu destino se cumpre”. Gilgamesh, Ulisses, Tiradentes, Zumbi ou qualquer herói posterior se encaixam nessa definição.

            O romance de Javier Cercas, O Ventre da Baleia, se desenvolve em torno dessa dualidade, mas está longe de ser um romance de tese, como seu primeiro título publicado (El móvil), traduzido no Brasil como O Motivo. O escritor apresenta o personagem Tomás, jovem professor assistente da Universidade Autônoma de Barcelona, no instante em que reencontra uma velha paixão de juventude e trai sua esposa grávida.

          Imerso num jogo de enganos e auto-enganos, Tomás encontra apoio num velho professor de literatura, Marcelo, que tenta convencê-lo a se candidatar a um concurso de cátedra na universidade. Conversas literárias e citações cinematográficas permeiam o enredo, que trabalha um largo arco de emoções, indo do cômico ao trágico. É Marcelo quem apresenta para Tomás a tese de Ferlosio.

             Como muitos, o assistente ambiciona um destino glorioso. Sempre queremos ser heróis, de preferência driblando os aspectos trágicos da história. As circunstâncias da vida vão nos conformando ao lado menos iluminado, onde em vez de sermos príncipes, algumas vezes acabamos como bobos da corte. Não por acaso, a capa desta edição (Francis, 2006) reproduz um célebre quadro de  Velázquez, El Bobo de Coria. Não creditado, aliás.

           Javier Cercas é um dos mais premiados escritores espanhóis da atualidade. Tal como Javier Marías, outro bom escritor contemporâneo, gosta de citações eruditas, mas sabe evitar o pedantismo obscuro, ficando nos limites da cultura pop. Fritz Lang, Alexandre Dumas, Borges e Led Zeppelin surgem naturalmente na trama, compondo o cenário multicultural fragmentado típico da modernidade (o romance é de 1997).

            Há pequenas brincadeiras no texto, como um personagem secundário chamado Javier Cercas que surge numa tertúlia literária e interrompe uma conversa de Tomás.  A narrativa em primeira pessoa humaniza o relato, provocando uma empatia com o protagonista que, mais que uma mera identificação, propõe um descortinamento das máscaras sociais que nos são atribuídas. Os instintos básicos (paixão, vingança, medo, vergonha), a pulsão erótica, o arrependimento, a amizade, estão todos lá, colocados com mão de mestre. A tradução de Bernardo Ajzenberg é fluida, e valoriza o prazer da leitura.

             No final do livro percebemos, não sem certa melancolia, que há personagens de destino, como se imagina Tomás, que podem se transformar em personagem de caráter, devido às circunstâncias. E que todo escritor vive somente o presente, o momento da escrita, mesmo quando se alimenta de memórias ou de invenção, pois seu destino é apenas escrever, sem heroísmo ou tragédia. Como um bobo da corte.

SOBRE TRIBUNAIS E QUINTAS-FEIRAS

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Descrever a sua época é um desafio para qualquer escritor. A pena elegante de um Machado de Assis ou as tintas satíricas de um Lima Barreto definiram modelos que tiveram muitos seguidores no Brasil. Mas o que pode fazer um autor em pleno século XXI, onde a literatura cada vez mais perde espaço para o bombardeio midiático de informações e desinformações que transforma todos, leitores e autores, em ruído branco?

            Michel Laub responde a essa questão arrastando o monstro para dentro de sua literatura. A internet tem papel fundamental em seu romance O Tribunal de Quinta-feira (Companhia das Letras ,2016), onde uma traição é descoberta pela indiscrição registrada em e-mails. Mas a história de um publicitário casado que se envolve com a estagiária não seria original se contada de forma acadêmica.

            Laub recorta e monta um quebra-cabeças que inclui, obviamente, mensagens trocadas pelo correio eletrônico, mas se apoia principalmente na narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário. A relação com um velho amigo soropositivo, a rotina do casamento, o ambiente da agência, a tentação e o desejo, tudo vai sendo desvelado de forma aparentemente anárquica. Que o leitor não se engane. Há uma ordem, uma intenção, em cada capítulo, mesmo quando tem a forma de uma displicente digressão de quinze linhas ou uma simples mensagem telefônica de dez palavras: “Como você acha que eu me sinto ao saber disso?”

            A descoberta da traição pela esposa vai detonar a crise, que se desenvolve em poucas horas. Michel Laub trabalha o tempo com habilidade, trazendo informações sobre a vida do protagonista, a família da mulher, o papel do amigo em sua vida. De quebra, levanta uma pertinente discussão sobre privacidade, falso moralismo, ética empresarial, preconceito, machismo e feminismo.

            Buscando uma linguagem moderna, longe dos cânones e próxima do coloquial, autores como Laub correm dois riscos. O primeiro é o da rarefação, do provisório, de não mergulharem realmente na grande literatura, seja lá o que isso signifique. O segundo é o de se tornarem nossos clássicos contemporâneos.

 

Jack London, sempre atual

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            Quem foi bom leitor na juventude certamente deve ter se deliciado com algum livro de Jack London. Caninos Brancos e O Lobo do Mar foram traduzidos por Monteiro Lobato, e tiveram dezenas de edições no Brasil. Outro campeão foi O Chamado da Selva, que narra a história de um cão que puxa trenós no Alaska. Depois de muitos sofrimentos (naturais ou causados pelo homem) une-se a um bando de lobos, tornando-se líder da alcateia.

            O Chamado da Selva (também traduzido como Apelo da Selva e O Grito da Floresta) é obra fundamental da literatura norte-americana, e tornou o nome de Jack London reconhecido mundialmente. Autor de vários romances e contos, ele refletiu em sua obra muito das experiências que teve durante toda a vida.

            Jack (nascido John Griffith Chaney) nasceu pobre, em San Francisco, Califórnia. Não conheceu o pai, e teve uma infância difícil. Começou a trabalhar muito cedo numa fábrica de enlatados, numa época em que a jornada de trabalho tinha com frequência dezoito horas, e nunca menos que doze. Com dezesseis anos virou grumete, e em pouco tempo tinha seu próprio barco de ostras, perdido num incêndio. Alistou-se numa escuna pesqueira, e foi até o Japão. Na volta trabalhou numa fábrica de juta (experiência que rendeu o conto O Herege), e participou das primeiras revoltas de trabalhadores de Oakland, onde viu despertar sua consciência de classe. Foi vagabundo e andarilho, esteve preso algumas vezes, e aos 21 anos resolveu tentar a sorte no Alaska, em busca de ouro.

            Além de não encontrar nada, ainda contraiu escorbuto. As terríveis situações que vivenciou, porém, inspiraram sua nascente veia literária. Tentou estudar na Universidade da California, foi admitido nos exames, mas a falta de dinheiro impediu que concluísse os estudos. Trabalhava à noite na lavanderia limpando a roupa dos colegas, e acabou desistindo.

            Felizmente, foi salvo pela literatura. Ao ganhar 25 dólares com um conto publicado num jornal de San Francisco (Tufão na costa do Japão), London percebeu que este seria o caminho para ascender socialmente. Em 1902 publicou o primeiro volume de contos. Em 1903 vendeu os originais de O Chamado da Selva por 750 dólares. Dois dias depois outra editora, a poderosa Macmillan, comprou os direitos do livro por 2000 dólares, desenvolvendo uma ampla campanha publicitária para o lançamento. As vendas explodiram, e London nunca mais passou fome.

            A vida sofrida, a doença e as experiências humilhantes não fermentaram apenas um escritor, mas um militante. Filiou-se ao Partido Socialista, e dedicou grande parte de sua obra adulta a descrever o mundo dos operários, dos desempregados, dos miseráveis. A luta pela sobrevivência, seja na natureza, seja na civilização industrial, é o motor de sua criação.

Jack London

            Uma boa seleção destes contos “adultos” foi lançada no Brasil pela editora Expressão Popular. O volume é aberto com dois textos confessionais (O Que a Vida Significa Para Mim e Como Me Tornei Socialista) onde somos apresentados à visão de mundo do escritor.

            A ficção propriamente dita é desenvolvida nos nove contos seguintes, onde acompanhamos aventureiros solitários no Alaska, operários em greve em San Francisco, mexicanos miseráveis que sobrevivem lutando boxe, chineses estoicos condenados à morte, ladrões de joias, pais que não reconhecem o filho. Sem deixar de lado valores como o amor (Ao Sul da Fenda) e a amizade (O Pagão), o autor demonstra sua enorme capacidade de descrever um universo social até então pouco abordado na literatura americana, de forma intensa e profundamente humana.

            Jack London escreve de forma direta, sem rodeios. É um dos fundadores da moderna prosa ocidental, e influenciou dezenas de escritores, em todo o planeta. Nos últimos anos de vida projetou e construiu um barco, velejando até o Pacífico, e construiu um rancho na Califórnia, que hoje é tombado como Marco Histórico Nacional. Sua morte, aos 40 anos, é controversa. Segundo alguns, teve uma acidente ao ingerir uma dose excessiva de heroína, que tomava para aliviar as dores de uma uremia. Para outros foi realmente um suicídio.

            Não importa. A obra de Jack London ainda pulsa forte, e é leitura prazerosa e marcante. Evoluindo de um feroz individualismo para a construção de um ideal coletivo, como fez na própria vida, o escritor antecipou em sua literatura o grande dilema do capitalismo no século XX. Sua mensagem fundamental continua válida para todos que não desistiram de enfrentar o desafio de transformar o mundo: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago.”

Alpharrabio, 25 anos

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Há 25 anos eu trabalhava em Santo André, na região do ABC paulista. Morava em São Paulo, e ia de trem todos os dias. A grana era curta, mas era foi um período muito rico em experiências. Participava de um governo popular, com propostas inovadoras e muita vontade de acertar.

            21 de fevereiro de 2002. Fim de tarde, quando encerrava o expediente na Secretaria de Cultura, alguém veio me chamar para um evento diferente: festa de inauguração de um novo sebo-livraria na cidade, o Alpharrabio. Quem convidava era a poeta, escritora e agitadora cultural Dalila Teles Veras.

            Não recordo de muitos detalhes, confesso, mas lembro da casa cheia, alguns conhecidos, muitos desconhecidos. Até o prefeito Celso Daniel passou por lá, naquela noite. Bebidinhas, boas conversas, abraços, mas eu tinha que pegar o trem antes que fosse muito tarde. Foi bonita a festa, pá!

            Na década seguinte, saí e voltei para Santo André algumas vezes. A Alpharrabio cresceu, tornou-se um ponto de referência no ABC. Criou uma editora com mais de 200 títulos publicados. Muito mais que um sebo, é um verdadeiro centro cultural. Rolam shows de música, espetáculos de dança, teatro, exposições de artes plásticas e, claro, eventos literários. Lançamentos, debates, tertúlias, saraus, homenagens e comemorações diversas. Por ali passou uma lista extensa de artistas e intelectuais, nacionais e internacionais.

            Encontrei-me com a Dalila várias vezes. Chegamos a trabalhar juntos durante um ano, quando gravamos um quadro semanal para o programa ABCD Maior, veiculado pela Rede TV!, aos domingos. O assunto? Cultura, claro.

                        Quando terminei o primeiro romance, Terno de Reis, há dois anos, fiz questão de fazer um lançamento no ABC, cenário de boa parte da trama. E não poderia ser em outro lugar senão o Alpharrabio! Em São Paulo, essa metrópole onde moro há mais de 40 anos, não conheço um lugar com as mesmas características: amistoso, convidativo e estimulante.

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            No último sábado, dia 04 de março, rolou a festa dos 25 anos. Um quarto de século! E não faltaram amigos, sorrisos, brindes e abraços. Bom reencontrar a onipresente Maninha, rever o grande Teles, conversar com os novos e antigos amigos. Nem vou nomear todos os conhecidos, pois corro o risco de esquecer algum. Como lembrou a Dalila, citando o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, o Alpha é um lugar onde todos se abraçam e confraternizam, em torno de um projeto cultural.

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Num país fragilizado, onde a cultura está sendo relegada a segundo plano, onde livrarias estão fechando, onde governos cortam verbas para a educação, onde o futuro está sendo rifado a preço vil, é um alento ver que um grupo de sonhadores insiste em construir, formar, produzir, compartilhar artes e saberes. Que venham mais 25 anos. Resistiremos!

(Fotos: Wilson Rodrigues)

A crônica militante de Lima Barreto

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Embora seja reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros, podemos afirmar que boa parte da obra de Afonso Henriques de Lima Barreto não está ao alcance do leitor contemporâneo. Por este motivo, a publicação do volume A Crônica Militante (Expressão Popular, 2016) merece aplausos e uma ampla divulgação.

            É claro que nos “tempos sombrios” em que vivemos (como bem definiu Raduan Nassar), não podemos contar com a chamada grande imprensa para isso. O pacto político-judicial-midiático que depôs um governo legitimamente eleito não pode ver com bons olhos os textos de um escritor anarco-socialista que denuncia as mazelas do capitalismo, mesmo que tenham sido escritos há quase um século.

            Antes de morrer, em 1922, Lima Barreto deixou pronto um volume (Bagatelas), enfeixando crônicas publicadas em várias publicações cariocas.  O escritor era crítico ferrenho da mídia oficial e chapa-branca, manifestando preferência por publicações marginais e independentes, anarquistas ou satíricas. Destas, a mais famosa foi a revista Careta, onde o autor de O Homem Que Sabia Javanês publicou sob diversos pseudônimos, a partir de 1915.

            Grande parte dos artigos desta coletânea foi escrita durante e após a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), e analisa um mundo em convulsão social e política. Barreto escreve contra o racismo, defende a Revolução Russa, critica o imperialismo americano, ironiza os governantes da ocasião, deplora os assassinatos por “honra”, ataca o formalismo acadêmico na imprensa de seu tempo.

            De fato, em termos de linguagem, Lima Barreto é um precursor do Modernismo. Sua escrita é direta, muitas vezes irônica, embora pareça pedante a leitores do século XXI a quantidade de citações em francês ou latim de que lança mão. É como se o escritor, mulato, pobre e sem títulos, visto com certa desconfiança por sua militância política (e pelo alcoolismo contumaz), se sentisse na obrigação de “deitar cultura”, demonstrar erudição.

            Os organizadores da coletânea (Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis) foram felizes em incluir um esclarecedor ensaio de Astrojildo Pereira, publicado na 2ª edição de Bagatelas. Fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, o intelectual ressalta que Lima Barreto não era marxista, nem mesmo tinha uma formação ortodoxa, mas era um humanista eclético que escrevia com “aguda intuição”.

         Incomoda apenas, na presente edição, o excesso de notas de rodapé primárias, que fazem o interessado interromper a leitura para ver se há algum significado especial, retomando a leitura irritado com a obviedade. Rodapé pra explicar o que é missa campal, galhofa, recluso, bretão ou imaculado, convenhamos, é fazer pouco da inteligência de qualquer um. Pra compensar, há no final um “elenco de nomes, títulos e lugares” de real valor, contextualizando vários ]personagens e locais citados nas crônicas.

            Reler e conhecer de forma mais profunda a obra e o pensamento de Lima Barreto é imprescindível. Homenageado na Flip-2017, o autor de personagens inesquecíveis como Policarpo Quaresma surpreende, em vários sentidos. Desde sua folclórica aversão ao futebol (que considerava uma imitação patética dos ingleses) até a incômoda atualidade de algumas afirmações, como a que emite após participar de um julgamento,  de que  “A massa dos jurados é de uma mediocridade intelectual pasmosa, mas isto não depõe contra o júri, pois nós sabemos de que força mental são a maioria dos nossos juízes togados.”

              Em vários momentos, soa profético: “  A crença no todo poderio do dinheiro, que entre nós se apossou primeiramente de São Paulo (…), vai avassalando todo o Brasil, matando as nossas boas qualidades de desprendimento, de doçura e generosidade, de modéstia nos gostos e nos prazeres, emprestando-nos, em troca, uma dureza com os humildes, com os inferiores, com os desgraçados, com tolas e infundadas superstições de raça, de classe, etc., nesta época de grandes e justas reivindicações, ameaça-nos de morte, ou se não de lutas sangrentas.”

                 Em outro artigo, vai ao âmago da questão.  “Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer.” 

          Lima Barreto tematizou várias vezes esse sentimento (ver o conto A Nova Califórnia, que adaptado para o cinema talvez tenha se tornado o melhor filme da Vera Cruz, Osso, Amor e Papagaios, em 1957) e continua sendo fundamental para entendermos o Brasil.

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Javier Marías, mais uma vez

 

 

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Comentei no final de 2016 um romance de Javier Marías, Enamoramentos. Gostei, mas me impacientou em alguns momentos. As elucubrações e digressões dos personagens pareciam excessivas, em várias páginas. No entanto, a trama era tão bem construída que arrisquei mais um romance do espanhol. E não me arrependi.

            Coração tão Branco, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é mais rico em situações, mais ousado, mais surpreendente. Uma história que começa em Havana, passa pela Inglaterra e Suíça, e se resolve em Madri, com um retorno engenhoso a Havana (ao passado) para resolver um mistério.

            O escritor Javier Marías é também ensaísta, filólogo e tradutor, e coloca seu personagem nessa última função. Mais que isso: tradutor simultâneo em congressos, simpósios e encontros diplomáticos bancados pela ONU. Num capítulo onde o humor adquire tintas satíricas, interpreta uma conversa entre a primeira-ministra da Inglaterra e o primeiro-ministro espanhol. É ali que conhece sua futura mulher, a também tradutora Luisa.

            Não vou tentar resumir os meandros da trama, que envolvem os antepassados do personagem e um segredo familiar tenebroso. Javier Marías demonstra sua habilidade em desenvolver uma trama original, fugindo de arquétipos e esquemas conhecidos, até mesmo porque é um grande conhecedor do cânon ocidental. As citações de Shakespeare (“Coração tão branco” é uma fala de Lady Macbeth), obsessão que se repete em sua obra, se encaixam com naturalidade, e a referência a uma canção de ninar cubana se torna mais profunda quando é revelado que o personagem tem uma avó havanesa.

            Histórias dentro de histórias, a cada capítulo somos apresentados a novos personagens, que vão compondo um fascinante mosaico da humanidade: de uma prostituta até um perito em artes plásticas, de um homem que se casa com duas irmãs até o filho deste, que se sente inseguro no próprio casamento.

            O romance se abre de modo tão marcante que várias resenhas reproduzem seu início. Os mais curiosos podem fuçar na internet. Aos amantes da boa literatura, recomendo a leitura completa do romance desse provável candidato a um Nobel (que já recusou alguns prêmios, por sinal). Prefiro ressaltar o lado filólogo de Javier Marías, que nos ensina que o verbo respaldar remete a espáduas, costas, proteger as costas de alguém, nessa bela reflexão:

“É o peito de outra pessoa que nos respalda, só nos sentimos respaldados de verdade quando há alguém atrás, a própria palavra o indica, à nossa espalda, assim como em inglês, to back, alguém que talvez não vejamos e que nos cobre as costas com seu peito que está a ponto de nos roçar e acaba sempre nos roçando, e ás vezes, inclusive, esse alguém nos põe a mão no ombro com a qual nos tranquiliza e também nos sujeita. Assim dorme ou crê dormir a maioria dos esposos e dos casais (…)”  

De delícias como essa Javier Marías constrói seu romance.

A arte de fazer digressões

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       Javier Marías é um dos nomes mais conhecidos da literatura espanhola contemporânea. Com dezenas de títulos publicados, entre romances, contos e ensaios, obteve com Los enamoramientos os aplausos de público e crítica. O jornal El País o considerou o melhor romance de 2011, o que não é pouca coisa.

            Marías conta a história pela ótica de Maria Dolz, funcionária de uma editora que costuma observar de longe um casal, frequentador do mesmo café que ela. Sente empatia por eles, imagina ser um casal perfeito. Certo dia o sujeito vira notícia de jornal: foi esfaqueado e morto por um flanelinha, no meio da rua.

            Após algum tempo Maria aproxima-se da viúva, e acaba se envolvendo com o melhor amigo do morto, uma figura ambígua, que costuma levar os filhos do casal à escola. A história passa a ganhar uma conotação de suspense, de policial, onde nunca temos certeza se é realidade ou fantasia da protagonista.

            O estilo digressivo de Javier Marías deve enlouquecer leitores acostumados com best sellers. Os volteios mentais de Maria Dolz enchem várias paginas de especulações e hipóteses, e os poucos diálogos são intercalados por extensas análises do que está sendo dito ou ouvido. O autor tensiona a narrativa, esticando ao máximo cada parágrafo, demonstrando grande domínio técnico no desenvolvimento do romance. Ao mesmo tempo, soube criar uma trama surpreendente, onde o relacionamento dos personagens amplia a sensação de que a verdade, bem, nem sempre é verdade. Será confiável a visão de uma pessoa apaixonada?

            Nas conversas entre os enamorados, a literatura tem destaque (Maria trabalha com isso, afinal). Os Três Mosqueteiros de Dumas, Macbeth de Shakespeare e, principalmente, O Coronel Chabert de Balzac, reverberam o tema da influência da morte (e dos mortos) na vida das pessoas. Amores viram rancores, afetos dissolvem-se em desconfiança, e lealdade ganha as cores da traição.

            A tradução é meio apressada, com alguns escorregões (lá pelas tantas, o flanelinha é chamado de lanterninha, por exemplo), mas não chega a quebrar o impacto da narrativa. Javier Marías, formado em letras e especializado em filologia, também trabalhou como tradutor e conhece bem as dificuldades do ofício. Trabalho puxado, prazos apertados, dinheiro curto… Mas isso é assunto para outra ocasião!