Archive for the 'Teatro' Category

Via Urbis

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                Fiz um programa diferente nessa Sexta Feira da Paixão. Fui assistir ao espetáculo de dança-teatro-poesia-música VIA URBIS, criação de Isabel Marques e Fábio Brazil. Protagonizado por três bailarinos, Kátia Oyama, Nigel Anderson e Renata Baima, secundados por um grande elenco de apoio, o espetáculo refaz os 14 passos da Via Sacra.

                O grande achado é colocar a Cidade no lugar de Cristo. Encenada ao ar livre, numa escadaria da Lapa, com música ao vivo e coro, acompanhamos a Cidade sendo condenada, carregando sua cruz, encarando sua verdade, caindo, sendo roubada, morrendo, sendo erguida e renascendo.

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                Há grandes momentos cênicos. A morte da cidade é uma imagem fantástica, com os três atores-dançarinos crucificados simbolicamente no chão. Até um salvador da cidade (Cirineu, o candidato corrupto) aparece distribuindo folhetos de propaganda política e prometendo cadeiras de rodas. Os poemas de Fábio, declamados durante o trajeto, são contundentes:

A cidade é tua face

 A cidade é o que tu fazes

faz-se a face que fizeres

 faz-se a face que fizeres.

Ou:

Como urubus na carniça

o Juiz posa de miss

nos Tribunais de Justiça.

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                                O espetáculo é gratuito, e será apresentado só até domingo de Páscoa. Em caso de chuva, há um plano B, pois o estúdio da companhia fica a poucos metros. Dei sorte/azar, nesta sexta. O clima fica mais intimista, e há um belo jogo de luzes e sombras nas paredes. Mas vendo estas fotos, fiquei com vontade de rever no domingo, no cenário originalmente concebido! Sinta o  clima do espetáculo e confira os horários aqui.

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Teatro de Grupo na TV PUC

Um dos projetos mais bacanas que realizei nos últimos tempos, e que cheguei a comentar aqui no Fósforo, foi o do Teatro de Grupo.

Participei das discussões iniciais, da formatação, das diversas peregrinações à Secretaria de Cultura de SP para que a verba fosse liberada. Acabei escrevendo o roteiro e dirigindo o vídeo inaugural da série, sobre o grupo Folias d’Arte, em 2010.

O grupo até mudou de nome (hoje é Galpão do Folias), mas o projeto continuou inédito. Foi apresentado à TV Cultura e a alguns patrocinadores, sem sucesso. São programas de 26 minutos, gravados em HD, prontos para exibição, mas…

Outros dois grupos foram enfocados, nessa primeira fase. O pessoal do Pombas Urbanas, lá da Zona Leste de SP, recebeu a visão carinhosa e surpreendente de Aline Sasahara. Tadeu Knudsen colocou seu talento na abordagem do Engenho Teatral. Amigos queridos, que pegaram o espírito da coisa e levaram adiante.

Por enquanto são três vídeos, mas pretende ser uma série, abordando essa vertente tão rica do teatro paulista e brasileiro. O nome Teatro de Grupo define aquele tipo de teatro que normalmente engloba criação, produção e gestão coletiva, sem estrelas ou figurões.

Várias vertentes estão aí representadas: o teatro de rua, o teatro operário, o teatro de crítica social, de sátira e deboche. Mas, acima de tudo, é teatro de invenção, fora dos padrões televisivos e longe do teatrão comercial. Há mais amor à arte do que dinheiro em jogo, certamente.

Esteja convidado a conhecer estas fascinantes experiências coletivas de criação!

Cine Teatro Carlos Gomes

Amigos me convocam para ato em defesa do histórico Teatro Carlos Gomes, em Santo André. A desastrosa administração atual está destruindo um patrimônio cultural inestimável da cultura paulista e brasileira.

O Cine Teatro Carlos Gomes me provoca uma nuvem de lembranças. Em 1998 fui convidado pelo Secretário de Cultura do município, Celso Frateschi, para tocar a reabertura do velho prédio. Como já havia trabalhado na Secretaria de Cultura anos antes, na primeira gestão de Celso Daniel, aceitei com prazer.

O Carlos Gomes era um velho edifício retangular, com uma plateia de 800 lugares e um amplo saguão, como eram os cinemas de antigamente. Possuía dois grandes projetores de 35 mm que fizeram a alegria de muitos cinéfilos. Reza a lenda que o prédio, inaugurado em 1925, foi o quinto cinema do país. Uma grande estrela de gesso decorava o teto, e virou símbolo do lugar.

Estava fechado há muito tempo, e precisava de restauração. Na década de 80 chegou a virar estacionamento. Sem grandes verbas, optamos pela ousada via de reabri-lo sem reformá-lo totalmente, pois um cinema só se mantém vivo… exibindo filmes! Um teatro, montando peças. Um espaço cultural, promovendo eventos. Palco vazio é palco morto.

A festa de reinauguração foi linda. Na tela, o Baile Perfumado, vibrante exemplo de retomada de um cinema brasileiro inventivo e cheio de energia. No saguão, uma exposição sobre o cangaço, com fotos, objetos, armas, vestuário e cordéis. O público lotou, aplaudiu, comeu pipoca, vibrou. E, no final do filme, começou a rolar num palco ao ar livre o show da banda Mestre Ambrósio, participante da trilha sonora do filme pernambucano.

O Cine Teatro Carlos Gomes mostrou que tinha potencial para se tornar um centro cultural audiovisual importante no centro de Santo André. Em um semestre, ainda montamos uma exposição e uma mostra de filmes do Mazzaroppi, promovemos a estreia do filme Bocage, o Triunfo do Amor, de Djalma Limongi Batista. Outra linda exposição foi montada, com cenários e figurinos do filme, assinados por Lino Villaventura. Lembro-me do empenho de Diaulas Ulisses, sem o qual o evento não teria ocorrido.

Pouco tempo depois, saí de Santo André para me aventurar em campanhas eleitorais no Nordeste. Aconteceu a tragédia com Celso Daniel, e as gestões seguintes abandonaram o Carlos Gomes.

Depois de um grande movimento na cidade (o SOS Carlos Gomes, que reuniu 23 mil assinaturas) o prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico da cidade, em 1992. Nos últimos anos, estava novamente fechado.

O atual desgoverno iniciou uma reforma (?) que começou pela destruição do símbolo maior, a estrela de gesso. E é contra esse descaso que o povo de Santo André vai se manifestar nesta sexta-feira, 29 de junho.

Não poderei comparecer. Mas meu coração, certamente, bate junto com o de todos que tocam esta batalha. É um ato pela cultura, pelo teatro, pelo cinema, pela cidadania de Santo André. O Cine Teatro Carlos Gomes não pode morrer!

Para o seu governo

Esta semana fui ao teatro. Ou melhor, fui ao espetáculo de dança-teatro-poesia do grupo Caleidos, na Galeria Olido, em São Paulo. Depois de ter enfrentado o mico da Virada Cultural, semana passada, com gente demais pra tudo quanto é lado, nada melhor que voltar ao velho Centro e ver que ainda há salvação.

O Caleidos segue uma linha muito interessante de trabalho, misturando prosa, poesia, dança e teatro. A coreógrafa Bel Marques, formada na escola de Laban, propõe uma interação  entre bailarinos e público de uma forma inovadora. Eu, pelo menos, nunca tinha passado por esse tipo de experiência.

Nós (o público) entramos pelos bastidores, e fomos posicionados no palco, não na platéia. Um grande tabuleiro quadriculado, onde cada pessoa ocupou um metro quadrado marcado no chão. Os bailarinos dançaram à nossa volta, movimentando as pessoas como peças de xadrez, de um quadrado para outro, mas de forma delicada, sem constrangimentos. Tudo isso é regido por um texto, lido ao vivo pelo autor Fábio Brazil, que enumera estatísticas monstruosas sobre a nossa, digamos, civilização. “Para o seu governo, este espetáculo começou há 15 minutos. Nesse período, 2.412 mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil”. O “Para seu governo…” vai enumerando dados urbanos, nacionais e mundiais, mesclados a uma trilha sonora intensa e tensa.

Durante uma hora fazemos parte do espetáculo. Às vezes em pé, às vezes sentados, cada um no seu metro quadrado. Ou melhor, no quadrado da vez. Saí de lá pensativo, e louco para comer um autêntico bauru do Ponto Chic. Infelizmente, às 21 horas de uma sexta-feira, estava fechado. Sinal dos tempos, do medo que se instalou no centro de São Paulo. Os mendigos na calçada da avenida São João ocupavam seus quadrados. Ou melhor, o quadrado da vez. Amanhã estarão em outro metro quadrado, se sobreviverem.

Pina, por Win Wenders

Assistir Pina, o filme de Win Wenders, é uma experiência sublime. Envolvidos pelas imagens em 3D, sentimos a respiração dos bailarinos, quase sentimos a pulsação acelerada, o sangue correndo nas veias. Toda a radicalidade formal do Tanzstheater  (dança-teatro) de Pina Bausch  se espalha pela tela, captada com emoção e invenção por Wenders, que foi amigo da coreógrafa alemã.

A ideia inicial era filmar tudo no palco, dentro da sede da companhia. A morte de Pina, em 2009, quase encerrou o projeto. Wenders  então reuniu os bailarinos da companhia e pediu que cada um sugerisse o que gostaria de dançar/dizer para Pina. O resultado delineia um retrato intimista da artista, carregado de emoção e sinceridade, ao mesmo tempo em que descortina a grandeza de sua obra.

A Sagração da Primavera abre o espetáculo de forma magnífica. Sentimos a força da encenação, marcada por uma simbologia pictórica de grande impacto. Há um homem, uma mulher, e o início de tudo, marcado pela única veste vermelha. Imagens de Pina são projetadas em uma sala escura, em 2D, por um velho projetor de 16 mm (que vemos em 3D). Wenders não nos deixa esquecer que estamos vendo cinema, grande cinema.

Mas foi a segunda peça, Café Müller, que me fez viajar no tempo. Mais precisamente para um dia remoto, há quase três décadas, quando assisti pela primeira vez, no Teatro Municipal de São Paulo, a chocante e revolucionária coreografia. Os personagens se debatiam entre cadeiras, caíam no chão, sofriam. Meu primo Fábio saiu da sessão tão marcado que pouco depois acabou se casando com uma bailarina! Um pequeno trecho desta peça foi mostrado também  no filme Fale Com Ela, de Almodóvar, lembra?

Wenders foi genial em colocar os bailarinos em cenários reais, ao ar livre. Eles dançam no meio do trânsito, no metrô suspenso de Wuppertal, em parques, em escadas rolantes, à beira de uma enorme escavação. O cineasta demonstra a universalidade de Pina fazendo os bailarinos darem seus depoimentos sobre a saudosa coreógrafa em russo, espanhol, francês, japonês, alemão e português (há uma delicada fala de Regina Advento, que abre o clipe abaixo, dançando sobre as cadeiras).

Tudo é movimento, poesia e beleza. A câmera acompanha os movimentos com uma leveza impressionante. Quando as luzes se acendem, e nos levantamos e encaminhamos para a saída, por alguns momentos parecemos personagens de Pina/ Wenders, dando continuidade à  mise en scène.  Wenders conseguiu transportar a magia da dança para as salas de projeção, com plena felicidade. Quase saí dançando…

Na terra de Borges

Extraordinária. É a primeira palavra que me ocorre para definir a fascinante experiência sensorial que tive em Buenos Aires, na noite de anteontem, ao assistir uma peça do Teatro Ciego. Já ouvira falar de grupos assim em Londres e Nova York: uma associação de deficientes visuais que montam espetáculos onde exploramos os “outros” sentidos. O Teatro Ciego portenho se dá ao luxo de manter várias peças em repertório, na sua sede em Abasto. Tem comédia, drama, até infantil. Escolhemos o jantar-espetáculo A Ciegas com Luz.

Um grupo de, no máximo, 50 pessoas, é levado a um ambiente totalmente escuro. Negrume absoluto. Somos guiados delicadamente por mãos cegas que transitam – quase flutuam – entre as mesas onde vão nos acomodando. Ao sentar, somos informados que há um prato retangular à nossa frente, e que devemos comer com os dedos. Não se assuste, todos passamos um álcool gel nas mãos, na sala de espera. À nossa direita há um copo, à frente uma cesta de pães e grissinis. Podemos escolher vinho tinto, branco, refrigerantes ou água. Aos poucos, fui tateando e descobrindo o espaço ao meu redor. O copo, localizei rapidinho (anos de prática!), as comidinhas foram sendo descobertas. Um pedaço de pizza de entrada, um espetinho de legumes grelhados, um de carnes vermelhas e brancas (há um cardápio especial para vegetarianos), delicadezas que vão sendo sentidas com o tato, com o olfato, com o paladar. Tem até postre (sobremesa).

Os músicos começam a tocar. Um pianista e uma clarinetista/saxofonista dedilham Piazzolla. Sons e cheiros invadem o ambiente. Estamos numa típica bodega argentina. Os saltos altos marcam a entrada de uma mulher, que conversa com o (barman? Dono? Garçom?). Há uma cena de ciúmes, algo se quebra, passa um trem, uma moto atravessa a sala (pelo menos o ruído), algumas piadas provocam risadas nos argentinos presentes (eu boiei em várias, confesso…). Alguém diz que o pão está ficando pronto, e sentimos cheiro de pão quente. Alguém fala do campo, e sentimos perfume de flores e terra molhada. E a tal mulher se revela uma soprano maravilhosa, entoando as canções de Piazzolla. Não vou me esquecer jamais da María de Buenos Aires, cantada na escuridão. Lo que ves, cuando no ves?

No final, uma vela é acesa, por mãos cegas. Por alguns momentos, vemos nossos companheiros de mesa, a arquitetura, os músicos. Aplausos, entre a perplexidade, o encantamento e o assombro. E as janelas se abrem, e estamos no segundo andar de um sobrado em Abasto, absolutamente impactados pela beleza do que acabamos de perceber. Até chuva sentimos, em certo momento, um borrifo perfumado que acompanha as últimas palavras da peça. Certamente, o espetáculo mais emocionante que não vi na minha vida.

PS: Pô, porque não temos algo assim no Brasil? Com tanta gente talentosa e cega por aí… Alô, Fundação Dorina Nowill, vamos montar o nosso Teatro Cego? Trabalho e renda, com dignidade artística para todos!

PS2: Graças ao patrocínio de uma vinícola (Graffigna) e o apoio de um restaurante, o ingresso sai por meros 160 pesos. Um casal gasta mais que isso pra comer pizza, em São Paulo, num ambiente ruidoso e onde não ver certas coisas seria uma benção.

PS3: 160 pesos = pouco mais de 60 reais (câmbio janeiro/2012).

Encontro no Engenho Teatral

Sexta feira passada participei de uma mostra de vídeos sobre teatro, realizados pela VIATV. São três programas ainda inéditos, enfocando os grupos Pombas Urbanas, Engenho Teatral e Folias D’Arte. Os vídeos fazem parte de uma série em formato televisivo, e foram dirigidos respectivamente por Aline Sasahara, Tadeu Knudsen e Daniel Brazil.

São grupos que driblam as fórmulas do teatro comercial, que ousam, que experimentam, e que marcam seu trabalho pela gestão, criação e produção coletiva dos espetáculos. Todos estão na estrada há mais de uma década, e são um capítulo essencial do teatro paulista.

                Só na Capital, existem mais de 40 experiências ativas do que podemos chamar de Teatro de Grupo. Se expandirmos para o litoral e o interior, o número cresce. O que move esses artistas? Não é o dinheiro, certamente. É o engajamento na função social da arte, na relação com a comunidade, na pesquisa estética, no questionamento dos valores do mundo.  A vontade de dizer algo de forma diferente.

                Fiquei feliz por ver ali reunidos representantes dos três grupos e também da Brava Companhia, lá do Campo Limpo. A participação entusiasmada da professora Iná Camargo aqueceu o debate. Gente muito especial, que revela verdadeira paixão pelo que faz. E a hospitalidade do Moreira, da Iraci e do pessoal do Engenho merece ser registrada. As comidinhas e bebidinhas estavam ótimas. Que mais encontros como esse se realizem!