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SOBRE TRIBUNAIS E QUINTAS-FEIRAS

michellaub

Descrever a sua época é um desafio para qualquer escritor. A pena elegante de um Machado de Assis ou as tintas satíricas de um Lima Barreto definiram modelos que tiveram muitos seguidores no Brasil. Mas o que pode fazer um autor em pleno século XXI, onde a literatura cada vez mais perde espaço para o bombardeio midiático de informações e desinformações que transforma todos, leitores e autores, em ruído branco?

            Michel Laub responde a essa questão arrastando o monstro para dentro de sua literatura. A internet tem papel fundamental em seu romance O Tribunal de Quinta-feira (Companhia das Letras ,2016), onde uma traição é descoberta pela indiscrição registrada em e-mails. Mas a história de um publicitário casado que se envolve com a estagiária não seria original se contada de forma acadêmica.

            Laub recorta e monta um quebra-cabeças que inclui, obviamente, mensagens trocadas pelo correio eletrônico, mas se apoia principalmente na narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário. A relação com um velho amigo soropositivo, a rotina do casamento, o ambiente da agência, a tentação e o desejo, tudo vai sendo desvelado de forma aparentemente anárquica. Que o leitor não se engane. Há uma ordem, uma intenção, em cada capítulo, mesmo quando tem a forma de uma displicente digressão de quinze linhas ou uma simples mensagem telefônica de dez palavras: “Como você acha que eu me sinto ao saber disso?”

            A descoberta da traição pela esposa vai detonar a crise, que se desenvolve em poucas horas. Michel Laub trabalha o tempo com habilidade, trazendo informações sobre a vida do protagonista, a família da mulher, o papel do amigo em sua vida. De quebra, levanta uma pertinente discussão sobre privacidade, falso moralismo, ética empresarial, preconceito, machismo e feminismo.

            Buscando uma linguagem moderna, longe dos cânones e próxima do coloquial, autores como Laub correm dois riscos. O primeiro é o da rarefação, do provisório, de não mergulharem realmente na grande literatura, seja lá o que isso signifique. O segundo é o de se tornarem nossos clássicos contemporâneos.