Archive for the 'Música' Category

Assis Valente e suas mulheres

Carmen Miranda e Assis Valente

Março é mês de falar das lutas, das dores e das alegrias das mulheres. Na música popular brasileira a alma feminina tem espaço garantido, não apenas através de suas grandes compositoras e intérpretes, mas também pela criatividade de homens que ampliaram o repertório com letras de gênero trocado.

Claro que a primeira lembrança é o contemporâneo Chico Buarque, já suficientemente louvado. Mas ele não foi o primeiro. É bom lembrar que as divas do samba-canção, nas décadas de ouro (1930, 40 e 50), sempre gravaram letras com personagens femininas que se tornaram clássicas.

Uma das pioneiras, a internacional Carmen Miranda, tinha um séquito de compositores ansiosos para verem suas criações interpretadas pela voz brejeira da estrela. Entre outras coisas, era lucro certo. Carmen gravou muita gente, mas o seu favorito é o nosso homenageado do mês.

            O baiano José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911, e começou a compor na década de 30. Espírito depressivo e perturbado, acabou suicidando-se em 1958, após algumas tentativas frustradas. Sempre às voltas com problemas financeiros, Assis Valente logo percebeu o potencial das canções em voz feminina, e com seu talento nato emplacou uma série de sucessos.

            Carmen gravou 24 composições do artista, muitas na voz feminina. Quem não conhece Camisa Listrada, onde a mulher descreve o seu homem caindo na farra? “Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia/ abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação”. Ou E o Mundo Não se Acabou, onde quem cai na farra é a própria: “Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.

            Em Recenseamento, Valente revela o drama da mulher que se vê diante de um recenseador na favela: “E quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente/E se era do batente ou era da folia”. O final ufanista condiz com o espírito da época e com a estratégia de marketing de Carmen, que se colocava como propagandista do Brasil no exterior. A mulher se orgulha do moreno, que “é brasileiro, é fuzileiro/e é quem sai com a bandeira de seu batalhão”.  Já a protagonista de Por Causa de Você, Yoiô, é mais provocadora: “É por causa de você Ioiô/ que eu agora vou desacatar/ E vou andar toda bonita, meu bem/ p’rá todo mundo ver tudo o que você me dá”.

Em Tão Grande, tão Bobo a coisa muda de figura. A mulher esculhamba o parceiro sem rodeios: “Você dorme de dia que nem um danado/ ronca de noite que nem um lobo/ é por isso que você é assim, tão grande, tão bobo”. Em “E Bateu-se a Chapa” o repisado tema da mulher abandonada se renova com uma imagem inusitada: “Não sei se te lembras, amor, qual foi a razão/ que minha cabeça ficou em cima de teu coração/ A minha cabeleira ficou despenteada/ só para esconder tua camisa de malandro toda esburacada.” No final, surge a mulher vingativa: “Olha que eu te estranho e mando a navalha/ e corto esse chapéu de palha e essa calça de flanela/ que fui eu quem dei .”

A segunda canção de Assis Valente gravada por Carmen, Good Bye, em 1933, abriu a trilha para essa visão crítica da mulher sobre o homem. A letra espicaçava: “Good-bye, good-bye boy, deixa a mania do inglês/ É tão feio p’rá você, moreno frajola/ que nunca frequentou as aulas da escola.”

E teve Cabaret no Morro, Lulu, Sapateia no Chão, Recadinho de Papai Noel, a marchinha Ô (“Meu amor era um Pierrô, eu gosto mais de um Arlequim”), além de algumas sem sexo determinado.  

O estilo de Carmen Miranda era agitado, carnavalesco, com letras irônicas e bem humoradas. As criações mais doloridas de Assis Valente foram destinadas a outras cantoras, como a pungente Fez Bobagem (“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver”), sucesso na voz de Aracy de Almeida. No lado B dessa obra prima, lançada em 1942, outro samba do compositor, com um título bem malandrinho: “Amanhã Eu Dou”.

A lista está incompleta, mas estes exemplos bastam para delinear um “universo feminino” muito rico na obra de Assis Valente. Fugindo do estereótipo da mulher sofredora, traída ou abandonada, o baiano criou mulheres fortes, engraçadas, orgulhosas, vaidosas… protagonistas, enfim.

Não foi o único, certamente. Outros compositores seguiram seus passos, e emplacaram sucessos nas vozes das rainhas do rádio. Mas pela qualidade da obra e pela riqueza de abordagem, Assis Valente merece ser lembrado neste mês de março. Feliz aniversário, mestre!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

O gigante Fernando Faro

Fernando Faro

No dia 25 de abril o mundo musical brasileiro ficou mais pobre: Fernando Faro passou pro andar de cima, depois de uma vida ligada às artes, principalmente à nossa música.  Não fazia música, não tocava nenhum instrumento (pelo menos profissionalmente). Mas o programa Ensaio, criado e dirigido por ele na TV Cultura, é o mais importante acervo musical de nossa história. Não é pouco.

Faro nasceu em Aracaju, em 1927, cresceu em Salvador, e veio para São Paulo para estudar Direito. Logo abandonou o curso, ligando-se ao jornalismo, ao rádio e ao teatro. Foi através deste que se tornou um profissional de TV, gravando peças para o programa Ribalta, na extinta TV Paulista.

Nos anos 60, o Baixo (como era chamado e como chamava todos) realizou especiais de TV que reforçaram sua ligação com a música brasileira. Dirigiu o tropicalista Divino Maravilhoso, na TV Tupi, coordenou festivais de música e programas especiais com Chico Buarque, Caetano, Gil, Gal e Elis, entre outros. Em 1971 passou a integrar a equipe da TV Cultura, onde continuou dirigindo teatro e musicais.

Mas foi em 1990 que surgiu seu mais famoso filho: o programa Ensaio. Com uma estética inovadora, que incorporava o silêncio, as pausas durante uma entrevista, que ocultava o entrevistador (ele mesmo) e suas perguntas, que mergulhava seus entrevistados na penumbra, muitas vezes recortados em contra luz, Ensaio foi uma revolução. Diz a lenda que, quando jornalista, fez uma reportagem com um criminoso detido, e para que as grades não aparecessem na imagem, orientou a câmera para que fechasse em close no entrevistado. O resultado foi tão bom que inspirou, muito depois, a estética do Ensaio.

Seus críticos diziam que era televisão-feijoada, pois as imagens privilegiavam detalhes, pé, orelha, mãos, lábios. Na verdade, Faro compreendeu muito bem que o corpo fala, e que sua linguagem era perfeita para o veículo. Abdicando das perguntas, promoveu um instigante jogo com o telespectador, onde além do interesse na resposta pairava a curiosidade sobre o que havia sido perguntado. O resultado parecia ser algo como um confessionário íntimo, intercalado por canções.

Essas novidades não teriam repercussão se não fosse o extraordinário elenco que o programa reuniu, em todos seus 26 anos. Sem preconceito contra gêneros e estilos, Faro aproveitou suas relações mantidas desde o as anos 60 (e era um homem afetuoso e cordial) para estender seus contatos a músicos, cantores e compositores de todo o Brasil. Das maiores estrelas da MPB até astros regionais, de jovens talentosos a antigos ídolos esquecidos, Ensaio reuniu o maior patrimônio audiovisual da música brasileira de todos os tempos.

São mais de 700 entrevistados, alguns com direito a bis. A TV Cultura lançou uma série de DVDs comemorativos do programa, com uma seleção de nomes fundamentais da MPB.  Até hoje, uma passagem pelo Ensaio é um marco na vida de qualquer jovem artista, um reconhecimento. Embora a fórmula tenha experimentado algum esgotamento nos anos mais recentes, sua importância não pode ser mais questionada. Grande Fernando Faro!

(publicado na revistamusicabrasileira.com.br)

A canção renovada de Manuela Rodrigues

 

Manuela

            O novo CD de Manuela Rodrigues tem a capacidade de nos surpreender. Aliás, essa é uma marca da inquieta compositora e cantora baiana desde que lançou seu primeiro disco, Rotas, em 2003. Depois do festejado Uma Outra Qualquer Por Aí (2011), onde experimentações radicais conviviam com uma poética instigante, Manuela lança agora Se a Canção Mudasse Tudo, pela Natura Musical (Ouça aqui).

            A primeira impressão é de estarmos diante de uma artista plena, madura, mas nunca acomodada. Autora de 11 das 14 faixas, Manuela Rodrigues demonstra sua versatilidade misturando estilos, criando melodias angulosas e utilizando sonoridades incomuns. Aluna aplicada das lições tropicalistas, não teme lançar mão do precioso acervo musical brasileiro, como na Marcha do Renascimento, uma marcha-rancho de letra maternal (seu filho nasceu durante as gravações do CD) ou no simpático samba Nenhum Homem é Uma Ilha, parceria com João Cavalcanti (Casuarina), que a acompanha nos vocais. No bolero pós-moderno Amor de Carne e Osso quem divide o microfone é a carioca Silvia Machete.

            Como já tinha feito no disco anterior, Manuela volta a gravar uma intrigante canção de Rômulo Fróes e Clima (Vai Que Eu Desembeste), de letra quase concretista.  Faz também uma boa releitura de Gil (Extra 2 – O Rock do Segurança) e canta Ronei Jorge (Risos) com um arranjo inspirado. Mas é em grandes canções autorais, como Rede Social, que ela reafirma sua condição de fina observadora do nosso cotidiano midiatizado.

            A riqueza sonora do disco também se deve a uma decisão acertada: as faixas têm diversos produtores (André T, Tadeu Mascarenhas, Gustavo Di Dalva, Luciano Salvador Bahia e João Milet Meirelles). E a artista se declara na letra-manifesto da faixa de abertura, Lista:

                Conservar velhos amigos/ deixar diferenças de lado                                                               Aceitar o novo/ novo é novo/ libertar o passado.

Enfim, Manuela está menos “Tom Zé” que no disco anterior, embora esta influência ainda apareça nítida na ótima Desejo Batuque. No conjunto, soa mais pop, mais lírica, cercada de ótimos músicos, e está cantando como nunca. Se a Canção Mudasse Tudo é um grande e ensolarado disco que vem lá da Bahia para iluminar este conturbado ano de 2016.

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

Flanando pelo Rio

                Faz tempo que não escrevo aqui no Fósforo, né? Ando meio preguiçoso, ou melhor, meio atolado de outros afazeres. O que é imperdoável, visto que um de meus afazeres é justamente escrever. Estou na reta final de meu segundo romance, mas a trajetória tem sido cheia de interrupções e incidentes. Faz-me falta a concentração que tive para escrever o Terno de Reis.

                Que, aliás, foi lançado no Rio, na semana passada, no aprazível bar Sabor da Morena, no Botafogo. Noite agradável, com a presença de vários amigos de longa data. Devagarinho, o romance vai se espalhando por aí, de mão em mão. Aliás, cometi o erro imperdoável de não levar um maço de notas de cinco reais para usar de troco, e alguns amigos acabaram dando 50 reais, em vez de 45. Tentei compensar pagando umas cervejas, mas certamente alguns ficaram no prejuízo. Perdão, prometo me redimir na próxima. Vocês tem crédito comigo!

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                Na verdade, fui para o Rio uma semana antes, para o aniversário de dois anos do neto. Festa bonita, no Museu do Índio, também no Botafogo. Apesar do tempo cinza e chuvisquento, a criançada se esparramou pelo belo espaço, e a alegria do aniversariante era visível. É muito legal essa apropriação dos espaços públicos que o carioca faz, e que o paulista nunca soube fazer (ou desaprendeu). Mesinhas na calçada, choro nas praças, a rua como lugar de convívio, não de conflito.

                Durante os dias, fiz algumas caminhadas pelo bairro. Na rua Guilhermina Guinle um prédio me chamou a atenção. Com uma fachada vegetal exuberante, o edifício Conde de Paris parece devolver para a cidade um pouco do verde que derrubou para poder existir. Um projeto arquitetônico digno de destaque, que deveria ser mais copiado. Infelizmente, estava sem a máquina fotográfica…

Árvores x

                Andei até o Jardim Botânico, um de meus lugares favoritos na Cidade Maravilhosa. Rever árvores centenárias, passear por alamedas sombreadas, comer pitangas no pé, admirar os jacus e saracuras que passeiam pelos gramados com desenvoltura, não tem preço. O belo lago, coalhado de ninfeias, é o sonho de um Monet tropical.

Lago Fósforo

             Fiz boas caminhadas na Enseada do Botafogo, do Clube Guanabara até o Aterro. Gaivotas e garças, atletas e idosos, sujeira e beleza. A paisagem do Pão de Açúcar é o que é, merecidamente. Bem no início da praia, uma sentinela fiscalizava atentamente o movimento dos cardumes que ainda passeiam por lá. Aqui e ali, uma tartaruga vinha à tona para respirar. Apesar da poluição, sobrevivem.

Sentinela x

   E que tal encontrar os amigos na Praça São Salvador, em Laranjeiras? Música rolando toda noite, cervejinha gelada, clima de confraternização. O lugar pegou de tal forma que uma infeliz vereadora resolveu fechar a praça, alegando perturbação da ordem. Misteriosamente, a luz se apagou às 20 horas, deixando todos no escuro. Parece que é um blecaute intencional, para esvaziar o pedaço. O pessoal? Nem aí, continuaram tocando, cantando, conversando, paquerando, convivendo. Isso numa terça-feira!

Praça São Salvador

                Enfim, voltei para Sampa pensando em tudo que nos une e tudo que nos separa. A frieza da megalópole faz com que os espaço de convívio sejam mais restritos, mais caros. Felizmente moro no Butantã, e logo me deparei com o Jazz na Kombi bombando ali no beco do Amorim Lima, pertinho do também lotado Bar Amazonas. Público se esparramando pela calçada, com um jeitinho brasileiro de ser que a maioria dos bairros paulistanos já perdeu. Ainda há esperança.

Jazz na Kombi

O Centenário + 20 de Ladário Teixeira

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                É provável que você, mesmo sendo um amante da música brasileira, nunca tenha ouvido falar de Ladário Teixeira. Se nasceu em Minas Gerais, a chance aumenta. Se é de Uberlândia, deve estar sorrindo, orgulhoso, pois é nome de praça e escola pública. Pois foi ali, em 10/09/1895 que nasceu o grande compositor e saxofonista Ladário Teixeira, uma lenda da musica brasileira.

Sua biografia é daquelas que dariam um belo filme, cheia de episódios incomuns. Pra começar, Ladário era cego. Interessou-se por música ao encontrar um velho sax de seu pai, abandonado no porão de sua casa. Pense numa sequência de imagens onde os moleques da rua sobem em árvores, empinam pipas, jogam bola no terreno baldio. Esqueça essa última parte, o futebol ainda não havia chegado a Uberlândia. Corta para o jovem Ladário tocando solitário no porão, desvendando os mistérios do instrumento.

Ladário logo percebeu que era capaz de produzir sonoridades inacreditáveis no seu sax. As primeiras apresentações se deram em dupla com o clarinetista (e futuro maestro) Barraca, que escondia Ladário atrás da cortina e pedia para a plateia adivinhar qual instrumento estava sendo tocado. Violino, flauta, celo, clarineta, voz humana…

 Aos 24 anos, Ladário obviamente não sabia ler ou escrever. Após tocar no Instituto Benjamin Constant, em Belo Horizonte, foi convidado a fazer um curso, e em pouco tempo se tornou professor de Brayle, e por toda a vida um militante em defesa dos direitos dos deficientes visuais. Mas de volta ao triângulo mineiro, percebeu que na pequena Uberlândia do século XIX não havia espaço para se desenvolver como músico.

Antes que virasse uma atração de circo, resolve ir para São Paulo e presta concurso para o Conservatório Paulista. Na apresentação escolheu uma música que era um clássico do violino. O professor Altério Mignone (pai do maestro e compositor Francisco Mignone), membro da banca, deu a seguinte sentença: “Teremos prazer em admiti-lo no Conservatório para aprender qualquer outro instrumento, pois para o sax não temos professor que possa ensinar mais do que já sabe”.

Uma vez formado (em violino), Ladário excursionou pela Europa. Suas primeiras gravações, sempre com o sax, foram em 1928, para o selo Parlophon: “Fantasias de concerto 1 e 2” de Wilhelm Popp (erradamente atribuídas a Patápio Silva em vários locais de referência, como o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira), o fox-trot Soluços de Jegue e o tanguinho Canto do Galo, ambos de sua autoria. Registrou também a Canção Sem Palavras (W. Hauer) e Serenata (H. Sitt). Na Odeon gravou Fantasia Brilhante (J.B. Singelée) e Airoso (J.S. Bach).

A história registra que em Barcelona o filho do inventor, Adolphe Sax, beijou-lhe as mãos e disse: “Meu pai inventou o saxofone, mas o senhor fez dele um instrumento digno da admiração do mundo inteiro.” Outro bom causo diz que após se apresentar no Salão Pleyel, em Paris, teve os impostos devolvidos pelo prefeito da cidade em homenagem à sua maestria. O público jamais havia ouvido alguém tocar Rimsky-Korsakov, Liszt ou Berlioz daquela maneira.

 Fato comprovado é que criou um tipo especial de sax conhecido como “Modelo Ladário”, desenvolvido por ele mesmo junto ao fabricante Selmer, adotado nas principais orquestras do mundo. Fez outras turnês pela Europa e Estados Unidos, sendo reconhecido neste país como um dos grandes do instrumento. Ladário casou-se com a pianista e maestrina carioca Aída Dias Teixeira, com quem teve seis filhos.

Esse formidável músico, que teria completado 120 anos em setembro de 2015, morreu em Belo Horizonte em 1964. Merece ser mais conhecido por todos os brasileiros. Sua maestria pode ser comprovada nesta gravação do concerto de Popp. Ladário Teixeira era mesmo genial, confira:

(Publicado originalmente em http://www.revistamusicabrasileira,com.br)

O Canto magistral de Cida Moreira

Cida Moreira é um caso raro na música brasileira. Pianista, atriz e cantora refinada, demonstrou seu talento em dezenas de palcos, seja em peças, musicais, filmes  ou shows de variados formatos. Entertainer completa, é capaz de magnetizar plateias apenas com voz e piano. E quando escolhe os músicos que tocarão com ela, é de bom gosto à toda prova.

Cuidadosa nas escolhas, já gravou de tudo um pouco, passeando por diversos gêneros com segurança e inteligência. Um de seus discos mais memoráveis trazia canções de filmes brasileiros, outro homenageava Chico Buarque. Soledade, seu CD de 2015, é o corolário de uma carreira feita de pequenas obsessões. Estão de volta Milton e Ronaldo Bastos (Um Gosto de Sol), numa interpretação arrepiante, e temas clássicos do folclore brasileiro (Moreninha e Viola Quebrada, de Mario de Andrade), onde opta pelo acompanhamento de violões, violas e acordeom para sublinhar a sonoridade telúrica destas canções.

Chico Buarque também retorna, e de forma surpreendente. Quem mais teria coragem de regravar Construção, depois daquele arranjo original e espetacular de Rogério Duprat?  A resposta é: Cida Moreira. E a canção virou um tango trágico, com sotaque piazzollesco, em arranjo brilhante de Arthur de Faria para quinteto de cordas. Sublime!

Cida recupera preciosidades como a festivalesca Bom Dia, de Gil e Nana Caymmi, e Outra Cena, de Taiguara, faixa que encerrava o antológico LP Ymira, Tayra, Ipy, de 1976. Mergulha no rock do Joelho de Porco, com A Última Voz do Brasil, de Tico Terpins, Zé Rodrix, Ferrante Jr. e Próspero Albanese, e relembra a inusitada parceria de Macalé com Brecht (Poema da Rosa).

Mas Cida não seria Cida Moreira se ficasse apenas presa ao passado. Há várias canções novas, de músicos-parceiros que tocam no disco. A bela Forasteiro, parceria de Thiago Pethit e Helio Flandres, a provocante Oitava Cor, de Luiz Felipe Gama e do português Tiago Torres da Silva, a feroz O Pulso (Titãs), em arranjo eletroacústico que vira de cabeça pra baixo a gravação original, inserindo uma citação de Queda, de André Frateschi. O amigo Nico Nicolaiewski, morto em 2014, é lembrado com a existencial Feito Um Picolé no Sol.

Completam o CD um poema de Alice Ruiz, e duas vinhetas musicais, uma de Arthur Nogueira e Dand M (Preciso Cantar) e outra de Noel Rosa e João de Barro (Pastorinhas), que encerra o disco. Uma viagem magistral por um país onde, segundo a própria cantora, coisas belas estão desaparecendo, enquanto outras vão surgindo. Uma escolha muito pessoal, mas que Cida Moreira interpreta com tal força que acaba dividindo com todos os ouvintes a sua emoção. Um disco definitivo de uma magnífica cantora, com arranjos primorosos e músicos excepcionais. Ouça aqui:

Vanguarda paulista: de volta ao futuro

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                Certas palavras, de tão usadas, perdem o sentido original. Algumas entram na moda e são repetidas, limadas, desgastadas, até virarem bagaço, sem gosto e sem graça. Algumas passam por um período de repouso no labirinto dos dicionários e, de repente, renascem revigoradas. Ainda espero o dia em que a palavra supimpa, que eu acho bem bacaninha, volte a ser usual. Aliás, bacaninha também anda meio fora de moda…

Conheço uma moça que sempre declara que aquele… (show, disco, filme, sorvete, etc.) é o máximo. A vida dela é feita apenas de máximos, o que acaba dando a impressão de que ela tem uma sensibilidade mínima.  Mas todo esse preâmbulo é para dizer que o encontro entre Ná Ozzetti e o Passo Torto é sensacional, arrepiante, tortuosamente belo, supimpa. Ou, como diria minha amiga, simplesmente o máximo!

A trajetória de Ná Ozzetti, uma de nossas maiores cantoras, é bem conhecida. Principal voz do grupo Rumo, na chamada vanguarda da música paulistana do final da década de 70 e meados dos anos 80, sempre foi antenada com o que de mais instigante rolou na música popular brasileira. Gravou Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e, claro, Luiz Tatit, fez releituras de Rita Lee, foi do pop ao rock sem perder a elegância. Inteligente, percebeu que uma vã-guarda não se sustenta se não tiver enraizada no passado. Fez dupla caipira com Suzana Sales, cantou com violeiros, mergulhou nos antigos com o Rumo, estudou e regravou o legado de Carmen Miranda. Também toca e compõe, o que faz com prestemos muita atenção nas canções que escolhe para interpretar.

Já o Passo Torto, com dois CDs no currículo e centenas de shows na memória do público, é venerado pelos modernos de Sampa. O quarteto formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral reúne instrumentistas-compositores-criadores de radical musicalidade. Existe uma intersecção com outras formações, como o merecidamente festejado Metá Metá (Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal). Pra aumentar a confusão, o CD de Ná Ozzetti e Passo Torto chama-se… Thiago França!

O sax de Thiago não comparece no disco, que está disponível para audição e download gratuito na rede. Mas o espírito criativo e inquieto que liga estes grupos está ali, plasmado em composições intrigantes, angulosas, estranhamente belas. Caos urbano, flashes da realidade, crônicas líricas e cruéis extrapoladas em uma música nervosa, tensa, e… (caramba, será que todos os adjetivos estarão gastos?)

Enfim, música brasileira urbana do século XXI. E, para encerrar de forma contemporânea, “boa pra caralho!”

PS: Pela primeira vez na vida uso essa expressão em público. Espero que as mocinhas do século XX me perdoem…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)