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A Confissão da Leoa

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     Confesso que minha relação com a obra de Mia Couto era dúbia. Um sujeito simpático, humanista, cultor de pequenos achados poéticos disfarçados em prosa. O primeiro livro que li dele, O Último Voo do Flamingo, era assim, assim. Um começo original, uma mistura entre realidade e magia onde o ponto ideal estava sempre um pouco além (ou aquém). Hábil na linguagem, algumas coisas mal resolvidas no enredo. A influência de Guimarães Rosa na literatura africana é algo ainda a ser devidamente avaliado, mas Mia Couto certamente bebeu dessa fonte.
Fiquei tentado a ficar apenas nos epigramas engenhosos que me chegam à tela do computador. Até que ganhei de uma amiga querida A Confissão da Leoa. Já faz algum tempo, mas como há sempre uma pilha de livros em minha cabeceira, a vez só chegou agora.
Na semana passada terminei a leitura, dentro de um ônibus de viagem entre Guaratinguetá e São Paulo. Comovido até as lágrimas, que enxuguei discretamente, reli vários trechos. É simplesmente maravilhoso, no sentido original da palavra. Os limites entre real e fantástico, entre ficção e estudo antropológico, são dissolvidos com muita habilidade.
Em uma aldeia nos confins de Moçambique, leões começam a matar as pessoas. Um caçador profissional é chamado da capital para resolver o problema. Narrado em duas vozes, pelo próprio caçador e por uma mulher da aldeia, logo percebemos que houve algo entre eles, há alguns anos. Um escritor acompanha a jornada do caçador, embora não seja nunca o protagonista das ações. O próprio Mia Couto indica, no prefácio, que esteve numa situação parecida, e dali extraiu o seu relato. Nada é o que parece ser, e os papéis vão se metamorfoseando durante o entrecho, ao mesmo tempo em que se revelam as mazelas tribais: o machismo onipresente, a voz sufocada das mulheres, a religiosidade obscurantista, a política local. Tribais, eu disse? Não, presentes até hoje numa aldeia do tamanho de São Paulo.
Diziam os gregos, lá no início dos tempos e das lendas, que a paixão depende muito mais do sujeito que do objeto. De repente, num belo dia, aquele/a jovem acorda predisposto a se apaixonar, e o primeiro ser bípede que passa à sua frente vira objeto de desejo e adoração. Não sei se em literatura a coisa funciona assim, mas A Confissão da Leoa me pegou de guarda baixa, e fui totalmente enredado. Vou reler muitas vezes, como quem revisita um poema favorito.


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