Archive for the 'Literatura' Category

Rodapés da História

Há algum tempo venho anotando pequenos textos, criados em circunstâncias pouco usuais: Num restaurante, numa viagem, no meio de uma conversa, numa noite mal dormida.

Versam, de modo geral, sobre personagens anônimos que por algum motivo fizeram algo extraordinário. Nada impede, porém, que em algum momento eu fale de personagens extraordinários fazendo um ato absolutamente banal. Creio que a maior parte das ações humanas não passam de rodapés da história…

Não sei se terei tempo e disposição para reuni-los num volume impresso, e cada vez mais duvido da necessidade disso. Portanto, aqui vão três rodapés, publicados recentemente na rede,  apenas para registro.

Garimpeiro

O CATADOR DE DIAMANTES

O velho Antônio das Almas, neto de quilombola e garimpeiro, passou a vida a peneirar cascalho na beira do rio Bagagem, lá nos confins das Geraes. Sonhava com o grande diamante, que nunca surgiu. Vez ou outra, muito de vez em quando, relampeava um xibiu no fundo da peneira.

Certo dia, ao matar uma galinha para o almoço, viu faiscar nas entranhas da ave uma pequena gema. Atraída pelo brilho, certamente a galinha engoliu a pedrinha, que ficou retida no papo.

O velho Antônio passou a noite pensando no ocorrido, e ao alvorecer tinha um plano infalível. Mapeou todas as propriedades ribeirinhas da região, e começou a furtar as galinhas mais papudas. Nas primeiras vinte achou outra “joia”, o que o deixou animado. Afinal, era um resultado muito melhor que o de meses rachando o lombo na beira do rio.

Antônio das Almas morreu na prisão, após ser pego em flagrante roubando galinhas de um juiz. É até hoje lembrado como o maior ladrão de galinhas da região.

fotógrafo lambe lambeO FOTÓGRAFO DE ALMAS

José Eulálio era fotógrafo. Herdou a profissão do pai, o lambe-lambe mais famoso, talvez porque único, de Caetés de Goiás, nas décadas de 1930 e 40. Na escola, ouviu uma professora dizer que alguns índios não se deixavam fotografar, pois acreditavam que isso lhes roubava a alma.

Zelálio, como era conhecido, não foi atrás de índios, mas de almas. Fotografou quase todos do município, com tal habilidade que as pessoas sentiam certa estranheza ao se verem assim tão cruamente retratadas. Os de bom coração ficavam felizes, os outros nem tanto. Infelizmente estes eram maioria.

Vieram as eleições e um candidato comprou várias fotos de Zélalio, que ficou feliz. Estranhamente, só comprou fotos dos adversários. Quando o coronel Ildefonso Mineiro, prefeito por quatro mandatos, começou a sofrer de dores estranhas e perdeu o pleito, mandou matar o fotógrafo, julgando-o culpado de sua derrota.

A mãe do coronel era índia.

 

Auscultador de pedras

O AUSCULTADOR DE PEDRAS

Existiu em Ilhabela um homem, chamado José Mariano, cuja especialidade era partir pedras. Não pedras pequenas, paralelepípedos, pois isso ainda é comum. Partia rochas maiores que um homem. Quem conhece as formosas praias da ilha sabe que há muitas pedras, de grande tamanho, amontoadas pelos cantos. Também proliferam nos meios dos terrenos, o que obriga os moradores a fazerem estranhas arquiteturas e brutas engenharias para construir sua casas.

    Pois a função desse homem era justamente partir os monólitos que estivessem no meio do caminho. Para isso utilizava um método que espantava a todos, tanto pelo inusitado quanto pelos resultados. Aproximava-se da rocha com cuidado, rodeava, apalpava, alisava como se estivesse amansando um elefante mineral. Então encostava o ouvido e dava leves pancadinhas com uma pequena marreta. Demorava alguns minutos assim, auscultando a pedra por todos os lados. Ao chegar no ponto certo, pegava uma talhadeira comum, encostava com cuidado e dava uma pancada seca e certeira. A rocha partia-se em dois como uma noz, um marisco de quatro toneladas, revelando suas graníticas entranhas.

                Seu José morreu em 1979. Não deixou discípulos, nem transmitiu a nenhum conhecido os segredos de sua profissão. Sua misteriosa ciência ficou na memória de alguns, como minha tia Adelaide, que construíram casas ou aplainaram terrenos nas décadas anteriores, e testemunharam seu humilde e inigualável ofício.

 

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A angústia dos homens

capafrente-giusti

                    André Giusti é jornalista e escritor experiente, com vários títulos publicados. Seu mais recente livro, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017), reúne onze contos que abordam, sob diversos ângulos, variadas formas da angústia. Seu estilo despojado, limpo, torna a leitura agradável e fluente, mas não superficial. E nem poderia, com um tema tão caro aos investigadores da alma humana.

                       Mas de que angústias fala Giusti? A angústia da solidão, o medo de ser traído, o cotidiano medíocre, os amores incompletos, a proximidade da miséria, da indiferença, da morte. A solidão talvez seja a mais recorrente, porém são especialmente marcantes os contos onde personagens femininas estão envolvidas. Descritas de um ponto de vista masculino, as mulheres provocam angústia por não se enquadrarem em estereótipos de comportamento, pela independência de atitudes e por confrontarem alguns dogmas machistas.

            Não é fácil escrever sobre o relacionamento homem-mulher sem cair em chavões. O autor consegue ser original, retratando de forma impiedosa a pequenez de certa mentalidade tipicamente masculina, possessiva e desconfiada. Contos como Lorena e o temporal ou Lins Imperial exalam erotismo, mas demonstram que para estes homens também o sexo pode ser angustiante.

            Os contos que abordam o fracasso e a solidão são mais melancólicos, até pungentes. Os personagens não são velhos no final da vida, mas homens de meia idade que lentamente vão tomando consciência de que o outono se aproxima, sem que nenhum verão dourado tenha iluminado suas existências. Há até um protagonista de dezesseis anos, devorado por um ciúme devastador. Como uma espécie de salvaguarda, Giusti faz questão de alertar no início do livro que “este livro é angustiado, mas contém momentos de esperança”.

            Os dois últimos contos até ensaiam alternativas emocionais positivas para a angústia, mas o que sobra de esperança fica por conta da boa literatura que o autor nos oferece. André Giusti prescreve sobre vidas comuns e personagens anônimos, sem tramas mirabolantes ou cenários exóticos, com precisão e originalidade. Não é pouco.

A chama da dor e o vento da ficção

chama e o vento

O longo e tenebroso período de ditadura militar no Brasil ainda é fonte pouco explorada pelos nossos autores de ficção. O pioneiro parece ter sido Carlos Heitor Cony, que em 1967 lança Pessach – A Travessia, onde um intelectual se envolve com uma guerrilheira e acaba participando da luta armada.

            Ao lado de reportagens, biografias e livros históricos que enfocam o período, a literatura de ficção aos poucos vai conquistando seu espaço nesta prateleira. Pelo menos uma dúzia de títulos foi lançada na última década, com abordagens bem distintas. Há memorialismo ficcional, tramas policiais, romance psicológico, enredos de amor e narrativas do ponto de vista infantil.

            Um dos mais curiosos romances desta vertente é A Chama e o Vento, do escritor mineiro Sérgio Mudado. Autor experiente, com outros títulos publicados, Mudado lançou em 2015 esta pungente narrativa sobre uma estudante de medicina que é presa, torturada e libertada em troca de um embaixador sequestrado pela guerrilha. A história é contada pela ótica de seu irmão caçula, também estudante de medicina, que mantém forte relação com a imagem da irmã distante.

            O autor partiu de uma personagem real, a Dodora, uma das mais emblemáticas e trágicas vítimas da repressão militar. O irmão-narrador, no entanto, é ficcional, assim como as figuras que o cercam. Ficcional? O ambiente da escola de medicina, a residência, os doentes, as freiras, tudo parece ter sido vivenciado pelo próprio Mudado, também médico de formação.

            Temos portanto um engenhoso enlace entre ficção e realidade, onde o chumbo se transforma em ouro sem que tenhamos exata noção dos momentos em que isso ocorre. Como bom alquimista, o autor busca nos envolver em uma atmosfera meio espectral, onde seu inegável talento narrativo nos conduz até o desfecho dolorido, porém terrivelmente real.

            Lançar mão de um recurso meio esotérico, como a figura de um cirurgião-alquimista, pode parecer um tanto indigesto para os fãs do realismo cru. Mas a forma habilidosa e surpreendente com que Mudado promove o encontro final entre os irmãos, afinal, demonstra que há muitos entrelaçamentos possíveis entre ficção e realidade. O romance A Chama e o Vento é prova de que um período tão sombrio de nossa História pode ser abordado de maneira original e cativante, sem renunciar em nenhum momento à denúncia das atrocidades que ali foram cometidas.

Veneta literária

Levante

          A escritura de Airton Paschoa é uma desconcertante jornada em direção à síntese, ao aforismo. Seus textos são enxutos, mas se metamorfoseiam, se contraem, se distendem, revelam entranhas das palavras e invertem significados, e não conseguem se descontaminar da poesia. Não que ele almeje ser poeta, e sobre isso é taxativo: prefere ser chamado de poemista em prosa. Pode ser falsa modéstia, pode ser ardilosa armadilha.

          De fato, é notável em seu percurso literário uma aversão aos formatos consagrados. Contos que não são contos, uma novela (Dárlin) fora do padrão, vários textos curtos inclassificáveis. Uma pequena coleção de paradoxais sonetos elisabetanos aumenta a perplexidade do leitor, e parece indicar uma espécie de aula de carpintaria. Paschoa prova que domina as ferramentas, mas prefere usá-las de forma subversiva.

            Tomemos seu último livro, Levante (Nankin Editorial, 2017). Na orelha Maria Rita Kehl adverte: Airton não usa trabuco, mas é bom de navalha. Daquelas tão afiadas que o leitor nem sabe de onde veio o golpe: vai ver, já está sangrando.

             Está dada a pista. A ironia feroz, o chiste com pinta de erudito, a reflexão amarga, o epigrama cínico, a observação aguda e cortante. Muitas vezes aponta a navalha para o próprio estômago e expõe sem pudor suas lucubrações, como em Sistema Literário:

           Me doo aos amigos, que me doam sem dó pro sebo, onde dou por mim condoído, e me doo de novo aos amigos, que me doam sem dó pro sebo, etc. etc., onde dou por mim, finalmente, sem me condoer, só meio moído, a lombada surrada, meio agastado, miolo meio mole, em estado de brochura avançado.

           Na maioria dos textos há um embate implícito entre prosa e poesia, que se infiltra nas antinomias elaboradas, nos estripitismos (neologismo do autor) confessionais, nos trocadilhos inusitados. Quem mais, ao procurar pelo em ovo, encontraria elo em povo? Ou perguntaria se as nuvens servem para tapar olvidos (sic)? As palavras são a obsessão do poeta (vá lá, poemista), e se o leitor for apressado perderá detalhes saborosos. Quando tudo faz água, mudamos debalde a contracorrente. Frágeis naufragmentos. Os grandes calados, sabem os médicos e os marujos, sangram, singram o que topam pela frente.

             E mais não entrego, porque isto é apenas uma degustação. Se quiser uma garrafa cheia desse vinho, vá em frente!

 

 

Intermitências poéticas

Intermitências

              De vez em quando bate a vontade de ler alguma poesia. Não é algo planejado, nem depende de um estado de espírito especial. Em matéria de poesia, sou um leitor bissexto (perdão, Manuel Bandeira!).

            Agrada-me o fato da poesia ser um inutensílio, como diz o outro Manoel, o de Barros, pois me desobriga de regras, métodos ou exercícios de catalogação. Abro um livro e leio alguns versos como alguém que para em meio à caminhada e contempla folhas secas espanadas pelo vento. Às vezes me agrada a variedade de tons, às vezes o movimento. Algumas deixam impressão indelével.

           Poetas me deixam intrigado. Tenho alguns amigos que possuem este dom ou sofrem desse mal, dependendo do ponto de vista. Participam de saraus e tertúlias, editam revistas e plaquetes, publicam livros, e certamente leem muito mais poesia que eu. Mais que isso, vivenciam. Alguns são pródigos, outros avaros. Uns agitam bandeiras, outros são introspectivos. Há os que provocam risos e os que cutucam feridas. Tem poeta coletivo e poeta solitário. Tem poeta que brada e poeta que pede silencio. E tem muito poeta que pensa que é poeta, mas no fundo é só prosa.

        Na semana passada compareci a três eventos literários. Dois deles eram lançamentos de livros de poesia, o que por si só é um ato admirável. Como não elogiar o destemor de editores que acreditam nessa utopia literária?

               Na última quarta feira reencontrei a amiga Rosana Crispim, lá no Patuscada, o simpático bar-café-livraria da Editora Patuá, em São Paulo. Seu Caderno de Intermitências já ganha pontos a partir da capa, feita com a técnica do pinhole pela fotógrafa Fátima Roque. A apresentação de Dalila Teles Vera ilumina e instiga.

                Guardo o livro anterior da poeta, Entretempo, de 2003. É notável a economia de versos, resultado de elaborada decantação. Não sobram palavras, não há derramamentos emocionais, nem efeitos óbvios, e neste Caderno a receita parece ainda mais apurada. Poesia interior, reflexiva, ora especulativa, ora conclusiva, mas sempre convidando o leitor a participar de uma jornada mental que nos leva a portos inesperados. Com em Eloquência:

O silêncio fala

às vezes

fala demais

e até fala

o indizível

o que não há

o que não deve

 

o silêncio por vezes cala

 

            Aprecio a concisão de Rosana Chrispim, e me pego relendo seus poemas, procurando sentidos fugidios e mensagens subcutâneas. Eu, leitor intermitente, peço emprestados seus passos ‘aos caminhos possíveis/ que me percorrem/ pó pedra pão verso’. A poeta afirma que “todas as certezas/ duvidam”, e confessa que, às vezes, “encontro o poema/ não a poesia”. Será?

            No dia 01/07, às 11 h, o Caderno de Intermitências será lançado na Alpharrabio Livraria, em Santo André. O endereço é Rua Dr. Eduardo Monteiro, 151. Um lugar especial, bem frequentado por essa curiosa grei de poetas.

Uma resenha possível

Escher-DrawingHands

 Mergulhar na arte de Escher é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

torre de babel

Escher pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

wallup.net

Acima de tudo, Escher é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

escher_auto-retrato

Mergulhar na arte de Edmar Monteiro Filho é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

Dia e noite

Edmar pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

Ordem e Caos

Acima de tudo, Edmar é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

livro do edmar

(Atlas do Impossível, Ed. Penalux, 244 p. Quinze contos inspirados em gravuras de M C. Escher).

Escritura do desejo

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É possível mapear, na literatura brasileira contemporânea, uma vertente ficcional que tem como característica a narrativa em primeira pessoa e que entremeia ficção e vivência real do(a) autor(a), deixando de lado a pesada carga de criar um universo diegético próprio, fundamento do romance clássico que marca boa parte da produção dos séculos XIX e XX. Na prática, estes autores se apropriam do mundo real como cenário de suas narrativas, e com calibragens variadas reportam experiências ouvidas, lidas, assistidas ou vividas, citando ruas reconhecíveis, fatos que presenciamos, botecos que frequentamos ou escolas quase idênticas às nossas. Às vezes dão a impressão de que descrevem bocas que um dia beijamos.

O primeiro romance de Marcos Kirst, Eu Queria Que Você Soubesse, pode ser colocado nesta prateleira. No entanto, percebemos de cara que não é um noviço. Kirst se coloca de forma consciente e madura nessa corrente, mas se diferencia dos autores jovens pelo amplo arco narrativo, que abarca mais de três décadas.

A forma límpida, quase coloquial, com que a narrativa se inicia, vai sendo sutilmente acrescida de lembranças, reflexões e observações irônicas. Apesar do início trágico e do clima sofrido de acerto-de-contas no final, há um fino e amargo humor nas entrelinhas, que emerge aqui e ali em frases cortantes e inesperadas.

É evidente a intenção de fugir do denominador comum de gênero literário. A narrativa começa em tom policial, mas não sai em busca de um criminoso. Finge ser um romance de formação, mas logo se afasta dos chavões do gênero. Contorna com habilidade o surrado tema da paixão não correspondida, demarcando desde o início a impossibilidade de uma consumação. Por fim, cria mulheres fortes, bem delineadas, que fazem bom contraponto com o inseguro protagonista.

Pela biografia do autor, gaúcho de Ijuí, e  pela narrativa em primeira pessoa, supomos que muito do que está sendo dito/escrito seja reflexo do próprio. Afinal, a história tem início numa pequena cidade do Rio Grande do Sul, na década de 70, desdobrando-se depois em Porto Alegre, Camboriú, São Paulo…  O truque de criar um narrador mais velho serve como álibi, mas não elimina as suspeitas de que o que estamos lendo marcou a vida de Marcos Kirst. Parafraseando Pessoa, poderíamos dizer que o romancista é um fingidor.

O que emerge nas 150 páginas da trama é a forte pulsão sexual, catalisadora de uma série de ações que determinam, para o bem e para o mal, o desenrolar da narrativa. O clima de ditadura dos anos 70 e 80 é descrito em pinceladas rápidas, deixando no ar o ambiente sombreado pela censura e a impunidade que até hoje grassa no país. O foco é o do narrador, um contador (pode existir profissão mais anti-heroica?) que idealiza uma paixão de juventude a tal ponto que toda a sua vida adulta vai ser determinada por isso.

Até que surge outra mulher…