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Manguebeat revisitado

Pense numa pessoa que se envolve profundamente com a música de sua geração, a ponto de transformá-la em motivo central de sua carreira acadêmica. Assim é Luciana Mendonça, que publicou em 2020 este ensaio sobre o manguebeat, o movimento musical gestado em Recife que se tornou uma das mais influentes correntes culturais da década de 1990.

Surgido como tese de doutoramento pela Unicamp, em 2004, o trabalho se estendeu com o acompanhamento da cena mangue (expressão cara à autora) e acabou gerando uma detalhada análise sobre o impacto cultural, ético, político e estético, causado pela turma de Chico Science e Fred Zeroquatro, à frente das bandas fundadoras Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.

Cumprindo o rito acadêmico, o livro é balizado por um conjunto de referências sociológicas que dão munição ao debate sobre indústria cultural, massificação, identidade nacional, cultura popular e modernidade. Autores como Adorno, Benjamin, Eco, Canclini, Hobsbawm e, principalmente, Bordieu e Stuart Hall, fundamentam os arrazoados sobre cultura e mercado, nacional e estrangeiro, erudito e popular, música autêntica e world music.

Luciana costura com habilidade esses teóricos com os pesquisadores brasileiros que se debruçaram sobre a música popular. Estão lá os questionamentos de Tinhorão, Suassuna, Vianna, Sandroni (autor do prefácio), Wisnick e outros, junto com o material “quente” de dezenas de artigos, entrevistas, ensaios e manifestos, muitos surgidos do próprio movimento.

A autora mudou-se para Recife, e hoje é professora de Sociologia e Pós-Graduação em Música da UFPE. Mas, atenção: não é uma musicóloga, e sim uma mestra em antropologia social, que estuda o impacto sociocultural do chamado manguebeat sobre Pernambuco, abordando temas como revalorização do folclore, projetos sociais, dança, moda e redefinição dos espaços de vivência cultural da cidade de Recife.

Não esperemos análises de composições, estrutura musical ou elementos melódicos e harmônicos. Aqui a música popular é tratada como um produto social, um fenômeno de viés identitário capaz de portar mensagens impactantes e motivadoras. Ou, em outros cenários, como anestesiadora de conflitos e maquiadora da realidade.

Um dos capítulos mais interessantes do livro é quando são levantadas e discutidas as comparações do movimento mangue com a axé music baiana, analisando a velha rivalidade Recife x Salvador. O impacto social do Olodum, que introduziu uma nova estética, criou um mercado próprio e turbinou a música baiana, transformando-se num projeto com várias vertentes, levou a comparações com a cena mangue, muitas vezes impróprias. A principal diferença é o forte componente de identidade racial do movimento baiano, de valorização da cultura negra.

Os “caranguejos da lama” apostaram na mistura, na miscigenação, na busca de elementos da música pop mundial (rock, rap, reggae e outras), sobre uma base percussiva oriunda dos maracatus. Mas não só: a pesquisa da autora incorpora músicos tão diversos quanto os cultores do punk-rock do Alto José do Pinho (principalmente os Devotos), o rabequeiro Siba e a banda Mestre Ambrósio, a cirandeira Lia de Itamaracá, DJ Dolores ou os posteriores Mombojó e Cascabulho. Luciana Mendonça constata que a cena mangue criou condições para a convivência de todas estas ramificações, reunindo-os em festivais como o Rec-Beat, que rola durante o Carnaval.

Outro capítulo provocante é quando a autora aborda as relações conflituosas entre o movimento Armorial, capitaneado por Ariano Suassuna, e o mangue. Tradição versus modernidade? Erudito x popular? O próprio Suassuna, durante seu período como secretário de cultura de Recife (1994/98), estabeleceu diálogos e criou algumas condições (verbas) para os mangueboys. No entanto, em público sempre deu declarações ácidas contra as misturas promovidas por Chico Science e Zeroquatro. Mas no velório de Chico (1997) estava lá, contrito, derramando sua lágrima pelo jovem catalisador de energias criativas.

Contraditório? Claro, mas como bem sublinha a autora do estudo, o panorama cultural pernambucano é cheio de contradições. Em certa medida, ela parece demonstrar que as contradições são o próprio motor de transformação, pois do atrito de ideias surgem faíscas que podem gerar uma nova combustão.

Podemos traçar paralelos do caso pernambucano com outros cenários brasileiros: samba tradicional x pagode, escolas de samba x MPB, música caipira x sertanejo, invenção x tradição. Do choro ao pop, da bossa nova ao jazz, as inovações nunca surgiram sem superarem vários obstáculos ideológicos, sociais e financeiros. Mas poucas vezes veremos estes conflitos serem expostos de maneira tão consciente e minuciosa quanto nesse livro, desde já fundamental para os estudos de nossa música popular e suas transformações.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda e Revista Música Brasileira).

Jornalismo-de-retratinho

O que levou o jornalismo a níveis tão baixos quanto os que vemos hoje       nos jornalões, rádios e emissoras de TV? Como pode o avanço tecnológico ter aberto a porteira para tanta mediocridade, mau-caratismo e bajulação? Em que momento histórico foi que as escolas de jornalismo – policiadas em tempos de ditadura por serem “antros de esquerda” – formaram tantos direitistas, conservadores e reacionários?

A profissão de jornalista surgiu como uma necessidade social, e não demorou muito pra ser reconhecida. Claro que antes disso havia os arautos, os narradores, os cantadores de feira, os fofoqueiros, os emissários do rei, os pichadores de muros (sim, são mais antigos que o jornalismo!).

            Com a invenção de Gutemberg, passaram a existir como profissão. Relatores de notícias, no início. Com o tempo, alguns se tornaram colunistas, outros até editorialistas. Mas, até o final do século XX, constituíam um grupo quase secreto, desconhecido do grande público. O anonimato lhes garantia a possibilidade de se misturar ao povo, ouvir conversas em bares, clubes e reuniões sociais, partidos políticos e sindicatos. Muitos usavam pseudônimos. Quem conhecia algum jornalista pessoalmente já detinha certo poder, positivo ou negativo. Poderia delatá-lo ou abrir portas. O prestígio do jornalismo cresceu tanto que, ainda no século passado, passou a ser chamado de Quarto Poder.

            Com o advento da televisão, o jornalista passou a ter um rosto, e virou estrela. Aquele sujeito ou sujeita que aparece todo dia no horário nobre passou a ser tietado em aeroportos, restaurantes e hotéis, fotografado, idolatrado, virou assunto de revistas de fofocas, pedem autógrafos quando ele é visto em praça pública. Aliás, pediam, no século XX. Hoje fazem selfies.

            A explosão da internet, como sabemos, revolucionou completamente o trânsito de informações no planeta. A tiragem dos jornalões e revistas semanais desabou, e rapidamente os empresários de comunicação criaram sites para recuperar o prejuízo. Cresce aí o jornalismo-de-retratinho, imitando a TV, onde cada colunista ganha forma, sorriso ou carranca. A mídia impressa adotou o conceito, e cada vez mais se vê o jornalismo-de-retratinho estampado nas colunas, matérias e comentários. Na rede, nas revistas, nos jornais, na mídia em geral. 

            E o jornalista se tornou uma celebridade. Qual o artista que não quer ter seu retrato publicado no jornal diariamente? Músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos e escritores tentam, poucos conseguem. Jornalista, sim. A receita de abobrinha assada, a fofoca do meio artístico, a intriga palaciana ou a análise econômica é encimada pelo retratinho. São tietados em aeroportos, restaurantes e hotéis, etc.

            Esse personagem não pode mais investigar uma notícia. Não pode entrar numa assembleia sindical, num café, numa passeata, num congresso, num estádio de futebol, e fazer seu trabalho de observador-analista. É um simulacro de jornalista, um mero apresentador de notícias, um talking-head. O mais trágico: virou notícia. O povo quer saber o que ele faz nas horas de lazer, o que come, por que casou, por que descasou. Um jornalista nunca deveria ser notícia, já dizia um dos pioneiros da profissão.

            Isso explica o ocaso do jornalismo investigativo na grande imprensa. Para fazer uma investigação decente, aprofundada e imparcial o jornalista (ou o detetive) tem como uma de suas principais ferramentas o anonimato. Seu rosto não pode ser reconhecido, sua vida privada não deve estar exposta. Mas a vaidade é um dos sete pecados capitais, como sabemos. E cada vez mais vemos jovens entrando numa faculdade de jornalismo não para enfrentar governos, revelar esquemas de poder ou investigar crimes, mas para ter… um retratinho nos jornais! Essa vaidade é naturalmente explorada pelos donos de empresas de comunicação, cujos interesses são bem outros. Informação é negócio, é jogo de interesses, é mercadoria. E o(a) jovem que quer ter o retratinho no jornal vai aprender rapidinho o jogo do poder para alcançar seu objetivo. Abanar o rabo para os patrões e latir para os inimigos dos patrões.

 “O tempora! O mores!”, como diria Cícero, político e orador romano que não tem nenhum retrato na galeria de precursores do jornalismo. “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, complementaria Santo Agostinho…

(Publicado originalmente no Fósforo, em 2016, com alterações).

O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

Chavão abre porta grande

O título desse artigo é um verso escrito pelo genial compositor Itamar Assumpção, e gravado no disco Sampa Midnight – Isto Não Vai Ficar Assim, de 1986. Se figurasse num pagode qualquer, ou num sucesso sertanejo, seria apenas um trocadilho raso. Mas vindo de um artista que sempre recusou o lugar comum, procurando uma estética própria e fora das regras de mercado, ganha profundidade insuspeita.

Não é preciso ser doutor em linguística para constatar a pobreza literária e semiótica da música feita atualmente “pra tocar no rádio”. Não é um fenômeno brasileiro, mas mundial, uma vez que a mídia cada vez mais uniformiza gostos e hábitos de consumo. Mas no Brasil a indigência contrasta com a exuberância de um passado recente: há poucas décadas as letras de música disputavam com mais refinada poesia a melhor tradução de sentimentos, atitudes, dores e alegrias do povo brasileiro. Os gigantes que semearam a moderna MPB, somados aos mestres inquietos que, de norte a sul, do baião à milonga, da toada ao samba de roda, nos surpreendiam com achados verbais, imagens inusitadas e rimas de cortar os cabelos e arrepiar o coração, estão cada vez mais afastados do grande público, sendo cultuados em nichos cada vez mais restritos.

Por trás do verso de Itamar está sua própria trajetória artística. Compositor fora dos padrões, “maldito”, como se dizia na época, não se enquadrava. Fizesse uma canção com refrão fácil, que todos ouvissem no rádio e cantassem, era o pedido das gravadoras. Um samba, por que não?, afinal não era negro? O chavão iria abrir portas grandes, certamente: emissoras de rádio e TV, programas de auditório, paradas de sucesso.

Mas Itamar Assumpção era de outra cepa, e resistiu. Criador de inspiração desconcertante, irônico e atilado, a massa certamente não comerá o biscoito fino que fabricou. Mas sua intuição certeira acabou por nos fornecer um slogan perfeito para a época em que vivemos, de diluição completa de estéticas e experimentações.

Tomemos o discurso político, por exemplo. Não há definição mais perfeita, nas eleições que acabamos de presenciar, do que “chavão abre porta grande”. O discurso criativo, o uso inteligente do humor, a vontade de abrir novos caminhos, a investida contra valores arraigados, foram derrotados. Onde a esquerda ganhou foi com políticos experientes, escorados num discurso já conhecido (*). Não é pouco, no país do bolsonarismo de matizes fascistas, mas mostra o quanto ainda falta para que uma renovação de fato se solidifique no discurso político.

Nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema ou na música, o axioma de Itamar Assumpção continua válido. O chavão continua abrindo portas grandes, seja de gravadoras, editoras, emissoras, corporações multinacionais ou palácios do governo. 

Um dos grandes embates do século XXI é este confronto entre a invenção e a reprodução de modelos. Não sabemos se nosso futuro será desenhado por algoritmos, calcados em estatísticas e invasão de privacidade, ou ainda estará sujeito a alterações provocadas pela vontade criadora de alguns poucos.

Enquanto isso, lutemos para que os verdadeiros inovadores do discurso possam ser ouvidos pelas futuras gerações. De Itamar Assumpção a Greta Thunberg, de Luiz Melodia a Guilherme Boulos, temos vários exemplos de que a linguagem não caminha separada das ideias, como diziam os velhos Marx e Engels. Aliás, jovens revolucionários, em sua época.

(*) Obviamente o resultado eleitoral não resultou apenas do grau de modernidade do discurso. O poder econômico, a manipulação midiática e o conservadorismo de base religiosa ainda são fatores preponderantes no cenário eleitoral brasileiro.

(Publicado originalmente em http://www.aterraeredonda.com.br)

Cantar é preciso

Fiz essa foto no Parque da Água Branca, em São Paulo, num sábado de primavera. Fui abastecer a despensa na Feira da Reforma Agrária, e aproveitar para ouvir umas violas, aplaudir umas danças, apreciar o artesanato e conversar com gente de todo o país.

Não gente comum, mas a brava gente do MST: agricultores e agricultoras, assentados e organizados em cooperativas, cozinheiros, artesãos, dançantes e brincantes de colorida diversidade. Saudade destas feiras, hoje suspensas por causa da pandemia que desgraça nosso povo e expõe a omissão criminosa de tantos governantes.

Depois de perambular por quase duas horas, mãos carregadas de sacolas, já batia em retirada quando topei com um grupo informal de jovens que cantava. Não no palco oficial, não com microfones e amplificadores, mas no chão, no meio do povo. Coisa forte, bonita de se ver e ouvir.

Mais que nunca é preciso cantar, escreveu Vinicius nos anos 60. Cantar é preciso? Como, se viver não é preciso? Talvez porque cantar seja como navegar por outras esferas, e chegar a porto seguro requeira ensaio, treino, direção. Mas cantar de forma espontânea também pode ser lindo, e ver aquele grupo de jovens cantando como quem tem um novo mundo a construir foi um alento. Saí do parque cantando baixinho, remontando os escombros do velho mundo a que pertenço.

(São Paulo, SP, outubro de 2015.) 

O elogio da burrice

Assistir à série O Gambito da Rainha pode deixar quem tem mais de quarenta anos um tanto melancólico. Trata-se da a história de uma garota que, no final dos anos 50 e década de 60, se destaca no xadrez, vencendo campeonatos importantes nos EUA e indo disputar torneios na Europa. A hegemonia da época era dos russos, considerados imbatíveis. A juventude dos anos 60 se interessava pelo jogo, sabia o nome dos campeões mundiais, jornais e TVs relatavam as finais eletrizantes. Meio mundo acompanhou o match Fischer x Spassky, em 1972, com o cenário da Guerra Fria por trás. Aliás, havia coluna de xadrez nos jornais, e até revistas especializadas, como bem ilustra a série.

Saltemos para 2020. Os jovens de hoje acompanham e sabem os nomes de lutadores de MMA, aquela imbecilidade que alguém já definiu como dois homens de cueca se agarrando dentro de um galinheiro. Desapareceram as colunas de xadrez, e até mesmo as palavras cruzadas.

Claro, gostávamos (e aqui me incluo) também de esportes, Olimpíadas, futebol tricampeão, São Silvestre, vôlei e até boxe. Alguém sabe quem é o campeão mundial de boxe hoje? Nos anos 60-70-80 todos sabiam. Mesmo sendo um esporte bruto, os homens vestiam luvas de couro estofadas para não ferir o rosto do opositor. E tínhamos Muhammad Ali, campeão inconformado, símbolo de resistência negra ao sistema. Quem é contra o status quo no UFC? Aliás, há algum jogador de futebol rebelde e politizado hoje, no Brasil? Só a jogadora de vôlei Carol Solberg esboça um solitário protesto, e será “cancelada” pela ditadura midiática por um largo tempo.

Não, a juventude de hoje não é culpada por não saber dessas coisas. É a mídia globalizada, aliada a interesses econômicos e políticos, que passou a definir os gostos e escolhas. Fez sumir o xadrez, as palavras cruzadas e desidratou os cadernos literários dos jornais. A imprensa atual é como um supermercado pobre, de um cafundó qualquer perdido no mundo, que só oferece uma marca de macarrão nas prateleiras. O consumidor sobrevive achando que só existe aquilo.

O esquema midiático contemporâneo guindou às manchetes o que, no século XX, era considerado o esgoto do jornalismo: a fofoca sobre a vida íntima de artistas e personalidades, a exaltação do físico em detrimento do intelecto, a manipulação de dados, a despolitização, a propaganda descarada dos interesses financeiros. Abra o portal de qualquer um dos maiores veículos da mídia contemporânea (G1, Uol, et caterva) e meça o espaço destinado à cultura, ao debate de ideias, à discussão dos problemas reais da nação, comparando com o espaço destinado à fofoca, aos vídeos idiotas, aos crimes mais banais. Há até colunas que se dedicam a comentar programas execráveis como BBB e A Fazenda, reality shows que fariam os criadores da televisão morrerem de vergonha, se é que tiveram alguma.

Nas faculdades de comunicação do século XX havia matérias como Deontologia e Ética. Parece que desapareceram nos cursos atuais. Perdeu-se algo no caminho, e isso é mais um dos sintomas da grave doença que acomete o jornalismo atual. Gerações sendo (de)formadas pela mídia mais mercenária, cultivando o individualismo, a arrogância e o desprezo por causas sociais. O (ou a) jornalista sai da faculdade sem saber quem foi John Reed, mas sonha em cobrir um desfile de moda ou festival de música com direito a lanche grátis.

O estrago é mundial, e não há como dissociar isso do avanço do conservadorismo, do totalitarismo, do fanatismo religioso no século XXI. No Brasil, o projeto de renovar os meios de comunicação do país, animado pelo avanço democrático da era Lula, foi enterrado junto com as conclusões da Conferência Nacional de Comunicação, em 2009. Depois de mobilizar dezenas de entidades, sindicatos, associações, universidades, patrões e empregados, engavetaram as indicações que iriam atualizar um marco regulatório vigente desde 1962. É esse que continua em vigor, em pleno ano de 2020, mantendo os privilégios da velha e oligárquica imprensa monopolista, colonizada e vil.

Entre outros pontos, a Confecom propunha cotas regionais de produção audiovisual, respeito à diversidade, direito de resposta, fim da propriedade cruzada de veículos (como nos EUA), criação de canais audiovisuais municipais, estaduais e federais com verba pública geridas por conselhos comunitários. Considerando que haverá eleições presidenciais em 2022, não seria o caso de recolocar, desde já, este tema na pauta de todos os candidatos de esquerda? A palavra de ordem já existe faz tempo: democratização dos meios de comunicação, já!

Ilustração: Sofonisba Anguissola (1532-1625).

A Redescoberta de Noel Nutels

“Os índios vem tentando pacificar os civilizados há 500 anos. Até hoje não conseguiu.”

Uma das mais emblemáticas figuras da luta em defesa dos indígenas brasileiros é, sem dúvida, Noel Nutels. O “Índio cor-de-rosa”, como bem o definiu o escritor Orígenes Lessa, foi uma personalidade fascinante, um judeu emigrado da Ucrânia que veio menino para Recife, onde cresceu e formou-se em Medicina. 

Nutels faz parte de um seleto grupo de “médicos intérpretes do Brasil” (1), profissionais que mergulharam profundamente nos problemas nacionais buscando soluções que envolvessem toda a sociedade, indo a campo, enfrentando governantes e ditadores, criando novos métodos e abordagens, propondo uma visão humanista das questões de saúde. Ombreia-se com gente do calibre de Nísia da Silveira, Carlos Chagas, Vital Brazil, Oswaldo Cruz e Sérgio Arouca, entre outros.

Em 1943 Nutels integrou a primeira expedição Roncador-Xingu, como médico oficial, e esta missão mudou para sempre a sua vida. Companheiro de jornadas dos irmãos Villas-Boas, passou a defender os povos indígenas em todas as instâncias, enquanto organizava ações para a erradicação de doenças levadas pela “civilização” e, principalmente, da tuberculose. Em 1951 tornou-se médico do SPI, Serviço de Proteção ao Índio (entidade que antecedeu a Funai), que chegou a dirigir entre 63 e 64.  Em 1957 criou no ministério da Saúde o Susa, Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas, que atuava na região amazônica.

Mais que uma vida onde combateu o bom combate, a personalidade fascinante de Nutels ganhou a admiração de intelectuais, artistas e políticos. Além do romance biográfico de Origenes Lessa (2), o sanitarista também motivou a inspiração do escritor gaúcho Moacyr Scliar, médico, humanista e judeu como ele. (3)

Nem conseguimos imaginar o que Noel Nutels estaria pensando se vivesse no Brasil de 2020. A única certeza é que não se conformaria com a política genocida do governo neo-militar, e iria à luta. São de atualidade impressionante as suas palavras em depoimento à CPI do Índio, em 1968 – plena ditadura – na Câmara dos Deputados: “A essa hora alguém está matando um índio. É a cobiça da terra, é a cobiça do subsolo, é a cobiça das riquezas naturais. É um vício de estrutura econômica. Enquanto terra for mercadoria e objeto de especulação vai se matar índio. A quem interessa o crime?”.

Mas a batalha pela causa indigenista e pela memória dos verdadeiros heróis desse país ganha esta semana uma importante contribuição. Estreia no festival Olhar de Cinema o documentário O Índio Cor de Rosa contra a Fera invisível: a Peleja de Noel Nutels (4).Fruto de um edital da Fiocruz de 2018, os jovens realizadores souberam aproveitar com inteligência as dezenas de horas filmadas pelo próprio Nutels durante seu trabalho de campo. A linha condutora é o próprio depoimento à CPI de Brasília, único registro conhecido da própria voz do protagonista.

O filme chega às nossas telas embalado por sucesso internacional. Três prêmios no Festival de Biarritz, incluindo o de escolha do público, e Melhor Documentário Iberoamericano no Festival Internacional de Cinema de Buenos Aires. Produzido pela Banda Filmes e dirigido por Tiago Carvalho, o filme tem as primeiras exibições marcadas para os dias 9 e 13 de outubro, no portal do festival (https://olhardecinema.com.br/), o Festival Internacional de Cinema de Curitiba.

O bom Nutels, cineasta amador e documentarista dono de linguagem e ritmo próprios, demonstra nas imagens que deixou um olhar atento e respeitoso sobre as comunidades indígenas. Bonachão, muitas vezes deixou-se fotografar só de calção no meio dos índios, sempre com seu inseparável cachimbo. Que este documentário motive os jovens a conhecer melhor a questão indígena, os problemas de saúde que afetam os mais vulneráveis, e reverenciar os que lutaram a vida inteira para melhorar o mundo em que viveram. E, principalmente, que provoque a indignação pública contra os descalabros dos atuais detentores do poder, aliados à sanha centenária de fazendeiros e mineradores.

(1) Médicos intérpretes do Brasil (Hucitec, 2015). Coletânea organizada por Gilberto Hochman e Nísia Trindade de Lima.

(2) O Índio Cor de Rosa – Evocação de Noel Nutels (Codecri, 1980)

(3) A Majestade do Xingu (Cia. Das Letras, 2009)

(4) Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=1CuXCzCTYMw&ab

O dilema ético das redes

O filme O dilema das redes, lançado recentemente pela Netflix, cristaliza para um público variado uma série de discussões que vem agitando há alguns anos o ambiente virtual. Não que apresente grandes revelações, mas revela detalhes e traz entrevistas de personagens que ajudaram a construir os gigantes da rede virtual.

O roteiro, muito bem construído, mistura depoimentos reais com ficção, de forma a demonstrar como funciona o “sistema de manipulação e lucro” criado pelas empresas do Vale do Silício, hoje entre as mais poderosas do mundo: Google, Facebook, Youtube, Twiter, Instagram, Pinterest, etc.

Como estas empresas, em princípio “gratuitas” para os usuários, se tornaram bilionárias? Como funciona a monetização através de uma simples clicada de “curti”? Como nossos dados pessoais são utilizados para alimentar uma máquina de propaganda explícita (e subliminar) que movimenta milhões de dólares?

Vários pesquisadores e estudiosos das novas mídias já apontavam há um bom tempo para as distorções do sistema. Aqui no Brasil o sociólogo e professor Sergio Amadeu, da UFABC, tem se destacado na análise dos perigosos efeitos colaterais do uso intensivo das redes.  Embora traga consequências comportamentais, estéticas, sociais e afetivas ainda não totalmente mensuráveis, como é bem demonstrado pela família representada no filme, vamos nos ater aqui a apenas um aspecto, o macropolítico.

Os depoentes do filme são, ou foram, figuras importantes do império digital. Diretores, chefes, engenheiros, ideólogos que hoje veem com reservas o futuro maravilhoso que venderam sem pudor. Relativizam as maravilhas de um sistema que aos poucos está se revelando perigoso, pondo em risco a própria existência da democracia. De certa forma, atualizam o debate suscitado por Umberto Eco nos anos 60, com o seu célebre livro Apocalípticos e integrados (Perspectiva), que opunha os defensores das tecnologias como ferramentas de avanço social aos que acusavam estas de virarem instrumento de exclusão e manipulação da informação.

O filme dirigido por Jeff Orlowski ousa ao colocar atores representando algoritmos, e pontua seu enredo ficcional um tanto esquemático com fatos reais assustadores: a manipulação em massa de (des)informações que levaram países à beira do totalitarismo. Explicitamente, Myanmar e Brasil, representado no filme pela funesta figura aqui eleita em 2018.

Há todo um levantamento psicológico do usuário de internet. Aliás, o filme lembra bem que o termo “usuário” (addict) só se usa pra drogas e redes sociais. Para ter, cada vez mais e mais, os prazeres oferecidos pela rede, o usuário não se importa de ter seus dados expostos, de ter sua privacidade invadida ou até de conceder que autoridades registrem todas as suas ações.

Em certo momento, um entrevistado aponta um dado crucial revelado por uma pesquisa: uma mentira se espalha seis vezes mais rapidamente que uma verdade na internet. Verdades tem de ser comprovadas exaustivamente, mentiras não. Contra esse crescimento veloz de desinformação não adianta contrapor que a cartilha do Ministério da Educação da Dilma não tinha mamadeira de piroca. A mentira vai estar sempre na frente, com quilômetros de vantagem.

O filme toca na questão da democracia, cita países que estão em processo de corrupção dos valores, mas infelizmente não fala do papel devastador de uma Cambridge Analytica, em conluio com a sinistra figura de Steve Bannon, influenciando eleições e referendos, como o do Brexit. Para isso, é recomendável assistir Privacidade hackeada (The Great Hack), documentário de 2019 que enfoca a tramoia entre a empresa e o Facebook, envolvendo dados pessoais de milhões de pessoas.

A grande questão que se coloca para a esquerda é se será possível competir na internet com as mesmas armas da direita. Esta, sabemos, está vencendo nesse campo, que criou e sabe muito bem utilizar. No fundo, é um dilema ético que assombra qualquer indivíduo, pois é muito mais fácil mentir que falar a verdade. Mas como propor soluções coletivas, partidárias, institucionais, para enfrentar a avalanche de notícias falsas, num campo adverso?

Para alguns dos entrevistados, como Jaron Lanier, o mundo virtual deve ser abandonado. “Desligue as redes, vá ver o sol lá fora”, diz ele, de forma simbólica, no final do filme, ecoando Thoreau.  Em tempos de pandemia, não é uma solução muito prática. Outros, ex-executivos arrependidos, tentam criar mecanismos de controle para preservação da democracia. Mas como enfrentar uma máquina alimentada por milhões de dólares, em crescimento exponencial, que corrompe e alicia cérebros desde a infância com promessas deslumbrantes de sucesso individual, fortuna e poder?

Organizar um partido ou organização que atue dentro dessa rede de forma ética parece algo cada vez mais distante. Em pouco tempo veremos uma explosão de revolta no mundo real, se ainda restar consciência transmitida pelos meios tradicionais. Resta a pressão social de grupos organizados em torno da democracia para rever legislações, pressionar empresas e exigir transparência na rede. Ou sucumbiremos a uma ditadura global tão absolutista que lembrará aos mais velhos as obras de Orwell ou Huxley. Que, obviamente, serão tratadas como fake news.

Comida, sensualidade e exibicionismo digital

Charlie Chaplin in the Shoe-Eating Scene from .

            O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) costuma encantar os leitores com seu texto fluente, saboroso, literário, onde subverte a ideia de que ensaios sociológicos devem ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala, sua obra mais famosa, é cheia de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, dos tabuleiros das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

            Toda vez que arrumo as prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Há alguns anos ganhei de um amigo um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do escritor. Uma pequena pesquisa mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas.

Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo

Como pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Daphne nos cabelos.

Encontra-se no chão, que está caindo,

A cidreira c’os pesos amarelos;

Os formosos limões, ali cheirando

           Estão virgíneas tetas imitando.”        

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

            Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

            O ensaio foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não, a menos que focasse sua análise nas populações mais periféricas. Mas se passeasse pelo sertão nordestino, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não existisse. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos. Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Mas o ensaísta se depararia com um fenômeno impressionante, no Brasil contemporâneo: a postagem de fotos de comida nas redes sociais. Significaria uma nova postura do brasileiro em relação à comida? A relação sensual com a alimentação estaria dominada pelo aspecto visual, antes dos outros sentidos?

Depende de que brasileiro estamos falando. Além dos casos clínicos de compulsão ou transtorno alimentar – e existem muitos na internet! -, há um ainda pouco estudado exibicionismo, que não oculta um sentimento de afirmação do nível social através da comida.

Quem era pobre e passou à condição de remediado, ostenta isso através do novo cardápio: “Veja o que eu estou comendo agora!”. A classe média, sempre aspirante ao luxo dos abastados, não perde a chance de, quando pode “comer fora”, ostentar a comilança nas redes. É quase impossível ir a um restaurante em São Paulo e não ver alguém na mesa ao lado fotografando o prato pedido. Desnecessário dizer que os verdadeiramente ricos e os verdadeiramente pobres, por motivos bem diversos, não praticam esse tipo de perversão.

Com a pandemia, este comportamento passou para o ambiente doméstico. Os pratos continuam sendo exibidos ad nauseam, agora com o acréscimo do “eu que fiz”. No entanto, quase sempre se nota o retro gosto de “eu posso”, ou “eu tenho”. Com poucas e honrosas exceções, o que se percebe não é um amor pelo alimento, mas pelo status que este confere ao indivíduo.

Pode-se dizer que a proliferação de programas culinários na TV, aberta ou fechada, na última década, contribuiu para o surgimento dessa nova seita de adoradores de comida. Mas não podemos esquecer o que Dante Costa percebeu, lá na década de 50: ainda somos um país de famintos, onde esse tipo de exibicionismo não deixa de carregar um incômodo tempero de classe.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em agosto de 2020).

A intersecção entre arte e ciência

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A literatura de divulgação científica foi inventada no século XX, e pouco a pouco conquistou um espaço nas livrarias – quando havia livrarias – e catálogos. Em meio a muita mistificação, autores como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Jay Gould tornaram-se clássicos do gênero, seja explicando a Física moderna ou o legado de Darwin.

A academia mais carrancuda ainda vê com desconfiança esse tipo de literatura, mas o número crescente de cursos de divulgação científica, de teses e seminários sobre o tema mostram uma abertura para o desejável diálogo da ciência com a sociedade.

Uma das ferramentas mais fascinantes para promover esta aproximação é a arte. Não é por acaso que muitos artistas, de diversas áreas, se interessaram pela ciência, e vice versa. Um deles é o escritor, diretor e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière.

Famoso pela parceria com Buñuel, que rendeu obras primas como O Fantasma da Liberdade, A Bela da Tarde e O Obscuro Objeto de Desejo, Carrière também escreveu roteiros inesquecíveis para Andrzej Wajda (Danton – O Processo da Revolução), Philip Kaufman (A Insustentável Leveza do Ser) e vários diretores franceses, como Rappeneau (Cyrano de Bergerac). Sua maior façanha talvez tenha sido adaptar o poema épico indiano Mahabharata para o cinema, o que rendeu um filme de quase 5 horas de duração, dirigido pelo inglês Peter Brook.

Carrière foi também diretor da principal escola francesa de cinema, e se declara apaixonado pela Fisica moderna. Chegou a escrever uma obra de ficção sobre Einstein, mas seu grande livro de divulgação científica chama-se Conversas sobre o Invisível (Brasiliense, 1988), e que há muito merece uma nova edição.

 Trata-se de uma longa, detalhada e saborosa conversa com dois físicos, Jean Aldouze e Michel Cassé, sobre relatividade, a origem do universo, microfísica, astrofísica e física quântica. Fruto de conversas mantidas semanalmente onde os assuntos se encadeiam naturalmente com referências literárias, pictóricas e, claro, cinematográficas, o livro discute os conceitos mais impenetráveis da Física moderna, que Carrière considerava a Grande Ciência do século XX, de forma clara e elegante.

Também no campo da Física, vale a pena conhecer outro autor, o argentino Alberto Rojo. Professor da Oakland University, em Michigan, publicou vários livros de física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde depurou a escrita límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários. Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e sinfônicas.

Rojo escreveu um fascinante livro chamado Borges e a Mecânica Quântica, editado no Brasil pela Unicamp, ainda em catálogo. Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos e poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, lógico, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam é uma tradução literária perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, respondeu, pensativo: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Leonardo da Vinci – modelo maior – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o rigor. Seu principal mérito, como escritor, é não parecer pedante ou professoral, seguindo a mesma trilha iluminada de Jean-Claude Carrière.

Dois escritores admiráveis que, partindo de polos opostos, encontram-se na realização plena de conjugar arte e ciência de forma acessível e prazerosa.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em junho de 2020).


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