Archive for the 'Música' Category

O adeus de Célia

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Final dos anos 60. A jovem Célia, dona de voz potente e bem calibrada, é incentivada pelos amigos a arriscar a sorte em programas de calouros, herança da era radiofônica que acabou conquistando espaço na televisão. O trampolim acaba sendo o programa Flavio Cavalcanti, no ano de 1970, e Célia logo consegue suas primeiras gravações.

            O primeiro disco recebe vários prêmios, e lança holofotes em direção à jovem cantora de rosto bonito e corpo renascentista. Com um repertório oscilando entre o romântico (Roberto Carlos), o pop e a MPB, emplacou alguns sucessos. Cantava Joyce, Lô, Marcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, entre outros. Mas Adeus, Batucada, de Sinval Silva, velho sucesso de Carmen Miranda, mostrou que havia ali uma intérprete diferenciada de samba, capaz de unir força e delicadeza, controlando as rédeas da emoção com uma entonação perfeita e um timbre envolvente.

            Estava dada a receita. A gravação de Onde Estão os Tamborins (Pedro Caetano), um sucesso nacional, apontou o caminho, mas o mercado foi cruel. Nenhuma gravadora queria uma cantora de samba branca e paulista, depois da efervescência dos festivais da década anterior. Alguma coisa parecia estar fora do lugar.

Paulista sim, e da gema. Célia pouco se afastou da cidade que amava, e tornou-se um nome conhecido da noite, cantando em casas noturnas, teatros e cruzeiros marítimos. Profissional da voz, diversificou o repertório, e se virava bem em vários estilos. Quem a viu no palco conheceu uma diva errante, cuja luminescência deixava marcas indeléveis na memória.

Célia cantou valsas, toadas, boleros, mambos, tangos, merengues (gravou um disco delicioso com a banda Son Caribe!), revisitou várias vezes Roberto Carlos, recriou muitos clássicos da MPB. Em 1998 divide o palco do Tom Brasil com outro grande cantor da noite, Zé Luiz Mazziotti, no show Ame, e a mistura foi tão boa que rendeu um dos mais perfeitos songbooks já gravados em nosso país: o CD Pra Fugir da Saudade (2000) , onde a dupla repassa algumas obras primas de Paulinho da Viola.

            Sucesso de crítica e de estima entre os cultuadores da MPB, mas nada de tocar no rádio. O destino parecia selado para Célia. Outro encontro bem sucedido, com o violonista Dino Barioni, resulta no CD Faço no Tempo Soar minha Sílaba, de 2007, onde vai de Caetano até Lamartine Babo, passando por Elton Medeiros, Dominguinhos, Chico Buarque e Martinho da Vila, incluindo duetos com Zélia Duncan e Beth Carvalho. Quem não se emocionar ouvindo sua interpretação de Mãe, Eu Juro! (Adoniran), só pode ter a alma sebosa e o coração peludo!

            Só estes dois CDs bastariam para colocar Célia no panteão das grandes cantoras brasileiras. Mas em 2010 ela ainda ataca com O Lado Oculto das Canções, ampliando o repertório com autores como Adriana Calcanhoto, Ângela Roro, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Tim Maia e Zélia Duncan, sem deixar de lado os amados Vinicius e Baden Powell.

            A voz esplêndida e a risada generosa de Célia calaram-se no dia 29 de setembro, após uma luta inútil contra um câncer de pulmão. Tinha 70 anos plenos de jovialidade e uma voz intacta. Ouço, reouço e proclamo: tivemos a felicidade de viver na mesma época de uma das maiores cantoras que esse país já teve. Pena que poucos prestaram a devida atenção…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

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Luiz, melodia e poesia

Luiz Melodia

foto: Ivan Cardoso

               O Brasil amanheceu mais triste e mais pobre no dia 04 de agosto de 2017. Um dos mais originais e irreverentes criadores da música brasileira, Luiz Melodia, deixou os palcos para fazer parte da história. Uma história ainda a ser escrita, analisada, decupada por mentes abertas à invenção.

            Porque Melodia foi um inventor, sem precursores. Nascido em 1951, o garoto começou a prestar atenção ao mundo sonoro nos anos 60. Uma bela época para ser adolescente: os grandes festivais, a Jovem Guarda, Beatles & Rolling Stones, James Brown e a soul music, Tropicália, música de protesto, tudo isso misturado à trilha sonora recorrente no morro do Estácio: o samba.

            O jovem Luiz Carlos dos Santos poderia ter sido um sambista como seu pai, Oswaldo Melodia, morador do morro do São Carlos. Ou talvez um crooner de uma banda de soul-funk, com sua voz metálica e personalíssima. Mas o fogo da criação ardia no seu peito, e começou a aquecer a forja da composição. Letra e música, poesia e melodia. As primeiras canções já nasceram perfeitas, sem copiar ninguém. Diz a lenda que Wally Salomão e Torquato Neto ouviram o garoto e piraram. Indicaram para Gal Costa, que teve a perspicácia de lançar Pérola Negra no show A Todo Vapor, em 1972. A MPB nunca mais foi a mesma.

            Uma canção que não se parecia com nada feito anteriormente, com versos desconcertantes, que atravessaram gerações: “Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro querendo eu te empresto/ Se inteire da coisa sem haver engano/ Baby te amo, nem sei se te amo”.

            Pérola Negra intitulou o primeiro disco, lançado em 1973. A capa mostrava um negro magrinho, segurando um globo e deitado numa banheira cercada de feijão preto. Que porra era aquilo? Era simplesmente um dos discos mais fundamentais da moderna MPB, um conjunto de canções que até hoje espantam os incautos. Maria Bethânia, que de boba não tem nada, já havia gravado Estácio, Holly Estácio, obra prima absoluta: “Se alguém quer matar-me de amor/ que me mate no Estácio”. Como alguém ousava fazer uma canção para o Estácio, berço do samba, sem ser um samba? Ou batizar uma música de Abundamente Morte? Ou cantar uma declaração de amor tão inesperada quanto Magrelinha? Areia preta, arco-íris cor de sangue? Que porra era aquilo?

           A música de Melodia era uma mistura de metais, couros, balanço, eletricidade e sentimento, mesclados de forma inédita. As letras? Ah, as letras… Como definir? Surrealista, tropicalista, concretista, muitos tentaram adjetivar. Melodia foi tudo isso, de forma transversal, e muito mais que isso. Criador de imagens fulgurantes, delineou a música urbana de um país que pretendia ser moderno, sem perder o contato com a tradição.

            Pra completar, o cara era um intérprete fenomenal. Voz memorável, divisão perfeita, dicção claríssima. Quem cantou Zé Keti (Eu Sou o Samba) como ele? Quem mais interpretou Cazuza tão lindamente como em Codinome Beija-Flor? Respiração, vibratos, scats, tudo é perfeito.

            E vieram outros discos. Maravilhas Contemporâneas, de 1976, apresentou novas obras primas, para despeito dos que achavam que aquele Luiz era fogo de palha. Juventude Transviada é cantada por várias gerações, até hoje. “Eu entendo a juventude transviada/ e o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Talvez aí esteja uma das chaves para compreender Melodia. Apanhador nos campos da tradição, cabeça virada para a modernidade. Até o fim dialogou com o samba, o rock, o rap, o reggae, a MPB branca.

            MPB branca? Sim. Porque um negro vindo da favela tinha de conhecer seu lugar: o morro. Musicalmente, o samba. Ao se indispor com a rede Globo, passou a fazer parte dos malditos. Um diretor da emissora, um imbecil que não merece ter seu nome lembrado, declarou: “Enquanto eu estiver aqui, ele não entra”. Mais uma das tentativas de assassinato que a poderosa corporação tentou fazer, através de seus capachos. Foram mais de dez anos de interdição, o que o colocou na honrosa companhia de outros malditos como Jards Macalé, Tim Maia, Sérgio Sampaio, Jorge Mautner e até Chico Buarque. “Disseram no jornal televisão/ que eu não gosto mais de samba…” A resposta veio em forma de obra prima, O Sangue Não Nega.

            E o garoto de São Carlos sobreviveu. Passou momentos ruins, é fato. Os críticos dizem que sua produção perdeu o brilho, nas décadas seguintes. Arrisco outra hipótese. As trilhas pioneiras que abriu permitiram às gerações posteriores se libertarem das amarras narrativas da MPB tradicional. Surgiram os Djavans, os Zés Ramalhos os Carlinhos Brown, e isso foi bom. Até compositores de sua geração perceberam o potencial explosivo de sua poética, e arriscaram passos naquela direção. É como se a poesia se libertasse de um realismo obrigatório, experimentando algo mais próximo das sensações verbais, das imagens sugestivas, do quase abstracionismo musical. E nisso Melodia continuou mestre: “Um toque de sonhar sozinho/ te leva a qualquer direção”.

            Se Melodia tinha alguma alma gêmea no mundo musical, ela surgiu em São Paulo, sob a figura de Itamar Assunção. Outro criador de maravilhas contemporâneas, capaz de homenagear o irmão com os versos Nasceste no Rio Estácio eu em São Paulo Tietê/ Os nossos passos compassos afirmam ter tudo a ver/ Não só na tonalidade e também no jeitão de ser/ Circula pela cidade que sou cover de você”. O Nego Dito falando do Negro Gato, com a propriedade que só o talento permite. A letra completa é uma obra prima, confira!

            Negro Gato, aliás, é um marco na carreira de Luiz Melodia. Uma canção de Getúlio Cortes gravada por Erasmo e Roberto Carlos nos anos 60, no auge da Jovem Guarda, encontrou seu melhor intérprete. Devidamente recuperada pelo garoto de São Carlos, virou slogan, jingle, marca registrada. E ele demonstrou em outras ocasiões sua fidelidade aos bailinhos da juventude. (Permito-me aqui um relato pessoal. Estava num congresso de educadores da rede pública, no Anhembi, em São Paulo, em 2010, que seria encerrado com um show do artista. Nos camarins, ele repassava o repertório com seu parceiro Renato Piau, quando dei um palpite. “Tem três mil professoras na plateia. Que tal O Caderninho?” Abriu aquele sorrisão, agradeceu, e rapidamente alterou o roteiro do show. Abriu com a sugestão, e ganhou a plateia. O sucesso sessentista morava no coração daquelas professoras e também no do ex-maldito. Foi uma demonstração de simplicidade, sensibilidade e respeito ao público).

        Na maturidade, com a maior parte da obra já construída, diminuiu a produção autoral, e se dedicou a uma série de versões, valorizando suas qualidades de intérprete. De samba, principalmente, e com a categoria de sempre. Ouça Estação Melodia, por exemplo. É como se estivesse querendo ajustar contas com o morro de São Carlos, o Estácio, o pai, a família, os amigos. Mas seus clássicos eram sempre pedidos em shows, cantados em bares, festas e quintais: “Lava roupa todo dia, que agonia”.

        Quando falamos dos compositores mais notáveis de sua geração, sempre lembramos dos tropicalistas, de Chico, Milton… Passou da hora de escalar junto com esse time brilhante o magrelinho de São Carlos. Não à toa, o grande escritor e jornalista Renato Pompeu (1941/2014), na abertura de seu livro Memórias da Loucura, declarou que gostaria de ter o estilo de Luiz Melodia.

           Porque poucos versos escritos na música brasileira tem a profundidade de “Mesmo se tudo juntar por aí/ em nós o só há de sempre existir”. 

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

Criolo e o samba paulista

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Nas décadas de 80 e 90 o samba ainda dominava a trilha sonora nas quebradas da periferia de São Paulo. A onda sertaneja já se fazia sentir, mas a música de feitura coletiva, cantada nas rodas e botecos, ainda era marcada pelo cavaquinho, pandeiro e violão. Nos grandes bailes, Benjor e Tim Maia imperavam, mas era comum se mesclarem com Fundo de Quintal e Benito de Paula.

No extremo sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Grajaú e Jardim Ângela, a rapaziada que cresceu ouvindo samba (e Michael Jackson, claro) manifestava seu inconformismo contra o “sistema” através do rap. Mais incisivo, não requerendo instrumentos e nem sequer saber cantar, o discurso rimado e ritmado mobilizou uma legião de seguidores, e não tardou em formar ídolos locais (depois nacionais) como os Racionais MC’s, surgidos em 1988.

O garoto Kleber, nascido em 1975, logo identificou nas rinhas de rap o seu clã. Seus amigos e colegas ali se reuniam e improvisavam versos. Nesse meio, já conhecido como Criolo, destacou-se pelas letras e por iniciativas como a Rinha dos MC’s, circuito hip hop de grande prestígio até hoje.
Mas Criolo admite que ouvia muito samba em casa. Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Moreira da Silva eram constantes na vitrola de seu pai, ao lado de Nelson Gonçalves, Adoniran e Luiz Gonzaga. A contaminação era inevitável, e vinha misturada com uma relação familiar afetuosa. Como poderia o garoto pobre do Grajaú se revoltar contra a música que seus pais curtiam?

Aos poucos, Criolo foi colocando pitadas de samba em seus trabalhos. Confessa hoje abertamente que compõe sambas faz tempo, sem deixar de lado o rap. Desde o álbum Nó na Orelha (2011) incorporava outros gêneros à sua obra. Esta mescla se aprofundou em Convoque Seu Buda (2014), e ao mesmo tempo em que participava de homenagens a sambistas famosos, como Adoniran Barbosa, fazia duetos em discos de MPB e participações especiais em shows e programas de TV.

Em 2017, estabelecido como cantor e compositor, finalmente lança um CD só de sambas (Espiral de Ilusão). Dez sambas autorais, sendo oito assinados por ele, um em parceria com Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago, e apenas Hora da Decisão feitos por outros (Rabelo e Dito Silva).
A identificação explícita com o samba se dá desde a primeira faixa, Lá Vem Você, aberta por um cavaquinho. O sotaque paulista de Criolo, carregado nos erres, desfila por letras originais, algumas das quais, sem música, poderiam até soar como rap. As variantes rítmicas (samba de roda com direito a coro feminino, toques de jongo, samba de breque, embolada, pagode e samba rural paulista) comprovam a desenvoltura do intérprete e a ginga do compositor. Pra completar, a capa de Elifas Andrato estabelece mais um vínculo com a tradição discográfica brasileira.

Enfim, Criolo cresce e aparece para a turma do samba e da MPB. Mais que isso, demonstra que pode existir mais afinidade que rivalidade entre samba e rap, gêneros nascidos nas periferias, favelas e morros desse tão maltratado país.

(Publicado na Revista Musica Brasileira em junho de 2017)

Prosódia e música popular

 

     Prosódia

         Meu irmão, que é ótimo violonista, arranjador e professor de música, é desses sujeitos que não se preocupam apenas com as notas no pentagrama. Atento aos tropeços de prosódia, me chamou a atenção para a quantidade de canções contemporâneas cujas letras entortam o vernáculo sem o menor pudor. São as chamadas silabadas. Virou moda?

            Não acompanho com tanta assiduidade a música de consumo rápido, midiática, feita pra tocar no rádio. Deixo de lado, portanto, os sertanejos, pagodes e funks, e ensaio algumas observações sobre a produção mais independente e alternativa da música popular, que busca mais apuro, profundidade e originalidade em suas letras.

            De que vamos falar, afinal? Prosódia é a parte da gramática que se ocupa da sonoridade das palavras, mais especificamente em relação à sílaba tônica. Caminha junto com o ritmo, envolve a entonação e o sotaque, e dominá-la é fundamental para qualquer letrista.

            Ocorre que em muitos casos a prosódia regida pela norma culta é intencionalmente subvertida, e isso não vem de hoje. Algumas vezes comparece como licença poética, outras vem revestida de intenção satírica, mas na grande maioria dos casos é adaptação fonética à melodia. Em alguns casos soa como uma invenção, outras como desleixo.

            Pegando um exemplo antigo, é evidente que Alvarenga e Ranchinho querem fazer graça quando cantam Romance de Duas Caveiras, de 1940:

            “Ao longe, uma coruja piava alegre/ ao ver os dois caveiros assim feliz/ e quando se beijavam, em tom funebre/ a coruja batia as asas pedindo bis”.

Existem variações da letra; enquanto alguns intérpretes tentaram melhorar a concordância, outros a pioraram. Mas a transformação de fúnebre em paroxítona faz com que rime com a palavra alegre, e a distorção é tão evidente que todos acabam caindo na risada.

            Este é um exemplo clássico de intencionalidade. Volta e meia nosso ouvido tropeça em alguma letra de Vinicius, Chico ou Caetano onde há uma rearranjada da prosódia, com finalidade estética. São licenças poéticas, desvios consentidos ou meros barbarismos?

Uma canção como O Velho Francisco, de Chico Buarque, está cheia de contravenções fonéticas. Não deixa de ser linda, talvez exatamente por isso. Experimente cantá-la colocando a silaba tônica corretamente nas palavras, e verá que é impossível. Os deslocamentos tônicos (a chamada divisão) são constantes, obrigando os intérpretes a serem muito atentos.

          “Já gozei de boa vida/ tinha até meu bangalô/ cobertor, comida, roupa lavada/ vida veio e me levou”.

            A palavra comida soa como proparoxítona (cômida), e roupa lavada vira algo como “rou palá vada”. A imbricação de letra e melodia é perfeita, e a obra de Chico não nos deixa dúvida de que ele está brincando com a sonoridade das palavras. Brincadeira muito séria, por sinal.

            Em parceria com Djavan, um dos nossos mais contumazes dribladores da prosódia, Chico pega o espírito do parceiro e tasca lá uma silabada: “Era tanta saudade/ É, pra matar/ Eu fiquei até doente/ Eu fiquei até doente, menina”. Se o verbo ficar fosse entoado de acordo com a norma (fiquei, com tônica no e), sairia do compasso. Transformado em algo como fíquei (soando como Mickey) adere perfeitamente à angulosa melodia. Pra completar, o a de até também ganha um reforço tônico.

            Desde as antigas parcerias com Vinicius (observe com atenção a letra de Valsinha, por exemplo), Chico aprimora sua ginga com as palavras, revelando acentos inesperados e dando um nó na cabeça dos acadêmicos. Esta lição dos mestres é aplicadamente seguida por várias gerações de compositores, uns mais originais, outros menos. Cuidado: algumas vezes pode soar como escorregão ou forçada de barra.

            Talvez o modo mais preciso de identificar a real intenção do autor seja prestar atenção ao conjunto da obra. Se é difícil identificar esta veia criativa nas letras de compositores breganejos, p. ex., por outro lado existe um embate constante entre letra e ritmo nas letras de rap. A métrica às vezes é atropelada, mas de certa forma está se construindo uma nova linguagem.

            Não é à toa que Chico já declarou que “gosto de ouvir o rap da rapaziada”.  Rap da rap(aziada), aliás, é uma discreta brincadeira sonora, coisa que Caetano faz muito bem. Na linda canção Trilhos Urbanos, com pequenos achados trocadilhescos (“no trole ou no bonde/ tudo é bom de ver”) brilha a preciosa “Krishna, maravilha/ Vixe Maria Mãe de Deus”, onde ecoam as sonoridades ishna e ishma. E o compositor baiano faz uma silabada com o xixi do Imperador, veja só que desrespeito…

            O assunto rende. Só nos resta aplaudir a invenção, quando o resultado é belo!

(Publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Assis Valente e suas mulheres

Carmen Miranda e Assis Valente

Março é mês de falar das lutas, das dores e das alegrias das mulheres. Na música popular brasileira a alma feminina tem espaço garantido, não apenas através de suas grandes compositoras e intérpretes, mas também pela criatividade de homens que ampliaram o repertório com letras de gênero trocado.

Claro que a primeira lembrança é o contemporâneo Chico Buarque, já suficientemente louvado. Mas ele não foi o primeiro. É bom lembrar que as divas do samba-canção, nas décadas de ouro (1930, 40 e 50), sempre gravaram letras com personagens femininas que se tornaram clássicas.

Uma das pioneiras, a internacional Carmen Miranda, tinha um séquito de compositores ansiosos para verem suas criações interpretadas pela voz brejeira da estrela. Entre outras coisas, era lucro certo. Carmen gravou muita gente, mas o seu favorito é o nosso homenageado do mês.

            O baiano José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911, e começou a compor na década de 30. Espírito depressivo e perturbado, acabou suicidando-se em 1958, após algumas tentativas frustradas. Sempre às voltas com problemas financeiros, Assis Valente logo percebeu o potencial das canções em voz feminina, e com seu talento nato emplacou uma série de sucessos.

            Carmen gravou 24 composições do artista, muitas na voz feminina. Quem não conhece Camisa Listrada, onde a mulher descreve o seu homem caindo na farra? “Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia/ abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação”. Ou E o Mundo Não se Acabou, onde quem cai na farra é a própria: “Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.

            Em Recenseamento, Valente revela o drama da mulher que se vê diante de um recenseador na favela: “E quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente/E se era do batente ou era da folia”. O final ufanista condiz com o espírito da época e com a estratégia de marketing de Carmen, que se colocava como propagandista do Brasil no exterior. A mulher se orgulha do moreno, que “é brasileiro, é fuzileiro/e é quem sai com a bandeira de seu batalhão”.  Já a protagonista de Por Causa de Você, Yoiô, é mais provocadora: “É por causa de você Ioiô/ que eu agora vou desacatar/ E vou andar toda bonita, meu bem/ p’rá todo mundo ver tudo o que você me dá”.

Em Tão Grande, tão Bobo a coisa muda de figura. A mulher esculhamba o parceiro sem rodeios: “Você dorme de dia que nem um danado/ ronca de noite que nem um lobo/ é por isso que você é assim, tão grande, tão bobo”. Em “E Bateu-se a Chapa” o repisado tema da mulher abandonada se renova com uma imagem inusitada: “Não sei se te lembras, amor, qual foi a razão/ que minha cabeça ficou em cima de teu coração/ A minha cabeleira ficou despenteada/ só para esconder tua camisa de malandro toda esburacada.” No final, surge a mulher vingativa: “Olha que eu te estranho e mando a navalha/ e corto esse chapéu de palha e essa calça de flanela/ que fui eu quem dei .”

A segunda canção de Assis Valente gravada por Carmen, Good Bye, em 1933, abriu a trilha para essa visão crítica da mulher sobre o homem. A letra espicaçava: “Good-bye, good-bye boy, deixa a mania do inglês/ É tão feio p’rá você, moreno frajola/ que nunca frequentou as aulas da escola.”

E teve Cabaret no Morro, Lulu, Sapateia no Chão, Recadinho de Papai Noel, a marchinha Ô (“Meu amor era um Pierrô, eu gosto mais de um Arlequim”), além de algumas sem sexo determinado.  

O estilo de Carmen Miranda era agitado, carnavalesco, com letras irônicas e bem humoradas. As criações mais doloridas de Assis Valente foram destinadas a outras cantoras, como a pungente Fez Bobagem (“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver”), sucesso na voz de Aracy de Almeida. No lado B dessa obra prima, lançada em 1942, outro samba do compositor, com um título bem malandrinho: “Amanhã Eu Dou”.

A lista está incompleta, mas estes exemplos bastam para delinear um “universo feminino” muito rico na obra de Assis Valente. Fugindo do estereótipo da mulher sofredora, traída ou abandonada, o baiano criou mulheres fortes, engraçadas, orgulhosas, vaidosas… protagonistas, enfim.

Não foi o único, certamente. Outros compositores seguiram seus passos, e emplacaram sucessos nas vozes das rainhas do rádio. Mas pela qualidade da obra e pela riqueza de abordagem, Assis Valente merece ser lembrado neste mês de março. Feliz aniversário, mestre!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

O gigante Fernando Faro

Fernando Faro

No dia 25 de abril o mundo musical brasileiro ficou mais pobre: Fernando Faro passou pro andar de cima, depois de uma vida ligada às artes, principalmente à nossa música.  Não fazia música, não tocava nenhum instrumento (pelo menos profissionalmente). Mas o programa Ensaio, criado e dirigido por ele na TV Cultura, é o mais importante acervo musical de nossa história. Não é pouco.

Faro nasceu em Aracaju, em 1927, cresceu em Salvador, e veio para São Paulo para estudar Direito. Logo abandonou o curso, ligando-se ao jornalismo, ao rádio e ao teatro. Foi através deste que se tornou um profissional de TV, gravando peças para o programa Ribalta, na extinta TV Paulista.

Nos anos 60, o Baixo (como era chamado e como chamava todos) realizou especiais de TV que reforçaram sua ligação com a música brasileira. Dirigiu o tropicalista Divino Maravilhoso, na TV Tupi, coordenou festivais de música e programas especiais com Chico Buarque, Caetano, Gil, Gal e Elis, entre outros. Em 1971 passou a integrar a equipe da TV Cultura, onde continuou dirigindo teatro e musicais.

Mas foi em 1990 que surgiu seu mais famoso filho: o programa Ensaio. Com uma estética inovadora, que incorporava o silêncio, as pausas durante uma entrevista, que ocultava o entrevistador (ele mesmo) e suas perguntas, que mergulhava seus entrevistados na penumbra, muitas vezes recortados em contra luz, Ensaio foi uma revolução. Diz a lenda que, quando jornalista, fez uma reportagem com um criminoso detido, e para que as grades não aparecessem na imagem, orientou a câmera para que fechasse em close no entrevistado. O resultado foi tão bom que inspirou, muito depois, a estética do Ensaio.

Seus críticos diziam que era televisão-feijoada, pois as imagens privilegiavam detalhes, pé, orelha, mãos, lábios. Na verdade, Faro compreendeu muito bem que o corpo fala, e que sua linguagem era perfeita para o veículo. Abdicando das perguntas, promoveu um instigante jogo com o telespectador, onde além do interesse na resposta pairava a curiosidade sobre o que havia sido perguntado. O resultado parecia ser algo como um confessionário íntimo, intercalado por canções.

Essas novidades não teriam repercussão se não fosse o extraordinário elenco que o programa reuniu, em todos seus 26 anos. Sem preconceito contra gêneros e estilos, Faro aproveitou suas relações mantidas desde o as anos 60 (e era um homem afetuoso e cordial) para estender seus contatos a músicos, cantores e compositores de todo o Brasil. Das maiores estrelas da MPB até astros regionais, de jovens talentosos a antigos ídolos esquecidos, Ensaio reuniu o maior patrimônio audiovisual da música brasileira de todos os tempos.

São mais de 700 entrevistados, alguns com direito a bis. A TV Cultura lançou uma série de DVDs comemorativos do programa, com uma seleção de nomes fundamentais da MPB.  Até hoje, uma passagem pelo Ensaio é um marco na vida de qualquer jovem artista, um reconhecimento. Embora a fórmula tenha experimentado algum esgotamento nos anos mais recentes, sua importância não pode ser mais questionada. Grande Fernando Faro!

(publicado na revistamusicabrasileira.com.br)

A canção renovada de Manuela Rodrigues

 

Manuela

            O novo CD de Manuela Rodrigues tem a capacidade de nos surpreender. Aliás, essa é uma marca da inquieta compositora e cantora baiana desde que lançou seu primeiro disco, Rotas, em 2003. Depois do festejado Uma Outra Qualquer Por Aí (2011), onde experimentações radicais conviviam com uma poética instigante, Manuela lança agora Se a Canção Mudasse Tudo, pela Natura Musical (Ouça aqui).

            A primeira impressão é de estarmos diante de uma artista plena, madura, mas nunca acomodada. Autora de 11 das 14 faixas, Manuela Rodrigues demonstra sua versatilidade misturando estilos, criando melodias angulosas e utilizando sonoridades incomuns. Aluna aplicada das lições tropicalistas, não teme lançar mão do precioso acervo musical brasileiro, como na Marcha do Renascimento, uma marcha-rancho de letra maternal (seu filho nasceu durante as gravações do CD) ou no simpático samba Nenhum Homem é Uma Ilha, parceria com João Cavalcanti (Casuarina), que a acompanha nos vocais. No bolero pós-moderno Amor de Carne e Osso quem divide o microfone é a carioca Silvia Machete.

            Como já tinha feito no disco anterior, Manuela volta a gravar uma intrigante canção de Rômulo Fróes e Clima (Vai Que Eu Desembeste), de letra quase concretista.  Faz também uma boa releitura de Gil (Extra 2 – O Rock do Segurança) e canta Ronei Jorge (Risos) com um arranjo inspirado. Mas é em grandes canções autorais, como Rede Social, que ela reafirma sua condição de fina observadora do nosso cotidiano midiatizado.

            A riqueza sonora do disco também se deve a uma decisão acertada: as faixas têm diversos produtores (André T, Tadeu Mascarenhas, Gustavo Di Dalva, Luciano Salvador Bahia e João Milet Meirelles). E a artista se declara na letra-manifesto da faixa de abertura, Lista:

                Conservar velhos amigos/ deixar diferenças de lado                                                               Aceitar o novo/ novo é novo/ libertar o passado.

Enfim, Manuela está menos “Tom Zé” que no disco anterior, embora esta influência ainda apareça nítida na ótima Desejo Batuque. No conjunto, soa mais pop, mais lírica, cercada de ótimos músicos, e está cantando como nunca. Se a Canção Mudasse Tudo é um grande e ensolarado disco que vem lá da Bahia para iluminar este conturbado ano de 2016.

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).