Archive for the 'Música' Category

Chavão abre porta grande

O título desse artigo é um verso escrito pelo genial compositor Itamar Assumpção, e gravado no disco Sampa Midnight – Isto Não Vai Ficar Assim, de 1986. Se figurasse num pagode qualquer, ou num sucesso sertanejo, seria apenas um trocadilho raso. Mas vindo de um artista que sempre recusou o lugar comum, procurando uma estética própria e fora das regras de mercado, ganha profundidade insuspeita.

Não é preciso ser doutor em linguística para constatar a pobreza literária e semiótica da música feita atualmente “pra tocar no rádio”. Não é um fenômeno brasileiro, mas mundial, uma vez que a mídia cada vez mais uniformiza gostos e hábitos de consumo. Mas no Brasil a indigência contrasta com a exuberância de um passado recente: há poucas décadas as letras de música disputavam com mais refinada poesia a melhor tradução de sentimentos, atitudes, dores e alegrias do povo brasileiro. Os gigantes que semearam a moderna MPB, somados aos mestres inquietos que, de norte a sul, do baião à milonga, da toada ao samba de roda, nos surpreendiam com achados verbais, imagens inusitadas e rimas de cortar os cabelos e arrepiar o coração, estão cada vez mais afastados do grande público, sendo cultuados em nichos cada vez mais restritos.

Por trás do verso de Itamar está sua própria trajetória artística. Compositor fora dos padrões, “maldito”, como se dizia na época, não se enquadrava. Fizesse uma canção com refrão fácil, que todos ouvissem no rádio e cantassem, era o pedido das gravadoras. Um samba, por que não?, afinal não era negro? O chavão iria abrir portas grandes, certamente: emissoras de rádio e TV, programas de auditório, paradas de sucesso.

Mas Itamar Assumpção era de outra cepa, e resistiu. Criador de inspiração desconcertante, irônico e atilado, a massa certamente não comerá o biscoito fino que fabricou. Mas sua intuição certeira acabou por nos fornecer um slogan perfeito para a época em que vivemos, de diluição completa de estéticas e experimentações.

Tomemos o discurso político, por exemplo. Não há definição mais perfeita, nas eleições que acabamos de presenciar, do que “chavão abre porta grande”. O discurso criativo, o uso inteligente do humor, a vontade de abrir novos caminhos, a investida contra valores arraigados, foram derrotados. Onde a esquerda ganhou foi com políticos experientes, escorados num discurso já conhecido (*). Não é pouco, no país do bolsonarismo de matizes fascistas, mas mostra o quanto ainda falta para que uma renovação de fato se solidifique no discurso político.

Nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema ou na música, o axioma de Itamar Assumpção continua válido. O chavão continua abrindo portas grandes, seja de gravadoras, editoras, emissoras, corporações multinacionais ou palácios do governo. 

Um dos grandes embates do século XXI é este confronto entre a invenção e a reprodução de modelos. Não sabemos se nosso futuro será desenhado por algoritmos, calcados em estatísticas e invasão de privacidade, ou ainda estará sujeito a alterações provocadas pela vontade criadora de alguns poucos.

Enquanto isso, lutemos para que os verdadeiros inovadores do discurso possam ser ouvidos pelas futuras gerações. De Itamar Assumpção a Greta Thunberg, de Luiz Melodia a Guilherme Boulos, temos vários exemplos de que a linguagem não caminha separada das ideias, como diziam os velhos Marx e Engels. Aliás, jovens revolucionários, em sua época.

(*) Obviamente o resultado eleitoral não resultou apenas do grau de modernidade do discurso. O poder econômico, a manipulação midiática e o conservadorismo de base religiosa ainda são fatores preponderantes no cenário eleitoral brasileiro.

(Publicado originalmente em http://www.aterraeredonda.com.br)

O labirinto azul de Ana Lee

O novo disco da cantora paulista Ana Lee traz um conjunto de canções saturadas de profunda beleza. A viagem musical proposta é pelas águas, doces ou salgadas, e isso marca toda a experiência da audição, mesmo quando não há referência explícita na letra.

Os músicos e arranjadores são de primeira linha, e traduziram muito bem a musicalidade líquida das melodias. Ora são pontuadas pelos teclados de Lincoln Antonio, ora pelos clarones de Itamar Vidal, sempre bem temperados pelos violões de Bráu Mendonça, Ozias Stafuzza e Lula Gama e o baixo luxuoso de Swami Júnior. Belo time, que contribui também com algumas das composições originais.

Desde a faixa de abertura, Toada (Cássio Gava/ Zeca Baleiro) onde Ana Lee divide os vocais com Baleiro, somos envolvidos pela refinada sonoridade do disco. Bem pontuado pelo violoncelo de Mário Manga, o delicado arranjo acústico dá o tom também da faixa seguinte, Xote da Navegação, dos gigantes Chico Buarque e Dominguinhos. Fagote e clarone acentuam a melancolia da canção.

O celo de Manga volta a brilhar na faixa seguinte, Castelo, de Mario Montault. A percussão de André Magalhães e Ricardo Stuani, presentes em todo o disco, fica mais evidenciada. Na sequência, uma releitura de A Página do Relâmpago Elétrico revigora a conhecida canção de Beto Guedes, com um leve sintetizador sobre base acústica. Mané Silveira contribui com seu sax e com o arranjo feito a quatro mãos com Itamar Vidal.

Uma ciranda de Ozias Stafuzza retoma uma linha cara à cantora, de experimentar novas leituras dos ritmos populares brasileiros. É o caso do Jongo Tradição I, pleno de ecos ancestrais, e do gostoso samba Lagoa Funda. Uma leitura intimista de Meia Noite, de Chico e Edu Lobo, demonstra que revisitar o tesouro da música popular brasileira também pode ser uma viagem contemporânea.

Ana mostra seu lado compositora ao cantar um poema de Emily Dickinson (Loucas Noites), e se sai bem. Versos de Maria Rita Kehl (O Amor É Uma Droga Pesada) são musicados de forma surpreendente por Antonio Herci, com uma construção que remete a ritmos tribais, reforçada pelo arranjo percussivo. E que beleza a canção que dá nome ao CD! Uma joia de Lincoln Antonio e Walter Garcia, de intervalos inesperados e angulosa beleza.

Em Labirinto Azul nenhuma canção se parece com a anterior, os arranjos não se repetem, e a invenção poética está presente disputando os holofotes com o alto nível musical. O conjunto de composições, de arranjos e de interpretações comprova a maturidade artística de Ana Lee. Um grande disco, para iluminar este conturbado ano de 2020.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Zuza, o homem e seu tempo

Este ano tão cruel levou embora no dia 4 de outubro uma das pessoas mais queridas do meio musical brasileiro: o produtor musical, engenheiro de som, crítico, organizador de festivais, historiador e jornalista Zuza Homem de Melo.

Sua biografia resumida está disponível na internet:  jovem interessado em música, que começou a tocar contrabaixo nos anos 50, viajou para os Estados Unidos, estudou e passou a escrever artigos sobre jazz e música popular. A partir de 1959 trabalha na TV Record, e torna-se figura central da organização do que ele chamou mais tarde, em um de seus livros mais conhecidos, de A Era dos Festivais (Editora 34, 2003). Nas décadas seguintes, foi curador de festivais de jazz e MPB, produziu discos e shows, apresentou programas de TV (Jazz Brasil, na TV Cultura), teve programas de rádio, escreveu livros essenciais para conhecer a música popular de nosso tempo.

Fugindo da frieza acadêmica, do mero alinhamento de fatos e nomes, Zuza não tinha vergonha de se colocar como testemunha ocular (e auditiva) dos fatos que narrava. Aliás, fazia isso com a elegância discreta que sempre caracterizou sua atuação nos bastidores. Estimulando novos valores, orientando artistas consagrados, procurando abrir espaços de renovação da música, sem perder em nenhum momento a noção da importância histórica, cultural e artística dos fatos que relatava.

Deixou tantas obras essenciais que fica difícil escolher a mais representativa. A Canção no Tempo (co-autoria com Jairo Severiano), Eis Aqui os Bossa Nova, Música com Z (coletânea de artigos), Música Popular Brasileira Cantada e Contada.

Antes de morrer, aos 87 anos, acabara de colocar o ponto final em sua biografia de João Gilberto. Seu último livro publicado foi Copacabana – a trajetória do samba-canção (1929-1958), coedição da Editora 34 com o Sesc, de 2017. É sobre ele que vamos nos deter um pouco mais, atentos à lição do mestre.

A obra começa com uma saborosa contextualização do Rio de Janeiro dos anos 50, sob a ótica de um “paulistano no Rio” (título do primeiro capítulo). Zuza fala da chegada à Capital Federal, da dissonância entre zona Norte e zona Sul, do túnel do Leme, do ambiente social da época, da moda, dos cinemas, das boates, dos hormônios em ebulição. Descrito o cenário e dado o clima, descreve a passagem do samba dos teatros de revista do Centro para as boates chiques de Copacabana, tornando-se mais intimista e amaciando o batuque, absorvendo influências norte-americanas (foxtrote) e latinas (bolero).

À medida em que descreve o processo, Zuza interpola os protagonistas da história: compositores e intérpretes que construíram a textura sonora do gênero. Com farta iconografia, que abrange retratos, capas de discos, registro de shows e festas, programas, jornais, partituras e até cardápios, somos envolvidos e até convidados a cantarolar as canções que são citadas.

Em mais de 500 páginas, Zuza Homem de Mello consegue o admirável feito de dosar com sabedoria as suas preferências pessoais, sem escondê-las, e municiar o leitor de todas as informações necessárias para compreender o sentido da expressão samba-canção.  De Ary Barroso a Chico Buarque, de Lupicínio a Cartola, de Aracy Cortes a Maysa,  passando por Noel, Adelino Moreira, Nelson Gonçalves, Braguinha, Dick Farney, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Tom Jobim, Dalva de Oliveira, Herivelto e tantos outros, a vontade é de parar a leitura a cada página para ouvir as canções citadas. E Zuza generosamente compila as gravações citadas, em apêndice precioso no final do livro.

O autor confessa, no prefácio, ter demorado quase 13 anos para escrever o livro. Outros trabalhos surgiram, livros foram encomendados e publicados, shows foram produzidos. Mas para ele, “o que se criou nos anos 1950 foi determinante para dar ao Brasil o reconhecimento de sua canção como destacada forma de arte na gênese da música popular. Ao primeiro sinal de seu toque rítmico e melódico, o pensamento voa evocando a saudade da terra, reconhecendo o talento musical e distinguindo o afeto do brasileiro comum.”

Do samba-canção surge a bossa-nova, e nos anos 60 tudo se precipita, se mistura e se reconfigura, sem perder a herança genética. E Zuza Homem de Mello, sempre atento aos novos sinais que surgiam em plena era dos festivais, nunca deixou de apontar a importância dos gêneros matriciais da moderna música popular brasileira. Com entusiasmo de garoto e sabedoria de quem viveu intensamente, tornou-se um dos autores fundamentais para entender e amar o que de melhor a cultura brasileira produziu: a nossa música.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

O instrumento da discórdia

Sergio Ricardo

A morte do grande compositor Sérgio Ricardo (1932/2020), há poucos dias, provocou uma série de comentários sobre sua obra e também sua militância política. Homem de múltiplos talentos, diretor de cinema, compositor, músico, escritor, ator, pintor e produtor, também ficou conhecido pela posição intransigente em defesa de seus ideais, o que o fez ser perseguido pela ditadura, sofrendo censura e boicotes.

Sérgio Ricardo, autor das trilhas sonoras dos filmes mais marcantes de Glauber Rocha, também foi intransigente na música. Defendia com afinco as raízes brasileiras, rurais, populares, mesmo tendo formação clássica (foi pianista no início de carreira, nos anos 50, tendo até gravado como instrumentista) e composto suas primeiras canções sob influência da bossa nova. Repudiava a influência anglo-americana do rock e combatia o uso da guitarra na música brasileira.

No famoso Festival de Música Brasileira da Record, de 67, onde ficou imortalizada a imagem de SR quebrando o violão e jogando na plateia, a disputa ideológica acerca de como deveria soar a música brasileira chegou a ponto de provocar uma inusitada passeata, capitaneada por Elis Regina, “contra a guitarra elétrica”. Elis comandava um programa na emissora chamado Frente Única, que acabara de estrear, e vinha enfrentando os crescentes índices de audiência da Jovem Guarda, liderada por Roberto e Erasmo Carlos.

Em 17 de julho de 1967 subiu a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rumo ao teatro Paramount, uma passeata da qual participaram Elis, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zé Keti, os rapazes do MPB-4 e outros, com uma faixa onde estava escrito “Frente Única – Música Popular Brasileira”. Outros artistas já estavam esperando no teatro, como Juca Chaves e Ataulfo Alves, conforme o registro minucioso de Zuza Homem de Mello, em “A Era dos Festivais, uma Parábola” (Editora 34, 2003). Sergio Ricardo estava no Rio, nas certamente era um dos apoiadores do movimento.

Por que a guitarra elétrica suscitava tanta polêmica? Surgida com os bluesmen americanos, era um instrumento ligado às classes populares, operárias. Ganhou o status de instrumento-símbolo de rebeldia da juventude americana nos anos 50, pelas mãos de Chuck Berry, com o nascente rock’n roll.  Granjeou tal popularidade que rapidamente foi assimilada pela “indústria cultural”, fazendo parte da trilha sonora das gerações seguintes, através de bandas como Beatles e Rolling Stones e mitos como Jimi Hendrix. Ironicamente, quebrar guitarras no palco passou até a fazer parte do show, em bandas como The Who e The Clash.

Que motivos teriam os músicos brasileiros para repudiarem um instrumento surgido “negro”, pobre e rebelde? “Uma disputa de mercado” pode ser uma resposta simplista. O forte debate ideológico da época propiciava um discurso anti-imperialista, e a guitarra passou a ser um símbolo invasor na nossa cultura. Podemos detectar ecos ludistas no discurso de Sérgio Ricardo e seus companheiros de jornada?

Longe dos festivais, nos anos 40, os baianos Dodô e Osmar já haviam eletrificado seus instrumentos de corda, de corpo maciço, e colocado o povo pra pular atrás do trio elétrico. Não à toa, Caetano e Gil, habituados com essa sonoridade, foram os introdutores da guitarra elétrica no histórico festival, acompanhados respectivamente pelos Beat Boys e pelos Mutantes. É notável a ambiguidade de Gil, que participou da passeata e dias depois se apresentou no palco do Paramount acompanhado pela guitarra do mutante Sérgio Dias. Casado à época com Nana Caymmi, Gil estava profundamente dividido esteticamente entre Luiz Gonzaga e os Beatles. Mas, como sabemos, pouco depois se rendeu aos encantos do instrumento maldito.

Sergio Ricardo não. Com alguns outros combatentes, cada vez mais isolados, defendeu o violão acústico, o piano acústico, a música que acreditava ser realmente “brasileira”. A antropofagia oswaldiana não lhe caía bem. Nem Ben, futuro Benjor, violão rítmico visionário que também depois aderiu à guitarra elétrica, fazia seu estilo. Discreto, participou de muitos atos pela democracia, ouviu e aconselhou vários artistas jovens, mantendo a coerência. O músico paulista Kiko Dinucci, em comentário recente sobre a morte do artista, disse que SR elogiou as canções de seu grupo Metá Metá, mas “só as que não tinham guitarras”.

É curioso imaginar qual o motivo de outros instrumentos, como o piano e o contrabaixo, não terem se tornado tão polêmicos quando foram eletrificados. Qualquer artista “puro” da MPB, inclusive Elis, logo percebeu a versatilidade do baixo elétrico. Até um sambista como Paulinho da Viola, durante muitos anos, gravou discos e se apresentou acompanhado pelo baixo elétrico de Dininho, filho do grande violonista Dino. Artistas como Egberto Gismonti gravaram discos inteiros com sintetizadores e teclados eletrônicos, sem serem menosprezados por isso. Baterias programadas são usadas ad nauseam, e só os instrumentos de sopro escaparam da polêmica porque, bem, dependem do fôlego humano.

Mas a guitarra, ah, a guitarra… símbolo de uma cultura imperialista, universalista, opressora dos valores locais, atravessou o embate ilesa, pois a vitória era inexorável. Hoje podemos falar tranquilamente de uma guitarra africana, asiática, latina, e até lembrar de fraseados de canções brasileiras marcados pela sua sonoridade. A partir daquele histórico festival, sem esquecer da Jovem Guarda, os músicos foram assimilando, adaptando, incorporando definitivamente seus timbres à uma música em transformação permanente.

Dá pra imaginar uma canção tão marcante como Ovelha Negra, da Rita Lee, sem o famoso solo de guitarra? Ou Anunciação, de Alceu Valença, sem a luminosa guitarra de Paulo Rafael? Magrelinha, de Luiz Melodia? Gal duelando com a guitarra em Meu Nome é Gal? A própria obra de Caetano, Gil e os demais tropicalistas não existiria sem a guitarra. Os exemplos são muitos, o leitor pode acrescentar de memória um rol quase infinito. Tente imaginar a música paraense, com as famosas guitarradas, sem o instrumento-fetiche…

Militante de uma causa idealista e ilusória, musicalmente falando, Sérgio Ricardo tem a seu favor a própria obra, grande, honesta e plena de belezas. Sim, é possível compor sem guitarra. A rigor, até sem instrumento. Mas eleger a tecnologia como inimigo é um problema secular, que parece ainda não estar resolvido por completo.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br).

Mar de Gente

Gabi-Buarque

O novo CD de Gabi Buarque é de uma beleza desconcertante. Escapando de todas as armadilhas do mercado, das facilidades embaladas para consumo imediato, Gabi confirma seu talento para a canção bem trabalhada, para a poesia arejada e banhada de amor pela cultura brasileira.
Cantora de belo timbre, alcança a plenitude interpretativa explorando com sabedoria as nuances sugeridas pelos versos. Pode soar melancólica, provocativa, amorosa, tensa, raivosa, irônica ou reflexiva, fazendo com que cada faixa seja diferente da anterior.
Gabi mostra maturidade também como compositora. Autora ou co-autora de todas as faixas, explora ritmos, sonoridades e andamentos com sabedoria e
clareza. Soa simples como água, mas é uma simplicidade construída com
minúcias de tapeçaria.
Mar de Gente abre com o Samba Rezadeiro, parceria com Roberto Didio. “Raiou a cantoria…”, anuncia, prestando homenagem ao gênero maior da cidade em nasceu e vive. Esta influência reaparece em outras faixas, como Penha, ou o samba-de-protesto Mar de Gente, que dá nome ao disco e encerra com um coro de vozes convidadas.
Feita as devidas reverências ao gênero maior, Gabi esparrama seu talento em toadas, cantigas de amor, canções de acento intimista, bolero (Concha, cantado com Áurea Martins), folk com sabor de fox (É), xote com levada de fole (Luzia luzia), samba-de-roda com toque de viola (Morena do Mar).
As parcerias se alternam, renovando as poéticas. Marina Sereno, Silvia Duffrayer, Angélica Duarte, e até um forte poema de Maria Rezende, apenas declamado. A parceira mais constante é Socorro Lira, com quem divide
quatro belos momentos.
Neste conturbado e triste ano de 2020, é bom saber que coisas bonitas continuam sendo produzidas e nos fazem acreditar que a vida pode ser melhor. Mar de Gente é, desde já, um dos melhores discos do ano. Obrigado, Gabi Buarque!

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

 

O cronista Aldir Blanc

Aldir-Blanc-cronista

Abalados pela morte do letrista, compositor e poeta Aldir Blanc (1946-2020), os comentaristas e o público amante da música popular inundaram as redes sociais com versões de seus grandes sucessos, como O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, feitos com o parceiro maior, João Bosco. Jornalistas relembraram sua criatividade, sua verve, suas firmes posições políticas, seu humor sarcástico, sua carioquice. Alguns analistas lembraram a sua capacidade de concretizar em letra de música verdadeiras crônicas, cenas populares, relatos mordazes de situações urbanas.

Nada mais justo, se prestarmos atenção a obras primas como De Frente pro Crime, Incompatibilidade de GêniosA Nível De… ou Siri Recheado e o Cacete, retratos cheios de graça de um certo jeito de ser carioca, entre malandro e trouxa, convivendo com a violência, o desacato, o compadrio, a traição e outros desvios. Bebeu de fontes preciosas, como Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Billy Blanco e mais uns poucos. Não é fácil contar uma história, criar um enredo com abertura e desfecho, em poucos versos.

Mas o enorme compositor-letrista acabou ofuscando o escritor. Aldir Blanc é cronista mesmo, refinado (ou grosso, dependendo da hora), com vários livros publicados. Convidado pela turma do Pasquim, publicou seu primeiro volume de crônicas, Rua dos Artistas e arredores, em 1978. Ali se revelava um arguto investigador dos hábitos, costumes e idiossincrasias populares, herdeiro legítimo de uma tradição que vinha do pioneiro João do Rio, incorporando o inconformismo de um Lima Barreto e compartilhando o senso de humor de um Stanislaw Ponte Preta.

As coletâneas seguintes (Porta de Tinturaria, Brasil Passado a SujoUm Cara Bacana na 19ª, Direto do Balcão) confirmaram o talento literário do compositor-letrista. Sua formação acadêmica (fez medicina, com especialização em psiquiatria) se mesclava em química perfeita com o amor pela literatura, destilando o exímio retratista de tipos humanos, de situações hilariantes, de pequenas e grandes malandragens de um Brasil que se transforma a cada dia, deixando de sorrir e mostrando os dentes. Talvez não escrevesse crônicas, mas diagnósticos…

Reler Aldir Blanc hoje é se reencontrar com esta quase perdida tradição de cronistas satíricos metropolitanos. Os textos de humor crítico migraram para a TV, para as comédias stand-up, para as redes sociais. Apenas Luiz Fernando Veríssimo pode ser comparado, no cenário da literatura brasileira contemporânea.

Mesmo quando Blanc se aventurou por outros gêneros, como memórias (Vila Isabel – Inventário de Infância), livros infantis (Uma Caixinha de Surpresas), ou relatos saborosos em homenagem a seu time de coração (Vasco – A Cruz do Bacalhau), o espírito de “cronista carioca” esteve impregnado de forma indelével. Aldir Blanc ainda será lembrado como um dos mais originais escritores de nossa época, último recriador de um Rio de Janeiro que, depois da pandemia, nunca mais será o mesmo.

(publicado originalmente em A Terra é Redonda)

 

Noel por Mehmari

Noel Mehmari

André Mehmari é um dos mais respeitados músicos brasileiros. Compositor de mão cheia, tem obras sinfônicas gravadas por várias orquestras, e exercita sua imensa musicalidade gravando com várias formações. Também apaixonado pela música popular brasileira, tem inúmeros trabalhos com parceiros como Célio Barros, Hamilton de Holanda, Ná Ozzetti, Sérgio Santos, Chico Pinheiro, Proveta, Teco Cardoso, Rodolfo Stroeter, Neymar Dias e Sérgio Reze, entre outros.

Mehmari conta que numa noite de outubro de 2019, no seu estúdio na Serra da Cantareira, abriu um songbook do Noel Rosa e gravou 26 canções, em ordem alfabética, com direito a improvisos e variações. Boa parte são composições quase desconhecidas, que ganham uma interpretação meditativa, de acento chopiniano. Aqui e ali topamos com melodias conhecidas,como As Pastorinhas, Conversa de Botequim, Pra Que Mentir e Três Apitos. Mas soam como novidade (pelo menos para mim) peças como Ando Cismado, Cabrocha do Rocha, Dona Araci, Não Digas, Retiro da Saudade ou Estrela da Manhã, que dá nome ao conjunto.

O caráter noturno do álbum, denunciado pela bela capa, se acentua nas faixas mais introspectivas, onde a delicadeza do piano esmiuça a profundeza emocional de certas composições de Noel. É claro que em algumas ele foi responsável só pela letra, não pela música, mas sua personalidade musical parece influenciar a criação dos parceiros, mesmo quando tem o porte de um Vadico, Ismael Silva ou Braguinha.

Jazz? Música de câmara? Samba? Não. Música instrumental brasileira de altíssimo nível para públicos especiais, capazes de absorver todas as nuances cromáticas da obra de um mestre, revisitadas por um artista em estado de graça. Certamente a lua anda tonta, com tamanho esplendor…

(Publicado originalmente em www.revistamusicabrasileira.com.br)

O violão-afro-brasileiro de Kiko Dinucci

kikodinuccirastilho

O músico e compositor paulista Kiko Dinucci é figura incontornável no atual cenário musical brasileiro. Multiforme e onipresente, integra ou integrou várias formações que dão um toque de invenção na canção contemporânea. Desde o Duo Moviola até Passo Torto e Metá Metá, passando pelo trabalho com figuraças como Elza Soares e Jards Macalé, Dinucci imprime sua marca pessoal através de canções provocativas, com letras desaforadas e sonoridades incomuns. Quem mais entregaria pra Elza Soares uma canção chamada Pra Fuder?

A herança punk da adolescência, somada à descoberta dos mestres do samba, fez com que o artista desenvolvesse um estilo violonístico original. A pegada rítmica lembra Baden Powell e seus afro-sambas, num primeiro momento. Mas, diferente de um solista, Dinucci mastiga e cospe pequenas frases melódicas que servem de base para as suas canções, quase sempre lastreadas em referências afro oriundas do candomblé. O ritmo comanda a criação, não no sentido dançante de um Benjor, mas no de transe de terreiro.

Em Rastilho, lançado neste início de 2020, Kiko Dinucci reforça seu lado violonista, em composições originais que acentuam as influências do violão brasileiro mais negro, do choro ao batuque. Bordões e primas, atabaque e reco-reco, ora modal ora tonal, o violão saracoteia em busca de uma síntese encantadora e encantatória.

O violão conduz, mas não só. Há canções interpretadas pelo autor e por convidados como Ava Rocha, Rodrigo Ogi e a parceira de longa data Juçara Marçal. Algumas faixas tem o apoio de um coro de yabás modernas, outras mostram um lado mais introspectivo, de solista. No conjunto, um trabalho de grande riqueza timbrística, que comprova a plenitude desse inquieto artista.

Para ouvir: Rastilho

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira,com.br)

Sebastião Biano, 100 anos

Biano

Rolava o ano de 1972 quando Gilberto Gil, de volta do exílio de três anos em Londres, lançou o (até hoje) fantástico disco Expresso 2222. Aprimorando a mistura tropicalista de tradição com modernidade, o LP abria com uma faixa instrumental que para muita gente revelava uma sonoridade estranha, meio sertão, meio medieval. A música era creditada a Sebastião Biano e interpretada pela Banda de Pífanos de Caruaru.

O que parecia ser só uma bizarrice folclórica de Gil revelava, na verdade, um tesouro musical fora da mídia, longe de gravadoras, microfones e holofotes. Surgida no interior de Alagoas em 1924, migrando para Pernambuco em 1939, era uma típica banda familiar, formada para animar os bailes, feiras e festas religiosas que animam a dura vida do nordestino no meio da caatinga.

Caetano colocou letra e batizou a música: Pipoca Moderna. “E era nada de nem noite de negro não/ e era nê, de nunca mais…”. Gravada no disco Jóia de 1975, a letra escancara a influência concretista, mesclada à admiração pela matriz popular, vestida por um sofisticado arranjo de cordas de Perna Fróes. Mas quem era o tal Sebastião, afinal?

A família Biano, como muitas outras, faz parte de uma tradição secular de cultura popular, inserida no contexto (expressão dos anos 70!) por esta geração de artistas que revolucionou a música brasileira. Os integrantes, até hoje, são filhos ou sobrinhos dos fundadores. Fizeram shows no Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 70, e lançaram o primeiro disco em 1972, pela CBS.

Em 1973 Marcus Pereira patrocinou um disco da Banda, pelo seu histórico selo. Os irmãos Benedito e Sebastião, líderes da banda, já eram acompanhados pelos filhos. As melodias de “Esquenta Muié” e “A Briga do Cachorro com a Onça”, de Sebastião Biano, se tornaram populares. Não no sentido radiofônico, mas nas praças e terreiros de todo o Nordeste, assim como “Marcha de Procissão”, do mano Benedito. Os dois tocavam pifes (pífanos) de bambu, feitos por eles mesmos. A filharada acompanhava na percussão. E rodaram o país, tocando em praças, acompanhando cantoras e cantores, animando festas e bares.

Toda essa história parece reminiscência, mas não é. Benedito já se foi, mas Sebastião Biano está fazendo um século de vida, e na ativa. A banda continua tocando (é mais velha que os Demônios da Garoa e os Rolling Stones, acredite!) e se apresentando por aí. Às vezes o fôlego falta, mas tem o apoio do segundo pife, hoje a cargo de Junior Caboclo. A memória guarda muita coisa, e boa parte está registrada no documentário de Helder Lopes, Pipoca Moderna, lançado em junho nos festejos de São João, em Caruaru. Tocou pra Lampião, em 1927, mudou-se para São Paulo em 1979, ganhou um Grammy Latino com a banda em 2004, foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural pelo presidente Lula em 2006 e lançou seu primeiro disco solo aos 96 anos, pelo Sesc, acompanhado por Eder “O” Rocha (percussão), Renata Amaral (baixo) e Filpo Ribeiro (viola e rabeca).

Seu Tião (desculpe a intimidade!), como é bom comemorar o centenário de um cabra da peste tocador, compositor, vivo e com alguns dentes de chupar cana resistindo no sorriso. A festa foi no dia 23 de junho, mas está rolando até agora!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira. Foto, Itaú Cultural).

Renavegando o Moldava

Moldava

Um rio, pela própria natureza, é algo em movimento. Não ocupa apenas um espaço, mas existe no tempo. Alguns poetas cantam o rio que passa em sua aldeia. Outros falam do rio que passou por sua vida, ou daquele marcou sua memória. Os geofísicos, que de vez em quando são poetas, falam de rios aéreos. As águas podem ser violentas, mas e as margens que o comprimem?, perguntou Brecht.

Ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, dizia o grego Heráclito. A música é um rio. Passa por nós, mergulhamos nela, nos atravessa, e nunca é a mesma. Se parecer igual, é uma poça dágua, não um rio.

Dentre os vários rios que atravessei e que me atravessaram, o rio Moldava é uma lembrança permanente. Um rio que cruza a República Tcheca, que nunca vi de perto, mas sinto a suavidade de suas águas cada vez que ouço Vltava (o Moldava), poema sinfônico de Smetana (1828/1884) que descreve sensorialmente o trajeto do rio desde sua origem, formado por dois córregos, o Moldava Frio e o Moldava Quente, até cruzar a capital, Praga.

A biografia de Bedrich Smetana informa que ele morreu surdo e louco. A vida infeliz não impediu que ele escrevesse uma das belas obras musicais do século XIX. A melodia sugere o murmurar de um pequeno curso dágua que vai se encorpando, recebendo gotas de chuva, atravessando vilas em festa, até se tornar grande, imponente. É considerado um hino informal tcheco, e a melodia principal, talvez originária de uma ciranda popular e anônima, acabou transportada para o Oriente Médio, tornando-se o hino nacional israelense.

A versão original é para orquestra, e só ela exprime toda a intensidade desejada pelo angustiado Smetana. Há versões exemplares das Sinfônicas de Berlin, de Londres e da Filarmônica de Tóquio. Mas o que motivou esse pequeno texto foi uma versão para harpa, interpretada de forma magistral por Valérie Milot, que me fez mergulhar nesse rio como se fosse a vez primeira.

E foi, e é, e será, como queria Heráclito.

Clique aqui para ouvir: Moldava


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