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O caráter e o destino

 

O Ventre da Baleia0001

            O escritor e ensaísta espanhol Rafael Sánchez Ferlosio definiu dois tipos de personagens, reais ou ficcionais. Os de caráter “são os arquétipos, geralmente cômicos, de pura manifestação, que não nascem, nem crescem, nem morrem, mas sempre se repetem em situações frente às quais confirmam seu caráter.” Por exemplo, Carlitos ou Pedro Malazartes.

            Já personagens de destino “são os heróis épicos ou trágicos, de atuação plena, que nascem ou começam ou partem ou morrem ou acabam ou voltam no decorrer de algum incidente onde o seu destino se cumpre”. Gilgamesh, Ulisses, Tiradentes, Zumbi ou qualquer herói posterior se encaixam nessa definição.

            O romance de Javier Cercas, O Ventre da Baleia, se desenvolve em torno dessa dualidade, mas está longe de ser um romance de tese, como seu primeiro título publicado (El móvil), traduzido no Brasil como O Motivo. O escritor apresenta o personagem Tomás, jovem professor assistente da Universidade Autônoma de Barcelona, no instante em que reencontra uma velha paixão de juventude e trai sua esposa grávida.

          Imerso num jogo de enganos e auto-enganos, Tomás encontra apoio num velho professor de literatura, Marcelo, que tenta convencê-lo a se candidatar a um concurso de cátedra na universidade. Conversas literárias e citações cinematográficas permeiam o enredo, que trabalha um largo arco de emoções, indo do cômico ao trágico. É Marcelo quem apresenta para Tomás a tese de Ferlosio.

             Como muitos, o assistente ambiciona um destino glorioso. Sempre queremos ser heróis, de preferência driblando os aspectos trágicos da história. As circunstâncias da vida vão nos conformando ao lado menos iluminado, onde em vez de sermos príncipes, algumas vezes acabamos como bobos da corte. Não por acaso, a capa desta edição (Francis, 2006) reproduz um célebre quadro de  Velázquez, El Bobo de Coria. Não creditado, aliás.

           Javier Cercas é um dos mais premiados escritores espanhóis da atualidade. Tal como Javier Marías, outro bom escritor contemporâneo, gosta de citações eruditas, mas sabe evitar o pedantismo obscuro, ficando nos limites da cultura pop. Fritz Lang, Alexandre Dumas, Borges e Led Zeppelin surgem naturalmente na trama, compondo o cenário multicultural fragmentado típico da modernidade (o romance é de 1997).

            Há pequenas brincadeiras no texto, como um personagem secundário chamado Javier Cercas que surge numa tertúlia literária e interrompe uma conversa de Tomás.  A narrativa em primeira pessoa humaniza o relato, provocando uma empatia com o protagonista que, mais que uma mera identificação, propõe um descortinamento das máscaras sociais que nos são atribuídas. Os instintos básicos (paixão, vingança, medo, vergonha), a pulsão erótica, o arrependimento, a amizade, estão todos lá, colocados com mão de mestre. A tradução de Bernardo Ajzenberg é fluida, e valoriza o prazer da leitura.

             No final do livro percebemos, não sem certa melancolia, que há personagens de destino, como se imagina Tomás, que podem se transformar em personagem de caráter, devido às circunstâncias. E que todo escritor vive somente o presente, o momento da escrita, mesmo quando se alimenta de memórias ou de invenção, pois seu destino é apenas escrever, sem heroísmo ou tragédia. Como um bobo da corte.

SOBRE TRIBUNAIS E QUINTAS-FEIRAS

michellaub

Descrever a sua época é um desafio para qualquer escritor. A pena elegante de um Machado de Assis ou as tintas satíricas de um Lima Barreto definiram modelos que tiveram muitos seguidores no Brasil. Mas o que pode fazer um autor em pleno século XXI, onde a literatura cada vez mais perde espaço para o bombardeio midiático de informações e desinformações que transforma todos, leitores e autores, em ruído branco?

            Michel Laub responde a essa questão arrastando o monstro para dentro de sua literatura. A internet tem papel fundamental em seu romance O Tribunal de Quinta-feira (Companhia das Letras ,2016), onde uma traição é descoberta pela indiscrição registrada em e-mails. Mas a história de um publicitário casado que se envolve com a estagiária não seria original se contada de forma acadêmica.

            Laub recorta e monta um quebra-cabeças que inclui, obviamente, mensagens trocadas pelo correio eletrônico, mas se apoia principalmente na narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário. A relação com um velho amigo soropositivo, a rotina do casamento, o ambiente da agência, a tentação e o desejo, tudo vai sendo desvelado de forma aparentemente anárquica. Que o leitor não se engane. Há uma ordem, uma intenção, em cada capítulo, mesmo quando tem a forma de uma displicente digressão de quinze linhas ou uma simples mensagem telefônica de dez palavras: “Como você acha que eu me sinto ao saber disso?”

            A descoberta da traição pela esposa vai detonar a crise, que se desenvolve em poucas horas. Michel Laub trabalha o tempo com habilidade, trazendo informações sobre a vida do protagonista, a família da mulher, o papel do amigo em sua vida. De quebra, levanta uma pertinente discussão sobre privacidade, falso moralismo, ética empresarial, preconceito, machismo e feminismo.

            Buscando uma linguagem moderna, longe dos cânones e próxima do coloquial, autores como Laub correm dois riscos. O primeiro é o da rarefação, do provisório, de não mergulharem realmente na grande literatura, seja lá o que isso signifique. O segundo é o de se tornarem nossos clássicos contemporâneos.

 

Prosódia e música popular

 

     Prosódia

         Meu irmão, que é ótimo violonista, arranjador e professor de música, é desses sujeitos que não se preocupam apenas com as notas no pentagrama. Atento aos tropeços de prosódia, me chamou a atenção para a quantidade de canções contemporâneas cujas letras entortam o vernáculo sem o menor pudor. São as chamadas silabadas. Virou moda?

            Não acompanho com tanta assiduidade a música de consumo rápido, midiática, feita pra tocar no rádio. Deixo de lado, portanto, os sertanejos, pagodes e funks, e ensaio algumas observações sobre a produção mais independente e alternativa da música popular, que busca mais apuro, profundidade e originalidade em suas letras.

            De que vamos falar, afinal? Prosódia é a parte da gramática que se ocupa da sonoridade das palavras, mais especificamente em relação à sílaba tônica. Caminha junto com o ritmo, envolve a entonação e o sotaque, e dominá-la é fundamental para qualquer letrista.

            Ocorre que em muitos casos a prosódia regida pela norma culta é intencionalmente subvertida, e isso não vem de hoje. Algumas vezes comparece como licença poética, outras vem revestida de intenção satírica, mas na grande maioria dos casos é adaptação fonética à melodia. Em alguns casos soa como uma invenção, outras como desleixo.

            Pegando um exemplo antigo, é evidente que Alvarenga e Ranchinho querem fazer graça quando cantam Romance de Duas Caveiras, de 1940:

            “Ao longe, uma coruja piava alegre/ ao ver os dois caveiros assim feliz/ e quando se beijavam, em tom funebre/ a coruja batia as asas pedindo bis”.

Existem variações da letra; enquanto alguns intérpretes tentaram melhorar a concordância, outros a pioraram. Mas a transformação de fúnebre em paroxítona faz com que rime com a palavra alegre, e a distorção é tão evidente que todos acabam caindo na risada.

            Este é um exemplo clássico de intencionalidade. Volta e meia nosso ouvido tropeça em alguma letra de Vinicius, Chico ou Caetano onde há uma rearranjada da prosódia, com finalidade estética. São licenças poéticas, desvios consentidos ou meros barbarismos?

Uma canção como O Velho Francisco, de Chico Buarque, está cheia de contravenções fonéticas. Não deixa de ser linda, talvez exatamente por isso. Experimente cantá-la colocando a silaba tônica corretamente nas palavras, e verá que é impossível. Os deslocamentos tônicos (a chamada divisão) são constantes, obrigando os intérpretes a serem muito atentos.

          “Já gozei de boa vida/ tinha até meu bangalô/ cobertor, comida, roupa lavada/ vida veio e me levou”.

            A palavra comida soa como proparoxítona (cômida), e roupa lavada vira algo como “rou palá vada”. A imbricação de letra e melodia é perfeita, e a obra de Chico não nos deixa dúvida de que ele está brincando com a sonoridade das palavras. Brincadeira muito séria, por sinal.

            Em parceria com Djavan, um dos nossos mais contumazes dribladores da prosódia, Chico pega o espírito do parceiro e tasca lá uma silabada: “Era tanta saudade/ É, pra matar/ Eu fiquei até doente/ Eu fiquei até doente, menina”. Se o verbo ficar fosse entoado de acordo com a norma (fiquei, com tônica no e), sairia do compasso. Transformado em algo como fíquei (soando como Mickey) adere perfeitamente à angulosa melodia. Pra completar, o a de até também ganha um reforço tônico.

            Desde as antigas parcerias com Vinicius (observe com atenção a letra de Valsinha, por exemplo), Chico aprimora sua ginga com as palavras, revelando acentos inesperados e dando um nó na cabeça dos acadêmicos. Esta lição dos mestres é aplicadamente seguida por várias gerações de compositores, uns mais originais, outros menos. Cuidado: algumas vezes pode soar como escorregão ou forçada de barra.

            Talvez o modo mais preciso de identificar a real intenção do autor seja prestar atenção ao conjunto da obra. Se é difícil identificar esta veia criativa nas letras de compositores breganejos, p. ex., por outro lado existe um embate constante entre letra e ritmo nas letras de rap. A métrica às vezes é atropelada, mas de certa forma está se construindo uma nova linguagem.

            Não é à toa que Chico já declarou que “gosto de ouvir o rap da rapaziada”.  Rap da rap(aziada), aliás, é uma discreta brincadeira sonora, coisa que Caetano faz muito bem. Na linda canção Trilhos Urbanos, com pequenos achados trocadilhescos (“no trole ou no bonde/ tudo é bom de ver”) brilha a preciosa “Krishna, maravilha/ Vixe Maria Mãe de Deus”, onde ecoam as sonoridades ishna e ishma. E o compositor baiano faz uma silabada com o xixi do Imperador, veja só que desrespeito…

            O assunto rende. Só nos resta aplaudir a invenção, quando o resultado é belo!

(Publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Jack London, sempre atual

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            Quem foi bom leitor na juventude certamente deve ter se deliciado com algum livro de Jack London. Caninos Brancos e O Lobo do Mar foram traduzidos por Monteiro Lobato, e tiveram dezenas de edições no Brasil. Outro campeão foi O Chamado da Selva, que narra a história de um cão que puxa trenós no Alaska. Depois de muitos sofrimentos (naturais ou causados pelo homem) une-se a um bando de lobos, tornando-se líder da alcateia.

            O Chamado da Selva (também traduzido como Apelo da Selva e O Grito da Floresta) é obra fundamental da literatura norte-americana, e tornou o nome de Jack London reconhecido mundialmente. Autor de vários romances e contos, ele refletiu em sua obra muito das experiências que teve durante toda a vida.

            Jack (nascido John Griffith Chaney) nasceu pobre, em San Francisco, Califórnia. Não conheceu o pai, e teve uma infância difícil. Começou a trabalhar muito cedo numa fábrica de enlatados, numa época em que a jornada de trabalho tinha com frequência dezoito horas, e nunca menos que doze. Com dezesseis anos virou grumete, e em pouco tempo tinha seu próprio barco de ostras, perdido num incêndio. Alistou-se numa escuna pesqueira, e foi até o Japão. Na volta trabalhou numa fábrica de juta (experiência que rendeu o conto O Herege), e participou das primeiras revoltas de trabalhadores de Oakland, onde viu despertar sua consciência de classe. Foi vagabundo e andarilho, esteve preso algumas vezes, e aos 21 anos resolveu tentar a sorte no Alaska, em busca de ouro.

            Além de não encontrar nada, ainda contraiu escorbuto. As terríveis situações que vivenciou, porém, inspiraram sua nascente veia literária. Tentou estudar na Universidade da California, foi admitido nos exames, mas a falta de dinheiro impediu que concluísse os estudos. Trabalhava à noite na lavanderia limpando a roupa dos colegas, e acabou desistindo.

            Felizmente, foi salvo pela literatura. Ao ganhar 25 dólares com um conto publicado num jornal de San Francisco (Tufão na costa do Japão), London percebeu que este seria o caminho para ascender socialmente. Em 1902 publicou o primeiro volume de contos. Em 1903 vendeu os originais de O Chamado da Selva por 750 dólares. Dois dias depois outra editora, a poderosa Macmillan, comprou os direitos do livro por 2000 dólares, desenvolvendo uma ampla campanha publicitária para o lançamento. As vendas explodiram, e London nunca mais passou fome.

            A vida sofrida, a doença e as experiências humilhantes não fermentaram apenas um escritor, mas um militante. Filiou-se ao Partido Socialista, e dedicou grande parte de sua obra adulta a descrever o mundo dos operários, dos desempregados, dos miseráveis. A luta pela sobrevivência, seja na natureza, seja na civilização industrial, é o motor de sua criação.

Jack London

            Uma boa seleção destes contos “adultos” foi lançada no Brasil pela editora Expressão Popular. O volume é aberto com dois textos confessionais (O Que a Vida Significa Para Mim e Como Me Tornei Socialista) onde somos apresentados à visão de mundo do escritor.

            A ficção propriamente dita é desenvolvida nos nove contos seguintes, onde acompanhamos aventureiros solitários no Alaska, operários em greve em San Francisco, mexicanos miseráveis que sobrevivem lutando boxe, chineses estoicos condenados à morte, ladrões de joias, pais que não reconhecem o filho. Sem deixar de lado valores como o amor (Ao Sul da Fenda) e a amizade (O Pagão), o autor demonstra sua enorme capacidade de descrever um universo social até então pouco abordado na literatura americana, de forma intensa e profundamente humana.

            Jack London escreve de forma direta, sem rodeios. É um dos fundadores da moderna prosa ocidental, e influenciou dezenas de escritores, em todo o planeta. Nos últimos anos de vida projetou e construiu um barco, velejando até o Pacífico, e construiu um rancho na Califórnia, que hoje é tombado como Marco Histórico Nacional. Sua morte, aos 40 anos, é controversa. Segundo alguns, teve uma acidente ao ingerir uma dose excessiva de heroína, que tomava para aliviar as dores de uma uremia. Para outros foi realmente um suicídio.

            Não importa. A obra de Jack London ainda pulsa forte, e é leitura prazerosa e marcante. Evoluindo de um feroz individualismo para a construção de um ideal coletivo, como fez na própria vida, o escritor antecipou em sua literatura o grande dilema do capitalismo no século XX. Sua mensagem fundamental continua válida para todos que não desistiram de enfrentar o desafio de transformar o mundo: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago.”

Assis Valente e suas mulheres

Carmen Miranda e Assis Valente

Março é mês de falar das lutas, das dores e das alegrias das mulheres. Na música popular brasileira a alma feminina tem espaço garantido, não apenas através de suas grandes compositoras e intérpretes, mas também pela criatividade de homens que ampliaram o repertório com letras de gênero trocado.

Claro que a primeira lembrança é o contemporâneo Chico Buarque, já suficientemente louvado. Mas ele não foi o primeiro. É bom lembrar que as divas do samba-canção, nas décadas de ouro (1930, 40 e 50), sempre gravaram letras com personagens femininas que se tornaram clássicas.

Uma das pioneiras, a internacional Carmen Miranda, tinha um séquito de compositores ansiosos para verem suas criações interpretadas pela voz brejeira da estrela. Entre outras coisas, era lucro certo. Carmen gravou muita gente, mas o seu favorito é o nosso homenageado do mês.

            O baiano José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911, e começou a compor na década de 30. Espírito depressivo e perturbado, acabou suicidando-se em 1958, após algumas tentativas frustradas. Sempre às voltas com problemas financeiros, Assis Valente logo percebeu o potencial das canções em voz feminina, e com seu talento nato emplacou uma série de sucessos.

            Carmen gravou 24 composições do artista, muitas na voz feminina. Quem não conhece Camisa Listrada, onde a mulher descreve o seu homem caindo na farra? “Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia/ abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação”. Ou E o Mundo Não se Acabou, onde quem cai na farra é a própria: “Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.

            Em Recenseamento, Valente revela o drama da mulher que se vê diante de um recenseador na favela: “E quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente/E se era do batente ou era da folia”. O final ufanista condiz com o espírito da época e com a estratégia de marketing de Carmen, que se colocava como propagandista do Brasil no exterior. A mulher se orgulha do moreno, que “é brasileiro, é fuzileiro/e é quem sai com a bandeira de seu batalhão”.  Já a protagonista de Por Causa de Você, Yoiô, é mais provocadora: “É por causa de você Ioiô/ que eu agora vou desacatar/ E vou andar toda bonita, meu bem/ p’rá todo mundo ver tudo o que você me dá”.

Em Tão Grande, tão Bobo a coisa muda de figura. A mulher esculhamba o parceiro sem rodeios: “Você dorme de dia que nem um danado/ ronca de noite que nem um lobo/ é por isso que você é assim, tão grande, tão bobo”. Em “E Bateu-se a Chapa” o repisado tema da mulher abandonada se renova com uma imagem inusitada: “Não sei se te lembras, amor, qual foi a razão/ que minha cabeça ficou em cima de teu coração/ A minha cabeleira ficou despenteada/ só para esconder tua camisa de malandro toda esburacada.” No final, surge a mulher vingativa: “Olha que eu te estranho e mando a navalha/ e corto esse chapéu de palha e essa calça de flanela/ que fui eu quem dei .”

A segunda canção de Assis Valente gravada por Carmen, Good Bye, em 1933, abriu a trilha para essa visão crítica da mulher sobre o homem. A letra espicaçava: “Good-bye, good-bye boy, deixa a mania do inglês/ É tão feio p’rá você, moreno frajola/ que nunca frequentou as aulas da escola.”

E teve Cabaret no Morro, Lulu, Sapateia no Chão, Recadinho de Papai Noel, a marchinha Ô (“Meu amor era um Pierrô, eu gosto mais de um Arlequim”), além de algumas sem sexo determinado.  

O estilo de Carmen Miranda era agitado, carnavalesco, com letras irônicas e bem humoradas. As criações mais doloridas de Assis Valente foram destinadas a outras cantoras, como a pungente Fez Bobagem (“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver”), sucesso na voz de Aracy de Almeida. No lado B dessa obra prima, lançada em 1942, outro samba do compositor, com um título bem malandrinho: “Amanhã Eu Dou”.

A lista está incompleta, mas estes exemplos bastam para delinear um “universo feminino” muito rico na obra de Assis Valente. Fugindo do estereótipo da mulher sofredora, traída ou abandonada, o baiano criou mulheres fortes, engraçadas, orgulhosas, vaidosas… protagonistas, enfim.

Não foi o único, certamente. Outros compositores seguiram seus passos, e emplacaram sucessos nas vozes das rainhas do rádio. Mas pela qualidade da obra e pela riqueza de abordagem, Assis Valente merece ser lembrado neste mês de março. Feliz aniversário, mestre!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

A Chegada e seu desafio

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Você conhece a hipótese de Sapir-Whorf? Criada na década de 30 por Edward Sapir e Benjamin Whorf, também ficou conhecida como relativismo linguístico, e influenciou antropólogos, linguistas, semiólogos e psicólogos por algumas décadas.

            Parte de uma proposição do naturalista Humboldt (1767/1835), de que o homem aprendeu primeiro a linguagem, e depois a pensar. Ou seja, é impossível haver pensamento “puro”, uma vez que ele só pode ser expresso através da linguagem.

            Sapir e Whorf desenvolveram esta linha de raciocínio sugerindo que o universo cultural em que as pessoas estão imersas determina sua compreensão do mundo. Dando um exemplo simplista, se uma tribo primitiva só tem seis palavras para definir as cores (branco, preto, azul, amarelo, vermelho e verde), literalmente eles só enxergam estas cores. Não existem nuances, já que não há palavras para exprimi-las. Quando estes indivíduos aprendem uma nova língua, seu universo sensorial se amplia, e eles passam a enxergar coisas que não viam antes.

E nem precisa ser primitivo! Digamos que você aprendeu, em inglês, a palavra serendipity, que não existe em português. Significa algo como a felicidade de encontrar algo que você não estava procurando. Uma mistura de surpresa e satisfação. Você incorpora este novo sentimento ao seu repertório, passa de fato a sentir isso. Ou, no sentido inverso, um inglês que aprende a palavra saudade, em português.

            Agora, esqueça tudo isso. Esta hipótese hoje está superada pelo chamado cognitivismo, uma teoria mais ampla, que utiliza ferramentas mais modernas, como sistemas de processamento da informação. Mas suas marcas ainda persistem em certas áreas, principalmente a antropologia funcionalista e a literatura de ficção. Ponto de partida rico para explorações indagativas, o encontro entre culturas e civilizações diferentes costuma render boas histórias.

            É sobre a hipótese de Sapir-Whorf que é construído o filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve. Só que aqui a tribo primitiva somos nós, “civilizados” do século XXI, perante a visita de misteriosos seres alienígenas. Doze naves de aspecto estranhamente rústico (parecem conchas de pedra, escuras e rugosas) surgem simultaneamente em vários pontos do planeta. As grandes potências mobilizam suas armas, na iminência de um ataque. As tentativas de comunicação são infrutíferas, pois os sons emitidos pelos visitantes parecem apenas grunhidos em baixa frequência.

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            Entra em ação a protagonista, Louise Banks (Amy Adams, em interpretação densa e angustiada), uma linguista, que é convocada pela Nasa para tentar se comunicar com os alienígenas. Formará uma dupla com o físico Ian Donelly, vivido pelo ator Jeremy Renner. Juntos, fazem contato com os enigmáticos Heptapods, que utilizam uma sofisticada linguagem iconográfica, baseada em círculos de bordas irregulares.

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            Circularidade. Este é outro conceito-chave do filme. A doutora Banks é afligida por um drama pessoal, mostrado em aparentes flashbacks, de forma intensa e dolorida. À medida que vai decodificando a linguagem circular dos alienígenas, vai ressignificando o mundo/a vida de uma nova forma. Presente, passado e futuro se interpenetram de forma engenhosa, e o drama individual reflete-se no coletivo. A humanidade pode se autodestruir, se ela não entender o que está se passando.

            Baseado num conto de Ted Chiang, a história carrega uma mensagem pacifista: se não compreendermos o que queremos, quem somos, vamos nos aniquilar. “Na guerra não existem vencedores, só viúvas”, ensina uma frase (em mandarim) pronunciada em momento crucial do filme. O diretor optou por uma estética visual sombria, enevoada, bem distante dos brilharecos habituais da ficção científica, direcionando nossa atenção para o texto, o enredo, o desafio mental proposto.

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            Indicado para várias categorias no Oscar 2017, levou apenas um prêmio secundário, como era de se esperar. É um filme muito mais “europeu” que americano, aspira a ser Tarkovski e não Spielberg, embora fale de contatos imediatos de terceiro grau. Suas preocupações não são tecnológicas, mas existenciais, como sempre ocorre na melhor ficção científica. A Chegada certamente não é um filme perfeito, mas belo, pungente e necessário. Já é um clássico, entre filmes tão lineares como seus concorrentes.

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Alpharrabio, 25 anos

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Há 25 anos eu trabalhava em Santo André, na região do ABC paulista. Morava em São Paulo, e ia de trem todos os dias. A grana era curta, mas era foi um período muito rico em experiências. Participava de um governo popular, com propostas inovadoras e muita vontade de acertar.

            21 de fevereiro de 2002. Fim de tarde, quando encerrava o expediente na Secretaria de Cultura, alguém veio me chamar para um evento diferente: festa de inauguração de um novo sebo-livraria na cidade, o Alpharrabio. Quem convidava era a poeta, escritora e agitadora cultural Dalila Teles Veras.

            Não recordo de muitos detalhes, confesso, mas lembro da casa cheia, alguns conhecidos, muitos desconhecidos. Até o prefeito Celso Daniel passou por lá, naquela noite. Bebidinhas, boas conversas, abraços, mas eu tinha que pegar o trem antes que fosse muito tarde. Foi bonita a festa, pá!

            Na década seguinte, saí e voltei para Santo André algumas vezes. A Alpharrabio cresceu, tornou-se um ponto de referência no ABC. Criou uma editora com mais de 200 títulos publicados. Muito mais que um sebo, é um verdadeiro centro cultural. Rolam shows de música, espetáculos de dança, teatro, exposições de artes plásticas e, claro, eventos literários. Lançamentos, debates, tertúlias, saraus, homenagens e comemorações diversas. Por ali passou uma lista extensa de artistas e intelectuais, nacionais e internacionais.

            Encontrei-me com a Dalila várias vezes. Chegamos a trabalhar juntos durante um ano, quando gravamos um quadro semanal para o programa ABCD Maior, veiculado pela Rede TV!, aos domingos. O assunto? Cultura, claro.

                        Quando terminei o primeiro romance, Terno de Reis, há dois anos, fiz questão de fazer um lançamento no ABC, cenário de boa parte da trama. E não poderia ser em outro lugar senão o Alpharrabio! Em São Paulo, essa metrópole onde moro há mais de 40 anos, não conheço um lugar com as mesmas características: amistoso, convidativo e estimulante.

Alpha 2

            No último sábado, dia 04 de março, rolou a festa dos 25 anos. Um quarto de século! E não faltaram amigos, sorrisos, brindes e abraços. Bom reencontrar a onipresente Maninha, rever o grande Teles, conversar com os novos e antigos amigos. Nem vou nomear todos os conhecidos, pois corro o risco de esquecer algum. Como lembrou a Dalila, citando o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, o Alpha é um lugar onde todos se abraçam e confraternizam, em torno de um projeto cultural.

Alpha 1

Num país fragilizado, onde a cultura está sendo relegada a segundo plano, onde livrarias estão fechando, onde governos cortam verbas para a educação, onde o futuro está sendo rifado a preço vil, é um alento ver que um grupo de sonhadores insiste em construir, formar, produzir, compartilhar artes e saberes. Que venham mais 25 anos. Resistiremos!

(Fotos: Wilson Rodrigues)