Archive for the 'Viagens' Category

Flanando pelo Rio

                Faz tempo que não escrevo aqui no Fósforo, né? Ando meio preguiçoso, ou melhor, meio atolado de outros afazeres. O que é imperdoável, visto que um de meus afazeres é justamente escrever. Estou na reta final de meu segundo romance, mas a trajetória tem sido cheia de interrupções e incidentes. Faz-me falta a concentração que tive para escrever o Terno de Reis.

                Que, aliás, foi lançado no Rio, na semana passada, no aprazível bar Sabor da Morena, no Botafogo. Noite agradável, com a presença de vários amigos de longa data. Devagarinho, o romance vai se espalhando por aí, de mão em mão. Aliás, cometi o erro imperdoável de não levar um maço de notas de cinco reais para usar de troco, e alguns amigos acabaram dando 50 reais, em vez de 45. Tentei compensar pagando umas cervejas, mas certamente alguns ficaram no prejuízo. Perdão, prometo me redimir na próxima. Vocês tem crédito comigo!

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                Na verdade, fui para o Rio uma semana antes, para o aniversário de dois anos do neto. Festa bonita, no Museu do Índio, também no Botafogo. Apesar do tempo cinza e chuvisquento, a criançada se esparramou pelo belo espaço, e a alegria do aniversariante era visível. É muito legal essa apropriação dos espaços públicos que o carioca faz, e que o paulista nunca soube fazer (ou desaprendeu). Mesinhas na calçada, choro nas praças, a rua como lugar de convívio, não de conflito.

                Durante os dias, fiz algumas caminhadas pelo bairro. Na rua Guilhermina Guinle um prédio me chamou a atenção. Com uma fachada vegetal exuberante, o edifício Conde de Paris parece devolver para a cidade um pouco do verde que derrubou para poder existir. Um projeto arquitetônico digno de destaque, que deveria ser mais copiado. Infelizmente, estava sem a máquina fotográfica…

Árvores x

                Andei até o Jardim Botânico, um de meus lugares favoritos na Cidade Maravilhosa. Rever árvores centenárias, passear por alamedas sombreadas, comer pitangas no pé, admirar os jacus e saracuras que passeiam pelos gramados com desenvoltura, não tem preço. O belo lago, coalhado de ninfeias, é o sonho de um Monet tropical.

Lago Fósforo

             Fiz boas caminhadas na Enseada do Botafogo, do Clube Guanabara até o Aterro. Gaivotas e garças, atletas e idosos, sujeira e beleza. A paisagem do Pão de Açúcar é o que é, merecidamente. Bem no início da praia, uma sentinela fiscalizava atentamente o movimento dos cardumes que ainda passeiam por lá. Aqui e ali, uma tartaruga vinha à tona para respirar. Apesar da poluição, sobrevivem.

Sentinela x

   E que tal encontrar os amigos na Praça São Salvador, em Laranjeiras? Música rolando toda noite, cervejinha gelada, clima de confraternização. O lugar pegou de tal forma que uma infeliz vereadora resolveu fechar a praça, alegando perturbação da ordem. Misteriosamente, a luz se apagou às 20 horas, deixando todos no escuro. Parece que é um blecaute intencional, para esvaziar o pedaço. O pessoal? Nem aí, continuaram tocando, cantando, conversando, paquerando, convivendo. Isso numa terça-feira!

Praça São Salvador

                Enfim, voltei para Sampa pensando em tudo que nos une e tudo que nos separa. A frieza da megalópole faz com que os espaço de convívio sejam mais restritos, mais caros. Felizmente moro no Butantã, e logo me deparei com o Jazz na Kombi bombando ali no beco do Amorim Lima, pertinho do também lotado Bar Amazonas. Público se esparramando pela calçada, com um jeitinho brasileiro de ser que a maioria dos bairros paulistanos já perdeu. Ainda há esperança.

Jazz na Kombi

Afogado em Paraitinga

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Afogado 5

Fim de semana em São Luiz do Paraitinga. Não um qualquer, mas o de 16 de maio de 2015, quando rolou a festa do Divino. A tradição da cidade é servir o afogado, onde a comida é servida de graça pra quem leva o prato. Na sexta, mataram 40 bois. 36 horas de trabalho contínuo, com serra de fita, machado e muitas facas, e na noite de sábado começa a ser servido o afogado (uma espécie de ensopado de carne com batatas, primo da vaca atolada e do goulash).

Não entrei na fila, que dobrava quarteirão. Tinha gente com balde, cumbuca, tupperware, o escambau. Tinha mãe que mandava os 5 filhos entrarem na fila, cada um com um pote. Garantiam comida pra semana inteira. Fomos prum boteco na praça, onde rolava a festa, pra tomar uma breja. Tinha afogado no cardápio, pedimos um, sem a benção do padre, pra não dizer que voltamos sem provar a iguaria. E nos divertimos muito.

Os anfitriões, Albano & Fernanda, sempre gentis. O casal Luiz Biajoni & Karen, muito engraçados. Tentei parecer inteligente, mas a concorrência era braba. Um pouco antes de chegar no agito, fiz esta foto:

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À esquerda, Fernanda, médica oncologista (esqueça o cigarro), sobrinha de Jorge Amado e neta de Graciliano. À direita, Luiz Biajoni, vários livros publicados, autor que está construindo uma trajetória totalmente original na literatura brasileira. No centro, Carmen Prado, física, professora da USP. Agora faço um desafio: quem desse trio já ganhou um prêmio Jabuti? Quem acertar ganha um convite pra tomar um vinho aqui em casa e ouvir o resto da história.

Leme no Choro

Semana Seu Geraldo

A criatividade e persistência dos músicos brasileiros é amplamente conhecida. Muitas vezes,sob condições adversas, com poucos recursos e distante dos grandes centros, conseguem organizar, reunir e concretizar um cenário musical propício à criação e ao surgimento de novas gerações de instrumentistas e compositores.

Na semana de 18 a 25 de outubro, na cidade de Leme, no interior paulista, se realiza um desses pequenos milagres de multiplicação da música. Trata-se da IV Semana Seu Geraldo de Música, que reúne chorões de todo o país e até do exterior. Mas… choro em Leme? Pra quem não sabe, a fama da cidade como polo gerador de música instrumental vem de longe, e lhe valeu o apelido de Morada do Choro.

Como em tantas cidades do interior, a história musical de Leme surgiu em torno das bandas e fanfarras, tradição mantida até hoje. Por ali passaram inúmeros intrumentistas, como o homenageado Geraldo Azevedo, multi-instrumentista que se destacou como acordeonista e animador da cena cultural local.

Seu Geraldo, como ficou conhecido, é pai de Nailor Proveta, um dos maiores instrumentistas de sopro do país. Arranjador de mão cheia, Nailor domina todas os gêneros musicais, e mantém uma forte relação com o choro e com a cidade natal. Nada mais natural que seja o anfitrião da Semana Seu Geraldo, quando a cidade se torna um local privilegiado para os fãs da boa música instrumental brasileira.

As apresentações são diárias na concha acústica da Praça Rui Barbosa, no centro, com generosas rodas de choro na choperia Zero Grau. Músicos tarimbados realizam cursos e oficinas na Faculdade Anhanguera, atraindo grande número de estudantes. São nomes do calibre de Toninho Carrasqueira, Mauricio Carrilho, Pedro Aragão, Jayme Vignoli, Paulinho Leme e o próprio Nailor Proveta, entre outros (veja lista completa em http://www.escolaportatil.com.br) .

A IV edição da Semana Seu Geraldo lembrará também a obra de Aracy de Almeida e Lupicínio Rodrigues, que fariam 100 anos em 2014, e homenageará três bambas locais: Joaquim Baccarin, José Justino e José Aparecido Montoan, que integram a Velha Guarda da Banda de Leme. A cereja do bolo é o show de encerramento no sábado, com Mônica Salmaso e os professores oficineiros.

Esta é a semana para conhecer Leme, ouvir boa música, preparar o espírito cívico e votar de coração tranquilo na melhor candidata. Experimente!

PROGRAMAÇÃO

Shows e Apresentações
Local – Concha Acústica Vereador Donato Ciccone, Praça Rui Barbosa

Dia 18 | Sábado
21h00 – Show Baile “Boas-vindas” com a Orquestra de Choro “Os Matutos”, participações dos Mestres Oficineiros do festival

Dia 19 | Domingo
20h00 – Banda Maestro Angelo Cosentino, Nailor Proveta e convidados

Dia 21 | Terça-feira
19h00 – Alexandre Ribeiro Quarteto

Dia 22 | Quarta-feira
19h00 – “Entre Linhas”, com César Roversi e Quinteto

Dia 24 | Sexta-feira
18h00 – Apresentação final dos alunos com os Mestres Oficineiros
21h00 – “Choro Contemporâneo e suas Referências”, com os Mestres Oficineiros do festival

Dia 25 | Sábado
21h00 – Mônica Salmaso e os Mestres Oficineiros do festival

Os poliglotas africanos

Aeroporto de Johannesburg

      Contei no post anterior que na África do Sul quase todos falam, no mínimo, três línguas. O que dizer então da Zâmbia, onde há mais de 70 línguas tribais?

       O motorista da van que nos levou até a fronteira do Zimbábue revelou que falava, fluentemente, 25 idiomas. E que entendia outros tantos. Argumentei que deviam ser parecidos. Respondeu com firmeza:

– Totalmente diferentes!

         No Brasil, um sujeito que fale 25 línguas tem emprego no Itamaraty, no mínimo. Lá é motorista…

         O guia Aaron, nascido no Zimbábue, disse que é comum haver diálogos multilinguísticos no mercado, no trânsito, na calçada. Fulano pergunta em uma língua, Sicrano responde em outra. Cada um entende o que o outro quis dizer, embora só fale a sua língua nativa. Um fenômeno de comunicação!

Livingstone, Zimbabwe

         Mais estranho que isso (para nós), só mesmo o troco. O Zimbábue é tão pobre que não tem moeda própria. As últimas cédulas que circularam eram da ordem de “milhões”. São vendidas como souvenir. Desistiram em 2009, quando a inflação bateu em 9.000.000 % ao ano, ou 98% ao dia. A última nota emitida foi essa:

Trillion dollars

Desde 2009, adotaram o dólar americano. Os salários são pagos em dólar. Circula pelo país as moedas dos países vizinhos, de economia mais forte.

         Em Victoria Falls, sob um calor obviamente africano, resolvemos comprar uma garrafa de água mineral de um camelô. Custava dois dólares. Carmen deu uma nota de dez. O sujeito enfiou a mão no bolso e puxou notas de várias cores e tamanhos. Separou uma nota de 5 dólares, duas de 20 rands (África do Sul) e umas moedas de kwatcha (Zâmbia). E agora?

         Impossível saber se o troco estava correto. É preciso ter uma calculadora financeira e uma conexão com o câmbio do dia. Como disse o Aaron, os espertos se dão bem, e os otários dançam. Respondi a ele que no Brasil, onde tem uma só moeda, também é assim…

Mercado Zâmbia

Depois do apartheid

Apartheid Museum

Conhecer o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, é uma rica experiência. Não apenas para entender as razões e a infâmia que foi o período, mas também se surpreender com o heroísmo e a capacidade de luta do ser humano, sob as condições mais adversas.

A concepção do espaço museológico, criado em 2001, é muito interessante. Detalhes arquitetônicos belos e funcionais, recursos audiovisuais avançados e boa organização de informações. Aprendemos ali que o apartheid foi uma política de Estado, levada por vários governos do Partido Nacional da África do Sul, de 1948 a 1994. Ou seja, uma minoria branca impunha leis discriminatórias, que incluía restrições ao voto da população negra. Ou seja: a minoria branca racista votava e ganhava sempre, e ainda se dizia “dentro da lei”…

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Na bilheteria do museu, ao comprar o ingresso, recebi um bilhete (emitido de forma aleatória) me classificando como não-branco. Carmen e Filipe foram sorteados como brancos.

Non´white

A partir daí, tivemos de entrar por portas separadas. Tentei argumentar que estava junto com eles, mas o guarda, inflexível, me apontou para a entrada de “não-brancos”. Mais didático, impossível! Grupos escolares que visitam o museu passam pelo mesmo procedimento, o que deve gerar boas discussões em sala de aula.

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Após alguns metros, depois de passar por um corredor em que os dois grupos são separados por telas metálicas, como uma prisão, estamos juntos novamente. Painéis com fotos, ilustrações, cartazes e até filmes de época mostram o cotidiano das pessoas nos anos do apartheid. E entendia-se por “não-branco” também os orientais, os indianos… Durante os anos de apartheid, 131 militantes de oposição foram enforcados. Número oficial, claro. Muitos foram torturados até a morte. Outros “desapareceram”, como por aqui. Entre eles, alguns brancos que também se opunham ao odioso regime.

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Nelson Mandela, o jovem advogado negro que ficou preso por 27 anos, emerge como o grande arquiteto da democratização do país. Acusado pelos radicais de ser tolerante com os brancos, ele sempre defendeu um governo de coalizão. Afinal, os brancos estavam lá há mais de 300 anos, e também construíram o país. O CNA, Congresso Nacional Africano, partido que conquistou o poder em 1994 e enterrou o apartheid, era misto desde sua origem. As mulheres tiveram um papel importantíssimo, organizando ações comuns multirraciais pelos seus direitos.

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Criou-se uma Comissão da Verdade, não com a função de punir, mas de investigar e apurar os fatos ocorridos durante o apartheid. Obviamente, crimes não prescritos foram encaminhados para a Justiça comum, como ocorre (ou deveria ocorrer) em qualquer democracia.

O Museu é uma lição de como um país deve lidar com seu passado. Coisa que o Brasil custa a entender, em relação ao período de ditadura militar. Aqui os fatos são escondidos, os torturadores continuam soltos, a PM continua existindo, os juízes se calam, os governantes se omitem. Enquanto vizinhos como Argentina, Chile e Uruguai colocaram na prisão ditadores e agentes criminosos, aqui a impunidade é regra. Vergonha.

Biko

Hoje a África do Sul é governada pela maioria negra. Das 17 províncias, 16 têm negros no comando. Cape Town, a cidade mais rica, tem uma prefeita negra. Políticas inclusivas foram criadas, e envolvem desde áreas públicas, como educação, moradia e saúde, até iniciativas privadas. Brancos não podem abrir negócios sem ter um sócio negro. Há distorções? Claro. Mas os avanços são enormes. Não é à toa que fazem parte dos BRICS, as potências emergentes.

A África do Sul é  uma nação de poliglotas. Em todas as escolas são ensinados o inglês e o africâner. Considerando que cada criança negra entra na escola sabendo sua língua nativa (zulu, xhosa, etc.), terminam o segundo grau fluentes em pelo menos três idiomas.  É comum, nas fronteiras, entenderem também a língua dos povos vizinhos. Em Botswana, Zâmbia e Zimbábue boa parte dos produtos industrializados é fabricada na África do Sul, potência regional. Maior exportador de diamantes, rico em ouro, com um turismo cada vez mais organizado e produzindo ótimos vinhos.

Em certos sentidos, eu conheci um país mais avançado.

(As imagens são do próprio site do Museu, com exceção do ticket, que guardei como recordação.)

Uma pitada de gastronomia africana

Sempre fui curioso em relação a comida. Adoro experimentar novos sabores, texturas, aromas, conhecer os frutos típicos da terra, os pratos de resistência, os temperos. Carmen e Filipe, meus companheiros de viagem, também fazem parte desse time.

Nos primeiros dias em Cape Town provamos muitos frutos do mar e algumas carnes exóticas (hambúrguer de avestruz, por exemplo). Muitas lulas e camarões, que são servidos em três tamanhos: prince, queen e king. O primeiro momento de apreensão foi quando fomos apresentados à pimenta local, que recebe o inquietante nome de piri-piri. Sugestivo, não?

Peri-peri

No entanto, sob a forma de molho, a piri-piri (ou peri-peri) estava bem de acordo com o padrão a que estamos acostumados, no Sul do Brasil. Mais suave que um tabasco.  Um acarajé apimentado, na Bahia, é muito mais inclemente.

 Na segunda noite fomos ao Africa Cafe, um restaurante muito interessante onde provamos um menu temático. O cardápio diário é uma rodada-degustação com pratos típicos de vários países,  que muda conforme a estação. Uma espécie de pão frito de entrada (parecia tapioca), batatas recheadas do Malawi, verduras xhosa sul-africanas, camarões de Moçambique, carne de kudu de Botswana, arroz basmati (a influência indiana é significativa na costa leste da África), um frango de Ghana, lentilhas egípcias, um espinafre refogado com tempero congolês…

Africa Cafe

Devia ter fotografado os pratos antes de prová-los, mas a fome era tanta que só lembrei disso depois.  Uma boa carta de vinhos nativos, música típica no volume correto (aquele que permite uma boa conversa sem necessidade de elevar a voz) e garçonetes lindamente maquiadas completam o clima exótico. Recomendo!

Africa Cafe 2

 Depois de Cape Town, fomos para a região do Kruger, mais ao norte. Em três dias de safári, tivemos a oportunidade de provar várias carnes de caça. Kudu, impala, niala e warthog (mais conhecido como pumba, aquele javali do Rei Leão). Algumas churrasqueadas, outras cozidas. A impala pie é um prato característico, que tem pouco a ver com as tortas que conhecemos no Brasil. Uma espécie de omelete fofa recobre cubos de carne suculentos, cozidos como um goulash. Tá mais para uma versão africana da famosa venison pie.

Já na Zâmbia provamos gnu e crocodilo. Diferente de nosso jacaré, o croc tem a carne avermelhada, capaz de ser confundida com picanha, à primeira vista.  No Chobe Park, em Botswana, crocodilo na chapa era o prato principal de um bufê onde almoçamos.

Crocodilo na chapa

E foi ali que provamos a coisa mais estranha da viagem. Estávamos nos servindo de salada, quando topei com um prato quase intocado. Perguntei a uma atendente, que respondeu em um dialeto incompreensível. E agora? Um suíço de cabelos brancos que estava atrás de nós matou a charada. Olhar experiente, de quem sabe das coisas, sussurrou “caterpillar”. Olhei mais de perto. Lagartas. Prensadas e grelhadinhas, como camarões. Perguntei pro Filipe se ia encarar. Respondeu que na Tailândia havia provado escorpião e gafanhoto, quinze dias antes. “Vamos nessa!”

Salada de lagartas!

Experimentei uma. Parecia uma passa salgada, nada muito especial. Para tirar a dúvida, peguei uma porção e misturei com o tabule. Certamente foi a coisa mais esquisita que comi em solo africano. Como faço com camarões, retirei as cabecinhas com cuidado e coloquei de lado, mas vi que alguns comiam tudo. Até provei uma inteira, e não senti diferença.

Culturalmente não estamos acostumados a comer insetos. O sujeito aqui passa fome, mas não come essa fantástica fonte de proteínas, barata e abundante. No Brasil, creio que só a tanajura frita, do Vale do Paraíba, se tornou venerável. Monteiro Lobato adorava a iguaria, chamava-a de caviar brasileiro. Os indígenas da Amazônia gostam muito de certa larva de coqueiro, branca e gorda. Todo mundo já mordeu um bicho de goiaba, mas não admite. Alguns engolem mosca, de vez em quando…

Enfim, insetos serão a comida do futuro. Antes que finde o século XXI estarão no cardápio cotidiano. Que outra forma existe de alimentar 10 bilhões de humanos, número estimado para 2070?  Vegetais não darão conta, a terra agricultável vai se esgotar, o mar já está entrando em colapso. Prepare seu paladar pras coisas que vão pintar!

Jantar de despedida

Em Joanesburgo, na última noite, fomos a um restaurante “para turistas”, numa espécie de cassino-shopping center 24 horas só de alimentação, perto do aeroporto. Eu e a Carmen provamos a melhor carne de avestruz de nossa vida, um filé alto e suculento.  Aqui no Brasil só vemos o bicho congelado, cortado em bifes finos. Esqueça. Filipe pediu um combinado de 4 carnes de caça. Rapaz de coragem! O garçom, fanático por futebol brasileiro, contou orgulhoso que havia assistido na véspera um jogo do Kris-chi-ama. Hã? Demorou um pouco para identificarmos o Criciúma. Efeito do vinho e do mergulho na Devil’s Pool naquela manhã, certamente.

De volta ao Brasil, voltei a cortar carnes vermelhas de meu cardápio. Provar é uma coisa, consumir todo dia é outra…

Navegando no Zambeze

A primeira surpresa ao chegar em Livingstone, na Zâmbia, no início de setembro, foi o aeroporto, inaugurado na semana anterior. Cheirando a tinta, com vidros ainda adesivados e banheiros sem identificação na porta, mas com internet gratuita, coisa que em Joanesburgo é impossível. Em São Paulo, então…

Zambezi Sun

Ficamos no Zambezi Sun, um hotel chique (com algumas breguices) a poucos metros das famosas Victoria Falls. Impalas, zebras e outros bichos passeavam tranquilamente pelos gramados, em volta da piscina.  Um grupo de zulus, vestidos de forma tribal (pra turista), nos recebia com cantos e danças. Nada muito diferente da Bahia ou da Serra gaúcha. Gente se fantasiando pra ganhar uns trocados. Pulando a parte folclórica, um dos passeios bacanas foi passar uma tarde navegando no rio Zambeze, apreciando o por do sol africano.

African Queen

Rio Zambezi

Rio Zambezi

Vizinho ao nosso hotel havia outro, mais caro, com um píer-bar muito procurado pelos turistas. Dali se desfruta uma das mais belas vistas do rio, com um bom serviço de bar. Uns tomam vinho branco, outros ficam na cerveja (ou algo mais forte). O engraçado é que alguns macacos ficam em volta, e de vez em quando arriscam roubar uma batata frita das mesas. Vi mais de uma vez um garçom sair correndo para espantar os símios. Não devia ser muito diferente há um século, quando nobres ingleses vinham conhecer a imponente cachoeira e caçar elefantes.

Por do sol

Macacos no Chobe Marina Lodge

Por do sol no Zambeze

Achava que este hábito estivesse extinto, restando apenas safáris fotográficos. Mas no Chobe Park, em Botswana, quando a população de elefantes dispara e ameaça o equilíbrio ambiental, eles liberam o abate de alguns. Preço pra turista, hoje: 50 mil dólares por cabeça. Foi numa dessas que o rei Juan Carlos foi pego, em abril de 2012, desencadeando uma avalanche de críticas na Espanha e no resto do mundo. Além da situação do país, às voltas com uma crise econômica absurda, o homem era presidente de honra da WWF! Vergonha…

Mosi beer

Enfim, conversamos sobre isso e outras coisas, enquanto saboreávamos algumas Mosi e víamos o sol vermelho se refletindo nas águas calmas do Zambeze. Como sempre faz, desde o início dos tempos. E também vimos zebras subindo pelas escadas do hotel, ainda sóbrios. Imagine depois de tomar umas…

Zebras na escada

À noite, na porta de nosso quarto, topei com um crocodilo. Lutamos bravamente, mas consegui arrastá-lo até a beira de um pequeno lago a cerca de 50 metros, de onde devia ter vindo. Atirei-o na água, e voltei pensando que poucas pessoas no mundo podem dizer que fizeram isso com um croc, no coração da África. Vou contar essa história para o meu futuro neto e ele vai dizer “ah, vô, deixa de ser mentiroso!” Ainda bem que existe fotografia e internet em nossa era…

Croc no hotel