Archive for the 'Resto de Tudo' Category

Ofélia no século XXI

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Um dos mais famosos quadros do século XIX é Ophelia, do britânico John Everett Millais (1829-1896). Inspirado em Shakespeare, representa a enlouquecida amante de Hamlet, que se deixa afogar após saber que este assassinou seu pai. A cena brutal é suavizada por um cenário primaveril, onde flores flutuam junto ao corpo inerte da jovem. Imagine um corpo boiando no rio Tietê e terá uma noção de como o artista romantizou o tema.

A história reporta que Millais contratou uma modelo para ficar imersa numa banheira durante dias, até conseguir reproduzir os cabelos e vestes flutuantes. Elizabeth Siddal quase morreu de pneumonia, mas acabou tendo as despesas médicas pagas pelo artista, e como acabou se tornando artista também, acabou perdoando a obsessão realista de Millais. Anos depois, também se suicida, e me pergunto porque até hoje isso não rendeu um livro ou um filme na velha Albion.

Pois hoje vejo, nesse Aleph vertiginoso que é a internet, uma nova versão da morte de Ofélia. Não sei quem é o artista, mas gostaria de saudar sua verve amarga, seu senso de humor refinado e macabro, tão adequado ao século XXI. Hoje, 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente.

Ofélia

 

 

 

 

 

 

Hiperrealismo reacionário?

hiperrealismo

Os artistas demoraram 30 séculos para se libertarem da obrigação de copiar a realidade com perfeição. Alguns mestres do período clássico já retorciam formas, inventavam seres imaginários, paisagens fabulosas, mas ainda se atinham ao figurativismo mimético.
O século XIX, romântico por excelência, expandiu os limites. Linhas foram tornando-se tênues, cores misturando-se com formas, até que o Impressionismo floresceu como uma bruta flor sensorial, mágica, mas com raízes na realidade.
E veio o Fauvismo, o Cubismo, o Expressionismo, o Suprematismo, o Surrealismo, e o século XX destampou a caixa do Abstracionismo. O artista podia inventar formas, não apenas copiá-las!
Como a música dodecafonista ou a poesia automática dos surrealistas, a coisa durou alguns anos e se esgotou (será?). Quando não há limites, não há parâmetros de comparação (será?).
Tudo isso me veio à mente depois de visitar a exposição 50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual, que está no CCBB de São Paulo.
Será um movimento reacionário das artes? Voltar à cópia “perfeita” da realidade é um retrocesso? Rostos perfeitos, corpos que parecem vivos, paisagens que (quase) se podem tocar, são arte? Cópia? Simulacro?
Desconfio de que no final do século XIX isso seria visto com desprezo. Hoje, com nossa bagagem cultural acumulada, não estamos vendo apenas uma réplica do real, mas uma réplica com uma carga histórica por detrás. Como se o autor nos dissesse “veja, estou retomando os ideais renascentistas com todas as técnicas e materiais que o século XXI nos oferece, e isso é novo!”
Vale a visita, e vale refletir sobre este século que não inventa, mas tenta reinventar.
(escultura de Giovani Caramello, artista de Santo André, SP)

Os anjos mulatinhos

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Manuel da Costa Ataíde é justamente reconhecido como o maior pintor do Barroco brasileiro. Contemporâneo de Aleijadinho, mestre Ataíde fez da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, a sua Capela Sistina. A Assunção da Virgem representada no teto da igreja, projetada por Aleijadinho, é a mais importante obra pictórica do século XVIII em terras tupiniquins.
Pesquisadores, historiadores, sociólogos, polemistas, estudiosos e poetas em geral não cansaram de elogiar a ousadia do mestre ao representar anjos mulatinhos em torno de Nossa Senhora. Era o marco inaugural de uma arte brasileira, mestiça, independente, que subvertia o consagrado padrão europeu.
O mito quase foi destruído no século XX, quando a primeira grande restauração da Igreja, na década de 1970, retirou camadas seculares de fuligem, carvão e poeira do teto, revelando anjinhos louros e pálidos como seus modelos coloniais. O fato causou grande agitação entre os racistas brasileiros, que festejaram, e os ativistas negros, que lamentaram.
A reputação de Mestre Ataíde foi salva quando a limpeza da própria imagem de Nossa Senhora revelou um rosto inconfundivelmente mulato, que cronistas mais ousados dizem ter sido inspirado em sua mulher.
Em pleno século XXI, observando com atenção os anjos de Mestre Ataíde, constatamos que a cor da pele, às vezes, não significa nada. Já o traço…

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Uma resenha possível

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 Mergulhar na arte de Escher é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

torre de babel

Escher pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

wallup.net

Acima de tudo, Escher é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

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Mergulhar na arte de Edmar Monteiro Filho é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

Dia e noite

Edmar pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

Ordem e Caos

Acima de tudo, Edmar é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

livro do edmar

(Atlas do Impossível, Ed. Penalux, 244 p. Quinze contos inspirados em gravuras de M C. Escher).

A Chegada e seu desafio

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Você conhece a hipótese de Sapir-Whorf? Criada nos anos 30 por Edward Sapir e Benjamin Whorf, também ficou conhecida como relativismo linguístico, e influenciou antropólogos, linguistas, semiólogos e psicólogos por algumas décadas.

            Parte de uma proposição do naturalista Humboldt (1767/1835), de que o homem aprendeu primeiro a linguagem, e depois a pensar. Ou seja, é impossível haver pensamento “puro”, uma vez que ele só pode ser expresso através da linguagem.

            Sapir e Whorf desenvolveram esta linha de raciocínio sugerindo que o universo cultural em que as pessoas estão imersas determina sua compreensão do mundo. Dando um exemplo simplista, se uma tribo primitiva só tem seis palavras para definir as cores (branco, preto, azul, amarelo, vermelho e verde), literalmente eles só enxergam estas cores. Não existem nuances, já que não há palavras para exprimi-las. Quando estes indivíduos aprendem uma nova língua, seu universo sensorial se amplia, e eles passam a enxergar coisas que não viam antes.

E nem precisa ser primitivo! Digamos que você aprendeu, em inglês, a palavra serendipity, que não existe em português. Significa algo como a felicidade de encontrar algo que você não estava procurando. Uma mistura de surpresa e satisfação. Você incorpora este novo sentimento ao seu repertório, passa de fato a sentir isso. Ou, no sentido inverso, um inglês que aprende a palavra saudade, em português.

            Agora, esqueça tudo isso. Esta hipótese hoje está superada pelo chamado cognitivismo, uma teoria mais ampla, que utiliza ferramentas mais modernas, como sistemas de processamento da informação. Mas suas marcas ainda persistem em certas áreas, principalmente a antropologia funcionalista e a literatura de ficção. Ponto de partida rico para explorações indagativas, o encontro entre culturas e civilizações diferentes costuma render boas histórias.

            É sobre a hipótese de Sapir-Whorf que é construído o filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve. Só que aqui a tribo primitiva somos nós, “civilizados” do século XXI, perante a visita de misteriosos seres alienígenas. Doze naves de aspecto estranhamente rústico (parecem conchas de pedra, escuras e rugosas) surgem simultaneamente em vários pontos do planeta. As grandes potências mobilizam suas armas, na iminência de um ataque. As tentativas de comunicação são infrutíferas, pois os sons emitidos pelos visitantes parecem apenas grunhidos em baixa frequência.

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            Entra em ação a protagonista, Louise Banks (Amy Adams, em interpretação densa e angustiada), uma linguista, que é convocada pela Nasa para tentar se comunicar com os alienígenas. Formará uma dupla com o físico Ian Donelly, vivido pelo ator Jeremy Renner. Juntos, fazem contato com os enigmáticos Heptapods, que utilizam uma sofisticada linguagem iconográfica, baseada em círculos de bordas irregulares.

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            Circularidade. Este é outro conceito-chave do filme. A doutora Banks é afligida por um drama pessoal, mostrado em aparentes flashbacks, de forma intensa e dolorida. À medida que vai decodificando a linguagem circular dos alienígenas, vai ressignificando o mundo/a vida de uma nova forma. Presente, passado e futuro se interpenetram de forma engenhosa, e o drama individual reflete-se no coletivo. A humanidade pode se autodestruir, se ela não entender o que está se passando.

            Baseado num conto de Ted Chiang, a história carrega uma mensagem pacifista: se não compreendermos o que queremos, quem somos, vamos nos aniquilar. “Na guerra não existem vencedores, só viúvas”, ensina uma frase (em mandarim) pronunciada em momento crucial do filme. O diretor optou por uma estética visual sombria, enevoada, bem distante dos brilharecos habituais da ficção científica, direcionando nossa atenção para o texto, o enredo, o desafio mental proposto.

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            Indicado para várias categorias no Oscar 2017, levou apenas um prêmio secundário, como era de se esperar. É um filme muito mais “europeu” que americano, aspira a ser Tarkovski e não Spielberg, embora fale de contatos imediatos de terceiro grau. Suas preocupações não são tecnológicas, mas existenciais, como sempre ocorre na melhor ficção científica. A Chegada certamente não é um filme perfeito, mas belo, pungente e necessário. Já é um clássico, entre filmes tão lineares como seus concorrentes.

Arrival trailer

Alpharrabio, 25 anos

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Há 25 anos eu trabalhava em Santo André, na região do ABC paulista. Morava em São Paulo, e ia de trem todos os dias. A grana era curta, mas era foi um período muito rico em experiências. Participava de um governo popular, com propostas inovadoras e muita vontade de acertar.

            21 de fevereiro de 2002. Fim de tarde, quando encerrava o expediente na Secretaria de Cultura, alguém veio me chamar para um evento diferente: festa de inauguração de um novo sebo-livraria na cidade, o Alpharrabio. Quem convidava era a poeta, escritora e agitadora cultural Dalila Teles Veras.

            Não recordo de muitos detalhes, confesso, mas lembro da casa cheia, alguns conhecidos, muitos desconhecidos. Até o prefeito Celso Daniel passou por lá, naquela noite. Bebidinhas, boas conversas, abraços, mas eu tinha que pegar o trem antes que fosse muito tarde. Foi bonita a festa, pá!

            Na década seguinte, saí e voltei para Santo André algumas vezes. A Alpharrabio cresceu, tornou-se um ponto de referência no ABC. Criou uma editora com mais de 200 títulos publicados. Muito mais que um sebo, é um verdadeiro centro cultural. Rolam shows de música, espetáculos de dança, teatro, exposições de artes plásticas e, claro, eventos literários. Lançamentos, debates, tertúlias, saraus, homenagens e comemorações diversas. Por ali passou uma lista extensa de artistas e intelectuais, nacionais e internacionais.

            Encontrei-me com a Dalila várias vezes. Chegamos a trabalhar juntos durante um ano, quando gravamos um quadro semanal para o programa ABCD Maior, veiculado pela Rede TV!, aos domingos. O assunto? Cultura, claro.

                        Quando terminei o primeiro romance, Terno de Reis, há dois anos, fiz questão de fazer um lançamento no ABC, cenário de boa parte da trama. E não poderia ser em outro lugar senão o Alpharrabio! Em São Paulo, essa metrópole onde moro há mais de 40 anos, não conheço um lugar com as mesmas características: amistoso, convidativo e estimulante.

Alpha 2

            No último sábado, dia 04 de março, rolou a festa dos 25 anos. Um quarto de século! E não faltaram amigos, sorrisos, brindes e abraços. Bom reencontrar a onipresente Maninha, rever o grande Teles, conversar com os novos e antigos amigos. Nem vou nomear todos os conhecidos, pois corro o risco de esquecer algum. Como lembrou a Dalila, citando o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, o Alpha é um lugar onde todos se abraçam e confraternizam, em torno de um projeto cultural.

Alpha 1

Num país fragilizado, onde a cultura está sendo relegada a segundo plano, onde livrarias estão fechando, onde governos cortam verbas para a educação, onde o futuro está sendo rifado a preço vil, é um alento ver que um grupo de sonhadores insiste em construir, formar, produzir, compartilhar artes e saberes. Que venham mais 25 anos. Resistiremos!

(Fotos: Wilson Rodrigues)

Jornalismo-de-retratinho

cabeca-de-porco

             O que levou o jornalismo a níveis tão baixos quanto os que vemos hoje nos jornalões, rádios e emissoras de TV? Como pode o avanço tecnológico ter aberto a porteira para tanta mediocridade, mau-caratismo e bajulação? Em que momento foi que as escolas de jornalismo – policiadas em tempos de ditadura por serem “antros de esquerda” – passaram a formar tantos direitistas, conservadores e reacionários?

               A profissão de jornalista surgiu como uma necessidade social, e não demorou muito pra ser reconhecida. Claro que antes disso havia os arautos, os narradores, os cantadores de feira, os fofoqueiros, os emissários do rei, os pichadores de muros (sim, são mais antigos que o jornalismo!).

                Com a invenção de Gutemberg, passaram a existir como profissão. Relatores de notícias, no início. Com o tempo, alguns se tornaram colunistas, outros até editorialistas. Mas, até o final do século XX, constituíam um grupo quase secreto, desconhecido do grande público. O anonimato lhes garantia a possibilidade de se misturar ao povo, ouvir conversas em bares, clubes e reuniões sociais, partidos políticos e sindicatos. Quem conhecia algum jornalista pessoalmente já adquiria um status, positivo ou negativo. Poderia delatá-lo ou abrir portas. O prestígio do jornalismo cresceu tanto que, ainda no mesmo século, passou a ser chamado de Quarto Poder.

                A partir dos anos 50, a TV transformou o jornalista em estrela. Aquele sujeito ou sujeita que aparece todo dia no horário nobre passa a ser tietado em aeroportos, restaurantes e hotéis, fotografado, idolatrado, vira assunto de revistas de fofocas, pedem autógrafos quando ele é visto em praça pública. Aliás, pediam, no século passado. Hoje fazem selfies.

                A explosão da internet revolucionou completamente o trânsito de informações no planeta. A tiragem dos jornalões e revistas semanais desabou, e rapidamente criaram sites para recuperar o prejuízo. Surge aí o jornalismo-de-retratinho, imitando a TV, onde cada colunista ganha forma, sorriso ou carranca. A mídia impressa adotou o conceito, e cada vez mais se vê o jornalismo-de-retratinho estampado nas colunas, matérias e comentários. Na rede, nas revistas, na mídia em geral.

                E o jornalista da mídia impressa, da internet, se tornou uma celebridade! Qual o artista que não quer ter seu retrato publicado no jornal diariamente? Músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos, escritores, ninguém consegue. Mas jornalista, sim. São tietados em aeroportos, restaurantes e hotéis, etc.

                Esse personagem não pode mais investigar uma notícia. Não pode entrar numa assembleia, num café, numa passeata, num congresso, num estádio de futebol, e fazer seu trabalho de observador-analista. É um simulacro de jornalista, um mero apresentador de notícias, um talking head. O mais trágico: virou notícia. O povo quer saber o que ele faz nas horas de lazer, o que come, por que casou, por que descasou. Um jornalista nunca deveria ser notícia, já dizia um dos pioneiros da profissão.

                A vaidade é um dos sete pecados capitais, como sabemos. E cada vez mais vemos jovens entrando numa faculdade de jornalismo não para enfrentar governos, revelar esquemas de poder ou investigar crimes, mas para ter… um retratinho nos jornais! Essa vaidade é naturalmente explorada pelos donos de empresas de comunicação, cujos interesses são bem outros. Informação é negócio, é jogo de interesses, é mercadoria. E o(a) jovem que quer ter o retratinho em destaque vai aprender rapidinho o jogo do poder para alcançar seu objetivo. Bajular os patrões e latir para os inimigos dos patrões.

               “O tempora! O mores!”, como diria Cícero (106-43 a.C.), político e orador romano que não ficaria mal na galeria de precursores do jornalismo.


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