Archive for the 'Música' Category

Renavegando o Moldava

Moldava

Um rio, pela própria natureza, é algo em movimento. Não ocupa apenas um espaço, mas existe no tempo. Alguns poetas cantam o rio que passa em sua aldeia. Outros falam do rio que passou por sua vida, ou daquele marcou sua memória. Os geofísicos, que de vez em quando são poetas, falam de rios aéreos. As águas podem ser violentas, mas e as margens que o comprimem?, perguntou Brecht.

Ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, dizia o grego Heráclito. A música é um rio. Passa por nós, mergulhamos nela, nos atravessa, e nunca é a mesma. Se parecer igual, é uma poça dágua, não um rio.

Dentre os vários rios que atravessei e que me atravessaram, o rio Moldava é uma lembrança permanente. Um rio que cruza a República Tcheca, que nunca vi de perto, mas sinto a suavidade de suas águas cada vez que ouço Vltava (o Moldava), poema sinfônico de Smetana (1828/1884) que descreve sensorialmente o trajeto do rio desde sua origem, formado por dois córregos, o Moldava Frio e o Moldava Quente, até cruzar a capital, Praga.

A biografia de Bedrich Smetana informa que ele morreu surdo e louco. A vida infeliz não impediu que ele escrevesse uma das belas obras musicais do século XIX. A melodia sugere o murmurar de um pequeno curso dágua que vai se encorpando, recebendo gotas de chuva, atravessando vilas em festa, até se tornar grande, imponente. É considerado um hino informal tcheco, e a melodia principal, talvez originária de uma ciranda popular e anônima, acabou transportada para o Oriente Médio, tornando-se o hino nacional israelense.

A versão original é para orquestra, e só ela exprime toda a intensidade desejada pelo angustiado Smetana. Há versões exemplares das Sinfônicas de Berlin, de Londres e da Filarmônica de Tóquio. Mas o que motivou esse pequeno texto foi uma versão para harpa, interpretada de forma magistral por Valérie Milot, que me fez mergulhar nesse rio como se fosse a vez primeira.

E foi, e é, e será, como queria Heráclito.

Clique aqui para ouvir: Moldava

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A Besta Fera está solta

Macalé

Há muito tempo que Jards Macalé estava devendo um disco como Besta Fera. Com uma carreira marcada por intervalos e descontinuidades, começou na praia generosa do samba, na década de 60, e fez de tudo um pouco. Estudou música com grandes mestres, flertou com a Tropicália, fez direção musical para Maria Bethânia, participou do Fa-tal de Gal Costa, foi pra Londres com Caetano, virou ator do Cinema Novo, compôs trilhas sonoras de filmes e peças teatrais, musicou poemas de Brecht, espantou a platéia de festivais com performances desconcertantes.

Algumas composições alcançaram merecido sucesso. Vapor Barato, imortalizada por Gal nos anos 70, recebeu novo fôlego com a versão do Rappa de 1996. Mal Secreto, Movimento dos Barcos (parceria com Capinam), Hotel das Estrelas ou Anjo Exterminado também fazem parte do repertório de uma geração.

Sempre arisco em relação à indústria cultural, rompeu com os tropicalistas e reaproximou-se dos mestres do samba, gravando clássicos de Nelson Cavaquinho, Lupiscínio, Geraldo Pereira e Paulinho da Viola (4 Batutas & 1 Coringa, de 1992) ou Ismael Silva (Peçam Bis, com Dalva Torres, em 1988). A admiração pelo velho malandro Moreira da Silva também rendeu shows e parceria.

Carregando o epíteto de maldito, Macalé parecia ser uma figura congelada no final do século XX. Poucas aparições na mídia, raros shows, nenhum disco relevante nos anos 2000. Uma homenagem aqui, outra ali, sempre despertando certa curiosidade entre os jovens pela postura meio anarquista. Zeca Baleiro fez música em sua homenagem, e chegou a convidá-lo para dividir o palco. Assim como a Tropicália e o Cinema Novo, parecia fazer parte de uma era perdida neste país sem memória.

É aí que entra na história o cada vez mais influente grupo paulista formado por Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Thiago França, Nuno Ramos, Gui Amabis e mais alguns. Gente que propõe novas sonoridades sobre poéticas dissonantes, e que constrói com inteligência improváveis pinguelas entre o tradicional e o novo.

E, como já haviam feito com Elza Soares, colocam o excêntrico bardo carioca na turbulência do nosso século. Besta Fera é um conjunto de 12 canções autorais, algumas em parceria com gente como Ava Rocha, Rômulo Fróes, Clima, Capinam, Ezra Pound (!) e Gregório de Matos. O trabalho foi produzido por Kiko Dinucci e Thomas Harres, que também tocam em várias faixas. A guitarra de Guilherme Held e o baixo de Pedro Dantas são irretocáveis, e ajudam a criar texturas originais e estranhamente belas.

E dá-lhe samba elétrico, balada sombria, canção desvairada, rock desconstruído. As participações especiais de Tim Bernardes (vocal e parceria no samba-canção Buraco da Consolação) e Juçara Marçal (na linda Peixe, com citação de Dorival Caymmi) valorizam o intrigante e empolgante conjunto de canções. Pra completar, a foto de capa, do agora imortal Cafi, é antológica. O autor de mais de 300 capas da MPB morreu na virada do ano, e teve a sorte de não viver no país dos bolsonaros.

O tempo não existe/ e essa é a graça”, canta o artista em Tempo e Contratempo. Bem vindo ao nosso contratempo, Macalé, e permaneça por um bom tempo!

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Viola Perfumosa, com celo e vozes

viola-perfumosa

Ninguém pode negar que 2018 foi um ano turbulento. Rolaram algumas coisas boas, muitas coisas ruins, e vamos precisar de algum distanciamento para avaliar o impacto disso no futuro.

No campo da música popular, não poderíamos deixar de destacar aqui na Revista Música Brasileira um dos trabalhos mais delicados e profundos vindos à luz em 2018. Três personalidades com carreiras distintas, mas unidos por um dedicado amor pela cultura brasileira.

Ceumar, cantora e instrumentista, tem voz de nascente fresca no meio da mata. É também uma das mais importantes compositoras contemporâneas, atente! Lui Coimbra, rara combinação de violoncelista e cantor, é conhecido por gravações com Ney Matogrosso, Zizi Possi, Alceu Valença e outros figurões, e tem um lindo disco-solo no currículo, Ouro e Sol. Paulo Freire é mestre da viola brasileira e universal, contador de causos e também compositor, desde que tomou água do Urucuia léguas de tempo atrás.

Precisaria de mais uns três parágrafos pra falar deste trio, mas o espaço é curto e o foco é na confluência destas correntes musicais. As origens são história, basta pesquisar.

Mas Viola Perfumosa, disco e show, foram dedicados a Inezita Barroso, e isso já diz tudo. Estamos falando aqui do Brasil profundo, das coisas da terra, do cheiro de capim molhado de sereno. Tudo isso filtrado com refinamento, com a sabedoria de quem rodou o mundo e sabe voltar às origens com o carinho tão necessário.

Luar do Sertão abre o espetáculo, colocando um novo perfume na imortal canção de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. Tamba-Tajá, do mestre Waldemar Henrique, renasce pelas mãos e vozes do trio. Índia, o clássico de Cascatinha e Inhana, ganha versão encantadora. Paulinho Freire conta um novo causo, e o repertório ganha um tom mais brejeiro, passando por cantigas do sertão do Caicó (lembra do Villa-Lobos?)

Moda da Pinga é a canção emblemática da homenageada Inezita (tá bom, sei que muita gente vai dizer que é Lampião de Gás ou Ronda. Mas este é o lado urbano da mestra, tão importante quanto).

Horóscopo, de Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado, é feita com humor caipira e maroto, e é impossível ouvir a nova versão sem um sorriso nos lábios. A beleza de Oi Calango Ê (Hervê Cordovil) nos faz ver, como num filme, as mulheres trabalhando nos cafezais. Coco do Mané (Luiz Vieira) abre alas para as delícias de Bolinho de Fubá (Edvina de Andrade), encerrando com Chitãozinho e Chororó (Athos Campos/ Serrinha) e um belo texto falando da menina Ignez, a homenageada. O auxílio luxuoso de Marcos Suzano em duas faixas é a pitanga que faltava no bolo de fubá.

Esqueci algo? Ah, claro, Amo-te Muito, bela canção de João Chaves, onde Lui Coimbra abre o coração e Ceumar faz uma segunda voz sublime. Quem foi no show, ouviu outras maravilhas. Quem comprar o CD vai querer ouvir muitas vezes.

Quando os gafanhotos cibernéticos parecem destruir tudo o que plantamos por décadas, instaurando uma nova ordem mundial de tediosa e rasteira uniformidade, um disco como Viola Perfumosa soa como alento. Passadista, para alguns, ainda que belo. Inseminador e essencial, para os que acreditam em futuro.

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br, em dezembro de 2018)

A bela revolta das canções

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Evandro Camperom ataca novamente, com fúria musical e poesia explosiva. Em seu terceiro CD, A Revolta do Parafuso, lançado em setembro de 2018, os climas tensos se alternam com batidas mais sacudidas, sempre sublinhando letras de alta voltagem poética.

Pernambucano radicado em São Paulo, Camperon é mestre em imagens inusitadas, que tem o dom de nos fazer ouvir uma canção várias vezes (com prazer!) para apreender todos os sentidos. Sua música é absolutamente contemporânea, mesclando tradição e modernidade com plena eficiência. Timbres elétricos convivem com violões acústicos, métricas milenares se alternam com versos inovadores, baião e samba convivem com pop/rock de vanguarda, formando um amálgama de forte impacto.

Evandro é professor, além de cantor, compositor e músico. É mestre em Educação pela USP, e o título de sua dissertação é “Ouvidos abertos: a oralidade, a escrita e a canção”. Tendo vivido a infância no sertão nordestino, carrega até hoje o sotaque e a admiração pelos cantadores, sanfoneiros e repentistas, cultivados dentro de sua casa. Seu pai, também músico e compositor, é influência confessa.

Vivendo na metrópole desde jovem, o compositor soube filtrar todas as influências e criar um estilo próprio. Alguns exemplos, pinçados ao acaso, podem dar uma pequena ideia do refinado artesanato desse craque das palavras:

Cada um de nós é um/ que se desdobra em multidões” (Pedra de Raio)

Um filho é feito a voz/ vai sempre além de nós”.

diamante nas trevas/ corpo que carrega outros sóis.” (Feito a Voz)

Minha galega me disse assim/ meu nego, por favor, não chore não/ que nesse tempo tinhoso, mal ajambrado/ o amor é forma de subversão” (Querolina)

O tempo rabisca seus poemas/ em nuvens de pó” (Fora Dágua)

Há de se dar nome aos boys/ há de se saber quem sois/ quem é que se cala e quem fala por nós”. (Nome aos Boys).

Esta última tem um clipe impactante no Youtube, ótimo cartão de visitas para quem não conhece Evandro Camperom.

Seria fácil transcrever algumas letras, porém é mais estimulante recomendar a audição e a descoberta gradual de todas as fímbrias ocultas nas composições desse admirável músico brasileiro e universal. A Revolta do Parafuso merece um lugar em todas as listas de melhores do ano de 2018!

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Sentinelas da Tradição: um estudo abrangente

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Você já parou pra pensar que Ernesto Nazareth, um dos patriarcas do choro, nunca compôs um choro? No seu catálogo constam tangos brasileiros, tanguinhos, schotisch, sambas, quadrilhas, marcha infantil, fox-trot, cançoneta, maxixe, mazurca e muitas valsas e polcas, entre outras denominações. Nenhum choro.

Bom, você pode achar que se trata de uma questão de nomenclatura de época, pois um clássico como Apanhei-te Cavaquinho só pode ser um choro! Só que foi registrado como polca… Assim ocorre também com a obra de mestres-fundadores como Joaquim Calado, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Quando aparece a palavra “choro” denominando alguma composição, desconfie: pode ter sido colocada postumamente.

O que tornou a palavra “choro” dominante, como gênero musical brasileiro por excelência? Ou melhor, o que transformou a palavra “choro” num conceito, numa identidade nacional? E o samba, este gênero carioca, vindo do morro, da cidade ou do coração, o que o fez se tornar o gênero nacional, mesmo que nos sertões, florestas, praias remotas, caatingas, plantações de café, cerrados e fronteiras, os gêneros musicais ouvidos e praticados por brasileiros fossem outros?

Sentinelas da Tradição é o apropriado título do ensaio de Dmitri Cerboncini Fernandes, lançado em 2018 pela Edusp. Adaptação da tese de doutorado “A inteligência da Música Popular: A Autenticidade no Samba e no Choro”, o estudo pretende investigar de que forma o choro e o samba se constituíram em modelos brasileiros de cultura popular, em detrimento de outras formas musicais.

A grande sacada do autor é examinar a história do samba e do choro não através de seus compositores e intérpretes, como é usual, mas através de seus historiadores e formuladores matriciais. Em resumo, Cerboncini Fernandes quer demonstrar que a fetichização do samba “autêntico” e do choro é resultado do empenho de um grupo de jornalistas, pesquisadores e folcloristas que em sucessivas gerações adotaram a música popular como o principal elemento identitário brasileiro, optando por uma classificação doutrinária.

Premiada com Melhor Tese de Doutorado de 2010, a versão publicada tem 532 páginas, e é material fértil para alimentar a discussões sobre os conceitos de nacional, popular, autêntico, comercial, MPB, samba, pagode e outros babados. Fundamentado em sólida pesquisa, e alimentado por prestigiosas referências teóricas (Bordieu, Elias, Adorno), Fernandes destaca o papel inseminador de estudiosos como Mario de Andrade, e repórteres-partícipes como Vagalume, Animal e Orestes Barbosa.

Vagalume é o pseudônimo do primeiro historiador do samba, o mulato Francisco Guimarães (1904-1933). Seu livro Na Roda do Samba, de 1933, é considerado o documento primeiro, o atestado de credibilidade de uma testemunha ocular e auditiva das rodas de samba de Tia Ciata. Orestes Barbosa, o primeiro intelectual-compositor a arriscar uma história da música popular, coloca Vagalume como uma referência.

Animal, pseudônimo de um carteiro negro frequentador de várias rodas de choro do início do século (Alexandre Gonçalves Pinto, data e morte incertas, mas entre 1870 e 1940), foi o sujeito que colocou no papel em 1936, para a posteridade, “O Choro – reminiscências dos chorões antigos”. Reeditado pela Funarte em 1978, é referência do gênero, compilando 285 músicos do gênero que passou a ser chamado de choro. “A obra de Animal, portanto, foi massivamente utilizada para a criação e legitimação das verdades que demarcaram a formação do gênero musical em pauta” (p. 162)

Cerboncini Fernandes relata com detalhes essa fase pioneira e passa para o período Vargas, onde a construção de uma identidade nacional ganha força. Mário de Andrade e Villa-Lobos são invocados como intelectuais “éticos”, externos, que chancelam a autenticidade de sambas e choros. O início da era do rádio e a formação de um circuito de compra e venda de canções instaura uma divisão. O samba “puro” não é comercial, para ser autêntico não pode ter sido composto pra tocar no rádio. É feito para ser tocado em terreiros, quintais, morros, em comunidades. Assim pensam os intelectuais “êmicos”, ou endógenos, aqueles formados no próprio meio da música popular.

Pelo menos assim defendiam os integrantes da geração reunida em torno de Lúcio Rangel, editor da Revista de Música Popular, que durou apenas de 1954 a 1956, mas teve papel fundamental na sedimentação dos conceitos de samba e choro. Por ali passaram nomes como Manuel Bandeira, Sérgio Porto, Jota Efegê, Almirante, Nestor de Holanda, Rubem Braga, Marisa Lira, Haroldo Barbosa e outros, que consolidavam as formas consagradas dos gêneros ao mesmo tempo em que espinafravam as forma “impuras”. Samba canção era visto com desconfiança, enquanto que Pixinguinha era beatificado como o grande mestre do choro.

A indústria fonográfica crescia, o rádio ampliava seu alcance, e as duas coisas se retroalimentavam. A discussão normativa sobre o popular bom X popular ruim adentra os anos 50, influenciando a terceira geração de críticos: Ary Vasconcelos, Tinhorão, Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho. O bastão vai sendo passado para os novos “radicais”, que assumem também a função de redescobridores de talentos “puros” e promotores de espetáculos (Cabral e Hermínio), ou constroem sólida obra de pesquisa, fora dos muros acadêmicos (Tinhorão).

Tudo isso vai ganhar complexidade com a chegada da televisão, no final dos anos 50, e a diversificação de gêneros ocorrida depois do advento da Bossa Nova. Os festivais, a Jovem Guarda, a Tropicália, a música de protesto, nada disso concorria diretamente com o samba “autêntico”, o que permitiu duas linhas de pensamento, na quarta geração de críticos: os puristas, mais ortodoxos, e os universalistas, que falam tanto de rock como de baião, mas reconhecem o samba como forma consagrada da nacionalidade. Temos aí nomes como Tárik de Souza, Ana Maria Bahiana, Mauro Ferreira, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e outros, sendo escrutinados sob a premissa de “sentinelas da tradição”.

Ainda nos anos 60, um problema vem complicar o esquema gênero-carioca-nacional-autêntico construído por estes críticos. O problema tinha nome e sobrenome, e nasceu em São Paulo: Adoniran Barbosa. Um capítulo inteiro é dedicado a analisar o ruído causado por um italiano que falava errado, compunha torto e não tocava nenhum instrumento. Para os xiitas do samba, era uma distorção. Lúcio Rangel implicava até com o sotaque paulista de uma Isaurinha Garcia, por exemplo. Pra ser boa, tinha que cantar em “carioquês”. Mas como não chamar de “popular” um proletário, filho de imigrantes, profundamente ligado ao povo (ao “nacional”), no embate ideológico dos anos 60? Pra piorar, o cara ganha o concurso de marchas de Carnaval do Rio, em 1965, com Trem das Onze…

O problema Adoniran foi assimilado, a contragosto de alguns. O samba podia ser também paulista, não apenas carioca. Nacional em outro sentido, um pouco além do umbiguismo da capital federal. (E aqui, confesso, senti a falta de referência ao samba de outras fontes, como a Bahia. Infelizmente Cerboncini Fernandes não faz referência a Batatinha, Riachão, Rufino, Gordurinha ou Roque Ferreira. Seu ensaio polariza o eixo Rio-São Paulo, talvez por questões de mercado, que fazem parte de sua análise, ilustrada por gráficos).

E são estas questões que coroam a tese, quando entra em cena um personagem muito mais assustador que Adoniran: o pagode. Os últimos capítulos rememoram a entrada em cena do Fundo de Quintal, e a avalanche comercial dos grupos de pagode dos anos 80 e 90. Novamente, a discussão entre puros X impuros reverbera e divide a opinião pública. Apocalípticos X integrados, puristas X comerciais, autênticos X diluidores. O que é samba, afinal?

O choro, fora dos esquemas comerciais de radiodifusão, longe das grandes vendagens, volta a ser contemplado com um capítulo dedicado aos “novos chorôes”. Até esta Revista Música Brasileira entra na lupa do minucioso pesquisador, juntamente com outros sítios virtuais e revistas vendidas em bancas de jornal.

Pode ser cansativo para alguns encarar um volume com mais de 500 páginas. Mas para quem realmente se interessa pela música brasileira, por samba e choro, por questões culturais, sociais e políticas, recomendo a leitura deste ensaio do doutor Dmitri, formado em São Paulo, com passagem em Paris e atualmente professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. O cara pode não dar resposta pra tudo, mas sabe provocar um bom debate, com opiniões profundamente embasadas. E certamente é um amante da música popular brasileira, ora pois…

(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)

Uma arquitetura musical

Futuro e memória

O edifício São Pedro, inaugurado em 1951 na Praia de Iracema, em Fortaleza, foi o primeiro da orla. Seu perfil elegante e original marcou a memória de muita gente. Hoje é uma ruína, e suas lembranças assombram poetas, músicos, artistas plásticos e mendigos.

Partiu da dupla Rogério Franco e Dalwton Moura a ideia de construir um disco-show-homenagem ao marco arquitetônico (Futuro e Memória, Jazz, 2018). O projeto ambicioso conta com as fotos de Luiz Alves, encartadas em uma caprichada caixa-poster, projeto gráfico de Caio Castelo, e uma plêiade de músicos cearenses de várias gerações.

Dez composições são de Rogério e Dalwton. Uma conta com a ajuda de Paulo César Oliveira, e outra é só de Dalwton.

A faixa-título abre o disco e conta com um convidado especial, Zé Luiz Mazziotti. Acompanhado de piano e violoncelo, a voz macia do cantor desfia as “feridas que o passado esculpiu”, em clima nostálgico. O clima de bossa-nova saudosista marca a segunda faixa, Mais Que Sonhar, bem cantada por Kátia Freitas, e com belo desempenho nas cordas de Cristiano Pinho.

A balada A Quem Sonhou o Amor é interpretada com delicadeza por David Duarte, e prepara o clima para Uma Canção A Mais, um fox onde o veterano Rodger Rogério constrói um clima de boate, junto com o trompete de Ricardo Abreu e a guitarra de Hermano Faltz. Téti, claro, conduz a quinta faixa, Reinvenção, lembrando que “o tempo prende quem quiser/ lhe escapar/ lhe iludir”.

Gilmar Nunes é a voz da faixa de sabor pop Ao Pé do Ouvido. Eudes Fraga conduz O Compositor, e o próprio Rogério Franco interpreta O Que Virá, com o auxílio luxuoso de Nonato Luíz ao violão. Dispensando os vibratos, a afinada Paula Tesser retorna ao clima de bossa na nona faixa, Surpresas.

Mais sacudida, a canção Tudo é conduzida por Edmar Gonçalves, e prepara o clima mais telúrico de Vida-Sol, onde a percussão marca o arranjo de Ítalo Almeida, com um leve acento de maracatu. Calé Alencar entoa versos que convidam a “passear pelo ontem/ pelas faces de nossa cidade”. E o conjunto de doze canções é fechado por Cantarte, outra balada de letra melancólica, na voz de Paulo Cézar Oliveira.

É óbvio que as composições não “descrevem” o velho edifício, mas remetem a sensações e sentimentos que estão ligados à sua memória. Falam também de pessoas, de amores, de tristezas, ausências. Senti falta de faixas alegres, festivas, apaixonadas, pois isso também fez parte do microcosmo humano que povoou a histórica edificação. Imagine quantas traições, mentiras, declarações, gargalhadas, ódios e rancores também marcaram momentos no São Pedro!

Mas a opção do belo disco-objeto Futuro e Memória é outra, mais introspectiva. E, a partir do mote arquitetônico, estabelece relações entre artistas de variados calibres do edifício musical cearense. Não é pouco.

(publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Tudo já foi dito?

2a

Um pequeno comentário do grande compositor e intérprete Sergio Santos, postado na rede, provocou surpresa, questionamentos e muitos aplausos. Sergio dizia estar cansado de ouvir canções de novos compositores e compositoras repisando velhos temas tão banais. Por onde andam a originalidade, a visão crítica, a busca pelo novo, o esforço para criar algo diferente?

É fato que a enorme maioria das canções, de todos os gêneros, em todo o mundo e em todas as épocas, são construídas em torno do amor. Procuro um amor/ perdi meu amor/ achei meu amor é a fórmula mais universal e desgastada de passar alguma mensagem, seja no pop, no rock, no pagode ou no breganejo. Uma parte significativa fala da solidão (ou falta de amor), o que não deixa de ser uma derivação da velha fórmula. Compositor adora falar de suas dores quando está sozinho com seu violão…

Há estudos acadêmicos que falam da “quantidade de informação”, que distribuem temas em gráficos e tabelas. Em todos os estudos publicados, a menor fatia fica com os “outros temas”, algo tão amplo que contempla a vida e a morte, as questões sociais, a fome e a miséria, a luta de classes, a ciência, a natureza, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, etc. Como pode tal gama de assuntos ficar confinada num espaço tão pequeno?

Uma das explicações é a de que o caminho mais fácil é o mais seguro. Para falar de amor, não é preciso estudo nem diploma. Todos (pensam que) dominam o assunto. Falar de “outras questões” requer mais cuidado, apuro, atenção para os deslizes. E o componente ideológico também deve ser ponderado: com quem o compositor deseja ser identificado? Certos temas são “de esquerda” ou “de direita?” Fazer música engajada é algo perigoso? Mas se for engajada na questão ambiental, pode ter um público mais amplo? É certo um garoto branco de classe média falar de preconceito, ou deve deixar isso para os manos da periferia? E se eu quiser ser original, tenho que abdicar de fazer canções de amor?

Os mestres tem a resposta. Ouvir e reouvir os grandes compositores, que não são grandes à toa, pode dar pistas para resolver estas questões. Muitos estão vivos e atuantes, como Caetano, Chico, Gil, Paulinho, Milton e tantos outros, inclusive o próprio Sergio Santos. Continuam compondo e propondo novos temas e novas abordagens para os ditos “velhos temas”. E boa parte da melhor música popular brasileira de hoje é criada e distribuida de forma independente, alternativa. A geração que criou este conceito continua aí, produzindo e surpreendendo. A turma do Lira Paulistana, o pessoal de Pernambuco, os novos sambistas, cancionistas de todos os naipes.

Um cronista urbano contemporâneo como Maurício Pereira, por exemplo, faz uma composição em seu novo disco (Outono no Sudeste) sobre mulheres de bengalas. A visão inusitada se harmoniza com a observação aguda de que ali há, antes de tudo, mulheres. Um gênio reconhecido como Chico Buarque nos surpreende com a observação de que “até posso virar menina, para ela me namorar” (Blues para Bia). Caetano ironiza o lugar comum quando canta “estou sozinho, estou triste, etc.” (Etc.). Gil faz um disco recheado de termos científicos (Quanta), e criadores engenhosos como Luiz Melodia, Djavan, Itamar Assumpção ou Tom Zé partem para uma poética de grande originalidade, ampliando também a escolha de temas. Outros bambas, como Paulo César Pinheiro ou Aldir Blanc, mergulham fundo na cultura brasileira, recuperando expressões e palavras e inventando novas rimas.

Os que dizem que a atual safra de jovens compositores, marcada pela crescente presença feminina, peca pela falta de originalidade, devem prestar mais atenção. No meio do cascalho sempre surgem diamantes. É valorizando estas faíscas que a crítica cumpre seu papel, influenciando os que estão começando agora, iluminando obras pouco divulgadas, atribuindo valor ao “poder da criação”.
Mas você, jovem compositor/a, que se acha novo só porque está começando agora, cuidado. Você pode estar sendo velho sem notar…

(publicado originalmente em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)


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